Modelo de desenvolvimento e colonização exploratória, que tanto fez estragos à própria Terra, é levado a outro planeta
O diretor sul-coreano Bong Joon-ho com certeza sabia que não tinha uma
tarefa fácil pela frente. Depois de vencer o Oscar de melhor filme com Parasita
(2019), primeiro filme em língua não inglesa a faturar na categoria principal
da maior premiação cinematográfica do mundo, era óbvio que as expectativas a
respeito de suas próximas produções iriam aumentar e que o sarrafo seria
elevado para avaliar o seu próximo filme. A “solução” encontrada por ele foi
investir em uma obra divertida, que se vale de um humor caricatural, talvez
para se distanciar dos parâmetros de Parasita. Assim surge Mickey 17 (2025), em
cartaz nos cinemas, que deixa claro que se vale de tons e tintas distintos da
premiada obra anterior.
Mas não é nada fácil escapar do peso da crítica. Com um sarrafo elevado,
alguns críticos têm apontado falhas e afirmado que este se trata do filme mais
fraco do diretor, ainda que ponderem que ser um filme fraco dentro da
filmografia de Bong Joon-ho ainda assim é algo bem relevante. Fato é que o
longa-metragem, estrelado por Robert Pattinson, teve seu lançamento aprisionado
pelas expectativas elevadas. Passados alguns anos, certamente Mickey 17 será
valorizado por suas características intrínsecas e o tempo lhe será generoso.
No filme, Pattinson interpreta Mickey, um jovem que, tendo pouca formação
e muitas dívidas, aceita ser usado para todo tipo de trabalho perigoso e
degradante como parte de um programa de exploração espacial. Esses trabalhos
com frequência o levam à morte, mas ele é sempre recriado, com suas memórias e
seu corpo mantidos. Ele é, portanto, o que se chama de “descartável”, e
justamente por isso pode ser usado nos trabalhos mais perigosos e degradantes.
Apesar dessa premissa, o filme é divertido.
Se por um lado a filmografia de Joon-ho aprisiona esse lançamento em
expectativas elevadas, por outro, ela nos ajuda a nos ambientar no universo do
diretor e entender de forma clara suas propostas. A precarização do trabalho e
a descartabilidade do trabalhador são questões pertinentes e óbvias em Mickey
17, principalmente se levarmos em conta que a luta de classes é assunto
recorrente na obra do diretor. Podemos citar como exemplo O expresso do amanhã
(2013) e o próprio Parasita, que também tratam do assunto com clareza. Mickey
17 tem muito dos dois, mas mais do primeiro (por se tratar de ficção científica
e de retratar uma microssociedade que reproduz questões da sociedade mais
ampla), além de beber muito da fonte de Okja (2017), outra obra de Joon-ho, por
causa de certo tom fantástico adotado.
O novo filme aponta para muitas direções em suas críticas sociais e
filosóficas: clonagem e identidade (o que faz você ser você?), exploração
predatória da natureza, pureza racial e eugenia, populismo autoritário,
tecnopopulismo, segregação de classe (o indivíduo “descartável” vale menos que
as “pessoas normais”), relação entre alma e corpo etc. Por ser tão inflado de
ideias, Mickey 17 se aprofunda em pouca coisa. Mas talvez isso faça parte de
sua proposta. As questões são levantadas e seguidamente descartadas, tal qual o
personagem de Pattinson. Entretanto, uma ideia vai crescendo na segunda metade
do filme e ganha protagonismo. Trata-se da colonização e da relação entre
colonizadores e povos nativos, aqui representada na relação entre os
terráqueos, que fazem parte da expedição espacial, e os “rastejantes”,
habitantes do planeta nevado que é candidato a substituir a Terra como nosso
novo lar. Isso pode decepcionar algumas pessoas, pois o tema principal e óbvio,
que era a precarização do trabalho, aos poucos cede espaço para este outro.
Alguns críticos, desapontados com essa surpresa, reclamaram dessa descartabilidade
de ideias.
“Parece um croissant mergulhado na merda”. Assim a personagem de Tony
Collete – que junto com Mark Rufallo forma o casal caricato de vilões da trama
– se refere à aparência de um rastejante. A estética repugnante desses seres
nativos não é posta na tela à toa. Trata-se de uma opção estética para nos
levar ao asco em relação a esses nativos para, pouco depois, sermos pegos no
contrapé, ao descobrirmos que esses seres feios e esquisitos possuem capacidade
de empatia, senso de coletividade e nível de organização bastante avançados,
até mesmo para nossos padrões.
ESCAPISMO
TECNOLÓGICO
Obviamente que, ao vermos o
empreendimento de colonização predatória dos terráqueos pesar contra os
rastejantes nativos, estabelecemos analogias com o que conhecemos dos processos
de colonização exploratória que vimos em nosso planeta. Por exemplo, a
colonização europeia promovida em detrimento de povos das Américas, África e
Ásia. No filme, entretanto, a colonização interplanetária feita pelos
terráqueos é resultante de algum tipo de cenário pós-apocalíptico no qual a
vida na Terra se tornou degradante ou insustentável sem a exploração de mais e
mais recursos e territórios, que seriam então obtidos com a dominação e o
controle de outros planetas. Aliás, é justamente por conta dos riscos do
empreendimento que um trabalhador descartável se torna necessário. Há muitos
perigos no espaço e nos novos territórios, como vírus ou seres rastejantes
famintos. Um descartável pode servir de bucha de canhão ou cobaia nas mais
diversas ocasiões.
Em meio a tantas questões
lançadas superficialmente no filme, esta tangencia várias delas: a de que a
solução para problemas gerados na Terra pelo nosso avanço exploratório se dá
(advinha!) com mais e mais exploração. E o desenvolvimento tecnológico seria o
caminho, sempre a tirar um coelho da cartola para nos possibilitar a exploração
infinita. É o que aqui chamamos de escapismo tecnológico. A historiadora
Tatiana Roque (2021) desenvolve essa ideia. Ela explica que a história da humanidade
nos últimos 300 anos, baseada em uma linearidade rumo ao progresso, é uma
história excepcional. Essa visão de mundo, de que o futuro será sempre
tecnologicamente mais avançado e mais próspero que o presente, tem sua base no
Iluminismo e em um modelo de colonização europeia. Entretanto essa visão só foi
possível nos últimos séculos às custas do uso desenfreado dos recursos naturais
e do consumo de combustíveis fósseis. Ela não foi predominante na maior parte
do tempo da existência humana e não é mais sustentável diante dos desafios
contemporâneos.
Mas perante a necessidade de
repensarmos nossos valores, há os que preferem dobrar a aposta na exploração
capitalista. E o escapismo tecnológico representa essa dobra de aposta,
valendo-se do desenvolvimento da tecnologia em busca de saídas milagrosas. Para
que ampliarmos nossos cuidados com o planeta se podemos desenvolver tecnologias
diversas suficientes para explorar outros planetas (inclusive a clonagem, para
a criação de trabalhadores precarizados descartáveis que nos ajudarão nesse
empreendimento exploratório espacial realizando os serviços mais difíceis)?
Roque nos lembra da fala de Sam
Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT, quando perguntado a respeito de
como seria solucionada a alta pegada energética da inteligência artificial [1].
Isso porque o desenvolvimento e uso da inteligência artificial aumenta a
demanda por eletricidade no planeta, o que se choca com as políticas de
sustentabilidade. A resposta dada por Altman é o uso da fusão nuclear como
forma de alimentação da IA. O problema é que, como explicam alguns
pesquisadores, a fusão nuclear está distante de ser uma realidade que possa
suprir a grande pegada de carbono da IA [2]. Logo, o que temos de concreto, de
realidade imediata, é o desenvolvimento de sistemas e produtos tecnológicos que
ampliam a demanda por energia. E para resolver isso? Não temos muito, só um
suposto otimismo de seus desenvolvedores de que uma nova tecnologia virá
solucionar o problema.
Há outros casos por aí que talvez
possamos classificar como escapismos tecnológicos. Um deles vem da
geoengenharia: a injeção de partículas (aerossóis) na atmosfera para tentar
reduzir o aquecimento global. A ideia é aumentar o albedo da Terra, sobretudo
na estratosfera, para que ela passe a refletir mais radiação de volta ao espaço
e, assim, torne-se um pouco menos quente. O albedo é a fração da luz refletida
em relação à absorvida por um corpo ou superfície. Em vez de investimentos em
ações concretas para a redução de gases de efeito estufa, um tipo de gambiarra
de geoengenharia surge no horizonte como pseudossolução.
Dentro da ciência, ao que me
parece, estamos descobrindo a duras penas que essa aparente progressão
técnico-científica leva a um ponto que não é sustentável. É um ponto irreal. E
aí temos uma grande cisão. Há quem insista e dobre a aposta: ‘Se eu emiti
carbono demais e mudei o clima do planeta, o que eu preciso agora é de uma
tecnologia de captura de carbono. E com essa nova tecnologia a gente vai dar um
passo além, tirar a consequência do carbono e seguir a vida como ela é, usando
mais petróleo e fazendo de tudo’ (...). Essa vertente aposta ainda mais nesse
conhecimento técnico-científico e diz que daí virá a próxima solução. E há uma
outra vertente que diz: ‘olha, há essas outras formas de conhecimento, de
manejo, que estão se mostrando muito mais sustentáveis a longo prazo’”,
resume o divulgador científico e biólogo Átila Iamarino, sobre a necessidade de
se buscar outros valores e cosmovisões para além da visão iluminista e
capitalista de progresso [3].
Mickey 17 está longe de ser o primeiro filme a tratar desse problema. Em
Não olhe para cima (2021), outra comédia, a temática é desenvolvida de forma
bastante interessante. Um asteroide – que funciona como metáfora do risco das
mudanças climáticas – está vindo na direção da Terra e irá destruí-la.
Entretanto, em vez de as nações se unirem para destruí-lo antes que atinja o
planeta, um bilionário CEO tecnopopulista (desses, tipo Elon Musk e Jeff
Bezos), opta por uma missão pouco confiável, que é aproveitar partes do
asteroide para extrair recursos minerais e, com isso, obter uma suposta
prosperidade que seria distribuída a todos (tipo fazer crescer o bolo para
depois dividi-lo, ou coisa parecida).
É a tecnologia como panaceia,
que irá nos possibilitar exploração e desenvolvimento contínuos. Os robôs
responsáveis pela extração de minérios no asteroide são o escapismo da vez. O
plano dá errado. Mas o escapismo continua, pois a empresa responsável pelo
plano absurdo possuía uma nave preparada para vagar pelo espaço por séculos até
encontrar um novo planeta caso a extração dos minérios desse errado e a Terra
fosse destruída. Claro que nessa nave havia poucas vagas, somente para alguns
privilegiado$.
Mickey 17 é mais um desses bons
filmes que retratam o uso capitalista da tecnologia a criar diversionismos, ou
seja, a desviar o foco de problemas concretos e imediatos em busca de alguma
suposta salvação que está no porvir, a depender de novas tecnologias. O filme
poderia ter se aprofundado mais no quanto a tecnologia, que já foi vista como
uma forma de amenizar o peso do trabalho sobre o homem, foi instrumentalizada
para aprisionar esse homem em mais e mais trabalho? Talvez. No filme, a
tecnologia inclusive é usada para, em nome do trabalho, replicar várias e
várias vezes a vida de um homem, condenando-o a um trabalho perpétuo. Mas,
retratar a tecnologia como um caminho para a expansão a outros planetas de um
modelo de colonização exploratória que tanto fez estragos à própria Terra, é um
achado bastante interessante que Mickey 17 proporciona.
Referências:
Roque, Tatiana.
O dia em que voltamos de Marte: uma história da ciência e do poder com pistas
para um novo presente. São Paulo, Planeta.
[1] Negacionismo
e Crise de Confiança na Ciência
https://www.youtube.com/watch?v=s5-gUjbl49U
[2] Sam Altman
diz que fusão nuclear é solução para demanda de energia de IA
[3] O que é Deus? - Podcast Não Ficção
