Um perfil no Twitter chamado Azusagakuyuki tinha seus
milhares de seguidores no Japão. Era de uma menina jovem e bonita, de
aparentemente uns 20 anos no máximo, que mostrava fotos de uma rotina de
cuidados com sua motocicleta e de suas viagens a bordo do veículo pelo país.
Entretanto alguns seguidores começaram a observar estranhezas em algumas dessas
fotos, como um braço peludo aqui, um reflexo no espelho que não se assemelhava
ao rosto da menina ali.
Até que um programa da TV japonesa revelou a farsa. O perfil
Azusagakuyuki na verdade pertencia a um homem de 50 anos chamado Zonggu, que
admitiu usar aplicativos de edição de fotos para criar o alter ego de uma bela
jovem. A explicação dele era simples: queria aumentar sua popularidade nas
redes sociais e constatou que as pessoas preferem ver uma "bela mulher
mais jovem" do que um homem mais velho. "Ninguém quer ver o que um
homem normal de meia-idade, que cuida de sua motocicleta e tira fotos, posta em
sua conta", disse Zonggu [1].
O tiozão motociclista afirmou ter ficado surpreso com os
resultados da edição em aplicativos que o tornou uma jovem mulher em seus
posts. "Primeiro experimentei, e logo ficou bem legal. Agora eu consigo
até 1.000 curtidas, enquanto antes costumava ter menos de 10" em cada
foto, ele contou. Não estamos falando de uma diferença pequena e irrelevante em
termos de engajamento e audiência. De menos de 10 curtidas para 1.000 curtidas
há um fosso abissal escalado.
Capitalismo estético
de plataforma
À primeira vista pode não chamar a atenção, mas há alguma
relação entre o caso do influenciador japonês e a morte do fisioculturista
brasileiro Gabriel Ganley e essa relação pode ser pensada dentro do conceito de
capitalismo estético de plataforma. Não se trata ainda de um conceito
consolidado e amplamente popularizado. Quando falamos sobre capitalismo
estético de plataforma, estamos na convergência de algumas linhas de pesquisa
de outros conceitos semelhantes, como capitalismo de vigilância ou capitalismo
de plataforma.
Em linhas gerais, capitalismo estético de plataforma é a
ideia de que plataformas digitais (como redes sociais, aplicativos e
marketplaces) transformam a aparência, a imagem e a apresentação de si em
recursos econômicos. As plataformas incentivam as pessoas a produzir imagens
atraentes de si mesmas. Mas esse incentivo não fica restrito ao corpo e à corpolatria.
Ele se aplica a estilos de vida, casas, viagens etc. A visibilidade e a atenção
viram uma forma de valor econômico. A estética deixa de ser apenas uma questão
de gosto e passa a influenciar oportunidades de trabalho, consumo, status e
renda.
Talvez você tenha notado que muito desse estado de coisas
não é exatamente uma novidade. E de fato não é. Mas assim como um recente
artigo da colunista Natalia Beauty, publicado na Folha de São Paulo, ao abordar
a contratação pela Globo da influencer Virgínia Fonseca para comentar a Copa,
nos lembra que as redes sociais desnudaram um mundo em que atenção e audiência
se sobrepõem a certificado e experiência [2], podemos dizer que as redes
sociais e mídias/tecnologias digitais em geral aceleraram e hipertrofiaram um
tipo de estetização da vida. Algoritmos tendem a recompensar conteúdos
visualmente mais atraentes, ampliando essa lógica.
Comparativamente, enquanto no capitalismo industrial o valor
vinha principalmente da produção de bens, no capitalismo estético de
plataforma, parte crescente do valor vem da capacidade de gerar atenção por
meio de imagens, narrativas e performances pessoais dentro das plataformas. O
capitalismo estético de plataforma é um sistema em que a aparência e a
capacidade de atrair atenção nas plataformas digitais se tornam ativos
econômicos.
Alguns autores importantes para a compreensão do conceito e
de seu contexto são Shoshana Zuboff, Eva Illouz e Gilles Lipovetsky. Este
último, em sua obra “A estetização do mundo: viver na era do capitalismo
artista” [3], juntamente com Jean Serroy, argumenta que o capitalismo
contemporâneo passou a incorporar a estética em praticamente todos os setores
da vida econômica: produtos, marcas, arquitetura, consumo, entretenimento,
comunicação e experiências. A beleza, o design, a sedução visual e a
experiência sensorial tornam-se elementos centrais da geração de valor. E um
dos principais desses elementos geradores de valor é a aparência física, o corpo.
Quem foi Gabriel
Ganley?
Gabriel Ganley morreu no último dia 23 de maio, aos 22 anos.
Um laudo provisório do IML apontou que ele teve uma morte súbita provocada por
um problema cardíaco. Com 1,5 milhão de seguidores no Instagram, o
fisioculturista fazia sucesso mostrando seu cotidiano fitness nas redes sociais,
como rotina de treinos, competições e participações em eventos. Inicialmente,
Ganley ficou conhecido como “Bebezinho Natural”, por ser bem jovem, cara de
menino e por defender uma rotina de treinos sem hormônios. Ou seja, até então
ele não usava anabolizantes.
Mas em 2025 Ganley dá um novo rumo a sua carreira, passa a
usar hormônios e assume isso publicamente. Em um vídeo junto com Léo Stronda,
fisioculturista e influenciador que divulga o uso de anabolizantes, Ganley
recebe uma injeção aplicada por Stronda. Era uma espécie de batismo ou rito de
passagem. Ali ficava claro que ser natural não era mais o suficiente. A
performance estava exigindo aditivos.
Dias após a morte de Gabriel Ganley, o Fantástico exibiu uma
matéria ouvindo algumas pessoas do círculo social do fisioculturista [4].
Embora a ênfase da reportagem, assim como tantas outras sobre o caso, tenha
sido alertar sobre os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes no mundo do
fisioculturismo, os depoimentos apresentados apontam para as redes sociais e a
disputa acirrada dos influenciadores dentro da economia da atenção. Um dos
amigos de Ganley disse que alguns influenciadores fitness “têm que fazer algo
que normalmente não fariam para alcançar o que querem. Porque no final, tudo se
resume à audiência". A ex-namorada do rapaz afirmou que “ele tinha o sonho
de trabalhar com internet e de ser um grande atleta”. E um ex-treinador de
Ganley chamou a atenção para o peso e responsabilidade da audiência: “quantas
pessoas deram like nisso? Quantas pessoas endossaram isso? Essa é a resposta
para o resultado que aconteceu”. A própria reportagem trata Ganley como um “fenômeno
dos músculos e das redes sociais”.
Obviamente a banalização do uso de anabolizantes é um
problema. A venda legal de testosterona - um dos hormônios mais usados como
anabolizante - bateu recorde em 2025. Nos últimos sete anos, teve um aumento de
mais de 700% [5]. Mas o uso saiu dos bastidores e passou a ser defendido
desavergonhadamente nas telas. Todo o caminho que levou Gabriel Ganley à morte
também foi exibido nas telas. Até as preocupações com os efeitos colaterais
foram expostas por Ganley, que apesar disso não teve tempo para rever sua opção
pelo uso de hormônios e quem sabe escapar. E em que medida a corpolatria
alimentada pelos posts e telas digitais incentiva esse aumento do uso de bomba?
Antigas expectativas
Lembro-me quando as redes sociais ainda eram uma novidade e
havia expectativas bem positivas em relação à internet. Inclusive da minha
parte. Particularmente, olhando a posteriori, identifico que eu tinha duas
esperanças (ainda que elas não estivessem muito claras na época em minha
cabeça). A primeira era a de que as redes sociais, enquanto uma arena de
disputa e contraposição de ideias, favoreceriam as melhores ideias e os
melhores argumentos, que prevaleceriam pela lógica e pela razão.
A outra era menos coletiva e mais pessoal. Eu esperava que
as redes sociais ampliassem meu capital social. Para um adolescente e jovem
escanteado, quase invisível, desprovido de beleza, magricelo e tímido, as redes
sociais pareciam um caminho aberto para conhecer garotas e para que as ideias
chegassem antes da aparência física. Parecia ser possível romper a barreira da
aparência que me limitava, me apequenava, e ir além.
Ledo engano. As redes sociais aos poucos consolidaram a
primazia da aparência, da estética e da performance. Alguém que cresceu exposto
às redes sociais talvez nunca compreenda as minhas expectativas ingênuas, a
minha visão romântica. Mas eu não estava sozinho. Toda uma geração que chegou a
viver o analógico criou expectativas românticas sobre as redes digitais,
incluindo alguns teóricos da comunicação e áreas afins.
É fácil compreender o que se passou na cabeça de Zonggu. Ele
entendeu que seu conteúdo sobre mecânica e viagem de motocicleta não engajava
pelo mérito intrínseco. Importava muito mais que esse mérito quem estava
postando. No caso, uma mulher jovem obtinha mais engajamento e audiência do que
um homem de meia-idade na exibição de um mesmo conteúdo.
De forma parecida, o caso Gabriel Ganley é exemplo de uma
combinação química e social explosiva entre hormônios fornecidos pelas bombas e
dopamina fornecida pelas redes sociais. E claro, acrescenta-se o dinheiro ao
caso de Gabriel, que, apesar de observar os efeitos colaterais em sua saúde,
também afirmava que sua vida tinha melhorado, com mais dinheiro, mais
audiência. Infelizmente, a suposta melhora resultou também no encurtamento de
sua vida.
Referências
[1] FaceApp: 'Ninguém quer ver homem de meia idade com uma
moto', diz japonês que se passou por garota nas redes
https://www.bbc.com/portuguese/geral-56491713
[2] Virgínia na Copa revela que atenção vale mais que
diploma
[3] A estetização do mundo: viver na era do capitalismo
artista
[4] Gabriel Ganley recebeu aplicação de anabolizante de Léo
Stronda em vídeo nas redes; influenciador diz estar arrependido
[5] Morte de Gabriel Ganley acende alerta sobre uso de
anabolizantes: ‘Não tem evidência científica de uso seguro’, afirma médico




