Apresentada pelo astrônomo Carl
Sagan, a obra manifesta uma visão poética e espiritualista da ciência e
influenciou gerações de cientistas de várias áreas
Em abril de 2023, a astrônoma e astrofísica Makenzie Lystrup tornou-se a
primeira mulher a dirigir o Centro de Voos Espaciais Goddard, um dos núcleos da
Nasa. Este fato, por si só, poderia ser o bastante para que a astrofísica fosse
vista como alguém a fazer história em sua área de atuação. Entretanto, um
detalhe chamou a atenção: em sua cerimônia de posse, ao fazer o tradicional
juramento, Lystrup usou, em vez da Bíblia, o livro “Pálido ponto azul”, do
astrônomo e divulgador científico Carl Sagan [1]. Nos Estados Unidos, é comum
que as pessoas façam um juramento com as mãos sobre obras simbólicas, tal qual
a Bíblia (mais usual), o Corão ou a Constituição. Mas aquela era a primeira
vez, ao menos a ser noticiada, que um livro de Sagan estava sendo usado.
Lystrup explicou que a homenagem a Sagan se devia à série televisiva
Cosmos, que serviu para despertar sua paixão pela astronomia, e à importância
de Sagan como alguém que se esforçou para tornar a ciência acessível ao
público. O detalhe da citação a Cosmos possivelmente é o que explica certa
conotação religiosa da cerimônia envolvendo o livro de Sagan como substituto da
Bíblia. No dia 28 de setembro de 1980, há 45 anos, ia ao ar pela primeira vez a
série “Cosmos: uma viagem pessoal”. A primeira frase pronunciada por Sagan, no
início do primeiro episódio é: “O cosmos é tudo que existe, que já existiu e
que sempre existirá”. A ideia de eternidade, de algo que transcende ao tempo, é
semelhante à noção de Deus cunhada por algumas das principais religiões do
mundo, como o próprio cristianismo.
Da mesma forma, quando Sagan dizia que “o cosmos também está dentro de
nós, somos feitos de material estelar e somos um caminho para o cosmo conhecer
a si mesmo”, era como dizer que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, que
o homem é parte de Deus e que Deus está dentro de nós. Por meio de uma
linguagem poética e emotiva, Sagan, através dos 13 episódios da série,
deslocava a transcendência e espiritualidade características das religiões e as
reposicionava no empreendimento científico [2]. Uma tática discursiva
engenhosa, que se propõe a explicar como a ciência funciona, mais do que apenas
mostrar suas descobertas, e que, paradoxalmente, exalta a razão por meio da
emoção, de uma narrativa poética. Um reencantamento do mundo por meio da
ciência
Essa tática discursiva funcionou. Estima-se que Cosmos tenha sido exibida
em 60 países e assistida por mais de 500 milhões de pessoas [3], sendo apontada
como um marco da divulgação científica mundial pela grande popularidade
alcançada, por traduzir conceitos complexos de forma compreensível para o
público e por ter influenciado gerações de cientistas [4], dentre eles, a
própria Makenzie Lystrup. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais bem-sucedidas
experiências de divulgação científica para o público amplo de TV no século 20.
Como bom divulgador científico, Carl Sagan recorria a elementos do
cotidiano, familiares do grande público, para, a partir deles, introduzir
conceitos e apresentar realizações da ciência. As religiões e crenças em geral
foram parte significativa desses elementos. Na série, ora ele confrontava
explicações religiosas e místicas com explicações científicas, valendo-se
principalmente do conflito narrativo para dar movimento às sequências; ora,
conforme já citamos, ele emulava o discurso religioso criando um certo deslocamento
de sentido. A série é icônica da visão espiritualista que Sagan possuía da
ciência. Essa visão pode ser melhor compreendida quando estudamos outras de
suas obras, como o livro “O mundo assombrado pelos demônios” [5], no qual ele
afirma:
“Espírito vem da palavra latina que
significa ‘respirar’. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por
mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra ‘espiritual’
nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria
(inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do
domínio da ciência. (...) A ciência não é só compatível com a espiritualidade;
é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na
imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a
complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto
de jubilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as
nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de
coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A
noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente
exclusivas presta um desserviço a ambas” (SAGAN, 2006, p. 48).
O nome completo do livro – “O mundo assombrado pelos demônios: A ciência
vista como uma vela no escuro” – demonstra uma outra característica de Sagan
que marca a série Cosmos: uma certa perspectiva iluminista sobre ciência e
história. Há em vários dos episódios da série uma polarização entre a Idade
Média e a Idade Moderna. Sagan identifica o surgimento da ciência na Grécia
Antiga, a destruição da Biblioteca de Alexandria como ponto de virada para o
início de um declínio e o período medieval como sendo esse declínio, um longo
hiato do pensamento e desenvolvimento científicos, provocado pelo autoritarismo
da religião e pelo misticismo. Assim, Sagan reproduz a narrativa iluminista,
que se propôs como a luz em contraposição à Idade das Trevas (o medievo). No
entanto, essa narrativa a respeito da Idade Média enquanto um período sombrio,
começou a ser significativamente contestada na segunda metade do século 20, por
conta do trabalho de historiadores como Jacques Le Goff, para quem o período
teve muitos avanços culturais, religiosos, sociais e intelectuais [6].
O seguinte trecho marca o encerramento da série original e é uma das
últimas falas de Sagan no último episódio: “Nós,
humanos, desejamos estar conectados com nossas origens. Então, criamos rituais.
A ciência é um outro modo de expressar esse desejo. Ela também nos conecta com
nossas origens. E ela também tem seus rituais e seus mandamentos. Sua única
verdade sagrada é que não há verdades sagradas. Todas as suposições devem ser
examinadas criticamente. Os argumentos de autoridades são inúteis. O que for
inconsistente com os fatos, não importe o quanto gostemos, deve ser revisado ou
descartado”.
Continuações
Cosmos ganharia uma nova versão em 2014. Desta vez, a série seria
apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, que chegou a ser aluno de
Sagan. Essa segunda versão – “Cosmos: uma odisseia no espaço e tempo” –, assim
como a primeira, é composta por 13 episódios. Por conta da mítica da série
original, que só fez crescer ao longo de 34 anos, a nova versão/temporada foi
exibida, logo em sua estreia no NatGeo, para 170 países e precedida por um
vídeo do então presidente americano Barack Obama. Nele, Obama falou sobre o
espírito de “sonhar alto”, “de descoberta”, que Sagan sintetizara na versão
original. A Cosmos de Tyson bateu recorde de maior lançamento global da
história da TV [7]. Essa segunda versão foi escrita novamente pela pesquisadora
e divulgadora Ann Druyan, viúva da Sagan, e pelo físico Steven Soter, ambos
coautores da versão original, juntamente com Sagan.
O próprio presidente americano apresentando o lançamento da série não foi
à toa e revela o peso da obra para a cultura daquele país. Vale lembrar que o
livro “Cosmos”, escrito por Sagan e que inspirou a série de TV, foi incluído
pela Biblioteca do Congresso americano na lista dos 88 livros que deram forma
aos Estados Unidos (“88 Books That Shaped America”, 2012) [8]. A curadoria
feita pelo Library of Congress foi
parte de uma exposição. Na mesma lista estão obras como “O caminho da riqueza”,
de Benjamin Franklin; “Pragmatismo”, de William James; e “O mágico de Oz”, de
L. Frank Baum.
Neil deGrasse Tyson apresentaria ainda a terceira versão/temporada da
série, chamada “Cosmos: mundos possíveis”, lançada em 2020 novamente pela
NatGeo, transmitida para 172 países, em 43 idiomas [9]. Escrita, dirigida e
produzida por Ann Druyan e Brannon Braga, “Cosmos: mundos possíveis” contou
ainda com os produtores executivos Seth MacFarlane (criador de Family Guy, mais
conhecida no Brasil como “Uma família da pesada”) e Jason Clark. Assim como as
versões anteriores, essa terceira também conta com 13 episódios e manteve
formato narrativo bem semelhante às versões de 2014 e 1980, ressalvados os
avanços tecnológicos do audiovisual ao longo de quatro décadas. Aparentemente,
as dualidades [10] envolvendo ciência e religião se tornaram menos constantes
na versão de 2020, se comparada às anteriores. Permanece, entretanto, nas três
versões da série, uma narrativa com muita história e filosofia que preza pela popularização
do pensamento científico e faz um apelo humanista ao uso da razão na
preservação do planeta e de nós mesmos.
Referências:
[1]
[2]
[3]
[4]
[5]
https://nerdking.net.br/wp-content/uploads/2018/07/O-Mundo-Assombrado-pelos-Demonios-Carl-Sagan.pdf
[6]
[7]
[8]
https://www.loc.gov/item/prn-13-005?utm_source=chatgpt.com
[9]
[10]
https://sistemas.intercom.org.br/pdf/link_aceite/nacional/11/0816202309133064dcbd6a5d805.pdf
SAGAN, Carl. O
mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São
Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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