terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Túlio Maravilha e o capital simbólico das universidades públicas


Não que alguém tenha perguntado, mas o ex-jogador Túlio Maravilha, ídolo do Botafogo, juntamente com sua esposa, Christiane Maravilha, gravou um vídeo para anunciar que a filha do casal, Tulianne, que também participa do anúncio, passou para duas universidades públicas, mas vai abrir mão das vagas e estudar em universidade particular. O vídeo soa caricato, dos rostos com botox ao cachorrinho frufru, além do próprio conteúdo da mensagem, os signos deixam claro que uma família de classe alta está a menosprezar o ensino superior gratuito. Isso significa muita coisa e representa um sinal de alerta.

 

Dentre os argumentos apresentados pela família Maravilha está a preocupação em manter os valores familiares [1]. Como explica Christiane, “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”. A família não entra em detalhes sobre de que modo a universidade pública feriria seus princípios e valores, mas tudo indica que se trata de uma visão estereotipada influenciada pela guerra cultural e pânico moral que envolvem a imagem da universidade pública e são parte de ataques de cunho político-ideológico [2].

 

A jovem Tulianne passou para Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Odontologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Da forma que a mãe falou, fica parecendo que a menina passou para algum curso como História ou Ciências Sociais, que já integra o movimento estudantil e já se filiou a algum partido da esquerda radical. De que forma aprender Nutrição ou Odontologia pode ferir os valores e princípios familiares? Ao contrário, isso poderia contribuir para a harmonização facial e para a dieta do casal.  

 

Exagero à parte, Túlio e sua esposa demonstram também preocupações factíveis: com a mobilidade urbana do Rio de Janeiro, cujas ruas vivem congestionadas; com a violência urbana, principalmente nas imediações do campus da UFRJ; e com o sucateamento das universidades. O craque e sua filha falam sobre greves, estrutura “caindo aos pedaços” e até “falta de papel higiênico”. Lamentavelmente, o sucateamento do ensino superior e os cortes orçamentários da área de pesquisa são problemas reais.

 

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR

Entretanto, o menosprezo de uma elite pela universidade pública, caricaturalmente demonstrado por Túlio e família, não pode ser entendido só como resultado de um sucateamento. A relação de causa e efeito não é tão simples assim. Esse menosprezo não se dá tão somente por conta da precariedade dos serviços, mas faz parte de uma dinâmica social que envolve distinção de classe e está diretamente ligada à democratização que o acesso ao ensino superior teve nos últimos anos. As universidades públicas ficaram mais acessíveis às classes populares, o que provoca uma alteração em seu capital simbólico.

 

Da década de 2000 para cá, houve avanços expressivos na busca por uma universalização do acesso ao ensino superior, por meio de políticas públicas, como as ações afirmativas, com cotas para determinados grupos sociais antes sub-representados e alunos da rede pública [3]. Segundo estudo dos sociológicos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, as cotas aumentaram o ingresso de pessoas negras, pardas, indígenas, com deficiência e oriundas de escolas públicas nas universidades. Se até o final dos anos 1990 o ensino superior brasileiro era dominado por estudantes brancos e de classes médias e altas, em 2021 os estudantes pretos, pardos e indígenas já representavam 52,4% dos matriculados nas universidades públicas, um significativo aumento em relação aos 31,5% que eles somavam em 2001. No mesmo período, a presença de alunos das classes D e E também saltou de 20% para 52%, evidenciando uma clara mudança de perfil socioeconômico dos discentes.

 

Para além das cotas, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se um mecanismo importante de democratização, pois permite que estudantes de qualquer região e condição socioeconômica concorram às vagas de forma padronizada [4]. Já o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) unificou os processos seletivos e reduziu custos e dificuldades de acesso (como pagar vestibulares ou viajar para prestar provas em diferentes estados). Isso ampliou a mobilidade e equidade no acesso [5]. Tudo isso somado mudou a cara da universidade pública brasileira e há muitos dados atestando a democratização alcançada [6].

 

PIERRE BOURDIEU E O CAPITAL SIMBÓLICO

O problema é que quando o acesso de todos a uma coisa fica mais fácil, para as elites essa coisa perde a graça. Isso porque, como lembra o antropólogo Michel Alcoforado, a identidade dos ricos se dá, dentre outros modos, pelo afastamento dos não ricos [7]. A elite está sempre a buscar e reinventar mil e uma formas de se distinguir das classes mais baixas em seus hábitos, consumos e territórios. Aqui é fundamental entender o conceito de capital simbólico, conforme ele é trabalhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu [8]. Capital simbólico é o prestígio, reconhecimento, honra ou legitimidade social que uma pessoa, grupo ou instituição possui, ou seja, aquilo que é socialmente valorizado e reconhecido como importante ou respeitável.

 

Esse capital simbólico será comunicado pelos ricos por meio da arte, dos lugares frequentados e, principalmente, dos bens de consumo. Um tipo de relógio ou uma marca de roupa têm potencial para que ricos mostrem o quanto são ricos. Por sua vez, a classe média, que sempre tenta imitar os ricos e parecer ter mais do que realmente tem, na medida em que se apropria desses itens, altera o potencial de capital simbólico desses itens, fazendo com que os ricos percam o interesse neles. E os ricos tentam sempre deter a cópia. É um verdadeiro jogo de gato e rato: uma marca identificada como de elite, se muito pirateada, copiada, adquirida pela classe média, é deixada de lado por essa elite, que logo abraça outra marca.

 

O mesmo pode ser observado em relação a locais públicos. O mercado da aviação civil passou por uma certa popularização no Brasil das últimas duas décadas e com isso os voos ficaram mais acessíveis. Não demorou para a elite começar a reclamar que os aeroportos estavam parecendo rodoviárias, como nos lembra Alcoforado em entrevista. Para os ricos, a fronteira precisa estar bem demarcada. Até em nossos próprios corpos. Com a magreza mais acessível nos últimos anos, por conta das novidades farmacêuticas, os braços tonificados, esculpidos por uma rotina de academia, vêm se tornando um novo padrão de beleza [9]. Os músculos se tornam um veículo de capital simbólico que comunica controle do tempo e um uso do tempo voltado para o autocuidado, para a vida fitness. Esse uso do tempo é mais fácil para uma pessoa da elite e mais difícil para um(a) trabalhador(a) comum, que enfrenta horas de trânsito para ir e voltar de seu trabalho presencial, por exemplo. Assim o físico fitness vira símbolo de status, como resume a colunista de moda Ilca Maria Estevão:

 

Quando um padrão de beleza antes considerado inalcançável se populariza, é comum que outro surja em seu lugar. Em resposta à chamada “democratização” do corpo magro, ganharam protagonismo os braços tonificados (...). A frase “nem todo mundo tem as mesmas 24 horas” ajuda a traduzir o impacto visual que a estética fitness busca comunicar: mais do que força física, ela sinaliza disponibilidade, organização e acesso a recursos que permitem transformar o corpo em um projeto contínuo.

 

As tatuagens são um outro exemplo de como o capital simbólico pode ser acionado na demarcação de fronteiras entre ricos e pobres nos corpos. Na medida em que as tattoos se popularizam, os ricos tentam manter um corpo mais clean [10]. Criar cancelas em ruas, quarto de empregada, elevador social, inventar camarotes vips, ultra vips, super ultra vips... Tudo isso faz parte da demarcação de fronteiras para evidenciar as diferenças.

 

E NO ENSINO SUPERIOR?

Com o ensino superior ocorre o mesmo. Por muitos anos a universidade pública brasileira teve um perfil elitizado. Luiz Augusto Campos nos lembra do período da ditadura civil-militar com seu projeto desenvolvimentista, dentro do qual cabia às universidades a formação de uma elite altamente qualificada e, por meio dos vestibulares, selecionava-se os “melhores” estudantes, com potencial para se tornarem os “melhores” profissionais do mercado [11]. Justamente por ser voltado em grande medida para uma elite é que o ensino superior gratuito construiu um capital simbólico atraente para os ricos e para a classe média que se inspira nos ricos. Como lembra Alcoforado, sobre sua própria experiência:

 

Minha mãe me botou numa escola no Rio porque ela estava preocupada se aquela escola aprovava no vestibular. Porque naquele tempo era um ativo importante para a classe média estudar na universidade pública

 

Mas se as elites não se interessam mais como antes pela universidade pública, basta apenas que as classes populares usufruam dos serviços numa boa e na santa paz, certo? É aí que mora o problema. Quando as elites se afastam, a tendência é que o serviço se precarize, perca investimentos. Isso porque o estado brasileiro é fortemente cooptado por uma elite dirigente. Os interesses dos mais ricos se fundem com os interesses do estado. Vimos algo parecido com o ensino público em geral, ao longo de décadas, e o mesmo processo está em curso atualmente no ensino superior. É o que aponta Alcoforado:

 

A elite brasileira durante muito tempo viu a educação pública, sobretudo o ensino superior, como um valor. E aí quando a gente faz a política de cotas e coloca gente com outras origens e trajetórias sociais dentro da universidade, toda a elite brasileira agora manda filho para estudar fora. E a gente já viu esse ciclo na sociedade brasileira inúmeras vezes: quando a elite sai dos espaços, esses espaços perdem investimento, perdem reputação, perdem relevância”.   

 

Portanto, as críticas de Túlio Maravilha e sua família às universidades públicas não são uma reação direta e objetiva à precarização. Na verdade, o menosprezo das elites ao ensino superior gratuito e a precarização desse serviço se retroalimentam. Vale lembrar que apesar das críticas, o ensino superior gratuito ainda é referência e de qualidade, se comparado com o que é oferecido por grande parte das instituições privadas, e as universidades públicas respondem pela maior parte da produção científica do país. Também é importante lembrar que a universidade pública ainda tem prestigio no Brasil. Apesar de tudo que foi dito no vídeo, a família maravilha destacou que a filha passou em duas universidades públicas. Algo que foi considerado um feito relevante e digno de se tornar público. 

 

Que Tulianne tenha uma passagem de sucesso e proveitosa pela universidade que escolher. E cabe às classes populares a luta contínua em defesa da universidade pública de qualidade. Democrática e também de qualidade. Uma luta que está inserida em lutas mais amplas: pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país e pela educação de forma geral.     

 

Referências:

[1] Túlio Maravilha explica por que impediu filha de estudar na UFRJ

https://www.metropoles.com/colunas/fabia-oliveira/tulio-maravilha-explica-por-que-impediu-filha-de-estudar-na-ufrj

 

[2] O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política

https://apatria.org/o-que-e-um-professor-doutrinador-para-o-bolsonarismo-guerra-cultural-e-panico-moral-como-estrategia-politica/

 

[3] Estudo mostra como cotas impulsionaram o acesso às universidades públicas

https://www.andifes.org.br/2025/05/23/estudo-mostra-como-cotas-impulsionaram-o-acesso-as-universidades-publicas/

 

[4] O Enem das universidades

https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/enem-2021-a-porta-de-acesso-ao-ensino-superior/

 

[5] Sisu impulsiona inclusão nas universidades públicas

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/sisu-impulsiona-inclusao-nas-universidades-publicas

 

[6] 10 mitos sobre a universidade pública no Brasil

https://jornal.usp.br/universidade/10-mitos-sobre-a-universidade-publica-no-brasil/

 

[7] Entrevista de Michel Alcoforado sobre seu livro “Coisa de Rico”

https://open.spotify.com/episode/56Jl8rCHthB5JFhgKEwln1?si=0Le8xHT3RKChxIfWlMvEHg&nd=1&dlsi=05f467cddba74982

 

[8] Pierre Bordieu | Resumo | Saiba o essencial

https://www.youtube.com/watch?v=enC1fguq-Fg&t=2559s

 

[9] Corpos magros dão lugar a braços tonificados como símbolo de status

https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/corpos-magros-dao-lugar-a-bracos-tonificados-como-simbolo-de-status

 

[10] Tatuagem virou coisa de pobre?? Sobre laser, desvalorização e mudanças na profissão

https://www.youtube.com/watch?v=ZNKse-lF1i0

 

[11] Mensalidade não é solução para universidade pública

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/post/2022/05/mensalidade-nao-e-solucao-para-universidade-publica.ghtml


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