terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Conservadores ou reacionários? Entenda as diferenças

 


O Carnaval acabou e, como frequentemente ocorre, gerou algumas polêmicas. Talvez a principal delas tenha sido o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou uma homenagem ao presidente Lula que deu o que falar antes, durante e depois do desfile. Como já era de se esperar, a escola foi rebaixada, o que normalmente ocorre com as recém-chegadas no Grupo Especial vindas da Série Ouro (a segunda divisão das escolas de samba do Rio).

 

A principal polêmica pós-desfile foi a ala “Neoconservadores em conserva”, cujas fantasias mostravam famílias em latas de conserva, explorando o trocadilho. De acordo com a agremiação, a ala representava grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos, que juntos no Congresso formariam um bloco conservador.

 

Políticos de direita e extrema direita criticaram publicamente o desfile e principalmente a ala. Com uso de inteligência artificial, muitos publicaram imagens de suas próprias famílias em latas de conservas, demonstrando o orgulho de serem conservadores [1]. Alguns veículos de comunicação, como o jornal Zero Hora, publicaram um passo a passo sobre como entrar na “trend da família em conserva” e fazer a ilustração dos familiares sorridentes dentro da latinha [2].

 

A apropriação da trend pela direita e extrema direita nos mostra o problema que pode haver na comunicação política quando se critica alguém nos termos em que esse alguém se enxerga e se promove e não nos termos em que ele realmente é e age. Um artigo de Alex Castro nos dá um bom exemplo desse tipo de situação. Em “Carta aberta aos humoristas do Brasil” [3], Castro desconstrói a ideia do “politicamente incorreto”, chamando a atenção para o fato de que muitos daqueles que se julgam “contra o sistema”, que se dizem alinhados ao politicamente incorreto por fazerem piadas com gays, mulheres, negros e outros grupos minoritários e/ou subjugados, na verdade não são contra o sistema coisa nenhuma. Embora eles gostem de se olhar no espelho como rebeldes e insurgentes, no fundo eles estão alinhados politicamente a grupos que sempre estiveram no poder (homens, brancos, héteros e de elite), fazendo as mesmas piadas que seus avós faziam. O termo “politicamente incorreto” seria, assim, um equívoco, já que esses pseudoinsurgentes estão alinhados ao que politicamente é mais do mesmo há muitos anos.

 

Nesse caso, se ver como politicamente incorreto tem mais a ver com alter ego, com o modo como a pessoa quer se enxergar, do que objetivamente com o comportamento que ela adota. Em muitos pontos o mesmo se aplica ao rótulo de conservador. Todos aqueles que se autodenominam orgulhosamente como conservadores são realmente conservadores? Ou seriam reacionários? No debate político e por vezes até nas pesquisas acadêmicas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro, os termos “conservador”, “reacionário”, “conservadorismo” e “reacionarismo” são utilizados de forma misturada. Além disso, há de fato certa mistura no cenário político, se pensarmos nas alianças partidárias e seus representantes políticos.

 

CONSERVADORISMO X REACIONARISMO

Basicamente, enquanto o conservador tenta conservar aquilo que ele acha que funciona bem dentro de um estado de coisas do presente, o reacionário reivindica o retorno a um estado de coisas que não existe mais (e que normalmente nunca existiu exatamente do jeito que ele pensa), o que implica a supressão de direitos construídos dentro de um processo civilizatório [4]. Vamos tentar destacar as principais diferenças entre o conservadorismo e o reacionarismo.

 

Norberto Bobbio, em seu “Dicionário de Política” [5], faz considerações diferenciadas sobre conservadores e sobre reacionários. À luz da ciência política, o filósofo italiano destaca que o conservadorismo “designa ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. Mais ainda, Bobbio afirma que o conservadorismo, ao fazer a defesa do poder político vigente, que vê como “condição indispensável à convivência social que é necessário controlar, mas não destruir”, põe-se como reação ao contínuo e rápido avanço do progressismo.

 

Já o reacionarismo é classificado pelo autor a partir de um caráter anti-igualitário, visto que os impulsos reacionários teriam origem principalmente na hostilidade daqueles componentes sociais que, pelo progresso e igualdade, são prejudicados em seus privilégios. Bobbio traz um exemplo europeu: à época da restauração pós-revolucionária, “o sistema que a Reação declarava querer defender se baseava no princípio de que o poder e o privilégio eram de origem divina e que o Ancien Régime [sistema político, econômico e social da monarquia anterior à Revolução Francesa] obedecia a uma lei universal transcendente e imutável”.

 

Ainda, Bobbio associa ao reacionarismo recortes raciais, nacionalistas e religiosos, situando o fascismo e o nazismo como fenômenos reacionários de massa. Isso respalda nosso entendimento de situar a extrema direita bolsonarista no reacionarismo e não no conservadorismo, ainda que seus adeptos com frequência se denominem como conservadores e assim queiram ser vistos. Como exemplo, podemos citar slogans bolsonaristas de campanha e de governo, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Deus, pátria e família”, emprestado do integralismo, movimento político brasileiro das primeiras décadas do século 20 influenciado pelo fascismo italiano (slogan depois modificado pelo bolsonarismo para “Deus, pátria, família e liberdade”).

 

No Brasil, alguns autores também nos ajudam a diferenciar conservadorismo de reacionarismo. Os professores e cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, do Iesp/Uerj, partindo de suas pesquisas sobre a compreensão do pensamento político e da cultura política brasileiros, explicam que os conservadores/conservadorismo admitem mudanças oportunas e tentam controlar a velocidade das mudanças, conciliando tradição e mudanças (estas últimas, com muita parcimônia) [6].

 

Já os reacionários/reacionarismo vivem em uma utopia regressiva e acreditam que o mundo ideal e/ou desejável faz parte do passado. Assim como o revolucionário de esquerda acredita em uma utopia futurista, o reacionário vê a utopia no passado, em uma espécie de “era de ouro” para a qual é possível retornar. Para muitos reacionários, como apontam os cientistas políticos, o apogeu da humanidade foi a Idade Média, e o mundo está decaindo desde a Renascença. Por isso, os reacionários são chamados por Lynch e Cassimiro também de “decadentistas”.

 

No mesmo sentido, explica o historiador e professor Daniel Gomes de Carvalho [7]. Para este, o reacionário é um crítico da sociedade vigente e desconfia das mudanças e transformações (assim como os conservadores), mas essa desconfiança se traduz em uma nostalgia, que frequentemente vem com uma idealização sobre o passado, como se o passado fosse uma era de ouro, e, o presente, uma era decadente. A modernidade representaria essa decadência. O professor ressalta o peso do ressentimento no pensamento reacionário para o desenvolvimento dessa nostalgia e idealização do passado. Ele chama atenção para o detalhe curioso que é ver brasileiros falarem saudosamente de uma era de ouro medieval, com base em sociedades europeias, já que no Brasil, no mesmo período histórico, a realidade era bastante diferente da do Velho Continente.

 

Já o conservador, ainda para o professor, aceita a necessidade da mudança. Citando pensadores como Edmund Burke, Carvalho fala sobre a visão reformista que se faz presente no pensamento conservador. Porém, a reforma precisa ser gradativa. O conservadorismo busca dar coerência à defesa das tradições econômicas e sociais, aceitando a necessidade de reformas (não de revoluções), desde que lentas e graduais. Tradicionalismo, organicismo e ceticismo político seriam as três principais características do conservadorismo.

 

Enquanto Lynch e Cassimiro entendem o bolsonarismo (parte muito expressiva da extrema direita brasileira) como uma expressão reacionária, um “reacionarismo populista”, Carvalho classifica o ideólogo e astrólogo Olavo de Carvalho, apontado como uma espécie de guru do bolsonarismo, como um autor reacionário, o que demonstra a convergência dos três professores tanto em relação às diferenças conceituais entre conservadorismo e reacionarismo, quanto na identificação do pertencimento do bolsonarismo ao segundo campo político-ideológico, ou seja, ao campo reacionário.

 

EXTREMA DIREITA: REACIONARISMO ACIMA DE TUDO

A extrema direita atual é, portanto, muito mais reacionária do que conservadora. Isso pode ser identificado nas suas diversas leituras idealizadas e romantizadas do passado. Leituras estas negacionistas, quando comparadas à produção historiográfica séria, ou seja, metodológica. Simplificações romantizadas sobre o período medieval, sobre a monarquia brasileira, sobre a ditadura militar (esta última lembrada pela polêmica ala da Acadêmicos de Niterói) circulam com muita frequência nas bolhas de extrema direita.

 

Por traz dessa utopia regressiva, há constantemente a busca pela supressão de direitos de determinados grupos sociais – como negros, mulheres, LGBT+, indígenas etc – que obtiveram alguns avanços em direitos civis e em indicadores de igualdade nas últimas décadas. O reacionarismo almeja não só a supressão desses direitos, mas dos níveis de democracia construídos ao longo do processo de redemocratização, principalmente a partir da Constituição de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”. Isso fica óbvio nas leituras negacionistas e romantizadas sobre a ditadura civil-militar do Brasil. Mais do que uma utopia regressiva, o reacionarismo é uma utopia regressiva autoritária.

 

A esquerda brasileira precisa parar de chamar reacionários de conservadores. Não se trata de um preciosismo conceitual acadêmico, mas de uma estratégia de comunicação política. Ao criticar “conservadores” de um modo genérico, a esquerda alarga demasiadamente a crítica, amplia seus inimigos e antipatizantes, colocando no mesmo balaio a extrema direita e uma direita e centro-direita não radicalizadas. Há diferenças consideráveis entre um bolsonarista fanático como Carlos Jordy e um adepto de uma direita pragmática como Aureo Ribeiro, apenas para citar dois deputados federais da bancada fluminense. Ambos, entretanto, entraram na trend da família em conserva.     

 

A ala da Acadêmicos de Niterói pegou no contrapé os esforços do governo para melhorar sua relação com os evangélicos e reduzir seus índices de rejeição nesse segmento. Seria mais assertivo se a agremiação criticasse os reacionários e não os conservadores (ainda que perdesse o gancho do trocadilho com as latas de conserva). Assim a crítica soaria mais precisa, com foco nas supressões de direitos de alguns grupos sociais e da democracia, e menos confundida com ataque à família, o que definitivamente não é o caso. A esquerda não é contra a família, mas a favor da ampliação de direitos. Chamar os reacionários de reacionários é denunciá-los pelo que eles de fato são, em vez de legitimar a imagem de conservadores que eles tentam construir de si próprios.  

 

Referências:

[1] Postagens dos deputados federais Aureo Ribeiro, Otoni de Paula e Carlos Jordy

https://www.instagram.com/p/DU6WAjVkmtl/

https://www.instagram.com/p/DU1jk2XD2ok/

https://www.instagram.com/p/DU1s8RWDJJo/

 

[2] Como fazer a trend da família em conserva com inteligência artificial? Veja o passo a passo

https://gauchazh.clicrbs.com.br/viral/noticia/2026/02/como-fazer-a-trend-da-familia-em-conserva-com-inteligencia-artificial-veja-o-passo-a-passo-cmluvuhaf01rk013kw2zx63o1.html

 

[3] “Carta aberta aos humoristas do Brasil”

https://www.geledes.org.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil-por-alex-castro/

 

[4] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[5] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancisco. Dicionário de Política vol I. Nicola Matteucci e Gianfranco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

 

[6] Populismo Reacionário | com Christian Lynch & Paulo Henrique Cassimiro

https://www.youtube.com/watch?v=9gWdnVQ-ZzU

 

[7] Conservadores, reacionários e contrarrevolucionários | Quais as diferenças?

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=Qloa0KMP3fU&fbclid=IwAR3R_PC5JnYaeS0dRtxAq82gG92agFQTNbgbamtoflubHDQw-JQUcmBHrZE

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Túlio Maravilha e o capital simbólico das universidades públicas


Não que alguém tenha perguntado, mas o ex-jogador Túlio Maravilha, ídolo do Botafogo, juntamente com sua esposa, Christiane Maravilha, gravou um vídeo para anunciar que a filha do casal, Tulianne, que também participa do anúncio, passou para duas universidades públicas, mas vai abrir mão das vagas e estudar em universidade particular. O vídeo soa caricato, dos rostos com botox ao cachorrinho frufru, além do próprio conteúdo da mensagem, os signos deixam claro que uma família de classe alta está a menosprezar o ensino superior gratuito. Isso significa muita coisa e representa um sinal de alerta.

 

Dentre os argumentos apresentados pela família Maravilha está a preocupação em manter os valores familiares [1]. Como explica Christiane, “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”. A família não entra em detalhes sobre de que modo a universidade pública feriria seus princípios e valores, mas tudo indica que se trata de uma visão estereotipada influenciada pela guerra cultural e pânico moral que envolvem a imagem da universidade pública e são parte de ataques de cunho político-ideológico [2].

 

A jovem Tulianne passou para Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Odontologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Da forma que a mãe falou, fica parecendo que a menina passou para algum curso como História ou Ciências Sociais, que já integra o movimento estudantil e já se filiou a algum partido da esquerda radical. De que forma aprender Nutrição ou Odontologia pode ferir os valores e princípios familiares? Ao contrário, isso poderia contribuir para a harmonização facial e para a dieta do casal.  

 

Exagero à parte, Túlio e sua esposa demonstram também preocupações factíveis: com a mobilidade urbana do Rio de Janeiro, cujas ruas vivem congestionadas; com a violência urbana, principalmente nas imediações do campus da UFRJ; e com o sucateamento das universidades. O craque e sua filha falam sobre greves, estrutura “caindo aos pedaços” e até “falta de papel higiênico”. Lamentavelmente, o sucateamento do ensino superior e os cortes orçamentários da área de pesquisa são problemas reais.

 

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR

Entretanto, o menosprezo de uma elite pela universidade pública, caricaturalmente demonstrado por Túlio e família, não pode ser entendido só como resultado de um sucateamento. A relação de causa e efeito não é tão simples assim. Esse menosprezo não se dá tão somente por conta da precariedade dos serviços, mas faz parte de uma dinâmica social que envolve distinção de classe e está diretamente ligada à democratização que o acesso ao ensino superior teve nos últimos anos. As universidades públicas ficaram mais acessíveis às classes populares, o que provoca uma alteração em seu capital simbólico.

 

Da década de 2000 para cá, houve avanços expressivos na busca por uma universalização do acesso ao ensino superior, por meio de políticas públicas, como as ações afirmativas, com cotas para determinados grupos sociais antes sub-representados e alunos da rede pública [3]. Segundo estudo dos sociológicos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, as cotas aumentaram o ingresso de pessoas negras, pardas, indígenas, com deficiência e oriundas de escolas públicas nas universidades. Se até o final dos anos 1990 o ensino superior brasileiro era dominado por estudantes brancos e de classes médias e altas, em 2021 os estudantes pretos, pardos e indígenas já representavam 52,4% dos matriculados nas universidades públicas, um significativo aumento em relação aos 31,5% que eles somavam em 2001. No mesmo período, a presença de alunos das classes D e E também saltou de 20% para 52%, evidenciando uma clara mudança de perfil socioeconômico dos discentes.

 

Para além das cotas, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se um mecanismo importante de democratização, pois permite que estudantes de qualquer região e condição socioeconômica concorram às vagas de forma padronizada [4]. Já o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) unificou os processos seletivos e reduziu custos e dificuldades de acesso (como pagar vestibulares ou viajar para prestar provas em diferentes estados). Isso ampliou a mobilidade e equidade no acesso [5]. Tudo isso somado mudou a cara da universidade pública brasileira e há muitos dados atestando a democratização alcançada [6].

 

PIERRE BOURDIEU E O CAPITAL SIMBÓLICO

O problema é que quando o acesso de todos a uma coisa fica mais fácil, para as elites essa coisa perde a graça. Isso porque, como lembra o antropólogo Michel Alcoforado, a identidade dos ricos se dá, dentre outros modos, pelo afastamento dos não ricos [7]. A elite está sempre a buscar e reinventar mil e uma formas de se distinguir das classes mais baixas em seus hábitos, consumos e territórios. Aqui é fundamental entender o conceito de capital simbólico, conforme ele é trabalhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu [8]. Capital simbólico é o prestígio, reconhecimento, honra ou legitimidade social que uma pessoa, grupo ou instituição possui, ou seja, aquilo que é socialmente valorizado e reconhecido como importante ou respeitável.

 

Esse capital simbólico será comunicado pelos ricos por meio da arte, dos lugares frequentados e, principalmente, dos bens de consumo. Um tipo de relógio ou uma marca de roupa têm potencial para que ricos mostrem o quanto são ricos. Por sua vez, a classe média, que sempre tenta imitar os ricos e parecer ter mais do que realmente tem, na medida em que se apropria desses itens, altera o potencial de capital simbólico desses itens, fazendo com que os ricos percam o interesse neles. E os ricos tentam sempre deter a cópia. É um verdadeiro jogo de gato e rato: uma marca identificada como de elite, se muito pirateada, copiada, adquirida pela classe média, é deixada de lado por essa elite, que logo abraça outra marca.

 

O mesmo pode ser observado em relação a locais públicos. O mercado da aviação civil passou por uma certa popularização no Brasil das últimas duas décadas e com isso os voos ficaram mais acessíveis. Não demorou para a elite começar a reclamar que os aeroportos estavam parecendo rodoviárias, como nos lembra Alcoforado em entrevista. Para os ricos, a fronteira precisa estar bem demarcada. Até em nossos próprios corpos. Com a magreza mais acessível nos últimos anos, por conta das novidades farmacêuticas, os braços tonificados, esculpidos por uma rotina de academia, vêm se tornando um novo padrão de beleza [9]. Os músculos se tornam um veículo de capital simbólico que comunica controle do tempo e um uso do tempo voltado para o autocuidado, para a vida fitness. Esse uso do tempo é mais fácil para uma pessoa da elite e mais difícil para um(a) trabalhador(a) comum, que enfrenta horas de trânsito para ir e voltar de seu trabalho presencial, por exemplo. Assim o físico fitness vira símbolo de status, como resume a colunista de moda Ilca Maria Estevão:

 

Quando um padrão de beleza antes considerado inalcançável se populariza, é comum que outro surja em seu lugar. Em resposta à chamada “democratização” do corpo magro, ganharam protagonismo os braços tonificados (...). A frase “nem todo mundo tem as mesmas 24 horas” ajuda a traduzir o impacto visual que a estética fitness busca comunicar: mais do que força física, ela sinaliza disponibilidade, organização e acesso a recursos que permitem transformar o corpo em um projeto contínuo.

 

As tatuagens são um outro exemplo de como o capital simbólico pode ser acionado na demarcação de fronteiras entre ricos e pobres nos corpos. Na medida em que as tattoos se popularizam, os ricos tentam manter um corpo mais clean [10]. Criar cancelas em ruas, quarto de empregada, elevador social, inventar camarotes vips, ultra vips, super ultra vips... Tudo isso faz parte da demarcação de fronteiras para evidenciar as diferenças.

 

E NO ENSINO SUPERIOR?

Com o ensino superior ocorre o mesmo. Por muitos anos a universidade pública brasileira teve um perfil elitizado. Luiz Augusto Campos nos lembra do período da ditadura civil-militar com seu projeto desenvolvimentista, dentro do qual cabia às universidades a formação de uma elite altamente qualificada e, por meio dos vestibulares, selecionava-se os “melhores” estudantes, com potencial para se tornarem os “melhores” profissionais do mercado [11]. Justamente por ser voltado em grande medida para uma elite é que o ensino superior gratuito construiu um capital simbólico atraente para os ricos e para a classe média que se inspira nos ricos. Como lembra Alcoforado, sobre sua própria experiência:

 

Minha mãe me botou numa escola no Rio porque ela estava preocupada se aquela escola aprovava no vestibular. Porque naquele tempo era um ativo importante para a classe média estudar na universidade pública

 

Mas se as elites não se interessam mais como antes pela universidade pública, basta apenas que as classes populares usufruam dos serviços numa boa e na santa paz, certo? É aí que mora o problema. Quando as elites se afastam, a tendência é que o serviço se precarize, perca investimentos. Isso porque o estado brasileiro é fortemente cooptado por uma elite dirigente. Os interesses dos mais ricos se fundem com os interesses do estado. Vimos algo parecido com o ensino público em geral, ao longo de décadas, e o mesmo processo está em curso atualmente no ensino superior. É o que aponta Alcoforado:

 

A elite brasileira durante muito tempo viu a educação pública, sobretudo o ensino superior, como um valor. E aí quando a gente faz a política de cotas e coloca gente com outras origens e trajetórias sociais dentro da universidade, toda a elite brasileira agora manda filho para estudar fora. E a gente já viu esse ciclo na sociedade brasileira inúmeras vezes: quando a elite sai dos espaços, esses espaços perdem investimento, perdem reputação, perdem relevância”.   

 

Portanto, as críticas de Túlio Maravilha e sua família às universidades públicas não são uma reação direta e objetiva à precarização. Na verdade, o menosprezo das elites ao ensino superior gratuito e a precarização desse serviço se retroalimentam. Vale lembrar que apesar das críticas, o ensino superior gratuito ainda é referência e de qualidade, se comparado com o que é oferecido por grande parte das instituições privadas, e as universidades públicas respondem pela maior parte da produção científica do país. Também é importante lembrar que a universidade pública ainda tem prestigio no Brasil. Apesar de tudo que foi dito no vídeo, a família maravilha destacou que a filha passou em duas universidades públicas. Algo que foi considerado um feito relevante e digno de se tornar público. 

 

Que Tulianne tenha uma passagem de sucesso e proveitosa pela universidade que escolher. E cabe às classes populares a luta contínua em defesa da universidade pública de qualidade. Democrática e também de qualidade. Uma luta que está inserida em lutas mais amplas: pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país e pela educação de forma geral.     

 

Referências:

[1] Túlio Maravilha explica por que impediu filha de estudar na UFRJ

https://www.metropoles.com/colunas/fabia-oliveira/tulio-maravilha-explica-por-que-impediu-filha-de-estudar-na-ufrj

 

[2] O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política

https://apatria.org/o-que-e-um-professor-doutrinador-para-o-bolsonarismo-guerra-cultural-e-panico-moral-como-estrategia-politica/

 

[3] Estudo mostra como cotas impulsionaram o acesso às universidades públicas

https://www.andifes.org.br/2025/05/23/estudo-mostra-como-cotas-impulsionaram-o-acesso-as-universidades-publicas/

 

[4] O Enem das universidades

https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/enem-2021-a-porta-de-acesso-ao-ensino-superior/

 

[5] Sisu impulsiona inclusão nas universidades públicas

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/sisu-impulsiona-inclusao-nas-universidades-publicas

 

[6] 10 mitos sobre a universidade pública no Brasil

https://jornal.usp.br/universidade/10-mitos-sobre-a-universidade-publica-no-brasil/

 

[7] Entrevista de Michel Alcoforado sobre seu livro “Coisa de Rico”

https://open.spotify.com/episode/56Jl8rCHthB5JFhgKEwln1?si=0Le8xHT3RKChxIfWlMvEHg&nd=1&dlsi=05f467cddba74982

 

[8] Pierre Bordieu | Resumo | Saiba o essencial

https://www.youtube.com/watch?v=enC1fguq-Fg&t=2559s

 

[9] Corpos magros dão lugar a braços tonificados como símbolo de status

https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/corpos-magros-dao-lugar-a-bracos-tonificados-como-simbolo-de-status

 

[10] Tatuagem virou coisa de pobre?? Sobre laser, desvalorização e mudanças na profissão

https://www.youtube.com/watch?v=ZNKse-lF1i0

 

[11] Mensalidade não é solução para universidade pública

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/post/2022/05/mensalidade-nao-e-solucao-para-universidade-publica.ghtml


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Lula, Bolsonaro e o ensino superior: pobre pode estudar em universidade?

 


Desinformação atribui ao presidente uma visão elitista da educação que mais se assemelha às falas de lideranças bolsonaristas

 

Circulou na última semana um corte de uma fala do presidente Lula afirmando que pobre não precisa estudar e que só nasceu para trabalhar. A fala foi retirada de um discurso feito por ele na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira (16) [1]. O corte, de poucos segundos e retirado do contexto geral do discurso, circulou principalmente em bolhas informacionais de direita e extrema direita e faz parecer que Lula, de fato, possui uma visão elitista sobre a educação e defende que pobres não devem estudar e sim se conformar em ser mão de obra barata. O deputado federal Kim Kataguiri (Missão/SP) foi uma das figuras políticas a compartilhar a desinformação [2]. Nessa versão curta e fora de contexto, ouve-se o presidente dizer o seguinte:

 

Pobre não precisa estudar, porra! Vocês nasceram só para trabalhar. Será que a gente não percebe isso? Será que vocês não percebem? Pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar. Estudar é para filho de rico, que pode estudar na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha.

 

Essa fake news de que Lula defende que pobre não estude foi desmentida por alguns dos principais veículos de checagem de informação (fact-checking) [3]. Conforme explicado pelo site Boatos.org, o que o presidente de fato faz em seu discurso é uma crítica histórica ao pensamento das elites brasileiras sobre educação. Um pensamento que remonta a tempos antigos em nosso país. Na perspectiva dessa elite, a educação não deve ser democratizada e pobres não precisam estudar, mas apenas trabalhar. E esse é o tipo de pensamento que atrasou a criação de universidades no país.

 

O que Lula faz em seu discurso na Casa da Moeda é, portanto, uma ironia e uma denúncia contra esse tipo de pensamento elitista. Para isso ele se vale da paráfrase desse pensamento que critica. É desnecessário explicar o que é uma ironia, mas vale ressaltar que na paráfrase alguém fala ou escreve, com suas próprias palavras, mas tentando manter o sentido original defendido por uma outra pessoa, o que não significa concordar com o que essa outra pessoa defende. E no caso de Lula, é exatamente o contrário. Fica fácil de entender assistindo a um vídeo mais amplo do discurso [4]. O que Lula diz é o seguinte:

 

A primeira universidade feita nesse país foi em 1920. O Brasil foi descoberto em 1500. A República Dominicana foi descoberta em 1498 pelo Colombo. Trinta e dois anos depois do Colombo chegar lá, a República Dominicana já tinha universidade. E aqui demorou 420 anos para fazer a primeira universidade. Por que será que acontecia isso? É porque Pobre não precisa estudar, porra! Vocês nasceram só para trabalhar. Será que a gente não percebe isso? Será que vocês não percebem? Pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar. Estudar é para filho de rico, que pode estudar na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha, em qualquer lugar.

 

Mas aqui não, aqui nós temos que ser cortador de cana, fazedor de prédio… As pessoas adoravam dizer: ‘Ah, como é bom nordestino, ele sabe trabalhar na construção civil’. A gente não quer ser só servente de pedreiro. Se bem que é uma profissão muito valiosa, mas a gente também quer ser engenheiro, a gente quer ser doutor, a gente quer ser médico, a gente quer ser professor. E o que é preciso fazer? O que precisa fazer é dar oportunidade. Não é o governo que faz, a gente abre a porta para as pessoas passarem. A gente abre as portas.

 

O que Lula faz, portanto, é a defesa da democratização do acesso à educação, mais especificamente do ensino superior, para formar engenheiros, médicos, professores etc. Para que essa democratização se concretize, é fundamental o acesso das camadas mais populares às universidades. Exatamente o contrário do que o corte descontextualizado disseminado pela extrema direita tenta fazer parecer que foi dito.

 

Sequer é a primeira vez que esse tipo de desinformação – explorando uma crítica feita por meio de paráfrase e fazendo-a parecer concordância com a ideia parafraseada – é feita. No início de 2023 circulava pela internet um corte de vídeo de uma fala de Lula feita no ano anterior, em um discurso realizado na PUC-SP, no qual Lula também defendeu a democratização do acesso à educação como forma de garantir oportunidades aos mais pobres e pessoas negras. Um corte de apenas poucos segundos, no entanto, tentava levar a crer que Lula defendia exatamente o contrário. Naquele corte Lula dizia que "pobre não tem que aprender, pobre tem que trabalhar" e "negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. Lula estava exatamente retratando e, principalmente, criticando o pensamento escravista da elite brasileira, que se arrasta no país há séculos, mesmo bem depois da abolição. Também naquela ocasião, tudo foi esclarecido por veículos de jornalismo profissional [5].

 

O DISCURSO DO GOVERNO BOLSONARO SOBRE O ENSINO SUPERIOR

O curioso é que esse tipo de desinformação, que descontextualiza falas de Lula sobre universidades fazendo parecer que ele reproduz a ideia elitista de que pobre tem é que trabalhar e não estudar, encontra solo fértil em uma extrema direita em geral alinhada ao bolsonarismo. E isso é curioso pois é justamente Bolsonaro e alguns integrantes de seu governo (2019-2022) que por diversas vezes deram declarações que soam elitistas sobre acesso a universidades e democratização do conhecimento.

 

No artigo “Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:  uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro”, o assunto é apresentado em detalhes [6]. Nele são analisadas diversas declarações de Bolsonaro e seus ministros. Ainda durante o processo eleitoral, em agosto de 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro disse que os jovens brasileiros têm "tara" pelo diploma superior e que seria melhor se muitos deles buscassem o ensino profissionalizante para atuar em funções como técnico em conserto de eletrodomésticos e mecânico de automóvel [7]. Vejamos a fala:

 

Há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma. É importante? Sim. Eu fiz, como tenente do Exército, curso de máquina de lavar roupa e de geladeira, aqui em Madureira. Te garanto (...): se hoje em dia quiser viver disso, eu vou ganhar no mínimo uns 12 mil por mês (...). Então essa tara por diploma superior não pode existir. É bom? Sim, vamos ter nossos mestres, nossos doutores, sim. Mas se você no Ensino Médio colocar algo técnico, você melhora nossa economia.

 

Diferentemente da fala de Lula, que ressalta a importância de pobres se formarem engenheiros, médicos etc, Bolsonaro desencoraja a procura pelo curso superior. De forma ainda mais clara, ministros da Educação do governo Bolsonaro desencorajaram as classes populares a buscarem as universidades. Ricardo Vélez Rodrigues, logo em seu primeiro mês de exercício, em janeiro de 2019, declarou que “a ideia de universidade para todos não existe” [8]. Para o então ministro, “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”. Entretanto, sabemos muito bem que, na prática, a elite econômica se passa também como elite intelectual, com melhor acesso à cultura, a boas escolas e a cursos preparatórios para o Enem.

 

Ainda para Rodrigues, um bacharel em direito que está dirigindo Uber perdeu seis anos estudando legislação por nada, como se necessariamente fosse atuar como motorista por toda a vida. Como se nunca mais fosse surgir alguma outra oportunidade, quem sabe, na própria área de formação (e por que não?). Outro dos ministros da Educação de Bolsonaro, o professor e pastor Milton Ribeiro, também afirmou que as universidades devem ser “para poucos”, reforçando a visão do governo bolsonarista de que o ensino público superior não precisa ter o compromisso de democratizar o seu acesso. Se alguém com formação superior se vê com dificuldades de inserção no mercado e, transitoriamente, precisa dirigir carro de aplicativo, para Ribeiro esse alguém perdeu tempo à toa na faculdade. É como se a pessoa estivesse fadada a ser motorista de aplicativo até morrer ou se aposentar (se conseguir se aposentar!), só porque, ocasionalmente, pegou esse serviço.

 

Tem muito engenheiro ou advogado dirigindo Uber porque não consegue colocação devida. Se  fosse um técnico de informática, conseguiria emprego, porque tem uma demanda muito grande (...). Universidade deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade.

 

É bem verdade que em certos casos recorrer a um curso técnico pode ser uma opção melhor e de retorno mais rápido para alguém de classe baixa. O problema é quando gestores públicos usam a opção do curso técnico em detrimento do curso superior, de modo a desencorajar o acesso à faculdade e de forma descompromissada com a democratização do acesso ao ensino superior. Além disso, pesquisas recentes apontam que, apesar das dificuldades do mercado de trabalho, o diploma de curso superior tem relevância no aumento da remuneração. A OCDE levantou no ano passado que, no Brasil, quem tem curso superior em média ganha mais que o dobro de quem estudou até o ensino médio [9]. Outra pesquisa recente, do IBGE, aponta que os profissionais sem curso superior embolsaram apenas 34,6% do que ganham aqueles com o diploma [10].

 

Mesmo diante das pesquisas, algumas lideranças da direita e extrema direita insistem em desvalorizar o ensino superior em seus discursos. É o caso de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que disputa protagonismo no cenário político nacional junto aos eleitores bolsonaristas. Às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no ano passado, Tarcísio afirmou que “o diploma cada vez tem menos relevância” [11].

 

Então, diante da pergunta “pobre pode estudar em universidade?”, as respostas do governo Lula e do governo Bolsonaro são distintas. Enquanto Lula reforça a ideia de uma universidade para todos, Bolsonaro e seus apoiadores minimizam a importância da democratização do acesso e defendem uma universidade para poucos. Um discurso elitista que vê a educação como uma peça de manutenção das desigualdades vigentes e desconsidera o papel relevante das políticas públicas na transformação da sociedade e da vida das pessoas. Principalmente da vida de jovens pobres que podem ter no curso superior uma porta aberta para ascensão social.

 

Por tudo isso, soa curioso e principalmente hipócrita que um corte de vídeo fora de contexto tente atribuir a Lula, de forma crítica, uma visão elitista de educação que muito mais se assemelha às falas do campo bolsonarista.      

 

Referências:

[1] Em evento na Casa da Moeda, Lula diz que salário mínimo ‘é muito pouco’ e ‘todos empresários podem pagar mais’

https://noticias.r7.com/brasilia/em-evento-na-casa-da-moeda-lula-diz-que-salario-minimo-e-muito-pouco-e-todos-empresarios-podem-pagar-mais-16012026/       

 

[2] Kim Kataguiri publica um short em seu canal com a fala descontextualizada de Lula

https://www.youtube.com/shorts/dvUGjH9qKSs

 

[3] É falso que Lula defenda que pobre não precisa estudar e deve apenas trabalhar

https://www.boatos.org/politica/lula-defende-que-pobre-nao-precisa-estudar-tem-que-trabalhar-em-evento-na-casa-da-moeda-em-2026.html

 

[4] Presidente Lula faz críticas à falta de oportunidades na universidade e cita os mais pobres

https://www.youtube.com/watch?v=vLxXAa07XMk

 

[5]

Fala de Lula sobre educação para pobres e negros é retirada de contexto

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/lula-negros-pobres-nao-devem-estudar/?srsltid=AfmBOopNMqPJOh0AE58nmKMsPM3JXEyyJOJ75JLIrI7nkpdipahoaXbq

 

'Pobre não tem que aprender': fala de Lula é retirada de contexto

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2023/01/13/fala-de-lula-fora-de-contexto-pobre-nao-tem-que-aprender.htm

 

[6] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior: uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[7] Bolsonaro diz que jovem brasileiro tem "tara" por formação superior

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/agencia-estado/2018/08/28/bolsonaro-diz-que-jovem-brasileiro-tem-tara-por-formacao-superior.htm

 

[8] “Ideia de universidade para todos não existe”, diz ministro da Educação.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2019/01/28/ideia-de-universidade-para-todos-nao-existe-diz-ministro-da-educacao.ghtml

 

[9] Diploma de ensino superior pode mais que dobrar salário no Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-09/ensino-superior-no-brasil-pode-mais-que-dobrar-salario

 

[10] Brasileiro sem ensino superior ganha três vezes menos, diz IBGE

https://www.metropoles.com/brasil/brasileiro-sem-ensino-superior-ganha-tres-vezes-menos-diz-ibge

 

[11] O discurso anti-diploma de Tarcísio serve a quem?

https://vermelho.org.br/2025/11/17/o-discurso-anti-diploma-de-tarcisio-serve-a-quem/

 


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Malês, o filme: protagonismo negro na luta contra a escravidão

 


Considerada a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil, Revolta dos Malês está nas telas dos cinemas

 

Mais uma vez o cinema nacional produz uma obra relevante para lançar luz sobre um episódio da história do Brasil. Neste caso, a Revolta dos Malês, um levante de negros escravizados ocorrido em Salvador (BA), em 1835. Dirigido por Antônio Pitanga, que também atua no papel do líder religioso Pacífico Licutan, de importância central na revolta, o filme Malês estreou nos cinemas no dia 2 de outubro e segue em cartaz. O roteiro é de Manuela Dias, e o elenco traz nomes como Camila Pitanga, Rocco Pitanga, Patrícia Pillar e Rodrigo de Odé.

 

Episódio importante das revoltas do período regencial (1831-1840), a Revolta dos Malês por muitos anos esteve ofuscada dentro da historiografia nacional e teve seus efeitos políticos pouco discutidos, quando comparada a outros conflitos da época, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Guerra dos Farrapos. Trata-se no entanto do movimento que é considerado a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil [1]. O resgate histórico dos Malês, que agora chega ao audiovisual, é fruto de pesquisas e concepções desenvolvidas nas últimas décadas que compreendem o protagonismo negro no processo histórico que levou ao fim da escravidão no país.

 

Mas o dimensionamento da Revolta dos Malês dentro da historiografia é controverso. Se por um lado, ela não teve o mesmo espaço que demais conflitos do período regencial, por outro, há outras revoltas de escravos, inclusive na Bahia, que foram mais numerosas, mais intensas e não são tão estudadas.

 

— A Revolta dos Malês é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas provocados pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que no Recôncavo – explica o historiador João José Reis, importante pesquisador do tema [2]. 

 

A narrativa de Malês começa na África, com a celebração do casamento entre Dassalu (Rocco Pitanga) e Abayome (Samira Carvalho). Assim como muitos africanos ao logo da história, eles são capturados por um grupo rival e trazidos à força para o Brasil. Em terras brasileiras, tribos e etnias que rivalizavam entre si no continente africano sofrem o mesmo processo de desumanização e apagamento das raízes culturais, generalizadas como “negros” e subjugadas à condição de escravizados. O filme mostra um esforço de união entre esses diferentes grupos e de superação dessas diferenças em prol da luta pela liberdade. A maioria dos participantes da revolta era de nagôs e haussás, mas outros grupos étnicos também participaram, inclusive alguns negros libertos. A palavra “malês” utilizada para nomear o acontecimento é derivada de “imalê”, que no idioma iorubá significa “muçulmano”.

 

O processo de desumanização e apagamento das raízes é muito bem retratado no filme, no drama pessoal de vários personagens, como Ahuna (Rodrigo de Odé). Personagem histórico apontado como um dos líderes da revolta, Ahuna tem o respeito de seus pares escravizados, que enxergam suas raízes e história trazidas da África, ou seja, reconhecem quem ele verdadeiramente é. Para sobreviver, Ahuna precisa, no entanto, encarnar um papel de escravo submisso que lhe foi imposto numa ordem escravagista. Ordem personificada principalmente na figura da senhora de escravos interpretada por Patrícia Pillar. Em um dado momento, exausto, Ahuna diz a sua senhora que o negro escravizado que ela conhece não existe dentro dele próprio. Não corresponde a quem ele verdadeiramente é.

 

Aliás, uma particularidade que faz de Malês uma obra complexa é a construção das personagens femininas brancas. Com essa construção, a obra se afasta de um possível clichê que seria a culpabilização exclusiva do “homem branco malvadão”. Sim, eles existem e não poderia ser diferente. Mas as figuras femininas são bem mais atemorizantes. A senhora de escravos e a freira (Ítala Nandi) lançam olhares ameaçadores aos negros enquanto carregam artefatos de tortura e castigo. Elas nos fazem pensar no quanto algumas mulheres eram (e ainda são, em boa medida) alinhadas, beneficiárias e perpetradoras da ordem vigente.     

 

A boa elaboração dos figurinos e cenografia ajuda-nos a fazer uma imersão à Bahia escravagista do século 19. De forma sagaz, a fotografia evita o uso de planos mais amplos, o que poderia comprometer essa caracterização. Também chama a atenção o sotaque de alguns personagens, os modos diversos de falar que coabitam naquela Salvador. A preparação de elenco foi parte importante da produção e incluiu mentoria aos atores para eles aprenderem um pouco de árabe e a falar um português mais próximo ao dos escravizados [3]. As formas diferentes de falar reforçam a diversidade existente no movimento, ainda que ele tenha sido liderado por negros muçulmanos.

 

Aqui entram outros elementos importantes no filme e que também ajudam a entender a Revolta dos Malês enquanto acontecimento histórico: o papel relevante da escrita e da leitura (em árabe) na organização do levante. O peso da cultura e da religião islâmica também foi significativo. A narrativa se concentra bem mais na organização da revolta do que propriamente no conflito armado. Isso pode ser explicado por questões orçamentárias da obra ou porque, de fato, a Revolta dos Malês durou apenas a noite de 25 de janeiro de 1835. O planejamento foi prejudicado por causa de uma delação, e a ação precisou ser antecipada, o que comprometeu a efetividade da insurgência.

 

Ainda assim, aquela rebelião marcou a história da escravidão no Brasil, mostrando aos senhores de escravos que se foi possível uma rebelião daquela proporção acontecer, outras mais seriam possíveis. Por todo Brasil, o medo de novas rebeliões se espalhou. Além disso, a Revolta dos Malês deixou um legado na historiografia brasileira no sentido de contribuir para o entendimento de que a abolição da escravidão foi resultado de um acúmulo de longo prazo de lutas protagonizadas pelos próprios negros, e não simplesmente da dádiva concedida por aristocratas benevolentes.

 

- Onde houve escravidão, houve resistência. No Brasil os escravizados se revoltavam a todo momento. Exemplos como a Revolta dos Malês dão a tônica de que o negro brasileiro e os africanos enviados ao Brasil resistiram à escravidão desde os primeiros navios negreiros que aqui chegaram. Desde 1570 há informações dos primeiros quilombos, de revoltas de quilombos, de escravizados, de fugas individuais e coletivas. O legado dos Malês é nos fazer entender o século 19 como um longo caminho para a abolição – explica o professor e historiador Danilo Luiz Marques [4].  

 

O drama dos castigos físicos é retratado com crueza no filme. Também chamam a atenção os estupros praticados contra mulheres negras. Assim, o filme ressalta toda a dor – física e psicológica – que a escravidão impôs aos negros, o que deixou cicatrizes até os dias de hoje. A escravidão é um dos fatores estruturantes da ordem social brasileira, influenciando até a atualidade na composição étnica das classes sociais, nas relações do mercado de trabalho etc.

 

Para quem quiser saber mais sobre a Revolta dos Malês, duas obras bastante influentes são Rebeliões da Senzala, de Clóvis Moura [5], e Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835, de João José Reis [6]. Outro livro que merece uma conferida é Malês 1835: negra utopia, de Fábio Nogueira [7]. O Portal Vermelho também abordou o tema algumas vezes, destacando a coragem e o protagonismo dos malês na luta pela liberdade [8].    

 

Referências:

[1] Revolta dos Malês completa 190 anos sob resgate histórico de levante negro que abalou Bahia

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/01/revolta-dos-males-completa-190-anos-sob-resgate-historico-de-levante-negro-que-abalou-bahia.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=fbfolha&fbclid=IwY2xjawNQlfJleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFxalFpakZzUEo5YVVCWUhUAR7Qojif_WSiTOiDIDjEQQASOm5jSIQDLdFSUqtYM1QrMAeTprDLMazfevmRWQ_aem_jFVT0FX1OE9ROjrMj02XTw 

 

[2] Revolta dos Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/revolta-dos-males-revista-em-textos-de-escravos-de-jornais-da-epoca-15015704

 

[3] “Malês”: novo filme de Antônio Pitanga tem pré-estreia na USP

https://jornal.usp.br/diversidade/males-novo-filme-de-antonio-pitanga-tem-pre-estreia-na-usp/

 

[4] Revolta dos Malês: a rebelião de escravizados que abalou Salvador

https://www.youtube.com/watch?v=YmA2BKvElhU&t=1s

 

[5] Rebeliões da Senzala (Clóvis Moura)

https://museudehistoriadopiaui.ufpi.edu.br/acervo/livros/livros-sobre-o-piau%C3%AD/intelectuais-piauienses/cl%C3%B3vis-moura

 

[6] Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835

https://pdfcoffee.com/rebeliao-escrava-no-brasil-a-historia-do-levante-dos-males-em-1835-by-joao-jose-reis-pdf-free.html

 

[7] Malês 1835: negra utopia

https://flcmf.org.br/males-1835-negra-utopia/

 

[8]

A revolta dos Malês: O levante e o heroísmo dos protagonistas

https://vermelho.org.br/2018/01/24/a-revolta-dos-males-o-levante-e-o-heroismo-dos-protagonistas/

 

Malês: a revolta que ousou pôr fim a escravidão e conquistar a liberdade

https://vermelho.org.br/coluna/males-a-revolta-que-ousou-por-fim-a-escravidao-e-conquistar-a-liberdade/