terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Conservadores ou reacionários? Entenda as diferenças

 


O Carnaval acabou e, como frequentemente ocorre, gerou algumas polêmicas. Talvez a principal delas tenha sido o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou uma homenagem ao presidente Lula que deu o que falar antes, durante e depois do desfile. Como já era de se esperar, a escola foi rebaixada, o que normalmente ocorre com as recém-chegadas no Grupo Especial vindas da Série Ouro (a segunda divisão das escolas de samba do Rio).

 

A principal polêmica pós-desfile foi a ala “Neoconservadores em conserva”, cujas fantasias mostravam famílias em latas de conserva, explorando o trocadilho. De acordo com a agremiação, a ala representava grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos, que juntos no Congresso formariam um bloco conservador.

 

Políticos de direita e extrema direita criticaram publicamente o desfile e principalmente a ala. Com uso de inteligência artificial, muitos publicaram imagens de suas próprias famílias em latas de conservas, demonstrando o orgulho de serem conservadores [1]. Alguns veículos de comunicação, como o jornal Zero Hora, publicaram um passo a passo sobre como entrar na “trend da família em conserva” e fazer a ilustração dos familiares sorridentes dentro da latinha [2].

 

A apropriação da trend pela direita e extrema direita nos mostra o problema que pode haver na comunicação política quando se critica alguém nos termos em que esse alguém se enxerga e se promove e não nos termos em que ele realmente é e age. Um artigo de Alex Castro nos dá um bom exemplo desse tipo de situação. Em “Carta aberta aos humoristas do Brasil” [3], Castro desconstrói a ideia do “politicamente incorreto”, chamando a atenção para o fato de que muitos daqueles que se julgam “contra o sistema”, que se dizem alinhados ao politicamente incorreto por fazerem piadas com gays, mulheres, negros e outros grupos minoritários e/ou subjugados, na verdade não são contra o sistema coisa nenhuma. Embora eles gostem de se olhar no espelho como rebeldes e insurgentes, no fundo eles estão alinhados politicamente a grupos que sempre estiveram no poder (homens, brancos, héteros e de elite), fazendo as mesmas piadas que seus avós faziam. O termo “politicamente incorreto” seria, assim, um equívoco, já que esses pseudoinsurgentes estão alinhados ao que politicamente é mais do mesmo há muitos anos.

 

Nesse caso, se ver como politicamente incorreto tem mais a ver com alter ego, com o modo como a pessoa quer se enxergar, do que objetivamente com o comportamento que ela adota. Em muitos pontos o mesmo se aplica ao rótulo de conservador. Todos aqueles que se autodenominam orgulhosamente como conservadores são realmente conservadores? Ou seriam reacionários? No debate político e por vezes até nas pesquisas acadêmicas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro, os termos “conservador”, “reacionário”, “conservadorismo” e “reacionarismo” são utilizados de forma misturada. Além disso, há de fato certa mistura no cenário político, se pensarmos nas alianças partidárias e seus representantes políticos.

 

CONSERVADORISMO X REACIONARISMO

Basicamente, enquanto o conservador tenta conservar aquilo que ele acha que funciona bem dentro de um estado de coisas do presente, o reacionário reivindica o retorno a um estado de coisas que não existe mais (e que normalmente nunca existiu exatamente do jeito que ele pensa), o que implica a supressão de direitos construídos dentro de um processo civilizatório [4]. Vamos tentar destacar as principais diferenças entre o conservadorismo e o reacionarismo.

 

Norberto Bobbio, em seu “Dicionário de Política” [5], faz considerações diferenciadas sobre conservadores e sobre reacionários. À luz da ciência política, o filósofo italiano destaca que o conservadorismo “designa ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. Mais ainda, Bobbio afirma que o conservadorismo, ao fazer a defesa do poder político vigente, que vê como “condição indispensável à convivência social que é necessário controlar, mas não destruir”, põe-se como reação ao contínuo e rápido avanço do progressismo.

 

Já o reacionarismo é classificado pelo autor a partir de um caráter anti-igualitário, visto que os impulsos reacionários teriam origem principalmente na hostilidade daqueles componentes sociais que, pelo progresso e igualdade, são prejudicados em seus privilégios. Bobbio traz um exemplo europeu: à época da restauração pós-revolucionária, “o sistema que a Reação declarava querer defender se baseava no princípio de que o poder e o privilégio eram de origem divina e que o Ancien Régime [sistema político, econômico e social da monarquia anterior à Revolução Francesa] obedecia a uma lei universal transcendente e imutável”.

 

Ainda, Bobbio associa ao reacionarismo recortes raciais, nacionalistas e religiosos, situando o fascismo e o nazismo como fenômenos reacionários de massa. Isso respalda nosso entendimento de situar a extrema direita bolsonarista no reacionarismo e não no conservadorismo, ainda que seus adeptos com frequência se denominem como conservadores e assim queiram ser vistos. Como exemplo, podemos citar slogans bolsonaristas de campanha e de governo, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Deus, pátria e família”, emprestado do integralismo, movimento político brasileiro das primeiras décadas do século 20 influenciado pelo fascismo italiano (slogan depois modificado pelo bolsonarismo para “Deus, pátria, família e liberdade”).

 

No Brasil, alguns autores também nos ajudam a diferenciar conservadorismo de reacionarismo. Os professores e cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, do Iesp/Uerj, partindo de suas pesquisas sobre a compreensão do pensamento político e da cultura política brasileiros, explicam que os conservadores/conservadorismo admitem mudanças oportunas e tentam controlar a velocidade das mudanças, conciliando tradição e mudanças (estas últimas, com muita parcimônia) [6].

 

Já os reacionários/reacionarismo vivem em uma utopia regressiva e acreditam que o mundo ideal e/ou desejável faz parte do passado. Assim como o revolucionário de esquerda acredita em uma utopia futurista, o reacionário vê a utopia no passado, em uma espécie de “era de ouro” para a qual é possível retornar. Para muitos reacionários, como apontam os cientistas políticos, o apogeu da humanidade foi a Idade Média, e o mundo está decaindo desde a Renascença. Por isso, os reacionários são chamados por Lynch e Cassimiro também de “decadentistas”.

 

No mesmo sentido, explica o historiador e professor Daniel Gomes de Carvalho [7]. Para este, o reacionário é um crítico da sociedade vigente e desconfia das mudanças e transformações (assim como os conservadores), mas essa desconfiança se traduz em uma nostalgia, que frequentemente vem com uma idealização sobre o passado, como se o passado fosse uma era de ouro, e, o presente, uma era decadente. A modernidade representaria essa decadência. O professor ressalta o peso do ressentimento no pensamento reacionário para o desenvolvimento dessa nostalgia e idealização do passado. Ele chama atenção para o detalhe curioso que é ver brasileiros falarem saudosamente de uma era de ouro medieval, com base em sociedades europeias, já que no Brasil, no mesmo período histórico, a realidade era bastante diferente da do Velho Continente.

 

Já o conservador, ainda para o professor, aceita a necessidade da mudança. Citando pensadores como Edmund Burke, Carvalho fala sobre a visão reformista que se faz presente no pensamento conservador. Porém, a reforma precisa ser gradativa. O conservadorismo busca dar coerência à defesa das tradições econômicas e sociais, aceitando a necessidade de reformas (não de revoluções), desde que lentas e graduais. Tradicionalismo, organicismo e ceticismo político seriam as três principais características do conservadorismo.

 

Enquanto Lynch e Cassimiro entendem o bolsonarismo (parte muito expressiva da extrema direita brasileira) como uma expressão reacionária, um “reacionarismo populista”, Carvalho classifica o ideólogo e astrólogo Olavo de Carvalho, apontado como uma espécie de guru do bolsonarismo, como um autor reacionário, o que demonstra a convergência dos três professores tanto em relação às diferenças conceituais entre conservadorismo e reacionarismo, quanto na identificação do pertencimento do bolsonarismo ao segundo campo político-ideológico, ou seja, ao campo reacionário.

 

EXTREMA DIREITA: REACIONARISMO ACIMA DE TUDO

A extrema direita atual é, portanto, muito mais reacionária do que conservadora. Isso pode ser identificado nas suas diversas leituras idealizadas e romantizadas do passado. Leituras estas negacionistas, quando comparadas à produção historiográfica séria, ou seja, metodológica. Simplificações romantizadas sobre o período medieval, sobre a monarquia brasileira, sobre a ditadura militar (esta última lembrada pela polêmica ala da Acadêmicos de Niterói) circulam com muita frequência nas bolhas de extrema direita.

 

Por traz dessa utopia regressiva, há constantemente a busca pela supressão de direitos de determinados grupos sociais – como negros, mulheres, LGBT+, indígenas etc – que obtiveram alguns avanços em direitos civis e em indicadores de igualdade nas últimas décadas. O reacionarismo almeja não só a supressão desses direitos, mas dos níveis de democracia construídos ao longo do processo de redemocratização, principalmente a partir da Constituição de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”. Isso fica óbvio nas leituras negacionistas e romantizadas sobre a ditadura civil-militar do Brasil. Mais do que uma utopia regressiva, o reacionarismo é uma utopia regressiva autoritária.

 

A esquerda brasileira precisa parar de chamar reacionários de conservadores. Não se trata de um preciosismo conceitual acadêmico, mas de uma estratégia de comunicação política. Ao criticar “conservadores” de um modo genérico, a esquerda alarga demasiadamente a crítica, amplia seus inimigos e antipatizantes, colocando no mesmo balaio a extrema direita e uma direita e centro-direita não radicalizadas. Há diferenças consideráveis entre um bolsonarista fanático como Carlos Jordy e um adepto de uma direita pragmática como Aureo Ribeiro, apenas para citar dois deputados federais da bancada fluminense. Ambos, entretanto, entraram na trend da família em conserva.     

 

A ala da Acadêmicos de Niterói pegou no contrapé os esforços do governo para melhorar sua relação com os evangélicos e reduzir seus índices de rejeição nesse segmento. Seria mais assertivo se a agremiação criticasse os reacionários e não os conservadores (ainda que perdesse o gancho do trocadilho com as latas de conserva). Assim a crítica soaria mais precisa, com foco nas supressões de direitos de alguns grupos sociais e da democracia, e menos confundida com ataque à família, o que definitivamente não é o caso. A esquerda não é contra a família, mas a favor da ampliação de direitos. Chamar os reacionários de reacionários é denunciá-los pelo que eles de fato são, em vez de legitimar a imagem de conservadores que eles tentam construir de si próprios.  

 

Referências:

[1] Postagens dos deputados federais Aureo Ribeiro, Otoni de Paula e Carlos Jordy

https://www.instagram.com/p/DU6WAjVkmtl/

https://www.instagram.com/p/DU1jk2XD2ok/

https://www.instagram.com/p/DU1s8RWDJJo/

 

[2] Como fazer a trend da família em conserva com inteligência artificial? Veja o passo a passo

https://gauchazh.clicrbs.com.br/viral/noticia/2026/02/como-fazer-a-trend-da-familia-em-conserva-com-inteligencia-artificial-veja-o-passo-a-passo-cmluvuhaf01rk013kw2zx63o1.html

 

[3] “Carta aberta aos humoristas do Brasil”

https://www.geledes.org.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil-por-alex-castro/

 

[4] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[5] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancisco. Dicionário de Política vol I. Nicola Matteucci e Gianfranco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

 

[6] Populismo Reacionário | com Christian Lynch & Paulo Henrique Cassimiro

https://www.youtube.com/watch?v=9gWdnVQ-ZzU

 

[7] Conservadores, reacionários e contrarrevolucionários | Quais as diferenças?

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=Qloa0KMP3fU&fbclid=IwAR3R_PC5JnYaeS0dRtxAq82gG92agFQTNbgbamtoflubHDQw-JQUcmBHrZE

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