domingo, 18 de setembro de 2022

Corações Sujos: um filme para pensar sobre negacionismo e pós-verdade

 


Entrou no catálogo da Netflix no mês passado (agosto) o filme Corações Sujos (2011), do diretor Vicente Amorim. A produção é baseada no livro-reportagem homônimo de Fernando Moraes, publicado em 2000, que conta o que sem dúvida é um impressionante caso de estudo para a psicologia social ocorrido no Brasil na década de 1940 do século passado. Logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, com a vitória dos países Aliados e a derrota do Eixo (formado principalmente por Alemanha, Itália e Japão), a organização extremista Shindo Renmei, formada no interior de São Paulo, onde a colônia japonesa era numerosa, se recusava a aceitar a derrota do Japão na guerra e atacava membros da própria comunidade que reconheciam que o país havia sido derrotado.

A produção conta com atores japoneses e brasileiros, dentre eles Eduardo Moscovis, e é falada em japonês e português, tendo sido exibida nos circuitos de cinema dos dois países. Contrariando algumas expectativas que se tinha com relação ao governo Getúlio Vargas, o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados, juntamente com países como Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e França, o que gerou uma situação de muita tensão perante três das maiores colônias de imigrantes no Brasil: a alemã, a italiana e a japonesa. Para se ter uma ideia, o maior partido nazista fora da Alemanha era o Partido Nazista do Brasil, que chegou a ter 2.900 filiados, tendo início em Santa Catarina entre imigrantes alemães, mas se espalhando por diversos estados brasileiros [1].

Os idiomas alemão, italiano e japonês chegaram a ser proibídos dentro do Brasil. Com isso, nenhum material falado ou escrito nessas línguas ou vindo desses países poderia circular pelo no país. Foi nessa época que, por exemplo, o Palestra Itália virou Palmeiras, e o colégio paulistano Deutsche Schule virou Porto Seguro. Isso gerou um problema maior particularmente para a colônia japonesa, já que boa parte dos imigrantes e mesmo seus descendentes não dominavam o português e se informavam por jornais escritos em japonês. A dificuldade com o idioma falado no Brasil fica explícita em diversos momentos do filme. Isso contribui para que muitos colonos não acreditem que o Japão acabara de ser derrotado.

Mas a negação da realidade não se dá somente por isso. Corações Sujos é um filme sobre fanatismo e como ele pode destruir vidas e provocar tragédias que poderiam ser evitadas. A organização Shindo Renmei, composta por colonos japoneses extremistas que não acreditavam na derrota japonesa ou mesmo se recusavam a aceitar aquela realidade, atuou nos dois anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial – 1946 e 1947 – atacando outros imigrantes e descendentes nipônicos que declaravam compreender a derrota de seu país de origem perante os Aliados. Esses imigrantes japoneses que reconheciam a derrota eram rotulados pelos membros da Shindo Renmei como traidores ou “kegareta kokoro” (“coração sujo”, traduzido para o português, daí o nome do filme e do livro), merecedores de punição. O saldo do confronto naqueles dois anos foi de dezenas de mortos, centenas de feridos, milhares de japoneses presos e 381 deles condenados, que foram anistiados 10 anos depois.


Negacionismo e pós-verdade (ou pós-fato)

Ainda que se passe na década de 1940 do século passado, em um contexto social distinto do atual, o filme trabalha alguns dos elementos que impulsionam a onda de negacionismo tão presente na chamada era da pós-verdade. Antes de falarmos sobre esses elementos contidos na trama, cabe abordar, introdutoriamente, o negacionismo e a pós-verdade. O negacionismo costuma ser entendido como “o ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história” [2] ou mesmo “a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável” [3].

Para ficarmos em exemplos relacionados à Segunda Guerra Mundial, podemos citar a negação do Holocausto como uma das principais manifestações negacionistas, a despeito de todo trabalho de historiadores de diversas partes do mundo que atestam a existência das câmaras de gás, campos de concentração e massacres de judeus; ou a ideia de que o nazismo foi uma doutrina política de esquerda, o que contraria discursos e escritos dos próprios nazistas, assim como os estudos de historiadores e cientistas políticos [4] [5].

Já o negacionismo científico pode ser compreendido por “seu caráter intencional e articulado para produzir e disseminar desinformação e dúvidas, por meio de estratégias organizadas com o objetivo de contrariar evidências e alegações consensualmente reconhecidas pela comunidade científica” [6]. A conceituação, escrita por Simone Kropf, é uma dentre os muitos verbetes contidos na obra Dicionário dos Negacionismos no Brasil, Organizada pelo professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj) José Szwako e pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Luiz Ratton.

Em 2016, o Oxford Dictionaries escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano, definindo-a como “circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal” [7]. O termo teria sido usado pela primeira vez em 1992, na revista The Nation, em artigo do escritor sérvio-norte-americano Steve Tesich, sobre um contexto nacional que envolvia escândalos como Watergate e Irã-Contras. Entretanto, o termo pós-verdade somente se popularizou a ponto de ser ecolhido como palavra do ano na década passada, impulsionado por fatores como as eleições de Donald Trump, nos EUA, e do Brexit, no Reino Unido, cujas campanhas se valeram de afirmações absurdas. O termo pós-verdade, no entanto, é controverso, e muitos especialistas na área de comunicação preferem utilizar o termo “pós-fato”. É o caso do professor da USP Carlos Eduardo Lins da Silva, que argumenta que pós-fato soa menos pretensioso e mais adequado à realidade da comunicação e do jornalismo, já que “verdade” é um conceito filosoficamente mais complexo [8].


O ímpeto japonês

A trama de Corações Sujos gira em torno do imigrante japonês Takahashi, um sujeito aparentemente normal, mas que ao ser manipulado pelo coronel Watanabe, do Exército Imperial Japonês, transforma-se em um assassino vingador, pronto para executar os “infiés” colonos japoneses que demonstraram compreender a derrota do Japão. A aparente normalidade de Takahashi não está na trama à toa. Ela serve para mostrar como qualquer indivíduo, quando manipulado e movido pelo fanatismo, é capaz de cometer barbaridades. Incumbido pelo coronel Watanabe da missão de executar os “corações sujos”, Takahashi, hesitoso, chega a questionar por que foi escolhido, já que é apenas um homem comum. Mas é justamente essa normalidade que é ressaltada pelo coronel: “você é o epítome de um homem japonês”, responde Watanabe. Sendo, portanto, um típico japonês, Takahashi seria o homem certo para a tarefa.

E qual era o perfil de um homem japonês naquela época? Além de construírem uma sociedade rigidamente hierárquica, os japoneses eram extremamente fiéis ao imperador, que era venerado como o próprio deus vivo. Além de cultuarem fortemente valores como honra e tradição, a fidelidade ao imperador se misturava à fidelidade ao próprio Japão. E todas essas características eram fundamentais como base da rigida hierarquia do estado totalitário e imperialista que era o Japão do imperador Hirohito. O país se juntou à Alemanha nazista e à Itália fascista visando ampliar seu poder diante de outros países asiáticos [9].

Soldados das mais diversas nacionalidades, em situações francamente adversas, costumam se render. Não era esse o caso dos japoneses da Segunda Guerra Mundial. Os soldados japoneses impressionaram os inimigos – principalmente os estadunidenses – por nunca se renderem, por lutarem até a morte. Os kamikazes – pilotos japoneses que lançavam suas aeronaves contra os alvos em ataques suicidas – foram o maior símbolo desse ímpeto guerreiro do Japão imperial. O oficial japonês Hiroo Onoda só se rendeu em 1974, quase 30 anos após o fim da guerra, quando finalmente foi convencido de que o Japão havia perdido. Durante todo esse período ele passou escondido nas matas das Filipinas [10].

Todo esse ímpeto japonês, que em alguns deles chegava ao fanatismo negacionista, era movido por elementos que até hoje podem ser vistos em muitos casos de negacionismo: nacionalismo, religião e uma visão distorcida e romantizada do próprio passado de seu povo, por exemplo. Esses elementos não são os únicos a mover as engrenagens do pós-fato, mas são alguns dos mais preponderantes e estão presentes na trama de Corações Sujos. Uns mais evidentes; outros menos.


Nacionalismo

O nacionalismo fica claro logo no início do filme, no modo como um grupo de japoneses reage ao tratamento desrespeitoso que um militar brasileiro dá à bandeira do Japão. A truculência do estado getulista não é poupada de crítica em Corações Sujos e isso fica bem caracterizado em algumas passagens do filme. O nacionalismo japonês é reforçado entre os colonos em textos de lavagem cerebral ditos uns aos outros ou lidos para si próprios:

Aqueles que negam o valor dessas coisas e aceitam as coisas como estão no momento desistiram de sua identidade japonesa e estão com os corações sujos. Em outras palavras, são traidores”, diz Takahashi para si mesmo, lendo um panfleto propagandista da Shindo Renmei.

Traçando um comparativo com os tempos atuais, movimentos nacionalistas pelo mundo com frequência possibilitam contextos sociopolíticos de crescimento de negacionismos dos mais diversos. O jornalista Soutik Biswas, correspondente da BBC na Índia, ressalta o quanto a pseudociência avançou da marginalidade para o mainstream naquele país durante a gestão do partido nacionalista hindu BJP, do primeiro-ministro Narendra Modi [11]. A reportagem da BBC dá exemplos de absurdos ditos até mesmo dentro da comunidade científica da Índia, como a afirmação de que antigos hindus inventaram a pesquisa com células-tronco há milhares de anos; ou que o rei demônio do Ramayana, épico religioso hindu, tinha 24 tipos de aeronaves e uma rede de pistas de pouso no território em que hoje fica o Sri Lanka.

Um cientista indiano afirmou ainda que Newton falhou em "entender as forças gravitacionais repulsivas" e que as teorias de Einstein eram "enganosas". Segundo ele, as ondas gravitacionais deveriam ser chamadas de "Ondas de Narendra Modi", uma referência ao primeiro-ministro do país. Modi, por sua vez, disse que a cirurgia estética era praticada na Índia há milhares de anos e usou como exemplo o deus hindu Ganesha - cuja cabeça de elefante está presa a um corpo humano – o que, segundo ele, mostra que a cirurgia estética existia na Índia na antiguidade. Perceptivelmente, esse nacionalismo exacerbado está entrelaçado com o pensamento religioso e a mistificação e romantização do passado.

O historiador Luiz Marques é um dos especialistas que destacam como o negacionismo de consensos científicos se prolifera em meio aos discursos nacionalistas, de esquerda ou direita, e diz: “O discurso negacionista nutre-se do medo e do compreensível desejo das pessoas de se apegar cegamente à identidade de tribo, à eliminação da dissonância, à autoridade moral do pater famílias, em suma, ao mundo do passado, aquele mundo em que o futuro era, malgrado alguns ‘tropeços’ da história, uma promessa” [12]. A identidade tribal, a eliminação (inclusive física) daqueles que ousam compreender a realidade e anunciá-la, a rigidez patriarcal, a mitificação do passado. Todos esses traços podem ser vistos em Corações Sujos no negacionismo de uma realidade imediata: a derrota japonesa.


Religião e passado mítico

Se o nacionalismo é exacerbado no filme, a religiosidade é tratada de uma forma mais sutil. Para quem não conhece nada sobre o xintoísmo, pode soar ainda mais estranho entender por que aqueles colonos japoneses eram tão devotos de sua nação, mas o pensamento religioso era um propulsor dessa devoção, já que o imperador Hirohito, pela religião xintoista, era visto como um deus, o que fica pouco ressaltado, exceto em um diálogo em que um colono que compreendia português e que já havia reconhecido a derrota japonesa (ou seja, um “coração sujo”) tenta dissuadir Takahashi do fanatismo, ao afirmar que o imperador não é um deus.

Àquela altura, com o fim da guerra, o imperador Hirohito já havia renunciado publicamente perante o povo japonês o seu status de divindade, por imposição dos vencedores do conflito: "Os laços que nos unem a vós, nossos súditos, não são o resultado da mitologia ou de lendas. Não se baseiam jamais no conceito de que o imperador é deus ou qualquer outra divindade viva", disse o monarca. [13].

Para muitos japoneses, aquela era a primeira vez que ouviam a voz de Hirohito no rádio. Nunca ter ouvido ou, em alguns casos, nem ter visto pessoalmente o imperador, era algo que só reforçava sua figura mítica e a fé em seu caráter divino. Os japoneses não perderam só a guerra, perderam também um deus. Tudo de uma só vez.

Sobre a mistificação do passado, cabe ressaltar que, de fato, o império japonês nunca havia perdido uma guerra contra outra nação, o que fazia a derrota na Segunda Guerra Mundial ainda mais difícil de ser aceita. Mas o passado glorioso do Japão nos campos de batalha, posto literalmente pelos ares pelas bombas atômicas, não incluia a família imperial como descendente de Amaterasu, deusa xintoísta do sol. Tratava-se de uma crença, um passado idílico que desmoronava. O Japão não era uma nação invencível sob a proteção divina, como a Shindo Renmei acreditava. Os fatos novos estavam postos e precisavam ser aceitos.


A pós-verdade, enfim, não é tão nova assim

Até mesmo fabricação de fake news – ou “desinformação”, como preferem muitos especialistas da área de comunicação – é possível encontrar em Corações Sujos. O responsável é o coronel Watanabe, que demonstra uma postura dúbia: em parte, lucra financeiramente com as mentiras que fabrica e propaga; em parte, também parece acreditar nelas. Esses traços comportamentais de Watanabe podem ser encontrados em diversos dos agentes que contribuem para o processo de desinformação pública – ou desinfodemia: há os que conscientemente fabricam a desinformação para lucrar; há os que ingenuamente acreditam nas mentiras e as disseminam; e há aqueles que parecem ser um pouco de ambos, sabendo que as mentiras são mentiras, mas ao mesmo tempo as vendo como um tipo de verdade, pois condizem com suas visões de mundo.

Por esse raciocínio torto, um livro de um suposto kit gay apresentado por um candidato à Presidência em uma entrevista de TV pode ser falso [14], mas se a falsidade denuncia o que considero algum tipo de deturpação moral nas escolas infantis, por que não repassar a mentira em nome de um “bem maior”?

Estou usando mentiras para lutar contra mentiras”, se defende o coronel Watanabe, ao ser questionado sobre a fabricação de desinformação. “A verdade está dentro de nós”, ele diz. Aqui, há a ideia de que nossos desejos, crenças e percepções valem mais do que os fatos a nossa frente, esfregados em nossa cara. Mas esse comportamento negacionista não funciona e cedo ou tarde cobra um preço. A verdade não está dentro de nós!

No fim das contas, Corações Sujos é um filme para nos alertar que a pós-verdade ou pós-fato não é um fenômeno totalmente novo e nos mostrar como operam alguns elementos psicológicos e sociopolíticos do negacionismo e desses novos tempos, como o nacionalismo, a religião, a mistificação do passado, a incapacidade de lidar com fatos novos e quebras de paradigmas etc.

Em seu livro chamado “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, Matthew D’ancona diferencia a pós-verdade de uma longa tradição de mentiras políticas, mostrando o peso das novas tecnologias e das midias sociais nesse processo de manipulação, polarizando e enraizando opiniões [5]. Ao falar sobre a pós-verdade, André Cabette Fábio também destaca o papel das novas mídias, ao dizer que “Plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras. Grande parte dos factóides são compartilhados por conhecidos nos quais os usuários têm confiança, o que aumenta a aparência de legitimidade das histórias. Os algoritmos utilizados pelo Facebook fazem com que usuários tendam a receber informações que corroboram seu ponto de vista, formando bolhas que isolam as narrativas às quais aderem de questionamentos à esquerda ou à direita”[15].

D’ancona pontua que o fenômeno da pós-verdade não é de todo novo: “Na maior parte da história humana, histórias tribais e mitologias compartilhadas fizeram mais para explicar o comportamento humano do que a avaliação fria da evidência verificável. Todas as sociedades possuem suas lendas fundadoras que as unem, moldam seus limites morais e habitam seus sonhos de futuro. Desde a Revolução Científica e o Iluminismo, porém, essas narrativas coletivas competiram com a racionalidade, o pluralismo e a prioridade da verdade como base para a organização social. O que é novo é a extensão pela qual, no novo cenário de digitalização e interconexão global, a emoção está recuperando sua primazia, e a verdade, batendo em retirada.” [5].

Corações Sujos nos faz refletir sobre como essas histórias tribais e mitológicas já circulavam e provocavam situações de negação da realidade antes da existência das mídias digitais que, aparentemente, deu a elas uma nova e potente propulsão.


Referências:

[1] Brasil teve maior partido nazista fora da Alemanha, apontam historiadores:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/02/08/historia-partido-nazista-no-brasil.htm


[2] Negacionismo

https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm


[3] Negacionismo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo#cite_note-1


[4] CAMPOS, Alexandre Freitas. “Nazismo de esquerda: análise de uma fake history a partir de vídeo da embaixada e consulado alemães. In 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2021, virtual. Disponível em: <https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt5-cd/alexandre-freitas-campos.pdf>


[5] CAMPOS, Alexandre Freitas; WANDERLEY, Sonia Maria de Almeida Ignatiuk. “Nazismo de esquerda” e fake history: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade. Revista Historiar, Vol. 14, Nº. 26, Jan./Jun de 2022. Disponível em: < https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428 >


[6] Dicionário dos Negacionismos no Brasil traz verbetes de pesquisadores da COC/Fiocruz

https://www.coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/2207-dicionario-dos-negacionismos-no-brasil-traz-verbetes-de-pesquisadores-da-coc-fiocruz.html


[7] D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. Barueri: Faro Editora, 2018.


[8] Pós-fato é o novo antagonista da veracidade no jornalismo

https://jornal.usp.br/radio-usp/colunistas/carlos-eduardo-lins-da-silva/pos-fato-e-o-novo-antagonista-da-veracidade-no-jornalismo/


[9] Guerra no Pacífico: de Pearl Harbor às bombas atômicas

https://anchor.fm/historia-fm/episodes/067-Guerra-no-Pacfico-de-Pearl-Harbor-s-bombas-atmicas-e15i50j


[10] Oficial japonês que demorou 30 anos para se render morre em Tóquio

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/01/oficial-japones-que-demorou-30-anos-para-se-render-morre-em-toquio.html


[11] 'Einstein e Newton estavam errados': estimulada por políticos nacionalistas, 'pseudociência' avança na Índia

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46780542?fbclid=IwAR2Yu73sfd1n6bYJW7szoWWCPN04q2qoe0GVW1kyGJO2-RihI_-N5JdruQQ


[12] Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/01/negacao-da-ciencia-ganha-forca-em-nacionalismo-que-une-esquerda-e-direita.shtml


[13] A época em que o imperador japonês era mais venerado no Brasil do que no Japão

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50104588


[14] Bolsonaro mentiu ao falar de livro de educação sexual no ‘Jornal Nacional’

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/29/politica/1535564207_054097.html


[15] O que é ‘pós-verdade’, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

The Boys, democracia e regulação: os riscos da concentração de poderes

 

Em 2019 estreou na Amazon Prime a série The Boys, inspirada na saga homônima vinda das revistas em quadrinhos. Misturando humor, aventura, deboche, violência e momentos escatológicos, a série, dirigida por Eric Kripke, vem ganhando fãs a cada ano e está em fase de elaboração de sua quarta temporada. Nas três temporadas disponíveis, bem-sucedidas com público e crítica, The Boys já nos presenteou com muitos momentos desconcertantes que compõem uma caracterização bastante atípica dos super-heróis, se comparados àqueles que conhecemos dos universos Marvel e DC, por exemplo. Momentos esses que incluem um super-herói capaz de encolher de tamanho, entrar no ânus de uma pessoa e aumentar de tamanho dentro dela, explodindo-a de dentro para fora, ou o famigerado “herogasmic”, uma grande orgia entre os super-heróis.

Os realizadores da série vêm cumprindo bem o grande desafio estético de transpor para o audiovisual momentos bizarros como esses, superpoderes e cenas de ação extraídas de The Boys das histórias em quadrinhos, o que não é tarefa fácil. Criada por Garth Ennis e Darick Robertson e publicada entre 2006 e 2012, a saga de HQs é, para alguns fãs, ainda mais sombria e debochada que a sua versão nas telas. The Boys foi originalmente publicado pelo selo Wildstorm, da DC Comics, que entretanto ficou receosa com o conteúdo e cancelou a série [1]. Quem deu continuidade às publicações foi a Dynamite Entertainment.

Billy Bruto nos quadrinhos é bem mais intimidador que sua versão streaming (interpretada por Karl Urban), a ponto de disputar com o Capitão Pátria o posto de principal vilão da história em algumas circunstâncias. Já o Trem-Bala (Jessie T. Usher), na última temporada parece querer se redimir, repensando sua postura e até pedindo desculpas a Hughie (Jack Quaid). Nos quadrinhos, o personagem não chega nem perto de aprender com os erros ou se arrepender [2].

Mas as supostas amenizações da adaptação ao streaming – e parece difícil acreditar que a versão HQ é ainda mais pesada – não impedem que The Boys seja uma das melhores críticas ao capitalismo feitas atualmentes em forma de produção audiovisual. Sim, pois toda a absurdice e escatologia não tiram o senso crítico da série. São tantas as críticas à sociedade contemporânea que é difícil saber por onde começar. The Boys dispara contra o hiperconsumismo, a espetacularização midiática, as indústrias farmacêuticas e bélicas, o avanço da alt-right trumpista nos EUA etc.


Concentração de poderes x democracia

Mas há uma ideia central fundamental: parafraseando a clássica fala do Tio Ben (do Homem-Aranha), que disse que "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", em The Boys fica claro que “Com grandes poderes, vem a absoluta certeza de que você se tornará um grande babaca.” A frase inclusive é dita literalmente por Billy Bruto em um dos episódios da última temporada. E nem precisava ser dita, porque naquela altura da trama, essa ideia central já estava muito clara.

Isso porque, no universo ficcional de The Boys, os poderes sobre-humanos dos super-heróis os levam a se comportarem como donos do mundo. Eles só querem saber mesmo é de seus próprios interesses e, somente nos palanques ou perante às câmeras de TVs e celulares, fingem se importar com o bem comum. Essa é a principal diferença entre os super-heróis de The Boys e aqueles com os quais nos acostumamos nos universos Marvel e DC Comics. A série é perfeita ao mostrar como o excesso de poder mexe com a cabeça das pessoas. Os super-heróis posam de defensores da sociedade perante a mídia, mas agem como vilões quando ninguém está olhando. Aqueles que se propõem a enfrentá-los também ficam seduzidos pelo gosto do poder quando o experimentam.

Na vida real não há os mesmos poderes sobre-humanos, mas há outros, como o poder aquisitivo por exemplo. E, numa sociedade capitalista, com o poder aquisitivo vêm outros poderes, como o poder político e o poder da informação e difusão das ideias. Por isso, quando a gente vê pessoas acreditando que a "boa vontade" de bilionários como Elon Musk vai garantir liberdade de expressão para a sociedade como um todo e de forma democrática, temos a certeza de quem aplaudiria o Capitão-Pátria se vivesse no universo ficcional de The Boys.

Pois foi em nome da liberdade de expressão e com o argumento de sua garantia que o bilionário sul-africano anunciou que compraria a rede social Twitter. Houve gente comemorando. Em seguida, Musk recuou, alegando que a empresa não estaria sendo transparente na prestação de informações sobre a plataforma, mais especificamente sobre o número de perfis fake. A briga entre Musk e o Twitter foi parar na justiça, com acusações mútuas [3],


Regulação

No meio de tudo isso, existe a discussão sobre a necessidade de mecanismos de regulação para restringir os excessos de poder - das mídias, das grandes fortunas, das armas, do Estado – de tudo o que possa pôr em risco a democracia. Porque grandes poderes concentrados nas mãos de poucos são sempre perigosos. Sejam esses poucos os bilionários ou as big techs (ou a mistura entre ambos). Sobre as concentrações de grandes fortunas, o economista Eduardo Moreira Real diz:

A partir de um certo valor, todo o dinheiro que a pessoa ganha não é mais para comprar carro ou avião. Ele é só poder. Portanto, o dinheiro que vem na última camada, a dos super-ricos, é só concentração de poder. E uma sociedade tem que tomar muito cuidado com para quem ela vai dar todo o poder concentrado, pois esse cara que vai ter todo esse poder concentrado não é alguém que foi eleito, votado, escolhido. Esse cara não pode comandar uma sociedade sem ter legitimidade para isso [4].

Se Eduardo Moreira chama a atenção para os riscos que bilionários implicam para a democracia, ao mesmo tempo em que critica o modo de tributação no Brasil – o que invariavelmente nos leva à discussão sobre a tributação de grandes fortunas – quando o assunto é tecnologia, o que não falta são especialistas apontando para os perigos dos usos e abusos dos dados de usuários pelas diversas plataformas e como elas podem interferir em processos eleitorais e, consequentemente, em legislações, moldando o estado e a sociedade conforme seus próprios interesses.

Um desses especialistas é o cientista da computação Silvio Romero de Lemos Meira, um dos responsáveis pela criação do Porto Digital, um dos principais polos de tecnologia do país e que abriga em torno de 350 empresas de base tecnológica em Pernambuco. Ele fala sobre a necessidade de regulação e os riscos de se encarar a tecnologia com muito entusiasmo:

É preciso abordar criticamente o desenvolvimento tecnológico, com todas as suas dimensões filosóficas e regulatórias. Deveríamos permitir qualquer propaganda no Facebook, inclusive as que incentivam, às vezes de maneira subliminar, comportamentos nazifascistas? Ou permitir mentiras explícitas em propagandas políticas? Deveríamos responsabilizar o intermediário? A tese que levou à explosão das mídias sociais é a seguinte: os intermediários, como o Facebook, não têm responsabilidade. É como se a mídia social fosse apenas um fio telefônico que transmite informações. Mas o Facebook não é apenas um transmissor, ele é praticamente uma estação de informação global e faz intervenção editorial. Deveria ser regulado [5].

Depois dos efeitos negativos da desinformação em redes sociais nos processos eleitorais na década de 2010 e da onda de negacionismo científico e mentiras que prejudicaram a saúde pública durante a pandemia de covid-19, representantes do poder público e da sociedade civil em diversos países vêm aprimorando mecanismos de regulação e cobrando maior proatividade por parte das empresas de tecnologia para lidar com os problemas [6].

Aqui não se trata de traçar um comparativo do ponto de vista moral entre Elon Musk e Capitão-Pátria (aliás, magistralmente interpretado por Antony Starr), mas sim chamar a atenção para a necessidade de mecanismos regulatórios que protejam a democracia contra eventuais riscos por conta das concentrações de poder em diversas instâncias da esfera pública, da vida social. Democracias sólidas não devem (ou ao menos não deveriam) ficar à mercê de supostas boas intenções de seus poderosos, mas sim aprimorar e amadurecer formas de regulação. Até porque, assim como os super-heróis em The Boys, todos posam de bonzinhos perante a mídia, que geralmente tem papel central como caixa de ressonância do poder, maquiando os poderosos, dando-lhes aquele verniz moral, para que pareçam belos e nobres aos olhos da opinião pública.


Cinema e HQs para pensar a sociedade

The Boys, de forma debochada e sanguinolenta, segue mostrando os riscos da concentração de poder. Mas vale lembrar que o assunto não é novidade nas histórias em quadrinhos e suas adaptações ao audiovisual. O universo cinematográfico da Marvel chegou a fazer essa crítica sobre o excesso de poder e a necessidade de mecanismos regulatórios ao adaptar para as telas a saga Guerra Civil, ainda que não de forma tão contundente como faz The Boys.

Em Guerra Civil, por conta dos danos provocados pelos combates, a organização das Nações Unidas decide estabelecer lei para regulamentar as ações dos heróis. O Homem de Ferro se posiciona a favor, mas o Capitão América se coloca contra. Outros heróis se juntam a ambos provocando um racha entre os Vingadores. Mais do que um conflito entre super-heróis, Guerra Civil promove um debate sobre segurança x liberdade, valores importantes para a vida em sociedade.

Para quem se interessar, a proposta de Guerra Civil é muito bem discutida no livro "Os Dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis", de Bruno Andreotti, Adriano Marangoni, Iberê Moreno e Mauricio Zanolini [7].


Referências:

[1] The Boys: As maiores diferenças da HQ para a série da Amazon:

https://br.ign.com/the-boys-26/85104/feature/the-boys-as-maiores-diferencas-da-hq-para-a-serie-da-amazon

[2] The Boys: Diferenças e semelhanças entre a terceira temporada e as Hqs:

https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/the-boys-diferencas-e-semelhancas-entre-a-terceira-temporada-e-as-hqs/

[3] Entenda por que o Twitter está processando Elon Musk; batalha judicial começa nesta terça-feira

https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2022/07/19/entenda-por-que-o-twitter-esta-processando-elon-musk-batalha-judicial-comeca-nesta-terca-feira.ghtml

[4] Os bancos são covardes por Eduardo Moreira:

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=-R8u-5PdEI4&fbclid=IwAR3vJiVkN7RXUzJpkguhDD6LvYGKJaDaBwm2NN685bCJMBG78waw2Rv87iY

[5] Silvio Meira: Um realista esperançoso:

https://revistapesquisa.fapesp.br/silvio-meira-um-realista-esperancoso/

[6] DAMASCENO, Natanael. Desinformação em Rede. MIT Technology Review. Ano 02, nº 87, abr/jun, 2022.

[7] Os dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis

http://editoracriativo.com.br/produtos/exibir/147/os-dois-lados-da-guerra-civil-analise-historica-e-filosofica-do-maior-conflito-entre-super-herois#.YxJiNHbMLIU