quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Não mate o mensageiro: negacionismo e ataque a jornalistas

 


No último feriado nacional de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro hostilizaram e encurralaram um cinegrafista e um reporter da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo. A cena foi transmitida ao vivo pela CNN Brasil em plena celebração católica no Santuário Nacional de Aparecida, um local sagrado e de peregrinação, que atrai milhares de fiéis todos os anos. Os profissionais da imprensa acompanhavam a missa, que teve a presença do presidente Bolsonaro e, consequentemente, de seus próprios fiéis. Os jornalistas precisaram da ajuda de seguranças da TV Aparecida para deixar o local [1].

Uma semana antes, no dia 4 de outubro, profissionais da imprensa que cobriam a ida de Bolsonaro em campanha eleitoral a uma igreja da Assembleia de Deus no Brás, na capital paulista, também foram hostilizados, ameaçados e perseguidos por fiéis, de Bolsonaro e da própria igreja (sendo difícil distinguir de quem esses fiéis são mais fiéis). Após o fim do culto (a imprensa não pôde entrar na igreja), um grupo de bolsonaristas notou a presença dos profissionais e passou a hostilizá-los. De acordo com o Síndicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, policias militares que estavam no entorno foram embora, apesar do visível tumulto, deixando em risco os profissionais da imprensa [2].

Esses dois casos – o do Santuário Nacional de Aparecda e o da Assembleia de Deus – ocorridos nas duas primeiras semanas de outubro, se somam a tantos outros casos de ataques a jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas e demais profissionais de imprensa que vêm crescendo no Brasil, tornando o exercício da profissão ainda mais difícil e o ambiente para a prática do jornalismo ainda mais hostil.

Já não é mais possível se surpreender sequer com o fato de os ataques terem acontecido em ambientes religiosos, que deveriam inspirar outros sentimentos que não o ódio. Não é a primeira vez que bolsonaristas atacam jornalistas durante as comemorações da padroeira do Brasil. Em 2021, também no Santuário Nacional de Aparecida, o cinegrafista Leandro Matozo e o repórter Victor Ferreira foram insultados pelo bolsonarista Gustavo Milsoni, de Mogi das Cruzes (SP). Após xingar a equipe de reportagem e dizer que “se pudesse” mataria os jornalista, Milsoni cabeceou o cinegrafista, que ficou ferido. De acordo com Victor Ferreira, o agressor foi liberado da delegacia antes mesmo dele e de seu colega de trabalho, o agredido, e “ainda pegou carona no carro da PM para voltar ao santuáro” [3].

Ne nuntium necare

Quem assistiu a filmes cujas histótias que se passam em tempos remotos, como a Antiguidade ou a Idade Média, já deve ter visto idas e vindas de mensageiros aliados ou inimigos em guerras e batalhas, O filme Cruzada (2005), de Ridley Scott, é um dos muitos exemplos e mostra a atuação e o infortúnio de um desses mensageiros [4]. Nem sempre eles acabavam bem. Por isso, há um antigo provérbio latino que diz “Ne nuntium necare”, ou, em bom português, “Não mate o mensageiro”. Ele remonta a essas guerras muito antigas, das quais há relatos de que grandes líderes e imperadores matavam os mensageiros que lhes traziam notícias ruins.

Era um mundo bem diferente do que há hoje. Não havia TV, rádio ou internet. O modo de se obter informações era, por exemplo, por meio dos mensageiros. Dario III, rei da Pérsia, derrotado na guerra, teria determinado a morte do mensageiro que o informara que seus guerreiros sucumbiram ao exército de Alexandre, o Grande [5]. O filósofo grego Plutarco nos conta que o mensageiro que anunciou ao rei armênio Tigranes a chegada do exército romano teve sua cabeça cortada. E então ninguém mais se atreveu a trazer mais (e más) notícias ao rei, que passou a viver cercado de aduladores [6]. O governante do império Mongol Gengis Khan (o rosto na ilustração deste artigo, criada por André Bacchi) também estaria entre os líderes que tinham o “péssimo hábito” de matar os mensageiros que lhes traziam notícias ruins [7]. Sobre matar mensageiros, Marco Antônio dos Santos Martins diz o seguinte:

A motivação desta decisão pode ser analisada, no mínimo, a partir de dois ângulos: um pessoal e outro político. O pessoal provém da irritação de quem se crê “soberano”, e vê a realidade contrariar seus desejos, os quais deveriam estar acima de tudo, por ser a expressão das necessidades divina. Já o componente político passa pela intenção de evitar que outros, além do soberano, tenham acesso à informação [5].

Jornalismo profissional e crescimento das TICs

Uma das características de estados democráticos é a liberdade de imprensa. Podemos até discutir em que medida a imprensa e a mídia em geral são de fato livres e imparcias em diversos países pelo mundo. Obviamente precisamos ter sempre uma leitura crítica do conteúdo que consumimos por meio da imprensa que, por sua vez, precisa ter autocrítica a respeito do clima hostil que existe atualmente no país (o artigo da jornalista Milly Lacombe é contundente e preciso nesse sentido [8]). Mas, como me dizia um ex-chefe e colega de trabalho, “se a carta é ruim, a culpa não é do carteiro”. Ou, nas palavras de Marcelo Tertuliano: “quando digo para ‘não matar o mensageiro’, refiro-me ao fato de que é imprescindível discernir entre o mensageiro e a mensagem” [7].

Com o surgimento e popularização da internet nas últimas décadas do século 20, seguidos pelo crescimento das mídias digitais e redes sociais nas prímeiras décadas do século 21, por sua vez seguido das bolhas informacionais produzidas pelas lógicas algorítmicas, muitas pessoas ficaram um pouco tirânicas em relação à informação. Ainda que o receptor (leitor, telespectador, ouvinte) não seja um governante de um império, como Gengis Khan, ele também mata o mensageiro, de formas diferentes.

Isso porque com as bolhas informacionais houve uma customização da informação: as pessoas aos poucos se acostumam a moldar o ambiente informacional no qual estão inseridas de modo a receber apenas informações com as quais concordem, afastando as informações desagradáveis e dissonantes, assegurando para si uma certa zona de conforto. Os algorítmos fortalecem o processo gerando um círculo vicioso, oferecendo mais do mesmo, por conta de sua lógica comercial. Isso acontece principalmente por meio das redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp…) e terminam por afetar outras instâncias das relações interpessoais. Por exemplo: brigas de famílias podem ser provocadas nos ambientes digitais e se estenderem aos encontros familiares presenciais, com grupos de parentes divididos conforme as opiniões.

Com todo esse desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e comunicação (TICs), mais do que um pouco tirano, muita gente virou expert no trato da informação. Mas claro que, no fundo, a coisa não é bem assim. Por mais que todos se julguem esclarecidos e hábeis no trato com a informação, quando observamos a nossa coletividade, ou seja, nossa sociedade como um todo, nunca tivemos tantos problemas de desinformação em massa, a ponto de prejudicar sensivelmente nossa esfera pública e nossa democracia. Mas, embora para alguns analistas, episódios como a pandemia de covid-19, que trouxe a reboque uma pandemia de desinformação (ou desinfodemia) [9], tenham servido para reforçar o papel fundamental do jornalismo profissional no mundo contemporâneo [10] [11], não é fácil convencer os indivíduos desse papel fundamental.

Viés de confirmação e dissonância cognitiva

O cientista social Davi Carvalho nos lembra que as pessoas creem em informações falsas porque, normalmente, essas informações falsas são condizentes com aquilo que elas já acreditavam previamente. ‘Tendemos a buscar e a privilegiar informações condizentes com nossas crenças pré-existentes” [12]. Esse fenômeno é conhecido na psicologia social como viés de confirmação. E quando conseguimos provar a alguém que determinada informação que ela acredita e compartilha é falsa ou uma distorção, disparamos nela a dissonância cognitiva, algo que normalmente as pessoas detestam.

A dissonância cognitiva pode ser definida como o mal-estar psicológico que sentimos quando temos valores ou crenças em contradição. Essa tensão psicológica é disparada quando nos deparamos com evidências que contradizem qualquer crença pré-estabelecida. Um exemplo bastante claro disso é quando alguém que crê em uma fake news tem sua crença confrontada com a informação verdadeira. Quando isso acontece, a pessoa passa a ter duas cognições dissonantes em sua mente, a crença anterior e a nova informação, daí o fenômeno ter sido denominado “dissonância cognitiva” por seu criador, o psicólogo social Leon Festinger. [12]

Porteira aberta para o negacionismo

Nesse contexto, a figura do jornalista profissional tem passado por mortes físicas, aqui representadas pelas agressões e intimidações como as anteriormente citadas, e também por mortes simbólicas, como o descredenciamento de seu papel e importância para a democracia e a esfera pública. Não tem sido fácil ser o mensageiro em um mundo em que as pessoas só acreditam no que querem acreditar, refugiando-se em bolhas de informação e rechaçando, de forma muitas vezes agressiva, as dissonâncias cognitivas.

Não escutar, dificultar a comunicação, ignorar o que chega ao seu conhecimento ou – pior! – criar situações de constrangimento para aqueles que são portadores de conteúdos que descortinam dados e fatos nem sempre positivos criam não apenas o distanciamento, mas o medo e a insegurança de quem gostaria de ver mudanças significativas, que poderiam melhorar processos, solucionar problemas e ampliar resultados [7].

Se você mata o mensageiro porque ele traz notícias ruins ou desconfortáveis, você seleciona só os mensageiros que trazem notícias boas. Não é um bom negócio viver cercado por aduladores e/ou mentirosos. Isso é a abertura de porteira para o negacionismo. E é um problema que vai além do jornalismo, afetando diversas áreas do conhecimento. O jornalista alemão Philipp Lichterbeck cita como exemplo a tentativa de Bolsonaro de criminalizar institutos de pesquisa no período eleitoral e como isso se encaixa em um quadro mais amplo do bolsonarismo de prejudicar a produção de conhecimento, um movimento essencialmente anticientífico e anti-iluminista.

Foi assim quando Bolsonaro acusou o renomado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de falsificar dados sobre queimadas na Amazônia e despediu o diretor (e físico) do Inpe Ricardo Galvão. Foi assim na pandemia, quando o presidente defendeu o uso de um remédio contra a malária e desaconselhou a vacinação contra covid-19. Foi assim quando o governo cancelou o censo de 2021 ou quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que os dados sobre insegurança alimentar da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan) estavam errados [6].

Lichterbeck destaca que a hostilidade do bolsonarismo ao conhecimento científico culminou em cortes nos orçamentos para universidades e pesquisa, acarretando uma verdadeira fuga de cérebros brasileiros para universidades estrangeiras. E, mais do que dificultar a produção de conhecimento, o governo Bolsonaro tenta apagar as distinções entre verdade, boato e mentira, com o objetivo de criar confusão.

O uso racional do conhecimento e das informações, inclusive com coragem para lidar com as informações indesejáveis, é fundamental para tomarmos decisões mais adequadas para enfrentar os problemas reais, que não vão desaparecer apenas por fecharmos nossos olhos e ouvidos. Porque a realidade sempre nos cerca e nos alcança.

Pode-se dizer, em geral, que nunca é uma boa ideia fechar-se à verdade e ao conhecimento. Pior ainda é punir quem produz informações que não lhe agradam. Não é, portanto, surpreendente que o rei Tigranes acima mencionado tenha perdido a guerra contra os romanos no ano 68 antes de Cristo [6].

Não mate o mensageiro!


Referências

[1] Jornalistas são ameaçados por bolsonaristas no Santuário Nacional de Aparecida

https://jornalistaslivres.org/jornalistas-sao-ameacados-por-bolsonaristas-no-santuario-nacional-de-aparecida/?fbclid=IwAR2TrNUX8jpXxlfcz_b9WvzkwzrZ_GdAfRchlQxSx33kPbrbj1jfTrNpK_0


[2] Jornalistas são cercados, ameaçados e hostilizados por apoiadores de Bolsonaro após culto na Assembleia de Deus

https://sjsp.org.br/noticias/jornalistas-sao-cercados-ameacados-e-hostilizados-por-apoiadores-de-bolsonaro-ap-f2c4


[3] Bolsonarista agride e ameaça cinegrafista da GloboNews de morte em Aparecida

https://www.poder360.com.br/brasil/bolsonarista-agride-e-ameaca-cinegrafista-da-globonews-de-morte-em-aparecida/


[4] Cruzada 2005

https://www.youtube.com/watch?v=QOqUUZKXOik&t=467s


[5] Panorama: “Ne nuntium necare”

https://fapers.org.br/new-portal/2021/02/panorama-ne-nuntium-necare/


[6] A atual versão brasileira de "atirar no mensageiro"

https://www.dw.com/pt-br/a-atual-vers%C3%A3o-brasileira-de-atirar-no-mensageiro/a-63460188?fbclid=IwAR1E34NqizPukyMpWixnokUUIpsK-aNixiVbDRFhtJ6RmydQiHaHGJJhZrw


[7] “Não mate o mensageiro”

https://diariodocomercio.com.br/opiniao/nao-mate-o-mensageiro/


[8] Mídia deve assumir seu papel na naturalização da extrema-direita no Brasil

https://www.uol.com.br/esporte/colunas/milly-lacombe/2022/10/05/midia-deve-assumir-seu-papel-na-naturalizacao-da-extrema-direita-no-brasil.htm?fbclid=IwAR3oGBylIjmzEkV54YiEW1v2ZJvuQozFFcUcHnDzlCkn6cC3v0FC9UAUxgo


[9] Competência em informação e desinfodemia no contexto da pandemia de covid-19

https://revista.ibict.br/liinc/article/view/5391


[10] O mundo depois do coronavírus. Artigo de Yuval Noah Harari

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597469-o-mundo-depois-do-coronavirus-artigo-de-yuval-noah-harari


[11] Como será o mundo depois do coronavírus, segundo Yuval Noah Harari

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597364-como-sera-o-mundo-depois-do-coronavirus-segundo-yuval-noah-harari


[12] Por que é tão difícil combater a crença em fake news, segundo a psicologia social

https://www.blogs.unicamp.br/politicanacabeca/2019/07/22/por-que-e-tao-dificil-combater-a-crenca-em-fake-news/


Ilustração: professor André Bacchi, no curso “Introdução ao pensamento científico”

https://www.youtube.com/c/Andr%C3%A9Bacchi


domingo, 18 de setembro de 2022

Corações Sujos: um filme para pensar sobre negacionismo e pós-verdade

 


Entrou no catálogo da Netflix no mês passado (agosto) o filme Corações Sujos (2011), do diretor Vicente Amorim. A produção é baseada no livro-reportagem homônimo de Fernando Moraes, publicado em 2000, que conta o que sem dúvida é um impressionante caso de estudo para a psicologia social ocorrido no Brasil na década de 1940 do século passado. Logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, com a vitória dos países Aliados e a derrota do Eixo (formado principalmente por Alemanha, Itália e Japão), a organização extremista Shindo Renmei, formada no interior de São Paulo, onde a colônia japonesa era numerosa, se recusava a aceitar a derrota do Japão na guerra e atacava membros da própria comunidade que reconheciam que o país havia sido derrotado.

A produção conta com atores japoneses e brasileiros, dentre eles Eduardo Moscovis, e é falada em japonês e português, tendo sido exibida nos circuitos de cinema dos dois países. Contrariando algumas expectativas que se tinha com relação ao governo Getúlio Vargas, o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados, juntamente com países como Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e França, o que gerou uma situação de muita tensão perante três das maiores colônias de imigrantes no Brasil: a alemã, a italiana e a japonesa. Para se ter uma ideia, o maior partido nazista fora da Alemanha era o Partido Nazista do Brasil, que chegou a ter 2.900 filiados, tendo início em Santa Catarina entre imigrantes alemães, mas se espalhando por diversos estados brasileiros [1].

Os idiomas alemão, italiano e japonês chegaram a ser proibídos dentro do Brasil. Com isso, nenhum material falado ou escrito nessas línguas ou vindo desses países poderia circular pelo no país. Foi nessa época que, por exemplo, o Palestra Itália virou Palmeiras, e o colégio paulistano Deutsche Schule virou Porto Seguro. Isso gerou um problema maior particularmente para a colônia japonesa, já que boa parte dos imigrantes e mesmo seus descendentes não dominavam o português e se informavam por jornais escritos em japonês. A dificuldade com o idioma falado no Brasil fica explícita em diversos momentos do filme. Isso contribui para que muitos colonos não acreditem que o Japão acabara de ser derrotado.

Mas a negação da realidade não se dá somente por isso. Corações Sujos é um filme sobre fanatismo e como ele pode destruir vidas e provocar tragédias que poderiam ser evitadas. A organização Shindo Renmei, composta por colonos japoneses extremistas que não acreditavam na derrota japonesa ou mesmo se recusavam a aceitar aquela realidade, atuou nos dois anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial – 1946 e 1947 – atacando outros imigrantes e descendentes nipônicos que declaravam compreender a derrota de seu país de origem perante os Aliados. Esses imigrantes japoneses que reconheciam a derrota eram rotulados pelos membros da Shindo Renmei como traidores ou “kegareta kokoro” (“coração sujo”, traduzido para o português, daí o nome do filme e do livro), merecedores de punição. O saldo do confronto naqueles dois anos foi de dezenas de mortos, centenas de feridos, milhares de japoneses presos e 381 deles condenados, que foram anistiados 10 anos depois.


Negacionismo e pós-verdade (ou pós-fato)

Ainda que se passe na década de 1940 do século passado, em um contexto social distinto do atual, o filme trabalha alguns dos elementos que impulsionam a onda de negacionismo tão presente na chamada era da pós-verdade. Antes de falarmos sobre esses elementos contidos na trama, cabe abordar, introdutoriamente, o negacionismo e a pós-verdade. O negacionismo costuma ser entendido como “o ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história” [2] ou mesmo “a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável” [3].

Para ficarmos em exemplos relacionados à Segunda Guerra Mundial, podemos citar a negação do Holocausto como uma das principais manifestações negacionistas, a despeito de todo trabalho de historiadores de diversas partes do mundo que atestam a existência das câmaras de gás, campos de concentração e massacres de judeus; ou a ideia de que o nazismo foi uma doutrina política de esquerda, o que contraria discursos e escritos dos próprios nazistas, assim como os estudos de historiadores e cientistas políticos [4] [5].

Já o negacionismo científico pode ser compreendido por “seu caráter intencional e articulado para produzir e disseminar desinformação e dúvidas, por meio de estratégias organizadas com o objetivo de contrariar evidências e alegações consensualmente reconhecidas pela comunidade científica” [6]. A conceituação, escrita por Simone Kropf, é uma dentre os muitos verbetes contidos na obra Dicionário dos Negacionismos no Brasil, Organizada pelo professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj) José Szwako e pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Luiz Ratton.

Em 2016, o Oxford Dictionaries escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano, definindo-a como “circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal” [7]. O termo teria sido usado pela primeira vez em 1992, na revista The Nation, em artigo do escritor sérvio-norte-americano Steve Tesich, sobre um contexto nacional que envolvia escândalos como Watergate e Irã-Contras. Entretanto, o termo pós-verdade somente se popularizou a ponto de ser ecolhido como palavra do ano na década passada, impulsionado por fatores como as eleições de Donald Trump, nos EUA, e do Brexit, no Reino Unido, cujas campanhas se valeram de afirmações absurdas. O termo pós-verdade, no entanto, é controverso, e muitos especialistas na área de comunicação preferem utilizar o termo “pós-fato”. É o caso do professor da USP Carlos Eduardo Lins da Silva, que argumenta que pós-fato soa menos pretensioso e mais adequado à realidade da comunicação e do jornalismo, já que “verdade” é um conceito filosoficamente mais complexo [8].


O ímpeto japonês

A trama de Corações Sujos gira em torno do imigrante japonês Takahashi, um sujeito aparentemente normal, mas que ao ser manipulado pelo coronel Watanabe, do Exército Imperial Japonês, transforma-se em um assassino vingador, pronto para executar os “infiés” colonos japoneses que demonstraram compreender a derrota do Japão. A aparente normalidade de Takahashi não está na trama à toa. Ela serve para mostrar como qualquer indivíduo, quando manipulado e movido pelo fanatismo, é capaz de cometer barbaridades. Incumbido pelo coronel Watanabe da missão de executar os “corações sujos”, Takahashi, hesitoso, chega a questionar por que foi escolhido, já que é apenas um homem comum. Mas é justamente essa normalidade que é ressaltada pelo coronel: “você é o epítome de um homem japonês”, responde Watanabe. Sendo, portanto, um típico japonês, Takahashi seria o homem certo para a tarefa.

E qual era o perfil de um homem japonês naquela época? Além de construírem uma sociedade rigidamente hierárquica, os japoneses eram extremamente fiéis ao imperador, que era venerado como o próprio deus vivo. Além de cultuarem fortemente valores como honra e tradição, a fidelidade ao imperador se misturava à fidelidade ao próprio Japão. E todas essas características eram fundamentais como base da rigida hierarquia do estado totalitário e imperialista que era o Japão do imperador Hirohito. O país se juntou à Alemanha nazista e à Itália fascista visando ampliar seu poder diante de outros países asiáticos [9].

Soldados das mais diversas nacionalidades, em situações francamente adversas, costumam se render. Não era esse o caso dos japoneses da Segunda Guerra Mundial. Os soldados japoneses impressionaram os inimigos – principalmente os estadunidenses – por nunca se renderem, por lutarem até a morte. Os kamikazes – pilotos japoneses que lançavam suas aeronaves contra os alvos em ataques suicidas – foram o maior símbolo desse ímpeto guerreiro do Japão imperial. O oficial japonês Hiroo Onoda só se rendeu em 1974, quase 30 anos após o fim da guerra, quando finalmente foi convencido de que o Japão havia perdido. Durante todo esse período ele passou escondido nas matas das Filipinas [10].

Todo esse ímpeto japonês, que em alguns deles chegava ao fanatismo negacionista, era movido por elementos que até hoje podem ser vistos em muitos casos de negacionismo: nacionalismo, religião e uma visão distorcida e romantizada do próprio passado de seu povo, por exemplo. Esses elementos não são os únicos a mover as engrenagens do pós-fato, mas são alguns dos mais preponderantes e estão presentes na trama de Corações Sujos. Uns mais evidentes; outros menos.


Nacionalismo

O nacionalismo fica claro logo no início do filme, no modo como um grupo de japoneses reage ao tratamento desrespeitoso que um militar brasileiro dá à bandeira do Japão. A truculência do estado getulista não é poupada de crítica em Corações Sujos e isso fica bem caracterizado em algumas passagens do filme. O nacionalismo japonês é reforçado entre os colonos em textos de lavagem cerebral ditos uns aos outros ou lidos para si próprios:

Aqueles que negam o valor dessas coisas e aceitam as coisas como estão no momento desistiram de sua identidade japonesa e estão com os corações sujos. Em outras palavras, são traidores”, diz Takahashi para si mesmo, lendo um panfleto propagandista da Shindo Renmei.

Traçando um comparativo com os tempos atuais, movimentos nacionalistas pelo mundo com frequência possibilitam contextos sociopolíticos de crescimento de negacionismos dos mais diversos. O jornalista Soutik Biswas, correspondente da BBC na Índia, ressalta o quanto a pseudociência avançou da marginalidade para o mainstream naquele país durante a gestão do partido nacionalista hindu BJP, do primeiro-ministro Narendra Modi [11]. A reportagem da BBC dá exemplos de absurdos ditos até mesmo dentro da comunidade científica da Índia, como a afirmação de que antigos hindus inventaram a pesquisa com células-tronco há milhares de anos; ou que o rei demônio do Ramayana, épico religioso hindu, tinha 24 tipos de aeronaves e uma rede de pistas de pouso no território em que hoje fica o Sri Lanka.

Um cientista indiano afirmou ainda que Newton falhou em "entender as forças gravitacionais repulsivas" e que as teorias de Einstein eram "enganosas". Segundo ele, as ondas gravitacionais deveriam ser chamadas de "Ondas de Narendra Modi", uma referência ao primeiro-ministro do país. Modi, por sua vez, disse que a cirurgia estética era praticada na Índia há milhares de anos e usou como exemplo o deus hindu Ganesha - cuja cabeça de elefante está presa a um corpo humano – o que, segundo ele, mostra que a cirurgia estética existia na Índia na antiguidade. Perceptivelmente, esse nacionalismo exacerbado está entrelaçado com o pensamento religioso e a mistificação e romantização do passado.

O historiador Luiz Marques é um dos especialistas que destacam como o negacionismo de consensos científicos se prolifera em meio aos discursos nacionalistas, de esquerda ou direita, e diz: “O discurso negacionista nutre-se do medo e do compreensível desejo das pessoas de se apegar cegamente à identidade de tribo, à eliminação da dissonância, à autoridade moral do pater famílias, em suma, ao mundo do passado, aquele mundo em que o futuro era, malgrado alguns ‘tropeços’ da história, uma promessa” [12]. A identidade tribal, a eliminação (inclusive física) daqueles que ousam compreender a realidade e anunciá-la, a rigidez patriarcal, a mitificação do passado. Todos esses traços podem ser vistos em Corações Sujos no negacionismo de uma realidade imediata: a derrota japonesa.


Religião e passado mítico

Se o nacionalismo é exacerbado no filme, a religiosidade é tratada de uma forma mais sutil. Para quem não conhece nada sobre o xintoísmo, pode soar ainda mais estranho entender por que aqueles colonos japoneses eram tão devotos de sua nação, mas o pensamento religioso era um propulsor dessa devoção, já que o imperador Hirohito, pela religião xintoista, era visto como um deus, o que fica pouco ressaltado, exceto em um diálogo em que um colono que compreendia português e que já havia reconhecido a derrota japonesa (ou seja, um “coração sujo”) tenta dissuadir Takahashi do fanatismo, ao afirmar que o imperador não é um deus.

Àquela altura, com o fim da guerra, o imperador Hirohito já havia renunciado publicamente perante o povo japonês o seu status de divindade, por imposição dos vencedores do conflito: "Os laços que nos unem a vós, nossos súditos, não são o resultado da mitologia ou de lendas. Não se baseiam jamais no conceito de que o imperador é deus ou qualquer outra divindade viva", disse o monarca. [13].

Para muitos japoneses, aquela era a primeira vez que ouviam a voz de Hirohito no rádio. Nunca ter ouvido ou, em alguns casos, nem ter visto pessoalmente o imperador, era algo que só reforçava sua figura mítica e a fé em seu caráter divino. Os japoneses não perderam só a guerra, perderam também um deus. Tudo de uma só vez.

Sobre a mistificação do passado, cabe ressaltar que, de fato, o império japonês nunca havia perdido uma guerra contra outra nação, o que fazia a derrota na Segunda Guerra Mundial ainda mais difícil de ser aceita. Mas o passado glorioso do Japão nos campos de batalha, posto literalmente pelos ares pelas bombas atômicas, não incluia a família imperial como descendente de Amaterasu, deusa xintoísta do sol. Tratava-se de uma crença, um passado idílico que desmoronava. O Japão não era uma nação invencível sob a proteção divina, como a Shindo Renmei acreditava. Os fatos novos estavam postos e precisavam ser aceitos.


A pós-verdade, enfim, não é tão nova assim

Até mesmo fabricação de fake news – ou “desinformação”, como preferem muitos especialistas da área de comunicação – é possível encontrar em Corações Sujos. O responsável é o coronel Watanabe, que demonstra uma postura dúbia: em parte, lucra financeiramente com as mentiras que fabrica e propaga; em parte, também parece acreditar nelas. Esses traços comportamentais de Watanabe podem ser encontrados em diversos dos agentes que contribuem para o processo de desinformação pública – ou desinfodemia: há os que conscientemente fabricam a desinformação para lucrar; há os que ingenuamente acreditam nas mentiras e as disseminam; e há aqueles que parecem ser um pouco de ambos, sabendo que as mentiras são mentiras, mas ao mesmo tempo as vendo como um tipo de verdade, pois condizem com suas visões de mundo.

Por esse raciocínio torto, um livro de um suposto kit gay apresentado por um candidato à Presidência em uma entrevista de TV pode ser falso [14], mas se a falsidade denuncia o que considero algum tipo de deturpação moral nas escolas infantis, por que não repassar a mentira em nome de um “bem maior”?

Estou usando mentiras para lutar contra mentiras”, se defende o coronel Watanabe, ao ser questionado sobre a fabricação de desinformação. “A verdade está dentro de nós”, ele diz. Aqui, há a ideia de que nossos desejos, crenças e percepções valem mais do que os fatos a nossa frente, esfregados em nossa cara. Mas esse comportamento negacionista não funciona e cedo ou tarde cobra um preço. A verdade não está dentro de nós!

No fim das contas, Corações Sujos é um filme para nos alertar que a pós-verdade ou pós-fato não é um fenômeno totalmente novo e nos mostrar como operam alguns elementos psicológicos e sociopolíticos do negacionismo e desses novos tempos, como o nacionalismo, a religião, a mistificação do passado, a incapacidade de lidar com fatos novos e quebras de paradigmas etc.

Em seu livro chamado “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, Matthew D’ancona diferencia a pós-verdade de uma longa tradição de mentiras políticas, mostrando o peso das novas tecnologias e das midias sociais nesse processo de manipulação, polarizando e enraizando opiniões [5]. Ao falar sobre a pós-verdade, André Cabette Fábio também destaca o papel das novas mídias, ao dizer que “Plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras. Grande parte dos factóides são compartilhados por conhecidos nos quais os usuários têm confiança, o que aumenta a aparência de legitimidade das histórias. Os algoritmos utilizados pelo Facebook fazem com que usuários tendam a receber informações que corroboram seu ponto de vista, formando bolhas que isolam as narrativas às quais aderem de questionamentos à esquerda ou à direita”[15].

D’ancona pontua que o fenômeno da pós-verdade não é de todo novo: “Na maior parte da história humana, histórias tribais e mitologias compartilhadas fizeram mais para explicar o comportamento humano do que a avaliação fria da evidência verificável. Todas as sociedades possuem suas lendas fundadoras que as unem, moldam seus limites morais e habitam seus sonhos de futuro. Desde a Revolução Científica e o Iluminismo, porém, essas narrativas coletivas competiram com a racionalidade, o pluralismo e a prioridade da verdade como base para a organização social. O que é novo é a extensão pela qual, no novo cenário de digitalização e interconexão global, a emoção está recuperando sua primazia, e a verdade, batendo em retirada.” [5].

Corações Sujos nos faz refletir sobre como essas histórias tribais e mitológicas já circulavam e provocavam situações de negação da realidade antes da existência das mídias digitais que, aparentemente, deu a elas uma nova e potente propulsão.


Referências:

[1] Brasil teve maior partido nazista fora da Alemanha, apontam historiadores:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/02/08/historia-partido-nazista-no-brasil.htm


[2] Negacionismo

https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm


[3] Negacionismo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo#cite_note-1


[4] CAMPOS, Alexandre Freitas. “Nazismo de esquerda: análise de uma fake history a partir de vídeo da embaixada e consulado alemães. In 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2021, virtual. Disponível em: <https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt5-cd/alexandre-freitas-campos.pdf>


[5] CAMPOS, Alexandre Freitas; WANDERLEY, Sonia Maria de Almeida Ignatiuk. “Nazismo de esquerda” e fake history: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade. Revista Historiar, Vol. 14, Nº. 26, Jan./Jun de 2022. Disponível em: < https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428 >


[6] Dicionário dos Negacionismos no Brasil traz verbetes de pesquisadores da COC/Fiocruz

https://www.coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/2207-dicionario-dos-negacionismos-no-brasil-traz-verbetes-de-pesquisadores-da-coc-fiocruz.html


[7] D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. Barueri: Faro Editora, 2018.


[8] Pós-fato é o novo antagonista da veracidade no jornalismo

https://jornal.usp.br/radio-usp/colunistas/carlos-eduardo-lins-da-silva/pos-fato-e-o-novo-antagonista-da-veracidade-no-jornalismo/


[9] Guerra no Pacífico: de Pearl Harbor às bombas atômicas

https://anchor.fm/historia-fm/episodes/067-Guerra-no-Pacfico-de-Pearl-Harbor-s-bombas-atmicas-e15i50j


[10] Oficial japonês que demorou 30 anos para se render morre em Tóquio

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/01/oficial-japones-que-demorou-30-anos-para-se-render-morre-em-toquio.html


[11] 'Einstein e Newton estavam errados': estimulada por políticos nacionalistas, 'pseudociência' avança na Índia

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46780542?fbclid=IwAR2Yu73sfd1n6bYJW7szoWWCPN04q2qoe0GVW1kyGJO2-RihI_-N5JdruQQ


[12] Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/01/negacao-da-ciencia-ganha-forca-em-nacionalismo-que-une-esquerda-e-direita.shtml


[13] A época em que o imperador japonês era mais venerado no Brasil do que no Japão

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50104588


[14] Bolsonaro mentiu ao falar de livro de educação sexual no ‘Jornal Nacional’

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/29/politica/1535564207_054097.html


[15] O que é ‘pós-verdade’, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

The Boys, democracia e regulação: os riscos da concentração de poderes

 

Em 2019 estreou na Amazon Prime a série The Boys, inspirada na saga homônima vinda das revistas em quadrinhos. Misturando humor, aventura, deboche, violência e momentos escatológicos, a série, dirigida por Eric Kripke, vem ganhando fãs a cada ano e está em fase de elaboração de sua quarta temporada. Nas três temporadas disponíveis, bem-sucedidas com público e crítica, The Boys já nos presenteou com muitos momentos desconcertantes que compõem uma caracterização bastante atípica dos super-heróis, se comparados àqueles que conhecemos dos universos Marvel e DC, por exemplo. Momentos esses que incluem um super-herói capaz de encolher de tamanho, entrar no ânus de uma pessoa e aumentar de tamanho dentro dela, explodindo-a de dentro para fora, ou o famigerado “herogasmic”, uma grande orgia entre os super-heróis.

Os realizadores da série vêm cumprindo bem o grande desafio estético de transpor para o audiovisual momentos bizarros como esses, superpoderes e cenas de ação extraídas de The Boys das histórias em quadrinhos, o que não é tarefa fácil. Criada por Garth Ennis e Darick Robertson e publicada entre 2006 e 2012, a saga de HQs é, para alguns fãs, ainda mais sombria e debochada que a sua versão nas telas. The Boys foi originalmente publicado pelo selo Wildstorm, da DC Comics, que entretanto ficou receosa com o conteúdo e cancelou a série [1]. Quem deu continuidade às publicações foi a Dynamite Entertainment.

Billy Bruto nos quadrinhos é bem mais intimidador que sua versão streaming (interpretada por Karl Urban), a ponto de disputar com o Capitão Pátria o posto de principal vilão da história em algumas circunstâncias. Já o Trem-Bala (Jessie T. Usher), na última temporada parece querer se redimir, repensando sua postura e até pedindo desculpas a Hughie (Jack Quaid). Nos quadrinhos, o personagem não chega nem perto de aprender com os erros ou se arrepender [2].

Mas as supostas amenizações da adaptação ao streaming – e parece difícil acreditar que a versão HQ é ainda mais pesada – não impedem que The Boys seja uma das melhores críticas ao capitalismo feitas atualmentes em forma de produção audiovisual. Sim, pois toda a absurdice e escatologia não tiram o senso crítico da série. São tantas as críticas à sociedade contemporânea que é difícil saber por onde começar. The Boys dispara contra o hiperconsumismo, a espetacularização midiática, as indústrias farmacêuticas e bélicas, o avanço da alt-right trumpista nos EUA etc.


Concentração de poderes x democracia

Mas há uma ideia central fundamental: parafraseando a clássica fala do Tio Ben (do Homem-Aranha), que disse que "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", em The Boys fica claro que “Com grandes poderes, vem a absoluta certeza de que você se tornará um grande babaca.” A frase inclusive é dita literalmente por Billy Bruto em um dos episódios da última temporada. E nem precisava ser dita, porque naquela altura da trama, essa ideia central já estava muito clara.

Isso porque, no universo ficcional de The Boys, os poderes sobre-humanos dos super-heróis os levam a se comportarem como donos do mundo. Eles só querem saber mesmo é de seus próprios interesses e, somente nos palanques ou perante às câmeras de TVs e celulares, fingem se importar com o bem comum. Essa é a principal diferença entre os super-heróis de The Boys e aqueles com os quais nos acostumamos nos universos Marvel e DC Comics. A série é perfeita ao mostrar como o excesso de poder mexe com a cabeça das pessoas. Os super-heróis posam de defensores da sociedade perante a mídia, mas agem como vilões quando ninguém está olhando. Aqueles que se propõem a enfrentá-los também ficam seduzidos pelo gosto do poder quando o experimentam.

Na vida real não há os mesmos poderes sobre-humanos, mas há outros, como o poder aquisitivo por exemplo. E, numa sociedade capitalista, com o poder aquisitivo vêm outros poderes, como o poder político e o poder da informação e difusão das ideias. Por isso, quando a gente vê pessoas acreditando que a "boa vontade" de bilionários como Elon Musk vai garantir liberdade de expressão para a sociedade como um todo e de forma democrática, temos a certeza de quem aplaudiria o Capitão-Pátria se vivesse no universo ficcional de The Boys.

Pois foi em nome da liberdade de expressão e com o argumento de sua garantia que o bilionário sul-africano anunciou que compraria a rede social Twitter. Houve gente comemorando. Em seguida, Musk recuou, alegando que a empresa não estaria sendo transparente na prestação de informações sobre a plataforma, mais especificamente sobre o número de perfis fake. A briga entre Musk e o Twitter foi parar na justiça, com acusações mútuas [3],


Regulação

No meio de tudo isso, existe a discussão sobre a necessidade de mecanismos de regulação para restringir os excessos de poder - das mídias, das grandes fortunas, das armas, do Estado – de tudo o que possa pôr em risco a democracia. Porque grandes poderes concentrados nas mãos de poucos são sempre perigosos. Sejam esses poucos os bilionários ou as big techs (ou a mistura entre ambos). Sobre as concentrações de grandes fortunas, o economista Eduardo Moreira Real diz:

A partir de um certo valor, todo o dinheiro que a pessoa ganha não é mais para comprar carro ou avião. Ele é só poder. Portanto, o dinheiro que vem na última camada, a dos super-ricos, é só concentração de poder. E uma sociedade tem que tomar muito cuidado com para quem ela vai dar todo o poder concentrado, pois esse cara que vai ter todo esse poder concentrado não é alguém que foi eleito, votado, escolhido. Esse cara não pode comandar uma sociedade sem ter legitimidade para isso [4].

Se Eduardo Moreira chama a atenção para os riscos que bilionários implicam para a democracia, ao mesmo tempo em que critica o modo de tributação no Brasil – o que invariavelmente nos leva à discussão sobre a tributação de grandes fortunas – quando o assunto é tecnologia, o que não falta são especialistas apontando para os perigos dos usos e abusos dos dados de usuários pelas diversas plataformas e como elas podem interferir em processos eleitorais e, consequentemente, em legislações, moldando o estado e a sociedade conforme seus próprios interesses.

Um desses especialistas é o cientista da computação Silvio Romero de Lemos Meira, um dos responsáveis pela criação do Porto Digital, um dos principais polos de tecnologia do país e que abriga em torno de 350 empresas de base tecnológica em Pernambuco. Ele fala sobre a necessidade de regulação e os riscos de se encarar a tecnologia com muito entusiasmo:

É preciso abordar criticamente o desenvolvimento tecnológico, com todas as suas dimensões filosóficas e regulatórias. Deveríamos permitir qualquer propaganda no Facebook, inclusive as que incentivam, às vezes de maneira subliminar, comportamentos nazifascistas? Ou permitir mentiras explícitas em propagandas políticas? Deveríamos responsabilizar o intermediário? A tese que levou à explosão das mídias sociais é a seguinte: os intermediários, como o Facebook, não têm responsabilidade. É como se a mídia social fosse apenas um fio telefônico que transmite informações. Mas o Facebook não é apenas um transmissor, ele é praticamente uma estação de informação global e faz intervenção editorial. Deveria ser regulado [5].

Depois dos efeitos negativos da desinformação em redes sociais nos processos eleitorais na década de 2010 e da onda de negacionismo científico e mentiras que prejudicaram a saúde pública durante a pandemia de covid-19, representantes do poder público e da sociedade civil em diversos países vêm aprimorando mecanismos de regulação e cobrando maior proatividade por parte das empresas de tecnologia para lidar com os problemas [6].

Aqui não se trata de traçar um comparativo do ponto de vista moral entre Elon Musk e Capitão-Pátria (aliás, magistralmente interpretado por Antony Starr), mas sim chamar a atenção para a necessidade de mecanismos regulatórios que protejam a democracia contra eventuais riscos por conta das concentrações de poder em diversas instâncias da esfera pública, da vida social. Democracias sólidas não devem (ou ao menos não deveriam) ficar à mercê de supostas boas intenções de seus poderosos, mas sim aprimorar e amadurecer formas de regulação. Até porque, assim como os super-heróis em The Boys, todos posam de bonzinhos perante a mídia, que geralmente tem papel central como caixa de ressonância do poder, maquiando os poderosos, dando-lhes aquele verniz moral, para que pareçam belos e nobres aos olhos da opinião pública.


Cinema e HQs para pensar a sociedade

The Boys, de forma debochada e sanguinolenta, segue mostrando os riscos da concentração de poder. Mas vale lembrar que o assunto não é novidade nas histórias em quadrinhos e suas adaptações ao audiovisual. O universo cinematográfico da Marvel chegou a fazer essa crítica sobre o excesso de poder e a necessidade de mecanismos regulatórios ao adaptar para as telas a saga Guerra Civil, ainda que não de forma tão contundente como faz The Boys.

Em Guerra Civil, por conta dos danos provocados pelos combates, a organização das Nações Unidas decide estabelecer lei para regulamentar as ações dos heróis. O Homem de Ferro se posiciona a favor, mas o Capitão América se coloca contra. Outros heróis se juntam a ambos provocando um racha entre os Vingadores. Mais do que um conflito entre super-heróis, Guerra Civil promove um debate sobre segurança x liberdade, valores importantes para a vida em sociedade.

Para quem se interessar, a proposta de Guerra Civil é muito bem discutida no livro "Os Dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis", de Bruno Andreotti, Adriano Marangoni, Iberê Moreno e Mauricio Zanolini [7].


Referências:

[1] The Boys: As maiores diferenças da HQ para a série da Amazon:

https://br.ign.com/the-boys-26/85104/feature/the-boys-as-maiores-diferencas-da-hq-para-a-serie-da-amazon

[2] The Boys: Diferenças e semelhanças entre a terceira temporada e as Hqs:

https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/the-boys-diferencas-e-semelhancas-entre-a-terceira-temporada-e-as-hqs/

[3] Entenda por que o Twitter está processando Elon Musk; batalha judicial começa nesta terça-feira

https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2022/07/19/entenda-por-que-o-twitter-esta-processando-elon-musk-batalha-judicial-comeca-nesta-terca-feira.ghtml

[4] Os bancos são covardes por Eduardo Moreira:

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=-R8u-5PdEI4&fbclid=IwAR3vJiVkN7RXUzJpkguhDD6LvYGKJaDaBwm2NN685bCJMBG78waw2Rv87iY

[5] Silvio Meira: Um realista esperançoso:

https://revistapesquisa.fapesp.br/silvio-meira-um-realista-esperancoso/

[6] DAMASCENO, Natanael. Desinformação em Rede. MIT Technology Review. Ano 02, nº 87, abr/jun, 2022.

[7] Os dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis

http://editoracriativo.com.br/produtos/exibir/147/os-dois-lados-da-guerra-civil-analise-historica-e-filosofica-do-maior-conflito-entre-super-herois#.YxJiNHbMLIU

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Quem paga a conta, o homem ou a mulher? Um olhar a partir de Bell Hooks e do feminismo negro

No fim do mês de julho o ator Caio Castro viralizou na internet brasileira por ter questionado, no podcast Sua Brother, uma certa “obrigação cultural do homem” em ter que pagar a conta de encontros nos bares e restaurantes [1]. Como em toda polêmica, houve gente defendendo, mas também muita crítica. Assuntos que envolvem direta ou indiretamente feminismo e conflitos de gênero costumam ser um vespeiro, do qual esse artigo, sem sombra de duvida, vai cair. Até porque não pretende dele escapar (caso contrário, sequer seria escrito).

O ator diz: “Tem uma diferença entre você pagar a conta e você ter que pagar a conta (…). Me incomoda muito, que é o que eu não quero, de eu ter que sustentar, de eu ter que pagar, eu ter que isso… eu tenho que porra nenhuma. (…) Pediu a conta, não se mexeu, não perguntou, nunca, como se eu tivesse esse papel?! Não é minha filha, caralho”.

Como muita coisa que viraliza na internet é amplamente repercutida sem ser checada na fonte original, é bem possível que esse também seja o caso da polêmica envolvendo a declaração. Caio Castro não se refere a um encontro específico, mas a situações continuadas, que se repetem com frequência com uma mesma pessoa. Isso fica claro quando ele afirma, sobre a conta: “Não se mexeu, não perguntou, NUNCA”. Ou seja, uma rotina, um processo comum e com base cultural que consiste em uma certa obrigação tácita de o homem ter que pagar a conta.

Houve distoções e exageros para os dois lados: o dos críticos e o dos defensores do ator. Aqui vamos nos focar nos críticos. Em grande medida, houve muita reclamação da parte dos que criticaram a declaração, predominantemente mulheres (mas não apenas), sobre o uso do verbo “sustentar”, que, de fato, é um termo infeliz para se referir ao pagamento de uma conta. Embora, como já dito, o ator não estivesse falando exatamente do pagamento de UMA conta, mas de VÁRIAS, de uma situação que se prolonga porque tem base cultural. Ainda assim, “sustentar” continua sendo um verbo forte e inadequado.

Porém, o uso da palavra “sustentar” não pode ser visto como o principal problema ou o estopim da “treta”. É possível que se a palavra não fosse usada talvez toda a declaração do ator passasse despercebida. Entretanto, a polêmica ocorre porque o tema em si é sensível, envolvendo desconstrução de papéis de gênero, os modos como o capital atravessa os relacionamentos amorosos e as contradições do feminismo. Sim, porque todos os “ismos” têm as suas contradições. E elas devem ser discutidas, senão viram dogma, viram religião. No meio desse vespeiro, apegar-se ao uso da palavra “sustentar” é só usar um bode expiatório retórico para reclamar de uma contradição jogada no ventilador.

A professora de sociologia e filosofia Renata Esteves, que com frequência aborda temas ligados ao feminismo [2], do canal de Youtube “Se liga – Enem e Vestibular”, manifestou-se em seu Facebook e Instagram sobre a polêmica. Primeiro, vejamos o que ela diz no Facebook:

É sério que esse assunto do Caio Castro tá rolando tanta polêmica assim? Tem mulher achando absurdo? Gente, falar que o homem tem que pagar a conta PORQUE é homem é a MESMA coisa que falar que mulher tem que lavar a louça porque é mulher! Pelamor, vamos extinguir os papéis de gênero... já deu já...século 21, bora pra frente.

E logo o rumo da prosa mostra que o incômodo gerado pela declaração (repito, mais repercutida do que ouvida na fonte primária: a boca do próprio ator) vai muito além do termo utilizado. Em um post do Leandro Karnal, o historador defende, resumidamente, que é errado imaginar a partilha da conta por gênero (homem paga e mulher não) e que isso depende de conversas prévias e das condições reais dos casais. Porém, Karnal foi criticado por mulheres que acham que sim, a conta deve ser partilhada de acordo com o gênero e que isso é uma questão de “sensatez”. Em defesa dessa opinião, lançam mão de indicadores como o de que mulheres ganham menos que homens e que pagam a chamada “taxa rosa” – que seria um custo mais alto nos produtos destinados a elas – gastam mais com costéticos, autocuidado etc. Ou seja, em meio a tudo isso, o uso do verbo “sustentar” se perde. A razão da discussão não é essa, O buraco é muito mais embaixo.


Ao se confrontar com um traço cultural do patriarcado – o de que o homem deve pagar a conta – o ator Caio Castro levanta uma polêmica que aponta uma possível contradição do feminismo: promover um discurso de luta contra o patriarcado, no entanto não ser, de fato, uma luta contra o patriarcado como um todo, mas especificamente contra alguns problemas que o patriarcado gera para algumas mulheres específicas. Ou seja, a parte conveniente do patriarcado não seria tão atacada, mas sim convenientemente mantida para aquelas mulheres com os atributos necessários para se beneficiar dela.

Esse fatiamento conveniente da realidade, essa diferença entre teoria e prática, não é particularidade do feminismo, mas de muitos “ismos”. Em geral, as pessoas – homens e mulheres – são motivadas a lutar para resolver seus problemas e não para dar tiro no pé (embora certos movimentos nos mostrem excessões estarrecedoras). A tendência a moldar o mundo de acordo com o próprio umbigo é quase universal. É no debate sociopolítico que as cartas são postas na mesa e as militâncias, movimentos e partidos têm suas contradições e hipocrisias confontadas pelas forças opostas. E isso faz parte do jogo.


Feminismo negro

Mas quem seriam essas mulheres com os “atributos necessários para se beneficiar da parte conveniente do patriarcado”? Como homem e autor do texto, é profundamente desagradável e delicado tocar nesses assuntos, mas ainda bem que existem as proprias autoras feministas, mais especificamente aquelas vinculadas ao feminismo negro. São elas que 1) vão destacar as pluralidades dentro do que genericamente chamamos de “feminismo” e 2) vão responder quem seriam as tais mulheres que podem se beneficiar de parte da estrutura patriarcal: as brancas e de classe média e alta, em linhas gerais.

Uma referência fundamental no feminismo negro é a socióloga Bell Hooks. Nascida na zona rural do Kentucky, em 1952, seu pai era faxineiro e sua mãe cuidava de sete filhos. Ela começou seus estudos em uma escola de segregação racial, mas ao chegar ao ensino médio em uma escola que congregava diversas etnias, pôde entender melhor as diferenças de raças e classes. Com o tempo, tornou-se ativista e acadêmica, trazendo em seu trabalho essas diversas dinstinções – gênero, etnia, classe – que marcam a sociedade. Escreveu seu primeiro livro aos 19 anos e deixou mais de 40 obras publicadas. Morreu em dezembro do ano passado, na mesma cidade em que nasceu.


Bell Hooks na juventude

Para muitos, a autora representou uma redefinição do feminismo, conseguindo ampliar um movimento que muitas vezes era visto principalmente como associado a mães e esposas brancas, de classe média e alta [3]. Bell Hooks é uma das autoras do feminismo negro que afirma que “mulheres brancas têm sido cúmplices no patriarcado capitalista da supremacia branca imperialista” [4] [5]. Ela trabalha com o conceito de “interseccionalidade” para se referir ao duplo preconceito sobreposto que mulheres negras sofrem: por serem negras e por serem mulheres. O conceito é usado também para tratar de outros preconceitos sobrepostos, como orientação sexual, classe etc.

Ao fazer ponderações ao feminismo de segunda onda (anos 1960-1980), Bell Hooks afirma que as mulheres negras suspeitaram daquele movimento feminista, pois essas mulheres (as negras), inseridas em círculos sociais mais pobres, viam nos homens com os quais conviviam (normalmente também negros ou demais racializados, como os latinos, por exemplo) indivíduos explorados e oprimidos pela estrutura capitalista. Ou seja, homens sem poder social, político e econômico. A própria Hooks, filha de um homem faxineiro e pobre, sabia bem o quanto a realidade é muito mais fragmentada do que aquele tipo de feminismo que ela questionava parecia enxergar.

Quem tem acesso privilegiado aos homens de maior poder aquisitivo, aqueles que pagam os melhores jantares nos melhores restaurantes (normalmente brancos e de classe média para cima), não são as mulheres negras e pobres, mas as brancas de classe média e alta. São essas que podem também usar o argumento do custo elevado com cosméticos e tratamentos como depilação para justificar que os homens devem manter o papel de gênero de pagar a conta.

Reparem que o conceito de interseccionalidade perpassa toda a discussão, mostrando que homens são bem diferentes entre sí, assim como mulheres também são diferentes entre sí, contrariando certa ideia de “irmandade” proposta pelo feminismo e criticada por Hooks [5]. A sociedade é muito mais intercortada e fracionada do que uma discussão superficial a partir da fala do ator Caio Castro pode fazer parecer.

Por isso a socióloga alega que as mulheres negras suspeitaram do movimento feminista, pois, se a meta for a igualdade com os homens, desconsiderando a interseccionalidade, o movimento pode se tornar algo para melhorar a vida das mulheres de classe média e alta apenas. Sem entrar em aspectos de raça e classe, essas mulheres brancas e de classe média para cima tornam-se cúmplices do patriarcado, podendo contar com uma classe inferior de mulheres racializadas e exploradas para fazer o “trabalho sujo” que as brancas burguesas estavam se recusando a fazer.

Esse trabalho é, por exemplo, o trabalho doméstico. Em um país de pensamento escravocrata como o Brasil, o trabalho doméstico sobra principalmente para as mulheres negras, e há um vídeo excelente, do canal Meteoro Brasil, com a participação do sociólogo Jessé Souza, sobre o papel da escravização do trabalho doméstico na ordem de reprodução capitalista no país [6].

Por isso, de forma retórica e em tom crítico ao feminismo burguês, Bell Hooks pergunta: “A quais homens as mulheres querem ser iguais?” [5] (com certeza não ao pai dela). Ela defende que “as feministas devem chamar a atenção para a diversidade da realidade social e política das mulheres e reconhecer que a opressão de raça e de classe também é um assunto feminista” [5]. E isso significa dizer que definir quem vai pagar a conta somente pelo gênero é desconsiderar uma pluralidade de fatores sociais que, em alguns casos, formam casais cujo homem ganha tanto ou mesmo menos que a mulher.

Bell Hooks não é a única do feminismo negro a questionar o feminismo burguês das brancas de classe média e alta. A cientista política e historiadora Françoise Vergès aborda movimentos feministas antirracistas, anticapitalistas e anti-imperialistas, em contraste ao feminismo branco europeu, chamado por ela de “civilizatório”. Ela também chama a atenção para a cumplicidade de mulheres brancas com a estrutura patriarcal, para muito além de ter a conta do restaurante paga por um homem galanteador e/ou macho alfa. Pagamento esse “justificado” pelos gastos com depilação, maquiagem, academia etc. Diz Vergès:

Essas feministas [civilizatórias] se beneficiam demais da exploração. Imagine todo o conforto que tiraram disso. Graças à exploração, elas têm tempo para manter um corpo em forma e saudável, se educar, e comprar roupas baratas costuradas por mulheres de Bangladesh, Vietnã, México. As feministas civilizatórias podem ficar falando sobre direitos das mulheres porque mulheres limpam as universidades, os parlamentos e as casas onde elas discursam. Quando elas falam de igualdade, elas nunca atacam o capitalismo racial. Elas vão reivindicar talvez uma melhor divisão de tarefas, ainda assim é uma reivindicação do feminismo burguês. E, se depois da pandemia elas perderem alguns de seus privilégios, isso não vai fazer com que queiram a revolução. Essas mulheres, que são por vezes vítimas do machismo de seus pais, companheiros, filhos e irmãos, são também suas maiores cúmplices, são as guardiãs do machismo e do patriarcado branco racista do qual se beneficiam. [7].


Não existe almoço grátis

Em uma das conversas que tive numa rede social por conta da repercussão do caso Caio Castro, uma colega que criticava o ator defendia também que a responsabilidade sobre o pagamento da conta deve ser maior sobre os ombros dos homens, utilizando justamente o argumento do quanto é caro ser mulher, por causa de “academia, cabelereiro, depilação, dermatologista, terapia/análise etc”. Até terapia entrou na conta. Citar terapia reforça ainda mais a perspectiva elitista de quem fala. Qual parcela da população tem acesso à terapia? Se for psicanálise então… E homens, não fazem terapia? Estava claro: uma mulher jovem, branca, classe média para cima, posicionando-se enquanto tal, reclamando da fala do ator.

Mas como ressaltado anteriormente, não foram só mulheres que se valeram desse argumento. O youtuber Felipe Neto resolveu dar (como sempre) sua opinião: “Quando nós, os homens, tivermos que rachar com a mulher a depilação, tratamentos estéticos, a maquiagem, os produtos e tratamentos para cabelo, as roupas que são mais caras, os cílios, as cirurgias que eventualmente possam vir a fazer (…) ai a gente pode falar em rachar tudo: restaurante, motelzinho, cineminha etc.” [8]

Ele, um homem branco e rico que namorou mulheres como Maddu Magalhães e Bruna Gomes (igualmente brancas, ricas e com caras de bonecas de porcelana), fala a partir de sua bolha. Então, na perspectiva dele, o argumento parece fazer sentido. Seria interessante se Felipe Neto, enquanto branco e rico, evitasse ditar regras e papeis de gênero para homens que não possuem um décimo de sua conta bancária a partir de sua experiência com mulheres que não representam um décimo do contingente feminino do Brasil. Seria interessante também se ele fizesse uma comparação entre o perfil das mulheres com quem ele namora e o daquelas que trabalham para ele nas tarefas domésticas (supondo que sejam mulheres) e refletisse sobre as diferenças.

Voltando à professora Renata Esteves, desta vez sobre seu post no Instagram. Nele ela afirma que, nos padrões de relacionamentos heterossexuais, “Homens buscam mulheres menos bem sucedidas e mulheres buscam homens ‘mais ricos’, ‘mais altos’, mais ‘velhos’ do que elas. Essas escolhas inconscientes, porém culturais, mantêm os padrões que sustentam a estrutura de dominação masculina’” [9].


Ela destaca também que vivemos em uma sociedade ainda desigual, marcada pela dominação masculina, mas que a luta do feminismo é pela desconstrução de papéis de gênero e, por estarmos vivenciando mudanças, em muitos contextos o homem pagar a conta somente por ser homem não faz mais sentido.

Assim como disse Karnal, entendo que o pagamento da conta deve ser previamente combinado, a depender da realidade do casal. Por exemplo, o pagamento pode ser proporcional ao ganho de cada um (caso ambos trabalhem): se o homem ganha mais, paga mais, cabendo à mulher (em se tratando de um casal heterossexual) uma parte menor.

Usar o argumento dos gastos com autocuidado (academia, maquiagem, tratamentos estéticos e até terapia) para defender algum tipo de “direito adquirido” a ter a conta paga por um homem não deixa de ser um privilégio, se comparado à situação daquelas mulheres que não podem fazer os mesmos “investimentos” cuidando de si próprias. É um argumento que diz muito sobre quem dele se utiliza e, se analisado da perspectiva do feminismo negro, serve para expor o quanto bandeiras feministas podem mascarar situações de desigualdade vividas pelas mulheres, não só em comparação aos homens, mas também quando comparadas umas com as outras.

Não existe almoço grátis (neste caso, literalmente)! Defender que o pagamento da conta deva ser resolvido de acordo com o gênero, ainda mais valendo-se do argumento dos gastos com estética em geral, retroalimenta a mesma estrutura patriarcal que o feminismo diz combater, ou, como aponta Renata Esteves, “mantêm os padrões que sustentam a estrutura de dominação masculina”.

Se o argumento for esse, cabe ressaltar que dos homens ainda é exigida a ostentação de símbolos de status, que custam bem caro, para que eles sejam valorizados enquanto homens e tenham algum grau de atratividade. Do contrário, são inferiorizados. Ou seja, um bom CEP e um bom carro fazem muita diferença. Só em relação ao carro, além da manutenção (neste mês gastei mais de R$ 1.300 só com troca de embrenhagem. Uma bagatela para o Felipe Neto, mas não para mim), tem gasolina (caríssima!), seguro, limpeza, pedágios, IPVA (aliás, acabo de lembrar que o meu está atrasado).

E a despeito do que muitas mulheres dizem (normalmente elas não gostam de reconhecer o peso do aspecto financeiro em suas escolhas amorosas ou mesmo, como ressalta Esteves, isso ocorre de modo inconsciente) e do que prega certa militância feminista, em tempos de micromensurações algorítmicas que não nos deixam mentir, tudo pode ser medido por meio das tecnologias digitais. E não é diferente quando se trata de critérios de seleção de parceiros(as). Em uma reportagem do El Pais Brasil sobre comportamentos agressivos e desrespeitosos de homens no Tinder, são mencionados quais tipos de homens e mulheres são mais impulsionados pelo aplicativo de relacionamento amoroso.

Mesmo que você seja um homem que procure relações igualitárias e respeitosas, a plataforma o educa de uma maneira, porque o que premia é o comportamento de macho alfa tradicional, e se você for mulher acontece exatamente o mesmo, premia as mulheres que se mostram de maneira mais estereotipada, mais feminina e sexual. [10]

A plataforma, entretanto, não faz isso completamente sozinha, mas baseada em algorítmos que levam em conta as escolhas das pessoas – homens e mulheres – num exemplo de machine learning [11]. Não chega a ser uma grande surprersa que homens se atraem por perfis de mulheres sexualizadas. Entretanto, nota-se que o tal “macho alfa tradicional” também é bastante requisitado pelas mulheres, a despeito de tanto discurso por aí sobre “desconstrução de masculinidade tóxica” (enfim, as tais contradições…).

Porém, quando se tratam de redes sociais, é preciso considerar também as distorções, os excessos. “Neste tipo de aplicativo, tudo o que ocorre na sociedade não virtual tende a se repetir de forma exagerada”, diz Delfina Mieville, sexóloga e socióloga especialista em gênero e direitos humanos. “Aqui o sistema patriarcal, sob o guarda-chuva do capitalismo, procura estratégias para sobreviver: e nas redes se exagera tudo porque é mais fácil vender um produto claro, mesmo que o produto seja você.” [10]. Ou seja, o Tinder age como uma lente de aumento, mas sobre algo que já existe no mundo real.

E o que seria exatamente o tal “macho alfa”? Curiosamente, ao pesquisar sobre o termo me deparo com uma breve lista que funciona como um tipo de teste para homens verem se se enquadram ou não ao perfil. Para a minha surpresa (mas não muita), de uma lista de 10 itens que atestam que você NÃO é um macho alfa, o primeiríssimo é: “Voce deixa ela pagar a conta”. Pois “um macho alfa assume a conta. Se ela tentar contribuir com isso, ele calmamente encerra a discussão dizendo "Eu cuido disso" [12]. Reparem que o macho alfa é quem paga a conta, mas também quem “encerra a discussão". Pois macho alfa de verdade decide quando a discussão deve ter seu fim. Enfim, não existe almoço grátis!

Na natureza, o macho alfa é o macho dominador, predominante no grupo. Logo, é de se esperar que em nosso capitalismo selvagem (para usar a manjada analogia entre sistema econômico e mundo natural) o papel de macho alfa exija no mínimo um certo poder econômico. Há muito discurso antipatriarcado, mas também há muita demanda por homens que ostentam poder. E, como bem lembra Hooks, há colaboracionismos e cumplicidades com o patriarcado por parte de mulheres que julgam poder se beneficiar dele. Confuso, não? Contraditório, com certeza. A sexóloga Lorena Berdún comenta sobre essa confusão testemunhada por ela em sua rotina como terapeuta:

Os homens estão confusos, muitos veem como seu trono desmorona e alguns reagem mal, mas, em geral, estão muito perdidos. Na terapia, muitos me dizem que não sabem como se aproximar das mulheres. Ao mesmo tempo, elas também não têm muito claro qual novo modelo masculino gostariam, como deveria ser. [13]

As mudanças seguem acontecendo, mas enquanto o novo não se consolida (se é que haverá algo novo a se consolidar), já há mudanças acumuladas o suficiente para a desconstrução de certos papéis de gênero, inclusive o de que o homem tem sempre que pagar a conta. Como diz Renata Estevez, “Século 21. Bora pra frente.”. Então vamos!


Referências

[1] Homem bonito não precisa xavecar? Feat Caio Castro:

https://www.youtube.com/watch?v=zNq8kVCyH_Y


[2]

Violência Contra a Mulher:

https://www.youtube.com/watch?v=FNTc6ez_CxM


Existem Sociedades Matriarcais?

https://www.youtube.com/watch?v=a7N9zzAF-gA


Simone de Beauvoir | O segundo sexo e a condição da mulher

https://www.youtube.com/watch?v=zhaq6AqeS_o


[3] bell hooks, escritora e ativista, morre aos 69 anos

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2021/12/15/bell-hooks-escritora-e-ativista-morre-aos-69-anos.ghtml


[4] Mulheres brancas têm sido cúmplices no patriarcado capitalista da supremacia branca imperialista:

https://prezi.com/p/p_d-c92aygqx/mulheres-brancas-tem-sido-cumplices-no-patriarcado-capitalista-da-supremacia-branca-imperialista/?fbclid=IwAR3E1pi-RpdR-niMImV6Jzax_bJRvLtI--ORAygXvnprCAQ8qX1KFF77748


[5] THORPE, Christopher; YUILL, Chris; HOBBS, Mitchell; TODD, Megan; TOMLEY,

Sarah; WEEKS, Marcus. O livro da sociologia. São Paulo: Globo, 2015.


[6] Reflexões sobre trabalho doméstico:

https://www.youtube.com/watch?v=5hUQLby2D50


[7] Feminismo ocidental nunca questionou privilégios de brancas, diz ativista

https://www.geledes.org.br/feminismo-ocidental-nunca-questionou-privilegios-de-brancas-diz-ativista/?fbclid=IwAR2Lg6DRXzmcYM-6BXtj-6_k4NbT5fSMBOTTEXqNv8KcyNt8x1X3WwxNaPU


[8] Homem tem que pagar a conta? Nfelipe Neto comenta sobre o Caio Castro

https://www.youtube.com/watch?v=6V8XKUvkCNM


[9] Por que os homens pagam a conta?

https://www.instagram.com/p/CgpYaegpCqC/


[10] Propostas indecentes, insultos e ‘ghosting’: por que os homens perdem a educação no Tinder:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/25/tecnologia/1558803826_423678.html


[11] Machine learning: o que é e por que é tão importante

https://tecnoblog.net/responde/machine-learning-ia-o-que-e/


[12] Veja 10 sinais que indicam que você não é um macho alfa:

https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/homem/veja-10-sinais-que-indicam-que-voce-nao-e-um-macho-alfa,db18bb3463237310VgnCLD100000bbcceb0aRCRD.html


[13] Sexóloga discute relações em tempos de Tinder: “O amor nos dá mais medo do que o sexo”:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/12/estilo/1550012109_318174.html