sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Há pluralidade nas pesquisas sobre masculinismo?


A jornalista Tabitha Lasley, autora do livro Sea State, dá uma entrevista para a BBC sobre como foi sua pesquisa, apresentada no livro. Ela esteve em Aberdeen, na Escócia, para investigar a vida dos homens que trabalham nas plataformas de petróleo do Mar do Norte, especialmente o que acontece com eles quando passam semanas isolados no mar, longe de mulheres. Nesta entrevista, disponibilizada em áudio pela BBC Brasil em seu canal no Youtube [1], ela faz uma associação entre a falta de mulheres em um ambiente e o mau comportamento dos homens. O termo utilizado por ela chamou minha atenção.

 

Um ambiente de trabalho puramente masculino tem um efeito muito negativo sobre os homens. Há muita misoginia nas plataformas petrolíferas, porque muitos dos homens que lá trabalham são mais velhos, se divorciaram uma ou duas vezes e carregam uma espécie de ressentimento em relação às mulheres, que transmitem aos mais jovens. Observa-se o mesmo mau comportamento em outros locais onde há grande aglomeração de homens, como em torcidas de futebol ou presídios. As mulheres têm um efeito civilizador sobre os homens.

 

Sem querer tirar a legitimidade e mérito de sua análise, fiquei preocupado com a conclusão da pesquisadora de que “as mulheres têm um efeito civilizador sobre os homens”. É uma frase forte, e na antropologia e ciências sociais, o termo “civilizador” está embotado com uma carga problemática. A ideia de que um grupo imprime efeito civilizador a outro remete a um eurocentrismo no qual o branco europeu era o farol civilizatório a guiar os povos de outros continentes. Essa ideia influenciou os estudos antropológicos do século 19 e, ao longo do século 20, foi sendo aos poucos desconstruída e mesmo rechaçada, inclusive dentro da própria antropologia.

 

Usado em pesquisa, “efeito civilizador” é um termo para deixar qualquer pesquisador atual – principalmente aqueles com influências mais decoloniais - de cabelo em pé ou com a pulga atrás da orelha. Entretanto, quando usado em uma perspectiva de gênero, parece não ser algo tão preocupante e digno de desconfiança. Ao menos Tabitha Lasley se sentiu confortável em utilizá-lo. Pode ser por ela própria não ser antropóloga, mas sim jornalista (ainda que seu trabalho tenha caráter antropológico), e por conta disso talvez não ter conhecimento de toda a problematização sobre a ideia de ser um civilizador ao longo da história.

 

Ou pode ser porque a pesquisa acadêmica nas últimas décadas – principalmente nas ciências humanas e sociais – foi fortemente perpassada pelas chamadas pautas identitárias (incluindo o feminismo), ao ponto de por vezes serem diluídas as fronteiras entre pesquisa e militância política, o que gera um status quo que faz com que uma pesquisadora se sinta confortável em sintetizar que mulheres têm efeito civilizador para homens, como quem joga para a própria torcida.     

 

Implicância minha com detalhes pequenos? Talvez. Mas a coisa não para por aí. O livro Dicionário dos Negacionismos do Brasil, organizado por José Szwako e José Luiz Ratton, publicado em 2022 pela editora Cepe, tornou-se uma obra fundamental em meu trabalho de pesquisa, a qual sempre recorro. Mas me chamou a atenção que um de seus verbetes, sobre Masculinidade, tenha sido escrito por três pesquisadoras mulheres. O primeiro impulso é imaginar como seria se fosse o contrário: um verbete sobre feminismo ou feminilidade escrito por três homens. Certamente o verbete não seria publicado.

 

Mais do que tentar forçar uma falsa ou questionável equivalência entre masculinismo e feminismo, o que acho mais importante é entender que um verbete sobre Masculinidade escrito por três mulheres pode ser um indicativo de um monopólio de mulheres nas pesquisas sobre o tema e da falta de pluralidade nessas pesquisas. Outro indicativo foi um debate realizado em Brasília, neste mês de agosto, que marcou o lançamento de um livro sobre a chamada “machosfera”. A mesa contava com a autora do livro e mais quatro pesquisadoras. Todas mulheres. Dentre elas, um nome de peso, o de Rosana Pinheiro-Machado, uma das cientistas sociais brasileiras de maior destaque internacional, referência fundamental em pesquisas sobre extrema direita e plataformas digitais.  

 

O problema é que viés de gênero pesa (assim como viés de qualquer outro tipo) e pode prejudicar ou dificultar a compreensão dos fenômenos sociais. Ninguém é uma máquina de objetividade. Nem os pesquisadores. Os métodos científicos servem como uma forma de autocontrole, para reduzirmos os impactos dos nossos vieses. Toda pessoa traz seus vieses, vivência e bagagem cultural ao trabalho de pesquisa. Por isso um postulado importante da área científica é o da diversidade. Não se trata “apenas” de algum tipo de justiça social, mas de oxigenar a ciência com pluralidade de pontos de vistas, o que geralmente contribui, juntamente com os métodos científicos, para o controle de vieses e distorções.

 

A história da ciência guarda exemplos do quanto a falta de diversidade pode ser prejudicial. Voltando novamente ao século 19, naquela época a medicina, composta quase em sua totalidade por homens brancos, patologizava problemas que as mulheres sofriam em decorrência muitas vezes de questões sociais, como repressão, falta de formação e oportunidades e desigualdade de gênero. O termo “histeria” era usado clinicamente de maneira bastante ampla para explicar uma variedade de sintomas físicos, emocionais e comportamentais que os médicos identificavam em mulheres e não conseguiam enquadrar em outras doenças mais específicas [2]. Com o tempo, as mudanças nas condições sociais das mulheres e a transformação da própria medicina se reforçaram mutuamente, fazendo com que o diagnóstico de histeria caísse em desuso.

 

Há também exemplos de vieses raciais, como no caso dos estudos de crânios, por meio da frenologia e craniometria, com pressupostos científicos (para os padrões científicos da época) que “inferiorizaram raças” [3]. Por exemplo, numa hierarquia proposta pelo médico americano Samuel George Morton, no século 19, a estrutura do crânio caucasiano seria mais avançada do que, respectivamente, as das (como ele as classificava) raças mongol, malaia, americana (na qual estavam agrupadas populações nativas das Américas) e etíope (que abrangia pessoas de origem africana). Era o branco “civilizador” elaborando uma hierarquização e se colocando no topo.

 

Com todo o respeito a tantas pesquisadoras, entendo que mais homens devem se aprofundar nessas pesquisas sobre machosfera, masculinidades, masculinismo. Há, sim, homens tratando desses temas, mas eles ainda são muito poucos. Alguns com análises muito parecidas com as de algumas pesquisadoras; outros, apresentando pontos diferenciados.

 

Dentre esses últimos, temos Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, que acrescenta ao debate argumentos inusitados, como relacionar a redução do consumo de álcool a problemas na sociabilização dos jovens, quando diz que “o risco do álcool ao fígado de uma pessoa de 25 anos é minúsculo, em relação aos perigos da ansiedade e do isolamento social”; toca num vespeiro ao afirmar que “as mulheres são menos atraídas sexualmente por homens que perdem sua viabilidade econômica" e expõe como a instabilidade econômica de homens jovens que estão no início da vida profissional os empurra para a solidão [4].

 

Acredito ser possível fazer críticas e problematizações a respeito de comportamentos dos homens sem necessariamente eleger as mulheres como civilizadoras e criar hierarquias morais de gênero. Mas para isso é preciso que não haja um monopólio de mulheres nas pesquisas sobre masculinismo e afins na psicologia social, antropologia, ciências sociais e demais áreas. Para lidar com um fenômeno social é preciso antes de mais nada compreendê-lo, e a pluralidade tende a contribuir para isso. Por isso é bem-vindo o ponto de vista masculino em pesquisas sobre questões masculinas (um sentimento de obviedade me toma enquanto escrevo esta última frase).      

 

 

Referências:

[1] 'Quando alguém controla o dinheiro na relação, controla a relação profundamente'

https://www.youtube.com/watch?v=Z_V8briu5Ko

  

[2] Representação de gênero na divulgação científica: uma análise da série “Cosmos”

https://jcomal.sissa.it/article/pubid/JCOMAL_0201_2019_A02/

 

[3] Tyson, Obama e um novo Cosmos: uma breve análise sobre a representação do negro na ciência

https://revistaheranca.com/index.php/heranca/article/view/310/211

 

[4] 'Estamos diante de uma geração de homens jovens inviáveis econômica e emocionalmente'

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c201kepl0vro

Neymar e a polarização política

 

Neymar é um jogador que não deu muita sorte na seleção brasileira. Enquanto Ronaldo teve ao seu lado Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká; Romário teve Bebeto; Zico teve Sócrates, Júnior e Falcão; e Pelé teve tantos craques ao seu lado que nem precisamos citar para o texto não ficar pesado; o Neymar jogou quatro Copas (2014, 2018, 2022 e 2026) com nomes como Fred, Gabriel Jesus e Everton Cebolinha. Bons jogadores, mas que sempre estiveram em patamares bem abaixo do próprio Neymar, que é o maior artilheiro da história da seleção, o terceiro maior em Copas do Mundo.

 

Quem se propõe a fazer um retrospecto da trajetória de Neymar na seleção brasileira precisa ser mais abrangente e honesto, levando em conta toda a safra de jogadores que estiveram ao seu lado nas últimas copas. Se isso for feito, acredito que a constatação seja a de que Neymar não foi parte do problema, mas da solução. Quando falamos em Era Neymar, estamos nos referindo a quais craques além dele próprio? É até difícil elencar, de tão isolado que Neymar ficou em um patamar bem acima dos outros.

 

Por conta da frustração acumulada, batem no jogador errado pelos motivos errados. Claro que Neymar tem muitos defeitos. É um cai-cai, vive lesionado, apoia bets (não é o único) etc. Mas grande parte das críticas ao Neymar são por razões extracampo: por causa de política e por sua postura pessoal. E isso é um problema.  

 

Uma pesquisa da Genial em parceria com a Quaest [1] na ocasião da convocação apontou que entre eleitores que se identificam como direita não bolsonarista, 58% defenderam a convocação de Neymar, enquanto 34% eram contrários. O grupo apresenta o maior nível de apoio ao jogador. Já entre os que se dizem de esquerda não lulista, a maioria rejeitou a convocação do atacante na seleção. Nesse segmento, a taxa de oposição superava a de apoio, indicando cenário inverso ao observado na direita.

 

Entre eleitores lulistas, os números também indicavam rejeição. Segundo o levantamento, 50% eram contrários à convocação de Neymar, enquanto 45% apoiavam a presença do jogador. No grupo de bolsonaristas, o cenário era diferente. A pesquisa apontava 57% favoráveis à convocação, contra 36% contrários, indicando maioria pró-Neymar entre esses eleitores.

 

Os dados mostram que o debate sobre Neymar na seleção acompanha divisões políticas do país. Pesquisas de análise de conteúdo, perfis e palavras nas redes conseguem mensurar facilmente a influência política nessa e outras discussões. Outra pesquisa, esta durante a Copa, realizada pelo Instituto Democracia em Xeque, também mapeou que debates sobre a figura de Neymar nas redes sociais têm mais viés político do que esportivo [2].

 

Enquanto a direita associava Neymar ao bolsonarismo e criticava Lula "por falta de apoio ao ídolo do futebol brasileiro", perfis à esquerda criticaram o jogador "pelo individualismo excessivo em campo, pela atitude arrogante e antidesportiva contra os jogadores noruegueses, por ser mimado e receber tratamento diferenciado e por manter relações com bets".    

 

O problema é que quando a política embota demais o nosso juízo, perdemos a capacidade de avaliar as coisas pelo mérito. Seja no futebol, nas artes, na ciência ou o que quer que seja, se a política vira o principal agrupador de uma opinião (sobre algo que não tem tanto a ver com política), alguma coisa está errada. No Brasil, durante a pandemia, os defensores do “tratamento precoce”, que acreditavam na eficácia da cloroquina ou ivermectina, eram basicamente bolsonarista. Nem é preciso dizer que seus critérios não eram científicos.

 

Por outro lado, quando a bióloga Natalia Pasternak e o jornalista de ciência Carlos Orsi lançaram o livro “Que bobagem!: Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”, afirmando que a psicanálise seria uma pseudociência – e estavam longe de descobrirem a roda, pois esse é um debate bem antigo – de modo geral, aqueles que criticaram os autores e defenderam a psicanálise eram predominantemente de esquerda. O que talvez se explique pelo peso da psicanálise em uma tradição intelectual e política nesse campo. Novamente, não é preciso dizer que os critérios não eram científicos ou epistemológicos. Se o principal agrupador de uma opinião é o viés político, vale ligar um alerta vermelho e ficar atento.   

 

Não gosto da figura pessoal que o Neymar repercute na mídia, nem de seu alinhamento político, mas gosto menos ainda de críticas motivadas por política que tentam se disfarçar de críticas técnicas. Sejam essas críticas feitas a atletas, artistas, professores etc. Um exemplo é o tanto de críticas sem nenhum embasamento pedagógico feitas ao Paulo Freire por quem não entende cosa alguma de pedagogia e não é capaz de citar dois pedagogos que considere melhores e o porquê eles seriam melhores.

 

Endrick, eleito por parte da torcida como um anti-Neymar (parte da torcida principalmente à esquerda) perdeu um gol feito; Bruno Guimarães perdeu um pênalti; o meio-campo brasileiro deu muito espaço para o Odegaard; a zaga brasileira deu bobeira com o Haaland, que é um centroavante implacável e não perdoou. Há muitos problemas e erros para além de Neymar.

 

A polarização política digital estimula uma birra que ultrapassa a política, preenche todos os espaços da vida cotidiana – inclusive o futebol – e infantiliza as pessoas. É curioso ver, por exemplo, como Youri Djorkaeff, ex-jogador francês, falou sobre Neymar após a eliminação do Brasil para a Noruega [3]. Para ele, naquela partida, “foi o Neymar, aos 34 anos, que não joga há cinco anos, quem ainda criou alguma coisa no fim”. A visão de alguém de fora, distanciado da polarização política brasileira, destoa daqueles que viram no mesmo jogo um Neymar antidesportivo e arrumador de confusão contra os noruegueses. 

 

A Copa acabou para o Brasil. É hora de renovação. Que venha uma boa safra de jogadores e investimentos na formação de atletas, em vez de um salvador solitário (o que nunca dá certo).

 

Referências:

[1] Posição política afeta opiniões sobre Neymar na Copa

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/selecao-brasileira/posicao-politica-afeta-opinioes-sobre-neymar-na-copa-entenda/

 

[2] Política supera futebol no debate sobre Neymar durante a Copa

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/07/politica-supera-futebol-no-debate-sobre-neymar-durante-a-copa-aponta-estudo.shtml

 

[3] Djorkaeff fala sobre seleção brasileira e Neymar

https://www.instagram.com/p/DalbcvuGmbv?img_index=1

 

 



quinta-feira, 4 de junho de 2026

A morte de Gabriel Ganley e o capitalismo estético de plataforma

 


Um perfil no Twitter chamado Azusagakuyuki tinha seus milhares de seguidores no Japão. Era de uma menina jovem e bonita, de aparentemente uns 20 anos no máximo, que mostrava fotos de uma rotina de cuidados com sua motocicleta e de suas viagens a bordo do veículo pelo país. Entretanto alguns seguidores começaram a observar estranhezas em algumas dessas fotos, como um braço peludo aqui, um reflexo no espelho que não se assemelhava ao rosto da menina ali.

 

Até que um programa da TV japonesa revelou a farsa. O perfil Azusagakuyuki na verdade pertencia a um homem de 50 anos chamado Zonggu, que admitiu usar aplicativos de edição de fotos para criar o alter ego de uma bela jovem. A explicação dele era simples: queria aumentar sua popularidade nas redes sociais e constatou que as pessoas preferem ver uma "bela mulher mais jovem" do que um homem mais velho. "Ninguém quer ver o que um homem normal de meia-idade, que cuida de sua motocicleta e tira fotos, posta em sua conta", disse Zonggu [1].

 

O tiozão motociclista afirmou ter ficado surpreso com os resultados da edição em aplicativos que o tornou uma jovem mulher em seus posts. "Primeiro experimentei, e logo ficou bem legal. Agora eu consigo até 1.000 curtidas, enquanto antes costumava ter menos de 10" em cada foto, ele contou. Não estamos falando de uma diferença pequena e irrelevante em termos de engajamento e audiência. De menos de 10 curtidas para 1.000 curtidas há um fosso abissal escalado.

 

Capitalismo estético de plataforma

À primeira vista pode não chamar a atenção, mas há alguma relação entre o caso do influenciador japonês e a morte do fisioculturista brasileiro Gabriel Ganley e essa relação pode ser pensada dentro do conceito de capitalismo estético de plataforma. Não se trata ainda de um conceito consolidado e amplamente popularizado. Quando falamos sobre capitalismo estético de plataforma, estamos na convergência de algumas linhas de pesquisa de outros conceitos semelhantes, como capitalismo de vigilância ou capitalismo de plataforma.

 

Em linhas gerais, capitalismo estético de plataforma é a ideia de que plataformas digitais (como redes sociais, aplicativos e marketplaces) transformam a aparência, a imagem e a apresentação de si em recursos econômicos. As plataformas incentivam as pessoas a produzir imagens atraentes de si mesmas. Mas esse incentivo não fica restrito ao corpo e à corpolatria. Ele se aplica a estilos de vida, casas, viagens etc. A visibilidade e a atenção viram uma forma de valor econômico. A estética deixa de ser apenas uma questão de gosto e passa a influenciar oportunidades de trabalho, consumo, status e renda.

 

Talvez você tenha notado que muito desse estado de coisas não é exatamente uma novidade. E de fato não é. Mas assim como um recente artigo da colunista Natalia Beauty, publicado na Folha de São Paulo, ao abordar a contratação pela Globo da influencer Virgínia Fonseca para comentar a Copa, nos lembra que as redes sociais desnudaram um mundo em que atenção e audiência se sobrepõem a certificado e experiência [2], podemos dizer que as redes sociais e mídias/tecnologias digitais em geral aceleraram e hipertrofiaram um tipo de estetização da vida. Algoritmos tendem a recompensar conteúdos visualmente mais atraentes, ampliando essa lógica.

 

Comparativamente, enquanto no capitalismo industrial o valor vinha principalmente da produção de bens, no capitalismo estético de plataforma, parte crescente do valor vem da capacidade de gerar atenção por meio de imagens, narrativas e performances pessoais dentro das plataformas. O capitalismo estético de plataforma é um sistema em que a aparência e a capacidade de atrair atenção nas plataformas digitais se tornam ativos econômicos.

 

Alguns autores importantes para a compreensão do conceito e de seu contexto são Shoshana Zuboff, Eva Illouz e Gilles Lipovetsky. Este último, em sua obra “A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista” [3], juntamente com Jean Serroy, argumenta que o capitalismo contemporâneo passou a incorporar a estética em praticamente todos os setores da vida econômica: produtos, marcas, arquitetura, consumo, entretenimento, comunicação e experiências. A beleza, o design, a sedução visual e a experiência sensorial tornam-se elementos centrais da geração de valor. E um dos principais desses elementos geradores de valor é a aparência física, o corpo.

 

Quem foi Gabriel Ganley?

Gabriel Ganley morreu no último dia 23 de maio, aos 22 anos. Um laudo provisório do IML apontou que ele teve uma morte súbita provocada por um problema cardíaco. Com 1,5 milhão de seguidores no Instagram, o fisioculturista fazia sucesso mostrando seu cotidiano fitness nas redes sociais, como rotina de treinos, competições e participações em eventos. Inicialmente, Ganley ficou conhecido como “Bebezinho Natural”, por ser bem jovem, cara de menino e por defender uma rotina de treinos sem hormônios. Ou seja, até então ele não usava anabolizantes.  

 

Mas em 2025 Ganley dá um novo rumo a sua carreira, passa a usar hormônios e assume isso publicamente. Em um vídeo junto com Léo Stronda, fisioculturista e influenciador que divulga o uso de anabolizantes, Ganley recebe uma injeção aplicada por Stronda. Era uma espécie de batismo ou rito de passagem. Ali ficava claro que ser natural não era mais o suficiente. A performance estava exigindo aditivos.

 

Dias após a morte de Gabriel Ganley, o Fantástico exibiu uma matéria ouvindo algumas pessoas do círculo social do fisioculturista [4]. Embora a ênfase da reportagem, assim como tantas outras sobre o caso, tenha sido alertar sobre os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes no mundo do fisioculturismo, os depoimentos apresentados apontam para as redes sociais e a disputa acirrada dos influenciadores dentro da economia da atenção. Um dos amigos de Ganley disse que alguns influenciadores fitness “têm que fazer algo que normalmente não fariam para alcançar o que querem. Porque no final, tudo se resume à audiência". A ex-namorada do rapaz afirmou que “ele tinha o sonho de trabalhar com internet e de ser um grande atleta”. E um ex-treinador de Ganley chamou a atenção para o peso e responsabilidade da audiência: “quantas pessoas deram like nisso? Quantas pessoas endossaram isso? Essa é a resposta para o resultado que aconteceu”. A própria reportagem trata Ganley como um “fenômeno dos músculos e das redes sociais”.

 

Obviamente a banalização do uso de anabolizantes é um problema. A venda legal de testosterona - um dos hormônios mais usados como anabolizante - bateu recorde em 2025. Nos últimos sete anos, teve um aumento de mais de 700% [5]. Mas o uso saiu dos bastidores e passou a ser defendido desavergonhadamente nas telas. Todo o caminho que levou Gabriel Ganley à morte também foi exibido nas telas. Até as preocupações com os efeitos colaterais foram expostas por Ganley, que apesar disso não teve tempo para rever sua opção pelo uso de hormônios e quem sabe escapar. E em que medida a corpolatria alimentada pelos posts e telas digitais incentiva esse aumento do uso de bomba?

 

Antigas expectativas

Lembro-me quando as redes sociais ainda eram uma novidade e havia expectativas bem positivas em relação à internet. Inclusive da minha parte. Particularmente, olhando a posteriori, identifico que eu tinha duas esperanças (ainda que elas não estivessem muito claras na época em minha cabeça). A primeira era a de que as redes sociais, enquanto uma arena de disputa e contraposição de ideias, favoreceriam as melhores ideias e os melhores argumentos, que prevaleceriam pela lógica e pela razão.  

 

A outra era menos coletiva e mais pessoal. Eu esperava que as redes sociais ampliassem meu capital social. Para um adolescente e jovem escanteado, quase invisível, desprovido de beleza, magricelo e tímido, as redes sociais pareciam um caminho aberto para conhecer garotas e para que as ideias chegassem antes da aparência física. Parecia ser possível romper a barreira da aparência que me limitava, me apequenava, e ir além.

 

Ledo engano. As redes sociais aos poucos consolidaram a primazia da aparência, da estética e da performance. Alguém que cresceu exposto às redes sociais talvez nunca compreenda as minhas expectativas ingênuas, a minha visão romântica. Mas eu não estava sozinho. Toda uma geração que chegou a viver o analógico criou expectativas românticas sobre as redes digitais, incluindo alguns teóricos da comunicação e áreas afins. 

 

É fácil compreender o que se passou na cabeça de Zonggu. Ele entendeu que seu conteúdo sobre mecânica e viagem de motocicleta não engajava pelo mérito intrínseco. Importava muito mais que esse mérito quem estava postando. No caso, uma mulher jovem obtinha mais engajamento e audiência do que um homem de meia-idade na exibição de um mesmo conteúdo.

 

De forma parecida, o caso Gabriel Ganley é exemplo de uma combinação química e social explosiva entre hormônios fornecidos pelas bombas e dopamina fornecida pelas redes sociais. E claro, acrescenta-se o dinheiro ao caso de Gabriel, que, apesar de observar os efeitos colaterais em sua saúde, também afirmava que sua vida tinha melhorado, com mais dinheiro, mais audiência. Infelizmente, a suposta melhora resultou também no encurtamento de sua vida.          

 

Referências

[1] FaceApp: 'Ninguém quer ver homem de meia idade com uma moto', diz japonês que se passou por garota nas redes

https://www.bbc.com/portuguese/geral-56491713

 

[2] Virgínia na Copa revela que atenção vale mais que diploma

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/natalia-beauty/2026/05/odeiam-virginia-na-copa-porque-ela-revela-verdade-humilhante-audiencia-vale-mais-que-curriculo.shtml

 

[3] A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista

https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13689.pdf?srsltid=AfmBOoo-XaWCYXYBvSrPlwGjemIP_ff2K3O9wuYBIptXOtNrylrGAXmn

 

[4] Gabriel Ganley recebeu aplicação de anabolizante de Léo Stronda em vídeo nas redes; influenciador diz estar arrependido

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/06/01/gabriel-ganley-recebeu-aplicacao-de-anabolizante-de-leo-stronda-em-video-nas-redes-influenciador-diz-estar-arrependido.ghtml

 

[5] Morte de Gabriel Ganley acende alerta sobre uso de anabolizantes: ‘Não tem evidência científica de uso seguro’, afirma médico

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/05/31/morte-de-gabriel-ganley-acende-alerta-sobre-uso-de-anabolizantes-nao-tem-evidencia-cientifica-de-uso-seguro-afirma-medico.ghtml


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Conservadores ou reacionários? Entenda as diferenças

 


O Carnaval acabou e, como frequentemente ocorre, gerou algumas polêmicas. Talvez a principal delas tenha sido o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou uma homenagem ao presidente Lula que deu o que falar antes, durante e depois do desfile. Como já era de se esperar, a escola foi rebaixada, o que normalmente ocorre com as recém-chegadas no Grupo Especial vindas da Série Ouro (a segunda divisão das escolas de samba do Rio).

 

A principal polêmica pós-desfile foi a ala “Neoconservadores em conserva”, cujas fantasias mostravam famílias em latas de conserva, explorando o trocadilho. De acordo com a agremiação, a ala representava grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos, que juntos no Congresso formariam um bloco conservador.

 

Políticos de direita e extrema direita criticaram publicamente o desfile e principalmente a ala. Com uso de inteligência artificial, muitos publicaram imagens de suas próprias famílias em latas de conservas, demonstrando o orgulho de serem conservadores [1]. Alguns veículos de comunicação, como o jornal Zero Hora, publicaram um passo a passo sobre como entrar na “trend da família em conserva” e fazer a ilustração dos familiares sorridentes dentro da latinha [2].

 

A apropriação da trend pela direita e extrema direita nos mostra o problema que pode haver na comunicação política quando se critica alguém nos termos em que esse alguém se enxerga e se promove e não nos termos em que ele realmente é e age. Um artigo de Alex Castro nos dá um bom exemplo desse tipo de situação. Em “Carta aberta aos humoristas do Brasil” [3], Castro desconstrói a ideia do “politicamente incorreto”, chamando a atenção para o fato de que muitos daqueles que se julgam “contra o sistema”, que se dizem alinhados ao politicamente incorreto por fazerem piadas com gays, mulheres, negros e outros grupos minoritários e/ou subjugados, na verdade não são contra o sistema coisa nenhuma. Embora eles gostem de se olhar no espelho como rebeldes e insurgentes, no fundo eles estão alinhados politicamente a grupos que sempre estiveram no poder (homens, brancos, héteros e de elite), fazendo as mesmas piadas que seus avós faziam. O termo “politicamente incorreto” seria, assim, um equívoco, já que esses pseudoinsurgentes estão alinhados ao que politicamente é mais do mesmo há muitos anos.

 

Nesse caso, se ver como politicamente incorreto tem mais a ver com alter ego, com o modo como a pessoa quer se enxergar, do que objetivamente com o comportamento que ela adota. Em muitos pontos o mesmo se aplica ao rótulo de conservador. Todos aqueles que se autodenominam orgulhosamente como conservadores são realmente conservadores? Ou seriam reacionários? No debate político e por vezes até nas pesquisas acadêmicas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro, os termos “conservador”, “reacionário”, “conservadorismo” e “reacionarismo” são utilizados de forma misturada. Além disso, há de fato certa mistura no cenário político, se pensarmos nas alianças partidárias e seus representantes políticos.

 

CONSERVADORISMO X REACIONARISMO

Basicamente, enquanto o conservador tenta conservar aquilo que ele acha que funciona bem dentro de um estado de coisas do presente, o reacionário reivindica o retorno a um estado de coisas que não existe mais (e que normalmente nunca existiu exatamente do jeito que ele pensa), o que implica a supressão de direitos construídos dentro de um processo civilizatório [4]. Vamos tentar destacar as principais diferenças entre o conservadorismo e o reacionarismo.

 

Norberto Bobbio, em seu “Dicionário de Política” [5], faz considerações diferenciadas sobre conservadores e sobre reacionários. À luz da ciência política, o filósofo italiano destaca que o conservadorismo “designa ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. Mais ainda, Bobbio afirma que o conservadorismo, ao fazer a defesa do poder político vigente, que vê como “condição indispensável à convivência social que é necessário controlar, mas não destruir”, põe-se como reação ao contínuo e rápido avanço do progressismo.

 

Já o reacionarismo é classificado pelo autor a partir de um caráter anti-igualitário, visto que os impulsos reacionários teriam origem principalmente na hostilidade daqueles componentes sociais que, pelo progresso e igualdade, são prejudicados em seus privilégios. Bobbio traz um exemplo europeu: à época da restauração pós-revolucionária, “o sistema que a Reação declarava querer defender se baseava no princípio de que o poder e o privilégio eram de origem divina e que o Ancien Régime [sistema político, econômico e social da monarquia anterior à Revolução Francesa] obedecia a uma lei universal transcendente e imutável”.

 

Ainda, Bobbio associa ao reacionarismo recortes raciais, nacionalistas e religiosos, situando o fascismo e o nazismo como fenômenos reacionários de massa. Isso respalda nosso entendimento de situar a extrema direita bolsonarista no reacionarismo e não no conservadorismo, ainda que seus adeptos com frequência se denominem como conservadores e assim queiram ser vistos. Como exemplo, podemos citar slogans bolsonaristas de campanha e de governo, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Deus, pátria e família”, emprestado do integralismo, movimento político brasileiro das primeiras décadas do século 20 influenciado pelo fascismo italiano (slogan depois modificado pelo bolsonarismo para “Deus, pátria, família e liberdade”).

 

No Brasil, alguns autores também nos ajudam a diferenciar conservadorismo de reacionarismo. Os professores e cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, do Iesp/Uerj, partindo de suas pesquisas sobre a compreensão do pensamento político e da cultura política brasileiros, explicam que os conservadores/conservadorismo admitem mudanças oportunas e tentam controlar a velocidade das mudanças, conciliando tradição e mudanças (estas últimas, com muita parcimônia) [6].

 

Já os reacionários/reacionarismo vivem em uma utopia regressiva e acreditam que o mundo ideal e/ou desejável faz parte do passado. Assim como o revolucionário de esquerda acredita em uma utopia futurista, o reacionário vê a utopia no passado, em uma espécie de “era de ouro” para a qual é possível retornar. Para muitos reacionários, como apontam os cientistas políticos, o apogeu da humanidade foi a Idade Média, e o mundo está decaindo desde a Renascença. Por isso, os reacionários são chamados por Lynch e Cassimiro também de “decadentistas”.

 

No mesmo sentido, explica o historiador e professor Daniel Gomes de Carvalho [7]. Para este, o reacionário é um crítico da sociedade vigente e desconfia das mudanças e transformações (assim como os conservadores), mas essa desconfiança se traduz em uma nostalgia, que frequentemente vem com uma idealização sobre o passado, como se o passado fosse uma era de ouro, e, o presente, uma era decadente. A modernidade representaria essa decadência. O professor ressalta o peso do ressentimento no pensamento reacionário para o desenvolvimento dessa nostalgia e idealização do passado. Ele chama atenção para o detalhe curioso que é ver brasileiros falarem saudosamente de uma era de ouro medieval, com base em sociedades europeias, já que no Brasil, no mesmo período histórico, a realidade era bastante diferente da do Velho Continente.

 

Já o conservador, ainda para o professor, aceita a necessidade da mudança. Citando pensadores como Edmund Burke, Carvalho fala sobre a visão reformista que se faz presente no pensamento conservador. Porém, a reforma precisa ser gradativa. O conservadorismo busca dar coerência à defesa das tradições econômicas e sociais, aceitando a necessidade de reformas (não de revoluções), desde que lentas e graduais. Tradicionalismo, organicismo e ceticismo político seriam as três principais características do conservadorismo.

 

Enquanto Lynch e Cassimiro entendem o bolsonarismo (parte muito expressiva da extrema direita brasileira) como uma expressão reacionária, um “reacionarismo populista”, Carvalho classifica o ideólogo e astrólogo Olavo de Carvalho, apontado como uma espécie de guru do bolsonarismo, como um autor reacionário, o que demonstra a convergência dos três professores tanto em relação às diferenças conceituais entre conservadorismo e reacionarismo, quanto na identificação do pertencimento do bolsonarismo ao segundo campo político-ideológico, ou seja, ao campo reacionário.

 

EXTREMA DIREITA: REACIONARISMO ACIMA DE TUDO

A extrema direita atual é, portanto, muito mais reacionária do que conservadora. Isso pode ser identificado nas suas diversas leituras idealizadas e romantizadas do passado. Leituras estas negacionistas, quando comparadas à produção historiográfica séria, ou seja, metodológica. Simplificações romantizadas sobre o período medieval, sobre a monarquia brasileira, sobre a ditadura militar (esta última lembrada pela polêmica ala da Acadêmicos de Niterói) circulam com muita frequência nas bolhas de extrema direita.

 

Por traz dessa utopia regressiva, há constantemente a busca pela supressão de direitos de determinados grupos sociais – como negros, mulheres, LGBT+, indígenas etc – que obtiveram alguns avanços em direitos civis e em indicadores de igualdade nas últimas décadas. O reacionarismo almeja não só a supressão desses direitos, mas dos níveis de democracia construídos ao longo do processo de redemocratização, principalmente a partir da Constituição de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”. Isso fica óbvio nas leituras negacionistas e romantizadas sobre a ditadura civil-militar do Brasil. Mais do que uma utopia regressiva, o reacionarismo é uma utopia regressiva autoritária.

 

A esquerda brasileira precisa parar de chamar reacionários de conservadores. Não se trata de um preciosismo conceitual acadêmico, mas de uma estratégia de comunicação política. Ao criticar “conservadores” de um modo genérico, a esquerda alarga demasiadamente a crítica, amplia seus inimigos e antipatizantes, colocando no mesmo balaio a extrema direita e uma direita e centro-direita não radicalizadas. Há diferenças consideráveis entre um bolsonarista fanático como Carlos Jordy e um adepto de uma direita pragmática como Aureo Ribeiro, apenas para citar dois deputados federais da bancada fluminense. Ambos, entretanto, entraram na trend da família em conserva.     

 

A ala da Acadêmicos de Niterói pegou no contrapé os esforços do governo para melhorar sua relação com os evangélicos e reduzir seus índices de rejeição nesse segmento. Seria mais assertivo se a agremiação criticasse os reacionários e não os conservadores (ainda que perdesse o gancho do trocadilho com as latas de conserva). Assim a crítica soaria mais precisa, com foco nas supressões de direitos de alguns grupos sociais e da democracia, e menos confundida com ataque à família, o que definitivamente não é o caso. A esquerda não é contra a família, mas a favor da ampliação de direitos. Chamar os reacionários de reacionários é denunciá-los pelo que eles de fato são, em vez de legitimar a imagem de conservadores que eles tentam construir de si próprios.  

 

Referências:

[1] Postagens dos deputados federais Aureo Ribeiro, Otoni de Paula e Carlos Jordy

https://www.instagram.com/p/DU6WAjVkmtl/

https://www.instagram.com/p/DU1jk2XD2ok/

https://www.instagram.com/p/DU1s8RWDJJo/

 

[2] Como fazer a trend da família em conserva com inteligência artificial? Veja o passo a passo

https://gauchazh.clicrbs.com.br/viral/noticia/2026/02/como-fazer-a-trend-da-familia-em-conserva-com-inteligencia-artificial-veja-o-passo-a-passo-cmluvuhaf01rk013kw2zx63o1.html

 

[3] “Carta aberta aos humoristas do Brasil”

https://www.geledes.org.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil-por-alex-castro/

 

[4] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[5] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancisco. Dicionário de Política vol I. Nicola Matteucci e Gianfranco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

 

[6] Populismo Reacionário | com Christian Lynch & Paulo Henrique Cassimiro

https://www.youtube.com/watch?v=9gWdnVQ-ZzU

 

[7] Conservadores, reacionários e contrarrevolucionários | Quais as diferenças?

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=Qloa0KMP3fU&fbclid=IwAR3R_PC5JnYaeS0dRtxAq82gG92agFQTNbgbamtoflubHDQw-JQUcmBHrZE

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Túlio Maravilha e o capital simbólico das universidades públicas


Não que alguém tenha perguntado, mas o ex-jogador Túlio Maravilha, ídolo do Botafogo, juntamente com sua esposa, Christiane Maravilha, gravou um vídeo para anunciar que a filha do casal, Tulianne, que também participa do anúncio, passou para duas universidades públicas, mas vai abrir mão das vagas e estudar em universidade particular. O vídeo soa caricato, dos rostos com botox ao cachorrinho frufru, além do próprio conteúdo da mensagem, os signos deixam claro que uma família de classe alta está a menosprezar o ensino superior gratuito. Isso significa muita coisa e representa um sinal de alerta.

 

Dentre os argumentos apresentados pela família Maravilha está a preocupação em manter os valores familiares [1]. Como explica Christiane, “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”. A família não entra em detalhes sobre de que modo a universidade pública feriria seus princípios e valores, mas tudo indica que se trata de uma visão estereotipada influenciada pela guerra cultural e pânico moral que envolvem a imagem da universidade pública e são parte de ataques de cunho político-ideológico [2].

 

A jovem Tulianne passou para Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Odontologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Da forma que a mãe falou, fica parecendo que a menina passou para algum curso como História ou Ciências Sociais, que já integra o movimento estudantil e já se filiou a algum partido da esquerda radical. De que forma aprender Nutrição ou Odontologia pode ferir os valores e princípios familiares? Ao contrário, isso poderia contribuir para a harmonização facial e para a dieta do casal.  

 

Exagero à parte, Túlio e sua esposa demonstram também preocupações factíveis: com a mobilidade urbana do Rio de Janeiro, cujas ruas vivem congestionadas; com a violência urbana, principalmente nas imediações do campus da UFRJ; e com o sucateamento das universidades. O craque e sua filha falam sobre greves, estrutura “caindo aos pedaços” e até “falta de papel higiênico”. Lamentavelmente, o sucateamento do ensino superior e os cortes orçamentários da área de pesquisa são problemas reais.

 

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR

Entretanto, o menosprezo de uma elite pela universidade pública, caricaturalmente demonstrado por Túlio e família, não pode ser entendido só como resultado de um sucateamento. A relação de causa e efeito não é tão simples assim. Esse menosprezo não se dá tão somente por conta da precariedade dos serviços, mas faz parte de uma dinâmica social que envolve distinção de classe e está diretamente ligada à democratização que o acesso ao ensino superior teve nos últimos anos. As universidades públicas ficaram mais acessíveis às classes populares, o que provoca uma alteração em seu capital simbólico.

 

Da década de 2000 para cá, houve avanços expressivos na busca por uma universalização do acesso ao ensino superior, por meio de políticas públicas, como as ações afirmativas, com cotas para determinados grupos sociais antes sub-representados e alunos da rede pública [3]. Segundo estudo dos sociológicos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, as cotas aumentaram o ingresso de pessoas negras, pardas, indígenas, com deficiência e oriundas de escolas públicas nas universidades. Se até o final dos anos 1990 o ensino superior brasileiro era dominado por estudantes brancos e de classes médias e altas, em 2021 os estudantes pretos, pardos e indígenas já representavam 52,4% dos matriculados nas universidades públicas, um significativo aumento em relação aos 31,5% que eles somavam em 2001. No mesmo período, a presença de alunos das classes D e E também saltou de 20% para 52%, evidenciando uma clara mudança de perfil socioeconômico dos discentes.

 

Para além das cotas, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se um mecanismo importante de democratização, pois permite que estudantes de qualquer região e condição socioeconômica concorram às vagas de forma padronizada [4]. Já o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) unificou os processos seletivos e reduziu custos e dificuldades de acesso (como pagar vestibulares ou viajar para prestar provas em diferentes estados). Isso ampliou a mobilidade e equidade no acesso [5]. Tudo isso somado mudou a cara da universidade pública brasileira e há muitos dados atestando a democratização alcançada [6].

 

PIERRE BOURDIEU E O CAPITAL SIMBÓLICO

O problema é que quando o acesso de todos a uma coisa fica mais fácil, para as elites essa coisa perde a graça. Isso porque, como lembra o antropólogo Michel Alcoforado, a identidade dos ricos se dá, dentre outros modos, pelo afastamento dos não ricos [7]. A elite está sempre a buscar e reinventar mil e uma formas de se distinguir das classes mais baixas em seus hábitos, consumos e territórios. Aqui é fundamental entender o conceito de capital simbólico, conforme ele é trabalhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu [8]. Capital simbólico é o prestígio, reconhecimento, honra ou legitimidade social que uma pessoa, grupo ou instituição possui, ou seja, aquilo que é socialmente valorizado e reconhecido como importante ou respeitável.

 

Esse capital simbólico será comunicado pelos ricos por meio da arte, dos lugares frequentados e, principalmente, dos bens de consumo. Um tipo de relógio ou uma marca de roupa têm potencial para que ricos mostrem o quanto são ricos. Por sua vez, a classe média, que sempre tenta imitar os ricos e parecer ter mais do que realmente tem, na medida em que se apropria desses itens, altera o potencial de capital simbólico desses itens, fazendo com que os ricos percam o interesse neles. E os ricos tentam sempre deter a cópia. É um verdadeiro jogo de gato e rato: uma marca identificada como de elite, se muito pirateada, copiada, adquirida pela classe média, é deixada de lado por essa elite, que logo abraça outra marca.

 

O mesmo pode ser observado em relação a locais públicos. O mercado da aviação civil passou por uma certa popularização no Brasil das últimas duas décadas e com isso os voos ficaram mais acessíveis. Não demorou para a elite começar a reclamar que os aeroportos estavam parecendo rodoviárias, como nos lembra Alcoforado em entrevista. Para os ricos, a fronteira precisa estar bem demarcada. Até em nossos próprios corpos. Com a magreza mais acessível nos últimos anos, por conta das novidades farmacêuticas, os braços tonificados, esculpidos por uma rotina de academia, vêm se tornando um novo padrão de beleza [9]. Os músculos se tornam um veículo de capital simbólico que comunica controle do tempo e um uso do tempo voltado para o autocuidado, para a vida fitness. Esse uso do tempo é mais fácil para uma pessoa da elite e mais difícil para um(a) trabalhador(a) comum, que enfrenta horas de trânsito para ir e voltar de seu trabalho presencial, por exemplo. Assim o físico fitness vira símbolo de status, como resume a colunista de moda Ilca Maria Estevão:

 

Quando um padrão de beleza antes considerado inalcançável se populariza, é comum que outro surja em seu lugar. Em resposta à chamada “democratização” do corpo magro, ganharam protagonismo os braços tonificados (...). A frase “nem todo mundo tem as mesmas 24 horas” ajuda a traduzir o impacto visual que a estética fitness busca comunicar: mais do que força física, ela sinaliza disponibilidade, organização e acesso a recursos que permitem transformar o corpo em um projeto contínuo.

 

As tatuagens são um outro exemplo de como o capital simbólico pode ser acionado na demarcação de fronteiras entre ricos e pobres nos corpos. Na medida em que as tattoos se popularizam, os ricos tentam manter um corpo mais clean [10]. Criar cancelas em ruas, quarto de empregada, elevador social, inventar camarotes vips, ultra vips, super ultra vips... Tudo isso faz parte da demarcação de fronteiras para evidenciar as diferenças.

 

E NO ENSINO SUPERIOR?

Com o ensino superior ocorre o mesmo. Por muitos anos a universidade pública brasileira teve um perfil elitizado. Luiz Augusto Campos nos lembra do período da ditadura civil-militar com seu projeto desenvolvimentista, dentro do qual cabia às universidades a formação de uma elite altamente qualificada e, por meio dos vestibulares, selecionava-se os “melhores” estudantes, com potencial para se tornarem os “melhores” profissionais do mercado [11]. Justamente por ser voltado em grande medida para uma elite é que o ensino superior gratuito construiu um capital simbólico atraente para os ricos e para a classe média que se inspira nos ricos. Como lembra Alcoforado, sobre sua própria experiência:

 

Minha mãe me botou numa escola no Rio porque ela estava preocupada se aquela escola aprovava no vestibular. Porque naquele tempo era um ativo importante para a classe média estudar na universidade pública

 

Mas se as elites não se interessam mais como antes pela universidade pública, basta apenas que as classes populares usufruam dos serviços numa boa e na santa paz, certo? É aí que mora o problema. Quando as elites se afastam, a tendência é que o serviço se precarize, perca investimentos. Isso porque o estado brasileiro é fortemente cooptado por uma elite dirigente. Os interesses dos mais ricos se fundem com os interesses do estado. Vimos algo parecido com o ensino público em geral, ao longo de décadas, e o mesmo processo está em curso atualmente no ensino superior. É o que aponta Alcoforado:

 

A elite brasileira durante muito tempo viu a educação pública, sobretudo o ensino superior, como um valor. E aí quando a gente faz a política de cotas e coloca gente com outras origens e trajetórias sociais dentro da universidade, toda a elite brasileira agora manda filho para estudar fora. E a gente já viu esse ciclo na sociedade brasileira inúmeras vezes: quando a elite sai dos espaços, esses espaços perdem investimento, perdem reputação, perdem relevância”.   

 

Portanto, as críticas de Túlio Maravilha e sua família às universidades públicas não são uma reação direta e objetiva à precarização. Na verdade, o menosprezo das elites ao ensino superior gratuito e a precarização desse serviço se retroalimentam. Vale lembrar que apesar das críticas, o ensino superior gratuito ainda é referência e de qualidade, se comparado com o que é oferecido por grande parte das instituições privadas, e as universidades públicas respondem pela maior parte da produção científica do país. Também é importante lembrar que a universidade pública ainda tem prestigio no Brasil. Apesar de tudo que foi dito no vídeo, a família maravilha destacou que a filha passou em duas universidades públicas. Algo que foi considerado um feito relevante e digno de se tornar público. 

 

Que Tulianne tenha uma passagem de sucesso e proveitosa pela universidade que escolher. E cabe às classes populares a luta contínua em defesa da universidade pública de qualidade. Democrática e também de qualidade. Uma luta que está inserida em lutas mais amplas: pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país e pela educação de forma geral.     

 

Referências:

[1] Túlio Maravilha explica por que impediu filha de estudar na UFRJ

https://www.metropoles.com/colunas/fabia-oliveira/tulio-maravilha-explica-por-que-impediu-filha-de-estudar-na-ufrj

 

[2] O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política

https://apatria.org/o-que-e-um-professor-doutrinador-para-o-bolsonarismo-guerra-cultural-e-panico-moral-como-estrategia-politica/

 

[3] Estudo mostra como cotas impulsionaram o acesso às universidades públicas

https://www.andifes.org.br/2025/05/23/estudo-mostra-como-cotas-impulsionaram-o-acesso-as-universidades-publicas/

 

[4] O Enem das universidades

https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/enem-2021-a-porta-de-acesso-ao-ensino-superior/

 

[5] Sisu impulsiona inclusão nas universidades públicas

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/sisu-impulsiona-inclusao-nas-universidades-publicas

 

[6] 10 mitos sobre a universidade pública no Brasil

https://jornal.usp.br/universidade/10-mitos-sobre-a-universidade-publica-no-brasil/

 

[7] Entrevista de Michel Alcoforado sobre seu livro “Coisa de Rico”

https://open.spotify.com/episode/56Jl8rCHthB5JFhgKEwln1?si=0Le8xHT3RKChxIfWlMvEHg&nd=1&dlsi=05f467cddba74982

 

[8] Pierre Bordieu | Resumo | Saiba o essencial

https://www.youtube.com/watch?v=enC1fguq-Fg&t=2559s

 

[9] Corpos magros dão lugar a braços tonificados como símbolo de status

https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/corpos-magros-dao-lugar-a-bracos-tonificados-como-simbolo-de-status

 

[10] Tatuagem virou coisa de pobre?? Sobre laser, desvalorização e mudanças na profissão

https://www.youtube.com/watch?v=ZNKse-lF1i0

 

[11] Mensalidade não é solução para universidade pública

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/post/2022/05/mensalidade-nao-e-solucao-para-universidade-publica.ghtml