segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Lula, Bolsonaro e o ensino superior: pobre pode estudar em universidade?

 


Desinformação atribui ao presidente uma visão elitista da educação que mais se assemelha às falas de lideranças bolsonaristas

 

Circulou na última semana um corte de uma fala do presidente Lula afirmando que pobre não precisa estudar e que só nasceu para trabalhar. A fala foi retirada de um discurso feito por ele na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira (16) [1]. O corte, de poucos segundos e retirado do contexto geral do discurso, circulou principalmente em bolhas informacionais de direita e extrema direita e faz parecer que Lula, de fato, possui uma visão elitista sobre a educação e defende que pobres não devem estudar e sim se conformar em ser mão de obra barata. O deputado federal Kim Kataguiri (Missão/SP) foi uma das figuras políticas a compartilhar a desinformação [2]. Nessa versão curta e fora de contexto, ouve-se o presidente dizer o seguinte:

 

Pobre não precisa estudar, porra! Vocês nasceram só para trabalhar. Será que a gente não percebe isso? Será que vocês não percebem? Pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar. Estudar é para filho de rico, que pode estudar na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha.

 

Essa fake news de que Lula defende que pobre não estude foi desmentida por alguns dos principais veículos de checagem de informação (fact-checking) [3]. Conforme explicado pelo site Boatos.org, o que o presidente de fato faz em seu discurso é uma crítica histórica ao pensamento das elites brasileiras sobre educação. Um pensamento que remonta a tempos antigos em nosso país. Na perspectiva dessa elite, a educação não deve ser democratizada e pobres não precisam estudar, mas apenas trabalhar. E esse é o tipo de pensamento que atrasou a criação de universidades no país.

 

O que Lula faz em seu discurso na Casa da Moeda é, portanto, uma ironia e uma denúncia contra esse tipo de pensamento elitista. Para isso ele se vale da paráfrase desse pensamento que critica. É desnecessário explicar o que é uma ironia, mas vale ressaltar que na paráfrase alguém fala ou escreve, com suas próprias palavras, mas tentando manter o sentido original defendido por uma outra pessoa, o que não significa concordar com o que essa outra pessoa defende. E no caso de Lula, é exatamente o contrário. Fica fácil de entender assistindo a um vídeo mais amplo do discurso [4]. O que Lula diz é o seguinte:

 

A primeira universidade feita nesse país foi em 1920. O Brasil foi descoberto em 1500. A República Dominicana foi descoberta em 1498 pelo Colombo. Trinta e dois anos depois do Colombo chegar lá, a República Dominicana já tinha universidade. E aqui demorou 420 anos para fazer a primeira universidade. Por que será que acontecia isso? É porque Pobre não precisa estudar, porra! Vocês nasceram só para trabalhar. Será que a gente não percebe isso? Será que vocês não percebem? Pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar. Estudar é para filho de rico, que pode estudar na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha, em qualquer lugar.

 

Mas aqui não, aqui nós temos que ser cortador de cana, fazedor de prédio… As pessoas adoravam dizer: ‘Ah, como é bom nordestino, ele sabe trabalhar na construção civil’. A gente não quer ser só servente de pedreiro. Se bem que é uma profissão muito valiosa, mas a gente também quer ser engenheiro, a gente quer ser doutor, a gente quer ser médico, a gente quer ser professor. E o que é preciso fazer? O que precisa fazer é dar oportunidade. Não é o governo que faz, a gente abre a porta para as pessoas passarem. A gente abre as portas.

 

O que Lula faz, portanto, é a defesa da democratização do acesso à educação, mais especificamente do ensino superior, para formar engenheiros, médicos, professores etc. Para que essa democratização se concretize, é fundamental o acesso das camadas mais populares às universidades. Exatamente o contrário do que o corte descontextualizado disseminado pela extrema direita tenta fazer parecer que foi dito.

 

Sequer é a primeira vez que esse tipo de desinformação – explorando uma crítica feita por meio de paráfrase e fazendo-a parecer concordância com a ideia parafraseada – é feita. No início de 2023 circulava pela internet um corte de vídeo de uma fala de Lula feita no ano anterior, em um discurso realizado na PUC-SP, no qual Lula também defendeu a democratização do acesso à educação como forma de garantir oportunidades aos mais pobres e pessoas negras. Um corte de apenas poucos segundos, no entanto, tentava levar a crer que Lula defendia exatamente o contrário. Naquele corte Lula dizia que "pobre não tem que aprender, pobre tem que trabalhar" e "negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. Lula estava exatamente retratando e, principalmente, criticando o pensamento escravista da elite brasileira, que se arrasta no país há séculos, mesmo bem depois da abolição. Também naquela ocasião, tudo foi esclarecido por veículos de jornalismo profissional [5].

 

O DISCURSO DO GOVERNO BOLSONARO SOBRE O ENSINO SUPERIOR

O curioso é que esse tipo de desinformação, que descontextualiza falas de Lula sobre universidades fazendo parecer que ele reproduz a ideia elitista de que pobre tem é que trabalhar e não estudar, encontra solo fértil em uma extrema direita em geral alinhada ao bolsonarismo. E isso é curioso pois é justamente Bolsonaro e alguns integrantes de seu governo (2019-2022) que por diversas vezes deram declarações que soam elitistas sobre acesso a universidades e democratização do conhecimento.

 

No artigo “Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:  uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro”, o assunto é apresentado em detalhes [6]. Nele são analisadas diversas declarações de Bolsonaro e seus ministros. Ainda durante o processo eleitoral, em agosto de 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro disse que os jovens brasileiros têm "tara" pelo diploma superior e que seria melhor se muitos deles buscassem o ensino profissionalizante para atuar em funções como técnico em conserto de eletrodomésticos e mecânico de automóvel [7]. Vejamos a fala:

 

Há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma. É importante? Sim. Eu fiz, como tenente do Exército, curso de máquina de lavar roupa e de geladeira, aqui em Madureira. Te garanto (...): se hoje em dia quiser viver disso, eu vou ganhar no mínimo uns 12 mil por mês (...). Então essa tara por diploma superior não pode existir. É bom? Sim, vamos ter nossos mestres, nossos doutores, sim. Mas se você no Ensino Médio colocar algo técnico, você melhora nossa economia.

 

Diferentemente da fala de Lula, que ressalta a importância de pobres se formarem engenheiros, médicos etc, Bolsonaro desencoraja a procura pelo curso superior. De forma ainda mais clara, ministros da Educação do governo Bolsonaro desencorajaram as classes populares a buscarem as universidades. Ricardo Vélez Rodrigues, logo em seu primeiro mês de exercício, em janeiro de 2019, declarou que “a ideia de universidade para todos não existe” [8]. Para o então ministro, “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”. Entretanto, sabemos muito bem que, na prática, a elite econômica se passa também como elite intelectual, com melhor acesso à cultura, a boas escolas e a cursos preparatórios para o Enem.

 

Ainda para Rodrigues, um bacharel em direito que está dirigindo Uber perdeu seis anos estudando legislação por nada, como se necessariamente fosse atuar como motorista por toda a vida. Como se nunca mais fosse surgir alguma outra oportunidade, quem sabe, na própria área de formação (e por que não?). Outro dos ministros da Educação de Bolsonaro, o professor e pastor Milton Ribeiro, também afirmou que as universidades devem ser “para poucos”, reforçando a visão do governo bolsonarista de que o ensino público superior não precisa ter o compromisso de democratizar o seu acesso. Se alguém com formação superior se vê com dificuldades de inserção no mercado e, transitoriamente, precisa dirigir carro de aplicativo, para Ribeiro esse alguém perdeu tempo à toa na faculdade. É como se a pessoa estivesse fadada a ser motorista de aplicativo até morrer ou se aposentar (se conseguir se aposentar!), só porque, ocasionalmente, pegou esse serviço.

 

Tem muito engenheiro ou advogado dirigindo Uber porque não consegue colocação devida. Se  fosse um técnico de informática, conseguiria emprego, porque tem uma demanda muito grande (...). Universidade deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade.

 

É bem verdade que em certos casos recorrer a um curso técnico pode ser uma opção melhor e de retorno mais rápido para alguém de classe baixa. O problema é quando gestores públicos usam a opção do curso técnico em detrimento do curso superior, de modo a desencorajar o acesso à faculdade e de forma descompromissada com a democratização do acesso ao ensino superior. Além disso, pesquisas recentes apontam que, apesar das dificuldades do mercado de trabalho, o diploma de curso superior tem relevância no aumento da remuneração. A OCDE levantou no ano passado que, no Brasil, quem tem curso superior em média ganha mais que o dobro de quem estudou até o ensino médio [9]. Outra pesquisa recente, do IBGE, aponta que os profissionais sem curso superior embolsaram apenas 34,6% do que ganham aqueles com o diploma [10].

 

Mesmo diante das pesquisas, algumas lideranças da direita e extrema direita insistem em desvalorizar o ensino superior em seus discursos. É o caso de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que disputa protagonismo no cenário político nacional junto aos eleitores bolsonaristas. Às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no ano passado, Tarcísio afirmou que “o diploma cada vez tem menos relevância” [11].

 

Então, diante da pergunta “pobre pode estudar em universidade?”, as respostas do governo Lula e do governo Bolsonaro são distintas. Enquanto Lula reforça a ideia de uma universidade para todos, Bolsonaro e seus apoiadores minimizam a importância da democratização do acesso e defendem uma universidade para poucos. Um discurso elitista que vê a educação como uma peça de manutenção das desigualdades vigentes e desconsidera o papel relevante das políticas públicas na transformação da sociedade e da vida das pessoas. Principalmente da vida de jovens pobres que podem ter no curso superior uma porta aberta para ascensão social.

 

Por tudo isso, soa curioso e principalmente hipócrita que um corte de vídeo fora de contexto tente atribuir a Lula, de forma crítica, uma visão elitista de educação que muito mais se assemelha às falas do campo bolsonarista.      

 

Referências:

[1] Em evento na Casa da Moeda, Lula diz que salário mínimo ‘é muito pouco’ e ‘todos empresários podem pagar mais’

https://noticias.r7.com/brasilia/em-evento-na-casa-da-moeda-lula-diz-que-salario-minimo-e-muito-pouco-e-todos-empresarios-podem-pagar-mais-16012026/       

 

[2] Kim Kataguiri publica um short em seu canal com a fala descontextualizada de Lula

https://www.youtube.com/shorts/dvUGjH9qKSs

 

[3] É falso que Lula defenda que pobre não precisa estudar e deve apenas trabalhar

https://www.boatos.org/politica/lula-defende-que-pobre-nao-precisa-estudar-tem-que-trabalhar-em-evento-na-casa-da-moeda-em-2026.html

 

[4] Presidente Lula faz críticas à falta de oportunidades na universidade e cita os mais pobres

https://www.youtube.com/watch?v=vLxXAa07XMk

 

[5]

Fala de Lula sobre educação para pobres e negros é retirada de contexto

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/lula-negros-pobres-nao-devem-estudar/?srsltid=AfmBOopNMqPJOh0AE58nmKMsPM3JXEyyJOJ75JLIrI7nkpdipahoaXbq

 

'Pobre não tem que aprender': fala de Lula é retirada de contexto

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2023/01/13/fala-de-lula-fora-de-contexto-pobre-nao-tem-que-aprender.htm

 

[6] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior: uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[7] Bolsonaro diz que jovem brasileiro tem "tara" por formação superior

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/agencia-estado/2018/08/28/bolsonaro-diz-que-jovem-brasileiro-tem-tara-por-formacao-superior.htm

 

[8] “Ideia de universidade para todos não existe”, diz ministro da Educação.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2019/01/28/ideia-de-universidade-para-todos-nao-existe-diz-ministro-da-educacao.ghtml

 

[9] Diploma de ensino superior pode mais que dobrar salário no Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-09/ensino-superior-no-brasil-pode-mais-que-dobrar-salario

 

[10] Brasileiro sem ensino superior ganha três vezes menos, diz IBGE

https://www.metropoles.com/brasil/brasileiro-sem-ensino-superior-ganha-tres-vezes-menos-diz-ibge

 

[11] O discurso anti-diploma de Tarcísio serve a quem?

https://vermelho.org.br/2025/11/17/o-discurso-anti-diploma-de-tarcisio-serve-a-quem/

 


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Malês, o filme: protagonismo negro na luta contra a escravidão

 


Considerada a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil, Revolta dos Malês está nas telas dos cinemas

 

Mais uma vez o cinema nacional produz uma obra relevante para lançar luz sobre um episódio da história do Brasil. Neste caso, a Revolta dos Malês, um levante de negros escravizados ocorrido em Salvador (BA), em 1835. Dirigido por Antônio Pitanga, que também atua no papel do líder religioso Pacífico Licutan, de importância central na revolta, o filme Malês estreou nos cinemas no dia 2 de outubro e segue em cartaz. O roteiro é de Manuela Dias, e o elenco traz nomes como Camila Pitanga, Rocco Pitanga, Patrícia Pillar e Rodrigo de Odé.

 

Episódio importante das revoltas do período regencial (1831-1840), a Revolta dos Malês por muitos anos esteve ofuscada dentro da historiografia nacional e teve seus efeitos políticos pouco discutidos, quando comparada a outros conflitos da época, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Guerra dos Farrapos. Trata-se no entanto do movimento que é considerado a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil [1]. O resgate histórico dos Malês, que agora chega ao audiovisual, é fruto de pesquisas e concepções desenvolvidas nas últimas décadas que compreendem o protagonismo negro no processo histórico que levou ao fim da escravidão no país.

 

Mas o dimensionamento da Revolta dos Malês dentro da historiografia é controverso. Se por um lado, ela não teve o mesmo espaço que demais conflitos do período regencial, por outro, há outras revoltas de escravos, inclusive na Bahia, que foram mais numerosas, mais intensas e não são tão estudadas.

 

— A Revolta dos Malês é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas provocados pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que no Recôncavo – explica o historiador João José Reis, importante pesquisador do tema [2]. 

 

A narrativa de Malês começa na África, com a celebração do casamento entre Dassalu (Rocco Pitanga) e Abayome (Samira Carvalho). Assim como muitos africanos ao logo da história, eles são capturados por um grupo rival e trazidos à força para o Brasil. Em terras brasileiras, tribos e etnias que rivalizavam entre si no continente africano sofrem o mesmo processo de desumanização e apagamento das raízes culturais, generalizadas como “negros” e subjugadas à condição de escravizados. O filme mostra um esforço de união entre esses diferentes grupos e de superação dessas diferenças em prol da luta pela liberdade. A maioria dos participantes da revolta era de nagôs e haussás, mas outros grupos étnicos também participaram, inclusive alguns negros libertos. A palavra “malês” utilizada para nomear o acontecimento é derivada de “imalê”, que no idioma iorubá significa “muçulmano”.

 

O processo de desumanização e apagamento das raízes é muito bem retratado no filme, no drama pessoal de vários personagens, como Ahuna (Rodrigo de Odé). Personagem histórico apontado como um dos líderes da revolta, Ahuna tem o respeito de seus pares escravizados, que enxergam suas raízes e história trazidas da África, ou seja, reconhecem quem ele verdadeiramente é. Para sobreviver, Ahuna precisa, no entanto, encarnar um papel de escravo submisso que lhe foi imposto numa ordem escravagista. Ordem personificada principalmente na figura da senhora de escravos interpretada por Patrícia Pillar. Em um dado momento, exausto, Ahuna diz a sua senhora que o negro escravizado que ela conhece não existe dentro dele próprio. Não corresponde a quem ele verdadeiramente é.

 

Aliás, uma particularidade que faz de Malês uma obra complexa é a construção das personagens femininas brancas. Com essa construção, a obra se afasta de um possível clichê que seria a culpabilização exclusiva do “homem branco malvadão”. Sim, eles existem e não poderia ser diferente. Mas as figuras femininas são bem mais atemorizantes. A senhora de escravos e a freira (Ítala Nandi) lançam olhares ameaçadores aos negros enquanto carregam artefatos de tortura e castigo. Elas nos fazem pensar no quanto algumas mulheres eram (e ainda são, em boa medida) alinhadas, beneficiárias e perpetradoras da ordem vigente.     

 

A boa elaboração dos figurinos e cenografia ajuda-nos a fazer uma imersão à Bahia escravagista do século 19. De forma sagaz, a fotografia evita o uso de planos mais amplos, o que poderia comprometer essa caracterização. Também chama a atenção o sotaque de alguns personagens, os modos diversos de falar que coabitam naquela Salvador. A preparação de elenco foi parte importante da produção e incluiu mentoria aos atores para eles aprenderem um pouco de árabe e a falar um português mais próximo ao dos escravizados [3]. As formas diferentes de falar reforçam a diversidade existente no movimento, ainda que ele tenha sido liderado por negros muçulmanos.

 

Aqui entram outros elementos importantes no filme e que também ajudam a entender a Revolta dos Malês enquanto acontecimento histórico: o papel relevante da escrita e da leitura (em árabe) na organização do levante. O peso da cultura e da religião islâmica também foi significativo. A narrativa se concentra bem mais na organização da revolta do que propriamente no conflito armado. Isso pode ser explicado por questões orçamentárias da obra ou porque, de fato, a Revolta dos Malês durou apenas a noite de 25 de janeiro de 1835. O planejamento foi prejudicado por causa de uma delação, e a ação precisou ser antecipada, o que comprometeu a efetividade da insurgência.

 

Ainda assim, aquela rebelião marcou a história da escravidão no Brasil, mostrando aos senhores de escravos que se foi possível uma rebelião daquela proporção acontecer, outras mais seriam possíveis. Por todo Brasil, o medo de novas rebeliões se espalhou. Além disso, a Revolta dos Malês deixou um legado na historiografia brasileira no sentido de contribuir para o entendimento de que a abolição da escravidão foi resultado de um acúmulo de longo prazo de lutas protagonizadas pelos próprios negros, e não simplesmente da dádiva concedida por aristocratas benevolentes.

 

- Onde houve escravidão, houve resistência. No Brasil os escravizados se revoltavam a todo momento. Exemplos como a Revolta dos Malês dão a tônica de que o negro brasileiro e os africanos enviados ao Brasil resistiram à escravidão desde os primeiros navios negreiros que aqui chegaram. Desde 1570 há informações dos primeiros quilombos, de revoltas de quilombos, de escravizados, de fugas individuais e coletivas. O legado dos Malês é nos fazer entender o século 19 como um longo caminho para a abolição – explica o professor e historiador Danilo Luiz Marques [4].  

 

O drama dos castigos físicos é retratado com crueza no filme. Também chamam a atenção os estupros praticados contra mulheres negras. Assim, o filme ressalta toda a dor – física e psicológica – que a escravidão impôs aos negros, o que deixou cicatrizes até os dias de hoje. A escravidão é um dos fatores estruturantes da ordem social brasileira, influenciando até a atualidade na composição étnica das classes sociais, nas relações do mercado de trabalho etc.

 

Para quem quiser saber mais sobre a Revolta dos Malês, duas obras bastante influentes são Rebeliões da Senzala, de Clóvis Moura [5], e Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835, de João José Reis [6]. Outro livro que merece uma conferida é Malês 1835: negra utopia, de Fábio Nogueira [7]. O Portal Vermelho também abordou o tema algumas vezes, destacando a coragem e o protagonismo dos malês na luta pela liberdade [8].    

 

Referências:

[1] Revolta dos Malês completa 190 anos sob resgate histórico de levante negro que abalou Bahia

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/01/revolta-dos-males-completa-190-anos-sob-resgate-historico-de-levante-negro-que-abalou-bahia.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=fbfolha&fbclid=IwY2xjawNQlfJleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFxalFpakZzUEo5YVVCWUhUAR7Qojif_WSiTOiDIDjEQQASOm5jSIQDLdFSUqtYM1QrMAeTprDLMazfevmRWQ_aem_jFVT0FX1OE9ROjrMj02XTw 

 

[2] Revolta dos Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/revolta-dos-males-revista-em-textos-de-escravos-de-jornais-da-epoca-15015704

 

[3] “Malês”: novo filme de Antônio Pitanga tem pré-estreia na USP

https://jornal.usp.br/diversidade/males-novo-filme-de-antonio-pitanga-tem-pre-estreia-na-usp/

 

[4] Revolta dos Malês: a rebelião de escravizados que abalou Salvador

https://www.youtube.com/watch?v=YmA2BKvElhU&t=1s

 

[5] Rebeliões da Senzala (Clóvis Moura)

https://museudehistoriadopiaui.ufpi.edu.br/acervo/livros/livros-sobre-o-piau%C3%AD/intelectuais-piauienses/cl%C3%B3vis-moura

 

[6] Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835

https://pdfcoffee.com/rebeliao-escrava-no-brasil-a-historia-do-levante-dos-males-em-1835-by-joao-jose-reis-pdf-free.html

 

[7] Malês 1835: negra utopia

https://flcmf.org.br/males-1835-negra-utopia/

 

[8]

A revolta dos Malês: O levante e o heroísmo dos protagonistas

https://vermelho.org.br/2018/01/24/a-revolta-dos-males-o-levante-e-o-heroismo-dos-protagonistas/

 

Malês: a revolta que ousou pôr fim a escravidão e conquistar a liberdade

https://vermelho.org.br/coluna/males-a-revolta-que-ousou-por-fim-a-escravidao-e-conquistar-a-liberdade/


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Série Cosmos completa 45 anos

 


Apresentada pelo astrônomo Carl Sagan, a obra manifesta uma visão poética e espiritualista da ciência e influenciou gerações de cientistas de várias áreas

 

Em abril de 2023, a astrônoma e astrofísica Makenzie Lystrup tornou-se a primeira mulher a dirigir o Centro de Voos Espaciais Goddard, um dos núcleos da Nasa. Este fato, por si só, poderia ser o bastante para que a astrofísica fosse vista como alguém a fazer história em sua área de atuação. Entretanto, um detalhe chamou a atenção: em sua cerimônia de posse, ao fazer o tradicional juramento, Lystrup usou, em vez da Bíblia, o livro “Pálido ponto azul”, do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan [1]. Nos Estados Unidos, é comum que as pessoas façam um juramento com as mãos sobre obras simbólicas, tal qual a Bíblia (mais usual), o Corão ou a Constituição. Mas aquela era a primeira vez, ao menos a ser noticiada, que um livro de Sagan estava sendo usado.

 

Lystrup explicou que a homenagem a Sagan se devia à série televisiva Cosmos, que serviu para despertar sua paixão pela astronomia, e à importância de Sagan como alguém que se esforçou para tornar a ciência acessível ao público. O detalhe da citação a Cosmos possivelmente é o que explica certa conotação religiosa da cerimônia envolvendo o livro de Sagan como substituto da Bíblia. No dia 28 de setembro de 1980, há 45 anos, ia ao ar pela primeira vez a série “Cosmos: uma viagem pessoal”. A primeira frase pronunciada por Sagan, no início do primeiro episódio é: “O cosmos é tudo que existe, que já existiu e que sempre existirá”. A ideia de eternidade, de algo que transcende ao tempo, é semelhante à noção de Deus cunhada por algumas das principais religiões do mundo, como o próprio cristianismo.

 

Da mesma forma, quando Sagan dizia que “o cosmos também está dentro de nós, somos feitos de material estelar e somos um caminho para o cosmo conhecer a si mesmo”, era como dizer que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, que o homem é parte de Deus e que Deus está dentro de nós. Por meio de uma linguagem poética e emotiva, Sagan, através dos 13 episódios da série, deslocava a transcendência e espiritualidade características das religiões e as reposicionava no empreendimento científico [2]. Uma tática discursiva engenhosa, que se propõe a explicar como a ciência funciona, mais do que apenas mostrar suas descobertas, e que, paradoxalmente, exalta a razão por meio da emoção, de uma narrativa poética. Um reencantamento do mundo por meio da ciência

 

Essa tática discursiva funcionou. Estima-se que Cosmos tenha sido exibida em 60 países e assistida por mais de 500 milhões de pessoas [3], sendo apontada como um marco da divulgação científica mundial pela grande popularidade alcançada, por traduzir conceitos complexos de forma compreensível para o público e por ter influenciado gerações de cientistas [4], dentre eles, a própria Makenzie Lystrup. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais bem-sucedidas experiências de divulgação científica para o público amplo de TV no século 20.

 

Como bom divulgador científico, Carl Sagan recorria a elementos do cotidiano, familiares do grande público, para, a partir deles, introduzir conceitos e apresentar realizações da ciência. As religiões e crenças em geral foram parte significativa desses elementos. Na série, ora ele confrontava explicações religiosas e místicas com explicações científicas, valendo-se principalmente do conflito narrativo para dar movimento às sequências; ora, conforme já citamos, ele emulava o discurso religioso criando um certo deslocamento de sentido. A série é icônica da visão espiritualista que Sagan possuía da ciência. Essa visão pode ser melhor compreendida quando estudamos outras de suas obras, como o livro “O mundo assombrado pelos demônios” [5], no qual ele afirma:

 

Espírito vem da palavra latina que significa ‘respirar’. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra ‘espiritual’ nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. (...) A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de jubilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas” (SAGAN, 2006, p. 48). 

 

O nome completo do livro – “O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro” – demonstra uma outra característica de Sagan que marca a série Cosmos: uma certa perspectiva iluminista sobre ciência e história. Há em vários dos episódios da série uma polarização entre a Idade Média e a Idade Moderna. Sagan identifica o surgimento da ciência na Grécia Antiga, a destruição da Biblioteca de Alexandria como ponto de virada para o início de um declínio e o período medieval como sendo esse declínio, um longo hiato do pensamento e desenvolvimento científicos, provocado pelo autoritarismo da religião e pelo misticismo. Assim, Sagan reproduz a narrativa iluminista, que se propôs como a luz em contraposição à Idade das Trevas (o medievo). No entanto, essa narrativa a respeito da Idade Média enquanto um período sombrio, começou a ser significativamente contestada na segunda metade do século 20, por conta do trabalho de historiadores como Jacques Le Goff, para quem o período teve muitos avanços culturais, religiosos, sociais e intelectuais [6].

 

O seguinte trecho marca o encerramento da série original e é uma das últimas falas de Sagan no último episódio: “Nós, humanos, desejamos estar conectados com nossas origens. Então, criamos rituais. A ciência é um outro modo de expressar esse desejo. Ela também nos conecta com nossas origens. E ela também tem seus rituais e seus mandamentos. Sua única verdade sagrada é que não há verdades sagradas. Todas as suposições devem ser examinadas criticamente. Os argumentos de autoridades são inúteis. O que for inconsistente com os fatos, não importe o quanto gostemos, deve ser revisado ou descartado”.

 

Continuações

Cosmos ganharia uma nova versão em 2014. Desta vez, a série seria apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, que chegou a ser aluno de Sagan. Essa segunda versão – “Cosmos: uma odisseia no espaço e tempo” –, assim como a primeira, é composta por 13 episódios. Por conta da mítica da série original, que só fez crescer ao longo de 34 anos, a nova versão/temporada foi exibida, logo em sua estreia no NatGeo, para 170 países e precedida por um vídeo do então presidente americano Barack Obama. Nele, Obama falou sobre o espírito de “sonhar alto”, “de descoberta”, que Sagan sintetizara na versão original. A Cosmos de Tyson bateu recorde de maior lançamento global da história da TV [7]. Essa segunda versão foi escrita novamente pela pesquisadora e divulgadora Ann Druyan, viúva da Sagan, e pelo físico Steven Soter, ambos coautores da versão original, juntamente com Sagan.

 

O próprio presidente americano apresentando o lançamento da série não foi à toa e revela o peso da obra para a cultura daquele país. Vale lembrar que o livro “Cosmos”, escrito por Sagan e que inspirou a série de TV, foi incluído pela Biblioteca do Congresso americano na lista dos 88 livros que deram forma aos Estados Unidos (“88 Books That Shaped America”, 2012) [8]. A curadoria feita pelo Library of Congress foi parte de uma exposição. Na mesma lista estão obras como “O caminho da riqueza”, de Benjamin Franklin; “Pragmatismo”, de William James; e “O mágico de Oz”, de L. Frank Baum.

 

Neil deGrasse Tyson apresentaria ainda a terceira versão/temporada da série, chamada “Cosmos: mundos possíveis”, lançada em 2020 novamente pela NatGeo, transmitida para 172 países, em 43 idiomas [9]. Escrita, dirigida e produzida por Ann Druyan e Brannon Braga, “Cosmos: mundos possíveis” contou ainda com os produtores executivos Seth MacFarlane (criador de Family Guy, mais conhecida no Brasil como “Uma família da pesada”) e Jason Clark. Assim como as versões anteriores, essa terceira também conta com 13 episódios e manteve formato narrativo bem semelhante às versões de 2014 e 1980, ressalvados os avanços tecnológicos do audiovisual ao longo de quatro décadas. Aparentemente, as dualidades [10] envolvendo ciência e religião se tornaram menos constantes na versão de 2020, se comparada às anteriores. Permanece, entretanto, nas três versões da série, uma narrativa com muita história e filosofia que preza pela popularização do pensamento científico e faz um apelo humanista ao uso da razão na preservação do planeta e de nós mesmos. 

 

Referências:

[1]

https://revistagalileu.globo.com/sociedade/noticia/2023/04/nova-diretora-da-nasa-faz-juramento-com-livro-carl-sagan-em-vez-da-biblia.ghtml

 

[2]

https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=7655503

 

[3]

https://olhardigital.com.br/2025/01/26/cinema-e-streaming/cosmos-conheca-a-serie-sobre-astronomia-apresentada-por-carl-sagan/

 

[4]

https://www.nationalgeographic.com/science/article/140316-carl-sagan-science-galaxies-space/?utm_source=chatgpt.com

 

[5]

https://nerdking.net.br/wp-content/uploads/2018/07/O-Mundo-Assombrado-pelos-Demonios-Carl-Sagan.pdf

 

[6]

https://www.estadao.com.br/cultura/jacques-le-goff-foi-decisivo-para-o-estudo-da-idade-media/?srsltid=AfmBOooL9Geshka8zR6yVWCYCbPbvhqgxJafEQfYBhzvpk3sQnRHTmRh

 

[7]

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/noticia/2014/04/ann-druyan-revela-que-negou-serie-cosmos-a-tres-emissoras-para-proteger-legado-de-carl-sagan-4463694.html

 

[8]

https://www.loc.gov/item/prn-13-005?utm_source=chatgpt.com

 

[9]

https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Series/noticia/2020/06/cosmos-mundos-possiveis-traz-olhar-otimista-sobre-futuro-da-humanidade.html

 

[10]

https://sistemas.intercom.org.br/pdf/link_aceite/nacional/11/0816202309133064dcbd6a5d805.pdf

 

SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

 


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

“Mussolini, o filho do século" expõe origens do fascismo

 




Série constrói uma genealogia política, um fio condutor que nos leva da Itália fascista à extrema direita atual

 

Lançada neste mês na plataforma Mubi, a série “Mussolini, o filho do século” expõe as raízes do fascismo na Itália do pós-Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador. Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por “Orgulho e Preconceito), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.

 

Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: “Make Italy great again”. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.

 

Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar "muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista". Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios.

 

Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de “Mussolini, o filho do século”. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.

 

O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre “Deus, pátria e família”. Isso lembra algo?

 

Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) [1] contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.  

 

Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção [2]. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam “lados de uma mesma moeda”, que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo [3].  

 

“Mussolini, o filho do século” é baseada no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.

 

Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo [4], o contexto da Itália de Mussolini [5] e suas influências no Brasil [6]. Aqui temos algumas dicas.

 

“A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida”, diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?

 

Referências:

[1] Mas afinal, o que é fascismo?

https://camerapolis.blogspot.com/2020/04/mas-afinal-o-que-e-fascismo.html

 

[2] Nazismo e Socialismo: as comparações e os erros de uma equivalência

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/nazismo-e-socialismo-as-comparacoes-e-os-erros-de-uma-equivalencia/

 

[3] “Nazismo de esquerda” e Fake History: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade

https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428

 

[4] O que é Fascismo? História, definição e sobrevivência no presente

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/o-que-e-fascismo-historia-definicao-e-sobrevivencia-no-presente/

 

[5] Itália Fascista: das origens do Fascismo ao fim da Segunda Guerra

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/italia-fascista-das-origens-do-fascismo-ao-fim-da-segunda-guerra/

 

[6] Integralismo: das origens ao neofascismo do século XXI

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/integralismo-das-origens-ao-neofascismo-do-seculo-xxi/


domingo, 3 de agosto de 2025

De Toffoli a Barroso: os presidentes do STF frente à História da ditadura


 

Fala dos ministros na sessão de abertura contrasta com a de Toffoli em 2018, quando chamou o golpe de 64 de “movimento”

 

Vamos pasquinar, recordar

Sorrir sem censura

Botar a boca no mundo, buscar bem fundo

Sem a tal da ditadura

 

Soltavam as bruxas, o pau comia

De golpe em golpe, quanta covardia!

(G.R.E.S. Acadêmicos de Santa Cruz - Samba-Enredo 1990 - Os Heróis da Resistência)

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu na sexta-feira, 1º de agosto, seus trabalhos do segundo semestre de 2025 com uma sessão cheia de fortes declarações no Plenário. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, e os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes adotaram um tom de defesa da democracia, da soberania nacional e da independência da Suprema Corte, mas também de combatividade aos golpistas e repúdio aos autoritarismos [1]. Coube a Barroso dar uma boa e breve aula de história em seu discurso, na abertura da sessão. O presidente do STF citou os tantos golpes, intervenções militares, rupturas ou tentativas de ruptura institucional e ditaduras que fragilizam de longuíssima data a democracia do país. Ele se referiu à tomada do poder pelos militares em 1964 como “golpe” e ao período de 1964 a 1985 como “ditadura” e “anos de chumbo”, lembrando feridas como tortura, exílio, censura, mortes e desaparecimentos. Barroso se referiu ao caso de Rubens Paiva, ao citar o premiado filme “Ainda estou aqui” como um retrato daquela época.

 

Para muitos pode parecer óbvio o uso do termo “ditadura” na denominação daquele período, mas é preciso ressaltar dois pontos. O primeiro é que, lamentavelmente, ainda há muitas pessoas, em sua maioria simpatizantes dos atuais golpistas, que negam ter existido uma ditadura no Brasil (há ainda uma vertente numerosa que não a nega, mas a justifica com argumentos infundados e já desmontados). Um exemplo notório é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. No início do mês de junho, em entrevista para a Folha de S. Paulo, Zema disse que a existência ou não de uma ditadura seria “uma questão de interpretação” [2]. Como Zema é um dos principais políticos atuais a disputar o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro, ele precisa abraçar o negacionismo histórico da ditadura como parte do repertório que pode legitimá-lo junto ao bolsonarismo na corrida presidencial. O alinhamento político é elemento crucial da negação da ditadura civil-militar. Outro elemento é o desconhecimento da História.

 

O segundo ponto pelo qual devemos enaltecer a fala de Barroso é que outro ministro do STF, Dias Toffoli, quando presidente da Corte, disse preferir se referir ao nosso passado ditatorial como um “movimento”, evitando a palavra “golpe” [3]. “Eu não me refiro nem mais a golpe, nem a revolução de 1964. Eu me refiro a movimento de 1964”, afirmou, em palestra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em 2018, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil. Por uma triste ironia, aquele evento marcava os 30 anos da Constituição Federal.  

 

TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS

A fala de Toffoli ressoava uma linha de raciocínio superada na historiografia latino-americana conhecida como “teoria dos dois demônios”. Esse pensamento atribuía às esquerdas e às direitas as mesmas responsabilidades. Então seriam dois demônios que a sociedade deveria exorcizar. Essa ideia traz consigo uma relativização ou mesmo isenção dos culpados pelas ditaduras, além de tentar estabelecer um meio termo. Mas História não é matemática (ainda que exista a história da matemática): não dá para somar dois valores e depois dividir por dois para se chegar a uma média. Ao menos não neste caso.

 

Quem critica a teoria dos dois demônios é o historiador Daniel Aarão Reis. Para ele, “parece utópico igualar camponeses que lutam pela terra a latifundiários. É impróprio igualar aqueles que lutam por justiça social com os que querem eternizar a injustiça social” [4]. Ao se referir à conjuntura de antes de 1964, Aarão Reis cita como exemplo marinheiros que lutavam pelo direito ao voto e oligarquias que não queriam democratizar o voto. “Havia um movimento muito grande no Brasil antes de 64 por justiça social e democracia, e comparar isso aos que recusavam a democracia me parece um procedimento vesgo.

 

Outro historiador, Rodrigo Bonciani, nos propôs a lembrança de um episódio que serve como metáfora para desconstruir a teoria dos dois demônios, ao ressaltar que Toffoli não mencionou, por exemplo, que em 1968, na rua Maria Antônia (São Paulo), houve um conflito entre os alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, contrários à ditadura, e os do Mackenzie, que a defendiam e que disparavam com armas de fogo contra uspianos armados de pedras e paus. Uma bala matou um estudante secundarista que tinha se unido aos uspianos. O episódio inclusive é retratado no filme “A batalha da rua Maria Antônia”, lançado neste ano [5], que tem o mérito de adotar uma linguagem audiovisual ousada, filmado todo em planos-sequência.

 

Para piorar, Toffoli, além de maquiar a memória da ditadura com o uso da palavra “movimento”, tentou respaldar sua fala afirmando se basear no próprio Daniel Aarão Reis. O historiador tratou de deixar claro que não tinha nada a ver com isso, que essa culpa ele não carregava, e criticou publicamente a fala de Toffoli. “Foi muito infeliz da parte dele dizer que abandona a terminologia ditadura, que expressa perfeitamente o estado de exceção que se passou no país, para assumir um outro conceito”, afirmou Aarão Reis na época, destacando o agravante de isso vir justamente do então presidente do STF. 

 

AMACIAR A EXTREMA DIREITA É COMO ALIMENTAR CROCODILOS

Na ocasião, o historiador classificou o discurso de Toffoli como um “aceno conciliador” para um extremismo autoritário que crescia à direita e tomava o país como uma onda. Aarão Reis apontava essa tentativa de “amaciar” os extremistas como um equívoco. “A extrema direita, historicamente, avança sobre concessões inconsistentes e se fortalece com isto" [6]. Essa afirmação nos faz lembrar de uma das mais importantes personalidades políticas do século 20, que dizia algo parecido. Longe de ser algum tipo de esquerdista, pelo contrário, era um conservador: Winston Churchill.

 

Primeiro-ministro britânico na ocasião da Segunda Guerra Mundial, Churchill dizia que “um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado”. Tratava-se de uma crítica a Neville Chamberlain, seu antecessor no cargo. Às vésperas do início da guerra, diante da ascensão do nazismo, Chamberlain apostava na negociação com Hitler, na esperança de que isso pudesse apaziguar a sanha nazista. Ao comentar o que chamava de “ingenuidade das democracias liberais”, a filósofa Agnes Heller, autora da obra “O cotidiano e a história”, citava o caso: “Chamberlain veio para Munique, em 1938, com um pedaço de papel no qual pedia que Hitler renunciasse ao uso da força. Foi entregue e assinado. E Chamberlain vendeu como uma vitória” [7]. Um dos maiores enganos da história. No ano seguinte a guerra se iniciaria.

 

Na ocasião da fala de Toffoli, em 2018, Aarão Reis já nos alertava para o que chamava de indulgência dos democratas de direita e liberais conservadores em relação ao então crescente fenômeno do bolsonarismo. Naquele ano, diante da fala do então presidente da Corte e da possibilidade de vitória de Bolsonaro, ele já recorria à História para nos dar o alerta:

 

Às vésperas de 1964, muitos liberais imaginaram usar ou se servir dos militares para alcançar suas finalidades, afastando líderes populares que os assustavam. Os resultados foram desastrosos para esta gente —todos foram eliminados pelos militares ou tiveram que se conformar com posições secundárias de poder.

 

Sobre malogrados acenos conciliadores e apaziguadores feitos por liberais/conservadores à extrema direita, há exemplos concretos muito mais específicos em relação à Justiça e à democracia brasileiras do que o de Neville Chamberlain. O historiador lembrara que na ocasião do golpe de 1964, o presidente do STF de então, Ribeiro da Costa, disfarçou o golpe com um ar de legitimidade, sem nem consultar seus colegas, que também se calaram. Havia uma expectativa de boa relação com os golpistas. Mas o próprio Ribeiro da Costa entraria em repetidos conflitos com a ditadura, quando já era tarde. Churchill diria que ele alimentou um crocodilo.

 

MUITA ÁGUA ROLOU. E A ÁGUA BATEU NO NARIZ DO STF

De Toffoli, em 2018, a Barroso, na sessão de abertura deste segundo semestre, muita água rolou. Bolsonaro assumiu a presidência e o bolsonarismo se impregnou na máquina pública. Seus líderes e seus adeptos testaram os limites da democracia e das instituições reiteradas vezes. Foram incontáveis faixas e cartazes pedindo fechamento do Congresso e do STF, além de intervenção militar (ou seja, golpe!). Na medida em que, em nome da governabilidade, Bolsonaro fez acordos com o chamado “Centrão”, a artilharia bolsonarista foi se voltando cada vez mais contra o Supremo, em especial contra o ministro Alexandre de Moraes. A distinção e independência entre poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – não são bem-vistas pelos autoritarismos. Eles não gostam muito de Montesquieu. Para fechar o STF bastaria um soldado e um cabo, disse Eduardo Bolsonaro, como quem faz uma sugestão.

 

Por tudo isso, a fala de abertura de Luís Roberto Barroso na última sessão reflete um STF mais ciente dos riscos e que sentiu o perigo dos ataques que vem sofrendo. É uma fala que dá nome aos bois. Que chama ditadura de ditadura e os golpes de golpes. Focando em nosso período republicano, sobre golpes e tentativas de golpes, o presidente da Corte citou o primeiro presidente da República, Deodoro da Fonseca, que renunciou após tentativa fracassada de golpe, sendo substituído pelo vice, Floriano Peixoto, que se manteve ilegitimamente no cargo até 1894, deixando de convocar eleições.

 

Citou também tentativas de golpe do movimento Tenentista em 1922 e 1924; a Revolução de 30; a Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932; a Intentona Comunista de 1935; o golpe do Estado Novo de 1937; a destituição de Getúlio Vargas em 1945; o contragolpe preventivo do Marechal Lott para assegurar a posse de Juscelino Kubitschek em 1955; duas rebeliões contra Juscelino: a de Jacareacanga (1956) e a de Aragarças (1959).

 

E ainda: o veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart na ocasião da renúncia de Jânio Quadros em 1961; o já citado golpe militar de 1964; a prorrogação do mandato de Castelo Branco com a não realização das eleições de 1965; o Ato Institucional nº 5 de 1968; o impedimento à posse do vice-presidente Pedro Aleixo em 1969; a outorga pelos ministros militares da emenda constitucional nº 1 à Constituição de 1967, com o Congresso fechado; os anos de chumbo do governo Médici, período mais cruel e asfixiante da ditadura; e o fechamento do Congresso Nacional por Geisel, no Pacote de Abril de 1977.

 

“Do início da República até a Constituição de 1988, o sistema de justiça não conseguiu se opor de forma eficaz às ameaças autoritárias e às quebras da legalidade constitucional”, disse Barroso, que resumiu o que chamou de “três facetas da história constitucional e republicana brasileira: presidentes autoritários, militares envolvidos em política e ameaças ao Supremo Tribunal Federal.

 

Sobre a longa tradição de participação dos militares na política e nos golpes, vale acrescentar, em primeiro lugar, que esta é a primeira vez que militares serão julgados pela Justiça civil – no STF – pela tentativa de golpe de estado no país, o que faz do julgamento em curso (que envolve o 8 de janeiro) um episódio importante de nossa história; e, em segundo, que está disponível no mercado editorial o mais recente livro do professor e historiador Carlos Fico chamado “Utopia autoritária brasileira”. Na obra, Fico mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889 e examina as principais intervenções militares que moldaram a história republicana brasileira [8] [9]. A maioria delas citada por Barroso.

 

A HISTÓRIA NÃO PERDOA

A História não é uma disciplina utilitarista, mas ainda assim ela tem suas utilidades. Na esfera individual, serve, por exemplo, na formação para a cidadania; na institucional, serve, dentre outras coisas, para que as instituições se posicionem diante de certas ameaças, como no caso do STF frente aos avanços antidemocráticos. Nas duas esferas – individual e institucional – a História nos ajuda a nos conduzir. Assim que Toffoli chamou um golpe de “movimento”, lá em 2018, o historiador e professor Rodrigo Bonciani quase que vaticinou: “a história não perdoa” [10].

 

O passado falseado permite a repetição da história como nova tragédia. Quando esse falseamento parte do presidente da mais alta corte do país, numa palestra sobre os 30 anos da Constituição, todo edifício da nossa frágil democracia pode desmoronar”, dizia Bonciani. E não deu outra! Ou quase. Os extremistas, de fato, miraram e ainda miram no STF, mas a Corte, considerando os discursos desta sessão de abertura, parece disposta a agir com firmeza e punir os golpistas, em vez de ficar alimentando crocodilos. A sociedade aguarda atenta. 

 

Referências:

[1] Na abertura do semestre, ministros reafirmam independência do STF e defesa da democracia e da soberania nacional

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/na-abertura-do-semestre-ministros-reafirmam-a-independencia-do-stf-e-a-defesa-da-democracia-e-da-soberania-nacional/

 

[2] Fala de Zema questionando ditadura gera reação na Assembleia e pressão por política de memória

https://www.otempo.com.br/politica/2025/6/5/fala-de-zema-questionando-ditadura-gera-reacao-na-assembleia-e-pressao-por-politica-de-memoria

  

[3] Toffoli diz que militares fizeram “movimento”, e não golpe em 1964

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/toffoli-diz-que-militares-fizeram-movimento-e-nao-golpe-em-1964

 

[4] Historiador citado por Toffoli rejeita chamar ditadura de ‘movimento’

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/historiador-citado-por-toffoli-diz-que-e-errado-chamar-ditadura-de-movimento-de-64/

 

[5] “O Brasil ainda é a Rua Maria Antônia”. A histórica batalha entre estudantes da USP e do Mackenzie é retratada nos cinemas e tema da última edição do programa Cultura na USP

https://jornal.usp.br/cadernodecultura/o-brasil-ainda-e-a-rua-maria-antonia-a-historica-batalha-entre-estudantes-da-usp-e-do-mackenzie-e-retratada-nos-cinemas-e-tema-da-ultima-edicao-do-programa-cultura-na-usp/

 

[6] “Toffoli imagina amaciar a extrema direita com acenos conciliadores”, diz historiador citado por ministro

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538497133_463693.html

 

[7] Agnes Heller: “A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

 

[8] Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889

https://www.cafehistoria.com.br/novo-livro-militares-carlos-fico/

 

[9] PROVOCAÇÃO HISTÓRICA - 04/06/25 - ''OS MILITARES DO BRASIL E A UTOPIA AUTORITÁRIA''

https://www.youtube.com/watch?v=eqgiEF2a7kU&t=2672s

 

[10] O ‘movimento’ de Dias Toffoli: a história não perdoa

https://www.nexojornal.com.br/o-movimento-de-dias-toffoli-a-historia-nao-perdoa