Desinformação atribui ao presidente uma visão elitista da educação que
mais se assemelha às falas de lideranças bolsonaristas
Circulou na última semana um
corte de uma fala do presidente Lula afirmando que pobre não precisa estudar e
que só nasceu para trabalhar. A fala foi retirada de um discurso feito por ele
na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira (16) [1]. O corte,
de poucos segundos e retirado do contexto geral do discurso, circulou
principalmente em bolhas informacionais de direita e extrema direita e faz parecer
que Lula, de fato, possui uma visão elitista sobre a educação e defende que
pobres não devem estudar e sim se conformar em ser mão de obra barata. O
deputado federal Kim Kataguiri (Missão/SP) foi uma das figuras políticas a
compartilhar a desinformação [2]. Nessa versão curta e fora de contexto,
ouve-se o presidente dizer o seguinte:
“Pobre não precisa estudar, porra! Vocês nasceram só para trabalhar.
Será que a gente não percebe isso? Será que vocês não percebem? Pobre não
nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar. Estudar é para filho de rico,
que pode estudar na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha.”
Essa fake news de que Lula
defende que pobre não estude foi desmentida por alguns dos principais veículos
de checagem de informação (fact-checking) [3]. Conforme explicado pelo site
Boatos.org, o que o presidente de fato faz em seu discurso é uma crítica
histórica ao pensamento das elites brasileiras sobre educação. Um pensamento
que remonta a tempos antigos em nosso país. Na perspectiva dessa elite, a
educação não deve ser democratizada e pobres não precisam estudar, mas apenas
trabalhar. E esse é o tipo de pensamento que atrasou a criação de universidades
no país.
O que Lula faz em seu discurso na
Casa da Moeda é, portanto, uma ironia e uma denúncia contra esse tipo de
pensamento elitista. Para isso ele se vale da paráfrase desse pensamento que
critica. É desnecessário explicar o que é uma ironia, mas vale ressaltar que na
paráfrase alguém fala ou escreve, com suas próprias palavras, mas tentando
manter o sentido original defendido por uma outra pessoa, o que não significa concordar
com o que essa outra pessoa defende. E no caso de Lula, é exatamente o
contrário. Fica fácil de entender assistindo a um vídeo mais amplo do discurso
[4]. O que Lula diz é o seguinte:
A primeira universidade feita nesse país foi em 1920. O Brasil foi
descoberto em 1500. A República Dominicana foi descoberta em 1498 pelo Colombo.
Trinta e dois anos depois do Colombo chegar lá, a República Dominicana já tinha
universidade. E aqui demorou 420 anos para fazer a primeira universidade. Por
que será que acontecia isso? É porque Pobre não precisa estudar, porra! Vocês
nasceram só para trabalhar. Será que a gente não percebe isso? Será que vocês
não percebem? Pobre não nasceu para estudar, pobre nasceu para trabalhar.
Estudar é para filho de rico, que pode estudar na França, na Inglaterra, nos
Estados Unidos, na Espanha, em qualquer lugar.
Mas aqui não, aqui nós temos que ser cortador de cana, fazedor de
prédio… As pessoas adoravam dizer: ‘Ah, como é bom nordestino, ele sabe
trabalhar na construção civil’. A gente não quer ser só servente de pedreiro.
Se bem que é uma profissão muito valiosa, mas a gente também quer ser
engenheiro, a gente quer ser doutor, a gente quer ser médico, a gente quer ser professor.
E o que é preciso fazer? O que precisa fazer é dar oportunidade. Não é o
governo que faz, a gente abre a porta para as pessoas passarem. A gente abre as
portas.
O que Lula faz, portanto, é a
defesa da democratização do acesso à educação, mais especificamente do ensino
superior, para formar engenheiros, médicos, professores etc. Para que essa
democratização se concretize, é fundamental o acesso das camadas mais populares
às universidades. Exatamente o contrário do que o corte descontextualizado
disseminado pela extrema direita tenta fazer parecer que foi dito.
Sequer é a primeira vez que esse
tipo de desinformação – explorando uma crítica feita por meio de paráfrase e
fazendo-a parecer concordância com a ideia parafraseada – é feita. No início de
2023 circulava pela internet um corte de vídeo de uma fala de Lula feita no ano
anterior, em um discurso realizado na PUC-SP, no qual Lula também defendeu a
democratização do acesso à educação como forma de garantir oportunidades aos
mais pobres e pessoas negras. Um corte de apenas poucos segundos, no entanto,
tentava levar a crer que Lula defendia exatamente o contrário. Naquele corte
Lula dizia que "pobre não tem que
aprender, pobre tem que trabalhar" e "negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. Lula estava
exatamente retratando e, principalmente, criticando o pensamento escravista da
elite brasileira, que se arrasta no país há séculos, mesmo bem depois da
abolição. Também naquela ocasião, tudo foi esclarecido por veículos de
jornalismo profissional [5].
O DISCURSO DO GOVERNO BOLSONARO
SOBRE O ENSINO SUPERIOR
O curioso é que esse tipo de
desinformação, que descontextualiza falas de Lula sobre universidades fazendo
parecer que ele reproduz a ideia elitista de que pobre tem é que trabalhar e
não estudar, encontra solo fértil em uma extrema direita em geral alinhada ao
bolsonarismo. E isso é curioso pois é justamente Bolsonaro e alguns integrantes
de seu governo (2019-2022) que por diversas vezes deram declarações que soam
elitistas sobre acesso a universidades e democratização do conhecimento.
No artigo “Como o campo
conservador/reacionário vê o ensino superior:
uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro”, o assunto é apresentado
em detalhes [6]. Nele são analisadas diversas declarações de Bolsonaro e seus
ministros. Ainda durante o processo eleitoral, em agosto de 2018, o então
candidato à presidência Jair Bolsonaro disse que os jovens brasileiros têm "tara"
pelo diploma superior e que seria melhor se muitos deles buscassem o ensino
profissionalizante para atuar em funções como técnico em conserto de
eletrodomésticos e mecânico de automóvel [7]. Vejamos a fala:
“Há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma. É
importante? Sim. Eu fiz, como tenente do Exército, curso de máquina de lavar
roupa e de geladeira, aqui em Madureira. Te garanto (...): se hoje em dia
quiser viver disso, eu vou ganhar no mínimo uns 12 mil por mês (...). Então
essa tara por diploma superior não pode existir. É bom? Sim, vamos ter nossos
mestres, nossos doutores, sim. Mas se você no Ensino Médio colocar algo
técnico, você melhora nossa economia.”
Diferentemente da fala de Lula,
que ressalta a importância de pobres se formarem engenheiros, médicos etc,
Bolsonaro desencoraja a procura pelo curso superior. De forma ainda mais clara,
ministros da Educação do governo Bolsonaro desencorajaram as classes populares
a buscarem as universidades. Ricardo Vélez Rodrigues, logo em seu primeiro mês
de exercício, em janeiro de 2019, declarou que “a ideia de universidade para
todos não existe” [8]. Para o então ministro, “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que
não é a mesma elite econômica [do país]”. Entretanto, sabemos muito bem que,
na prática, a elite econômica se passa também como elite intelectual, com
melhor acesso à cultura, a boas escolas e a cursos preparatórios para o Enem.
Ainda para Rodrigues, um bacharel
em direito que está dirigindo Uber perdeu seis anos estudando legislação por nada,
como se necessariamente fosse atuar como motorista por toda a vida. Como se
nunca mais fosse surgir alguma outra oportunidade, quem sabe, na própria área
de formação (e por que não?). Outro dos ministros da Educação de Bolsonaro, o
professor e pastor Milton Ribeiro, também afirmou que as universidades devem
ser “para poucos”, reforçando a visão do governo bolsonarista de que o ensino
público superior não precisa ter o compromisso de democratizar o seu acesso. Se
alguém com formação superior se vê com dificuldades de inserção no mercado e,
transitoriamente, precisa dirigir carro de aplicativo, para Ribeiro esse alguém
perdeu tempo à toa na faculdade. É como se a pessoa estivesse fadada a ser
motorista de aplicativo até morrer ou se aposentar (se conseguir se aposentar!),
só porque, ocasionalmente, pegou esse serviço.
Tem muito engenheiro ou advogado dirigindo Uber porque não consegue
colocação devida. Se fosse um técnico de
informática, conseguiria emprego, porque tem uma demanda muito grande (...). Universidade
deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade.
É bem verdade que em certos casos
recorrer a um curso técnico pode ser uma opção melhor e de retorno mais rápido
para alguém de classe baixa. O problema é quando gestores públicos usam a opção
do curso técnico em detrimento do curso superior, de modo a desencorajar o
acesso à faculdade e de forma descompromissada com a democratização do acesso
ao ensino superior. Além disso, pesquisas recentes apontam que, apesar das dificuldades
do mercado de trabalho, o diploma de curso superior tem relevância no aumento
da remuneração. A OCDE levantou no ano passado que, no Brasil, quem tem curso
superior em média ganha mais que o dobro de quem estudou até o ensino médio
[9]. Outra pesquisa recente, do IBGE, aponta que os profissionais sem curso
superior embolsaram apenas 34,6% do que ganham aqueles com o diploma [10].
Mesmo diante das pesquisas,
algumas lideranças da direita e extrema direita insistem em desvalorizar o
ensino superior em seus discursos. É o caso de Tarcísio de Freitas, governador
de São Paulo que disputa protagonismo no cenário político nacional junto aos
eleitores bolsonaristas. Às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),
no ano passado, Tarcísio afirmou que “o
diploma cada vez tem menos relevância” [11].
Então, diante da pergunta “pobre
pode estudar em universidade?”, as respostas do governo Lula e do governo
Bolsonaro são distintas. Enquanto Lula reforça a ideia de uma universidade para
todos, Bolsonaro e seus apoiadores minimizam a importância da democratização do
acesso e defendem uma universidade para poucos. Um discurso elitista que vê a
educação como uma peça de manutenção das desigualdades vigentes e desconsidera
o papel relevante das políticas públicas na transformação da sociedade e da
vida das pessoas. Principalmente da vida de jovens pobres que podem ter no
curso superior uma porta aberta para ascensão social.
Por tudo isso, soa curioso e
principalmente hipócrita que um corte de vídeo fora de contexto tente atribuir
a Lula, de forma crítica, uma visão elitista de educação que muito mais se
assemelha às falas do campo bolsonarista.
Referências:
[1] Em evento na Casa da Moeda,
Lula diz que salário mínimo ‘é muito pouco’ e ‘todos empresários podem pagar
mais’
[2] Kim Kataguiri publica um
short em seu canal com a fala descontextualizada de Lula
https://www.youtube.com/shorts/dvUGjH9qKSs
[3] É falso que Lula defenda que
pobre não precisa estudar e deve apenas trabalhar
[4] Presidente Lula faz críticas
à falta de oportunidades na universidade e cita os mais pobres
https://www.youtube.com/watch?v=vLxXAa07XMk
[5]
Fala de Lula sobre educação para
pobres e negros é retirada de contexto
'Pobre não tem que aprender':
fala de Lula é retirada de contexto
[6] Como o campo conservador/reacionário
vê o ensino superior: uma análise a partir do discurso do Governo Bolsonaro
https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65
[7] Bolsonaro diz que jovem brasileiro
tem "tara" por formação superior
[8] “Ideia de universidade para
todos não existe”, diz ministro da Educação.
[9] Diploma de ensino superior
pode mais que dobrar salário no Brasil
[10] Brasileiro sem ensino
superior ganha três vezes menos, diz IBGE
https://www.metropoles.com/brasil/brasileiro-sem-ensino-superior-ganha-tres-vezes-menos-diz-ibge
[11] O discurso anti-diploma de
Tarcísio serve a quem?
https://vermelho.org.br/2025/11/17/o-discurso-anti-diploma-de-tarcisio-serve-a-quem/



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