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| Fundadores da Brasil Paralelo: estudantes de administração da ESPM |
A empresa de
entretenimento Brasil Paralelo, conhecida por suas produções de narrativas
históricas frequentemente contestadas por historiadores profissionais, virou
notícia na última semana por conta de duas situações diversas. Uma delas foi a
repercussão de uma postagem no Instagram feita pela CEO e cofundadora do Nubank,
Cristina Junqueira, na qual a empresária agradecia pelo convite que receberá para
o evento "We Who Wrestle With God", palestra do psicólogo canadense
Jordan Peterson, autor conhecido por suas posições conservadoras. No post,
Junqueira agradece o convite e marca o perfil de Peterson, além dos perfis da
Brasil Paralelo e da Fronteiras do Pensamento, respectivamente apoiadora e organizadora
do evento.
A empresária
postou o convite como story no Instagram. A publicação ficou disponível tempo
suficiente para gerar diversas mensagens críticas de correntistas do Nubank que
ameaçaram cancelar suas contas, alegando relação entre o banco e a empresa. Uma
dessas mensagens dizia: "Olha, se você tá no @nubank pensa se deve
realmente usufruir deste serviço... CEO da Nubank divulgando evento do Brasil
Paralelo é bizarro e nojento". Outras mensagens explicavam o procedimento
para o cancelamento da conta. A repercussão negativa foi grande o suficiente
para que o Nubank emitisse nota afirmando ter um comportamento “apartidário” e
não se associar a “movimentos políticos, religiosos ou ideológicos”.
A outra situação
envolvendo a Brasil Paralelo foi a publicação de uma reportagem da Agência
Pública mostrando como a empresa de entretenimento ligada à extrema direita vem
agora investindo no ensino superior EAD, na formação de professores. O curso a
distância (EAD) de licenciatura em história do Centro Universitário Ítalo
Brasileiro, aprovado pelo MEC durante o governo Bolsonaro, funciona em parceria
com a Brasil Paralelo e é coordenado pelo bolsonarista e monarquista Rafael
Nogueira, que foi presidente da Biblioteca Nacional em 2019 e 2020.
Amanda Audi,
jornalista da Agência Pública, matriculou-se no curso para fazer a reportagem.
Ela explica que a ligação da universidade com a produtora de conteúdo conservador/reacionário
chegou a ser anunciada na página que divulgava o vestibular (sendo
posteriormente retirada por conta da repercussão da reportagem): “Somando-se ao
cenário da educação brasileira e a real necessidade de educadores competentes e
comprometidos em prol da qualidade da educação, a Brasil Paralelo, em parceria
com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro, oferece o vestibular especial de
licenciatura em História”, dizia o texto, juntamente à logo da Brasil Paralelo.
Ainda de acordo
com a reportagem, a visão reacionária da produtora de conteúdo faz parte da
base curricular do curso, que se propõe a “não omitir a versão cristã da
História”, e alguns dos professores são diretamente ligados à Brasil Paralelo.
O conteúdo das aulas é muito parecido com as produções da empresa. Por ter uma
“visão cristã”, o curso defende, por exemplo, a atuação dos jesuítas contra
indígenas, que os reis eram enviados divinos e as Cruzadas promovidas pela
Igreja Católica foram algo necessário. Quem conclui o curso está apto a dar
aulas de história para estudantes da educação infantil e ensinos fundamental e
médio.
Para se
matricular no curso do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, Amanda Audi conta
que só precisou escrever dois parágrafos sobre um tema proposto – “consequências
da pandemia” –, coisa que ela fez usando o ChatGPT. Já o coordenador do curso,
Rafael Nogueira, além de monarquista e bolsonarista, é também professor em
cursos da Brasil Paralelo e discípulo do falecido ideólogo Olavo de Carvalho,
de quem decorre o termo “olavismo”, um arremedo de teorias anticomunistas e
reacionárias que inclui grande aversão às universidades, à mídia, à classe
artística e à esquerda de um modo geral. O olavismo e a Brasil Paralelo possuem
clara interseção de conteúdos e ideias e dão lastro ideológico ao bolsonarismo.
Seguindo os
padrões dos docentes do curso, Lucas Ribeiro Fernandes, professor da disciplina
Brasil Colonial 1, se diz um fã da monarquia brasileira, especialmente da
princesa Isabel. O conteúdo de sua matéria, em vez de mencionar o genocídio e a
escravidão de povos indígenas, elogia os jesuítas, que tentavam “garantir que
aqueles povos, que até então viveram encobertos do resto do mundo, pudessem
acessar as verdades eternas como qualquer europeu”.
A polêmica parceria
entre a Brasil Paralelo e a instituição de ensino superior vem à tona em um
momento delicado para o setor. No início deste mês, o MEC suspendeu a criação
de cursos EAD até março de 2025. Segundo o ministério, a decisão é parte do
processo de revisão do marco regulatório da educação a distância (EAD), cujo objetivo
é garantir a sustentabilidade e a qualidade dos cursos de graduação oferecidos.
No mês passado, o MEC já havia definido que cursos EAD para formação de
professores – caso do curso de história do Centro Universitário Ítalo
Brasileiro – devem ter metade de carga horária presencial.
O empreendimento empresarial e sua relação
com a educação e governos
A Brasil
Paralelo foi criada em 2016 por estudantes de Porto Alegre ligados à área de
administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing, uma das
universidades privadas mais caras do Brasil (a mensalidade do curso de
administração na unidade de Porto Alegre está em R$ 6.057,00). Sua criação se
deu no contexto da ascensão da onda conservadora e reacionária no país. A
empresa teve enorme crescimento durante o governo Bolsonaro. Em 2020, com
apenas quatro anos de existência, a Brasil Paralelo já faturava R$ 30 milhões
anuais, um crescimento de 355% em relação ao ano anterior.
Ao longo de sua
trajetória, o empreendimento ampliou sua produção, como com a criação da
plataforma de streaming BP Select, além de iniciativas no setor educacional,
como a parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro na curadoria do
curso responsável por formar professores. A produtora anunciou que pretende
financiar cursos de história, geografia e ciências sociais para estudantes de
baixa renda e assim “formar a próxima geração de professores” do país.
Desse modo, a
Brasil Paralelo vai ampliando suas investidas no setor educacional, como forma
de inserir entre alunos e futuros docentes seus conteúdos revisionistas
ideológicos, negacionistas e conspiracionistas. Por ser um lastro ideológico da
extrema direita, suas produções por vezes são adotadas como parte do conteúdo
educativo oficial ligados a governos identificados com tal campo do espectro
político. No mês passado, a Procuradoria-Geral de Justiça foi acionada por
conta da Secretaria de Educação de São Paulo, do governo Tarcísio de Freitas,
estar usando conteúdo do canal da Brasil Paralelo como fonte para o material
didático digital enviado às escolas estaduais. Em 2019, durante o governo
Bolsonaro, a TV Escola, ligada ao MEC, exibiu documentários da Brasil Paralelo.
Um episódio inclusive trazia entrevista de Olavo de Carvalho.
Marketing, teoria conspiratória e
negacionismos
A Brasil
Paralelo dissemina um conteúdo com narrativas históricas amplamente criticado
por historiadores devido a vários problemas. Além de a empresa investir muito
mais em divulgação do que em pesquisa histórica propriamente dita, geralmente
imitando o formato de produções de divulgação científica, com falas de
especialistas (e não caberia aqui a discussão sobre em que medida as
personalidades entrevistadas são ou não especialistas nos assuntos em que se
propõem a falar), fazendo jus ao seu próprio nome, seu conteúdo frequentemente
é vendido como uma alternativa à produção acadêmica convencional na área de
história, como um tipo de “verdade paralela”. Algo que “o seu professor está
escondendo de você”. Algo que “eles não querem que você saiba”.
Desse modo, a
Brasil Paralelo inclui em seu conteúdo um apelo de marketing muito semelhante
ao de teorias conspiratórias: uma verdade que está sendo revelada e que fará
daquele que a receber uma pessoa mais esperta que a média, livre das amarras de
algum tipo de dominação e manipulação cultural. É um apelo de marketing que
encontra ampla adesão não somente naqueles que possuem alguma identificação com
ideias conservadoras e reacionárias, mas em um contingente enorme de pessoas
que se sentem excluídas de oportunidades na sociedade, inclusive na área da
educação, e por isso convenientemente acreditam que ao assistirem alguns poucos
vídeos da produtora já “sabem mais que o professor”.
O mesmo modus
operandi vale também para a filosofia e ciências humanas e sociais em geral.
Mas não somente. A produtora chamou a atenção por conta de conteúdos
negacionistas na ocasião da pandemia de coronavírus e também em relação às mudanças
climáticas. Esse ponto veio à tona com as enchentes do Rio Grande do Sul, já
que Ricardo Gomes, do PL, partido de Jair Bolsonaro, é vice-prefeito de Porto
Alegre e também professor e apresentador da Brasil Paralelo. Gomes chegou a
usar um boné da Brasil Paralelo em uma transmissão ao vivo durante o trabalho
de resgate de vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Os conteúdos da
empresa questionam que as emergências climáticas estejam diretamente
relacionadas às atividades humanas, sobretudo ao aquecimento global
impulsionado pela queima de combustíveis fósseis.
Guerras culturais, marxismo cultural e
historiografia ultrapassada
É preciso
entender a Brasil Paralelo e seu apelo de marketing conspiracionista dentro do
contexto das guerras culturais. É no meio delas, alimentando-as e sendo
alimentada por elas, que a empresa opera e produz seu conteúdo. O termo
“guerras culturais” refere-se aos conflitos sociopolíticos e culturais de uma
sociedade profundamente segregada, fragmentada. A expressão começou a ser usada
nos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial e ganhou força principalmente
a partir dos anos de 1980. No Brasil, as guerras culturais tiveram seus
contornos melhor definidos com a popularização da internet e das redes sociais.
Após a irrupção da onda conservadora a partir de 2013, a engrenagem que move e
é movida pela Brasil Paralelo estava preparada.
Dentro do
contexto das guerras culturais, a Brasil Paralelo opera principalmente com a
ideia de “marxismo cultural”, um tipo de teoria conspiratória fruto de leituras
distorcidas de teóricos como Antonio Gramsci e Herbert Marcuse. Cada um desses
pensadores, a sua maneira, falou sobre a necessidade e importância da conquista
de corações e mentes no cenário político-cultural. O problema é que aqueles que
acreditam na ideia de marxismo cultural acham que há uma ação orquestrada da
esquerda junto à mídia, às universidades, às artes, à educação e à ciência em
geral para dominar essas áreas e instrumentalizá-las para algum tipo de plano
de manipulação das massas. Daí o marketing apelativo da Brasil Paralelo sobre
seu conteúdo ser uma forma de libertação e de saber mais do que o professor.
Para abordarmos
outros problemas do conteúdo da Brasil Paralelo precisamos entrar em aspectos
mais técnicos de historiografia. Primeiramente, cabe fazer uma ressalva sobre o
revisionismo. Ele costuma ser importante para o desenvolvimento da ciência
histórica. Em ciência, de uma forma mais abrangente, na medida em que fontes e
fatos novos surgem e refutam ou contestam antigas teorias, essas antigas
teorias vão sendo deixadas de lado e novas teorias começam a ser elaboradas. A
verdade da ciência é circunscrita ao tempo. Ela é uma verdade em seu tempo. Ou
seja, um apontamento científico atual pode contrariar algo que já se entendeu
como verdade há décadas atrás, mas esse mesmo apontamento científico atual pode
ser refutado daqui a algumas décadas, na medida em que fatos novos surgem
(costumo dizer que a ciência é a verdade que se tem pra hoje. Dito assim pode
parecer pouco, mas isso é muita coisa!).
Na ciência
histórica, o revisionismo faz esse trabalho de comparação entre antigas e novas
teorias. Trabalho amparado por novos fatos e fontes. Só que isso é diferente do
revisionismo político-ideológico da Brasil Paralelo, que não se baseia em novos
fatos e fontes. Pelo contrário, trata-se de um arremedo requentado com base em
uma historiografia antiga e ultrapassada. Chega a ser irônico, pois o
revisionismo traz em si uma ideia de novidade, mas o que a produtora faz tem muita
cara de século retrasado.
A historiografia
do século 19 estava preocupada em consolidar a história como ciência e assim
distingui-la da literatura. Eram tempos de escolas como o historicismo, o
positivismo e a escola metódica. Aliás, o positivismo influenciou muito da
ciência e filosofia daquele século. Para aqueles historiadores, a fonte
primordial de pesquisa eram os documentos oficiais (e isso fazia sentido,
naquele contexto cultural, para firmar a história enquanto ciência). Se por um
lado historiadores e escolas historiográficas do século 19 foram fundamentais
para criar um status de cientificidade à história, por outro, a grande
valorização de documentos e acervos oficiais levou à escrita de uma história
oficialesca, feita de cima para baixo. Afinal, quando ouvimos que “a história é
escrita pelos vencedores”, em boa medida trata-se desse tipo de historiografia:
se a prioridade são os documentos oficiais, esses documentos, por sua vez,
quase que em sua totalidade são produzidos pelas instituições oficiais, que, do
mesmo modo, quase que em sua totalidade são comandadas pelas elites dirigentes.
Portanto, por
conta do tipo de fonte e da forma de pesquisa, essa história será
principalmente uma história das elites. Dela decorre a construção das figuras
de grandes heróis nacionais e seus grandes feitos. Essa história foi
fundamental também para a formação das memórias oficiais dos estados nacionais.
Entretanto, ao longo do século 20, outras escolas historiográficas e novas
formas de pesquisa foram ganhando força, juntamente com a valorização de uma
diversidade maior de fontes. Isso possibilitou o crescimento de uma
historiografia mais plural e menos oficialesca. Mas apesar de um século de
desenvolvimento da historiografia, as narrativas históricas da Brasil Paralelo
refletem um jeito ultrapassado de se fazer história, por vezes defendendo
teorias já refutadas.
Um bom exemplo é
o que a produtora divulga a respeito da ditadura militar, tratando o golpe como
um tipo de mal necessário para impedir que um regime comunista se instaurasse
no Brasil. Só que essa era a narrativa dos golpistas e dos ditadores, como
forma de legitimarem seu poder. Era a narrativa oficial do poder. Não cabe mais
defende-la hoje em dia, após tantos arquivos que já foram abertos sobre a
ditadura desde o fim do regime militar. Até arqueologia histórica em antigas
sedes de órgãos de repressão foi e continua sendo feita. São muitas provas que se
avolumam. Enfim, novos fatos e fontes que refutam teorias antigas. Mas a Brasil
Paralelo, que investe pouco em pesquisa e muito em marketing e divulgação,
ignora tudo isso.
“Eles [a Brasil
Paralelo] reabilitam uma historiografia hegemônica no século 19, que já foi
superada por novas perspectivas – que por sua vez são deixadas de lado ou
reduzidas a caricaturas,” diz o professor e historiador Murilo Cleto, que fez a
sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre o
revisionismo histórico da Brasil Paralelo [1]. “Muitos fãs da empresa Brasil
Paralelo devem ter uma gravura do Varnhagen junto com outra do Olavo de
Carvalho na parede da casa”, diz o professor e historiador Fernando Nicolazzi,
ao se referir ao historiador do século 19 e sua história bastante conservadora
[2]. Francisco Adolfo de Varnhagen foi uma espécie de historiador oficial do
império, anti-indigenista e de pouco apreço pelos africanos.
Outro exemplo
interessante diz respeito à escravidão. Pessoas com um pouco mais de idade
aprenderam sobre escravidão nos tempos da escola com um certo protagonismo da princesa
Isabel, reflexo de uma história oficialesca, centrada na figura de grandes
heróis (geralmente representantes da elite) e que foi valorizada pela ditadura
militar. A partir de uma nova historiografia e novas fontes, que chegaram aos
livros didáticos nos últimos anos (vale destacar que novas correntes
historiográficas levam um certo tempo até chegarem aos livros didáticos do
ensino básico), outros protagonistas ganharam força, como Zumbi e o Quilombo
dos Palmares. Protagonistas de baixo para cima. Mas a Brasil Paralelo não se
interessa muito por eles, porque, no fundo, quer uma narrativa histórica
elitista, para dar lastro ideológico a um projeto político elitista.
Não à toa,
Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares na gestão bolsonarista, quis
mudar o nome da instituição para “Fundação Princesa Isabel”. A intenção, mais
do que revalorizar uma figura aristocrática da história do Brasil (e aqui não
estamos negando o valor desta ou de outra figura) é também resgatar uma
história aristocrática, de cima para baixo, dos vencedores, apagando ou
reduzindo bastante as lutas e os personagens populares. A assinatura de um
documento oficial como a Lei Áurea não dá conta de protagonizar uma luta de
tantos anos como a da abolição. Apenas na cabeça daqueles inspirados por uma
história oficialesca.
A Brasil
Paralelo difunde uma visão decadentista de mundo, típica do reacionarismo, que
idealiza e romantiza o passado. Essa visão pode ser percebida até em obras que
se distanciam da história do Brasil como tema principal e falam sobre cultura,
cinema etc. Um exemplo é o documentário “O fim da beleza”. Uma ideia central
dessa e outras obras pode se resumir na manjada frase “antigamente é que era
bom”, que sempre ouvimos por aí. Essa visão decadentista vai encontrar em uma
historiografia ultrapassada e em um conjunto limitado de fontes algum refúgio e
alguma viabilidade para fortalecer narrativas históricas dos vencedores e das
elites. Se fosse uma unidade hospitalar, a Brasil Paralelo talvez estivesse
promovendo sangrias nos pacientes para reequilibrar os quatro humores (bile
negra, catarro, bile amarela e sangue), prática com origens na Antiguidade e
que foi usada até o século 19. A medicina já deixou isso para trás, mas a
Brasil Paralelo talvez repaginasse o procedimento, disfarçando-o de novidade rebelde,
insurgente, esperta e fora da caixa.
Referências:
[1] Coordenado por monarquista, curso ligado à Brasil Paralelo forma professores de história
[2] Historiografia brasileira: a escrita da História no Brasil
