O Carnaval acabou e, como
frequentemente ocorre, gerou algumas polêmicas. Talvez a principal delas tenha
sido o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial das
Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança:
Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou uma homenagem ao presidente
Lula que deu o que falar antes, durante e depois do desfile. Como já era de se
esperar, a escola foi rebaixada, o que normalmente ocorre com as recém-chegadas
no Grupo Especial vindas da Série Ouro (a segunda divisão das escolas de samba
do Rio).
A principal polêmica
pós-desfile foi a ala “Neoconservadores em conserva”, cujas fantasias mostravam
famílias em latas de conserva, explorando o trocadilho. De acordo com a agremiação,
a ala representava grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo: os
representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de
classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos
evangélicos, que juntos no Congresso formariam um bloco conservador.
Políticos de direita e
extrema direita criticaram publicamente o desfile e principalmente a ala. Com
uso de inteligência artificial, muitos publicaram imagens de suas próprias
famílias em latas de conservas, demonstrando o orgulho de serem conservadores
[1]. Alguns veículos de comunicação, como o jornal Zero Hora, publicaram um
passo a passo sobre como entrar na “trend
da família em conserva” e fazer a ilustração dos familiares sorridentes dentro
da latinha [2].
A apropriação da trend pela direita e extrema direita nos
mostra o problema que pode haver na comunicação política quando se critica
alguém nos termos em que esse alguém se enxerga e se promove e não nos termos
em que ele realmente é e age. Um artigo de Alex Castro nos dá um bom exemplo
desse tipo de situação. Em “Carta aberta aos humoristas do Brasil” [3], Castro
desconstrói a ideia do “politicamente incorreto”, chamando a atenção para o
fato de que muitos daqueles que se julgam “contra o sistema”, que se dizem
alinhados ao politicamente incorreto por fazerem piadas com gays, mulheres,
negros e outros grupos minoritários e/ou subjugados, na verdade não são contra
o sistema coisa nenhuma. Embora eles gostem de se olhar no espelho como
rebeldes e insurgentes, no fundo eles estão alinhados politicamente a grupos
que sempre estiveram no poder (homens, brancos, héteros e de elite), fazendo as
mesmas piadas que seus avós faziam. O termo “politicamente incorreto” seria,
assim, um equívoco, já que esses pseudoinsurgentes estão alinhados ao que
politicamente é mais do mesmo há muitos anos.
Nesse caso, se ver como
politicamente incorreto tem mais a ver com alter ego, com o modo como a pessoa
quer se enxergar, do que objetivamente com o comportamento que ela adota. Em
muitos pontos o mesmo se aplica ao rótulo de conservador. Todos aqueles que se
autodenominam orgulhosamente como conservadores são realmente conservadores? Ou
seriam reacionários? No debate político e por vezes até nas pesquisas
acadêmicas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro, os termos
“conservador”, “reacionário”, “conservadorismo” e “reacionarismo” são
utilizados de forma misturada. Além disso, há de fato certa mistura no cenário
político, se pensarmos nas alianças partidárias e seus representantes
políticos.
CONSERVADORISMO X
REACIONARISMO
Basicamente, enquanto o
conservador tenta conservar aquilo que ele acha que funciona bem dentro de um
estado de coisas do presente, o reacionário reivindica o retorno a um estado de
coisas que não existe mais (e que normalmente nunca existiu exatamente do jeito
que ele pensa), o que implica a supressão de direitos construídos dentro de um
processo civilizatório [4]. Vamos tentar destacar as principais diferenças
entre o conservadorismo e o reacionarismo.
Norberto Bobbio, em seu
“Dicionário de Política” [5], faz considerações diferenciadas sobre
conservadores e sobre reacionários. À luz da ciência política, o filósofo
italiano destaca que o conservadorismo “designa
ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos
seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças
inovadoras”. Mais ainda, Bobbio afirma que o conservadorismo, ao fazer a
defesa do poder político vigente, que vê como “condição indispensável à convivência social que é necessário controlar,
mas não destruir”, põe-se como reação ao contínuo e rápido avanço do
progressismo.
Já o reacionarismo é
classificado pelo autor a partir de um caráter anti-igualitário, visto que os
impulsos reacionários teriam origem principalmente na hostilidade daqueles
componentes sociais que, pelo progresso e igualdade, são prejudicados em seus
privilégios. Bobbio traz um exemplo europeu: à época da restauração
pós-revolucionária, “o sistema que a
Reação declarava querer defender se baseava no princípio de que o poder e o
privilégio eram de origem divina e que o Ancien Régime [sistema político,
econômico e social da monarquia anterior à Revolução Francesa] obedecia a uma lei universal transcendente
e imutável”.
Ainda, Bobbio associa ao
reacionarismo recortes raciais, nacionalistas e religiosos, situando o fascismo
e o nazismo como fenômenos reacionários de massa. Isso respalda nosso
entendimento de situar a extrema direita bolsonarista no reacionarismo e não no
conservadorismo, ainda que seus adeptos com frequência se denominem como
conservadores e assim queiram ser vistos. Como exemplo, podemos citar slogans
bolsonaristas de campanha e de governo, como “Brasil acima de tudo, Deus acima
de todos” e “Deus, pátria e família”, emprestado do integralismo, movimento
político brasileiro das primeiras décadas do século 20 influenciado pelo
fascismo italiano (slogan depois modificado pelo bolsonarismo para “Deus,
pátria, família e liberdade”).
No Brasil, alguns autores
também nos ajudam a diferenciar conservadorismo de reacionarismo. Os
professores e cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro,
do Iesp/Uerj, partindo de suas pesquisas sobre a compreensão do pensamento
político e da cultura política brasileiros, explicam que os
conservadores/conservadorismo admitem mudanças oportunas e tentam controlar a
velocidade das mudanças, conciliando tradição e mudanças (estas últimas, com
muita parcimônia) [6].
Já os
reacionários/reacionarismo vivem em uma utopia regressiva e acreditam que o
mundo ideal e/ou desejável faz parte do passado. Assim como o revolucionário de
esquerda acredita em uma utopia futurista, o reacionário vê a utopia no
passado, em uma espécie de “era de ouro” para a qual é possível retornar. Para
muitos reacionários, como apontam os cientistas políticos, o apogeu da
humanidade foi a Idade Média, e o mundo está decaindo desde a Renascença. Por
isso, os reacionários são chamados por Lynch e Cassimiro também de
“decadentistas”.
No mesmo sentido, explica
o historiador e professor Daniel Gomes de Carvalho [7]. Para este, o
reacionário é um crítico da sociedade vigente e desconfia das mudanças e
transformações (assim como os conservadores), mas essa desconfiança se traduz
em uma nostalgia, que frequentemente vem com uma idealização sobre o passado,
como se o passado fosse uma era de ouro, e, o presente, uma era decadente. A
modernidade representaria essa decadência. O professor ressalta o peso do
ressentimento no pensamento reacionário para o desenvolvimento dessa nostalgia
e idealização do passado. Ele chama atenção para o detalhe curioso que é ver
brasileiros falarem saudosamente de uma era de ouro medieval, com base em
sociedades europeias, já que no Brasil, no mesmo período histórico, a realidade
era bastante diferente da do Velho Continente.
Já o conservador, ainda
para o professor, aceita a necessidade da mudança. Citando pensadores como
Edmund Burke, Carvalho fala sobre a visão reformista que se faz presente no
pensamento conservador. Porém, a reforma precisa ser gradativa. O
conservadorismo busca dar coerência à defesa das tradições econômicas e
sociais, aceitando a necessidade de reformas (não de revoluções), desde que
lentas e graduais. Tradicionalismo, organicismo e ceticismo político seriam as
três principais características do conservadorismo.
Enquanto Lynch e
Cassimiro entendem o bolsonarismo (parte muito expressiva da extrema direita
brasileira) como uma expressão reacionária, um “reacionarismo populista”,
Carvalho classifica o ideólogo e astrólogo Olavo de Carvalho, apontado como uma
espécie de guru do bolsonarismo, como um autor reacionário, o que demonstra a
convergência dos três professores tanto em relação às diferenças conceituais
entre conservadorismo e reacionarismo, quanto na identificação do pertencimento
do bolsonarismo ao segundo campo político-ideológico, ou seja, ao campo
reacionário.
EXTREMA DIREITA:
REACIONARISMO ACIMA DE TUDO
A extrema direita atual
é, portanto, muito mais reacionária do que conservadora. Isso pode ser identificado
nas suas diversas leituras idealizadas e romantizadas do passado. Leituras
estas negacionistas, quando comparadas à produção historiográfica séria, ou
seja, metodológica. Simplificações romantizadas sobre o período medieval, sobre
a monarquia brasileira, sobre a ditadura militar (esta última lembrada pela
polêmica ala da Acadêmicos de Niterói) circulam com muita frequência nas bolhas
de extrema direita.
Por traz dessa utopia
regressiva, há constantemente a busca pela supressão de direitos de determinados
grupos sociais – como negros, mulheres, LGBT+, indígenas etc – que obtiveram
alguns avanços em direitos civis e em indicadores de igualdade nas últimas
décadas. O reacionarismo almeja não só a supressão desses direitos, mas dos
níveis de democracia construídos ao longo do processo de redemocratização,
principalmente a partir da Constituição de 1988, a chamada “Constituição
Cidadã”. Isso fica óbvio nas leituras negacionistas e romantizadas sobre a
ditadura civil-militar do Brasil. Mais do que uma utopia regressiva, o
reacionarismo é uma utopia regressiva autoritária.
A esquerda brasileira
precisa parar de chamar reacionários de conservadores. Não se trata de um
preciosismo conceitual acadêmico, mas de uma estratégia de comunicação
política. Ao criticar “conservadores” de um modo genérico, a esquerda alarga
demasiadamente a crítica, amplia seus inimigos e antipatizantes, colocando no
mesmo balaio a extrema direita e uma direita e centro-direita não
radicalizadas. Há diferenças consideráveis entre um bolsonarista fanático como
Carlos Jordy e um adepto de uma direita pragmática como Aureo Ribeiro, apenas
para citar dois deputados federais da bancada fluminense. Ambos, entretanto,
entraram na trend da família em
conserva.
A ala da Acadêmicos de
Niterói pegou no contrapé os esforços do governo para melhorar sua relação com
os evangélicos e reduzir seus índices de rejeição nesse segmento. Seria mais
assertivo se a agremiação criticasse os reacionários e não os conservadores
(ainda que perdesse o gancho do trocadilho com as latas de conserva). Assim a
crítica soaria mais precisa, com foco nas supressões de direitos de alguns
grupos sociais e da democracia, e menos confundida com ataque à família, o que
definitivamente não é o caso. A esquerda não é contra a família, mas a favor da
ampliação de direitos. Chamar os reacionários de reacionários é denunciá-los
pelo que eles de fato são, em vez de legitimar a imagem de conservadores que
eles tentam construir de si próprios.
Referências:
[1] Postagens dos
deputados federais Aureo Ribeiro, Otoni de Paula e Carlos Jordy
https://www.instagram.com/p/DU6WAjVkmtl/
https://www.instagram.com/p/DU1jk2XD2ok/
https://www.instagram.com/p/DU1s8RWDJJo/
[2] Como fazer a trend da
família em conserva com inteligência artificial? Veja o passo a passo
[3] “Carta aberta aos
humoristas do Brasil”
https://www.geledes.org.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil-por-alex-castro/
[4] Como o campo
conservador/reacionário vê o ensino superior:
https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65
[5] BOBBIO, Norberto;
MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancisco. Dicionário de Política vol I.
Nicola Matteucci e Gianfranco. Brasília: Editora Universidade de Brasília,
1998.
[6] Populismo Reacionário
| com Christian Lynch & Paulo Henrique Cassimiro
https://www.youtube.com/watch?v=9gWdnVQ-ZzU
[7] Conservadores,
reacionários e contrarrevolucionários | Quais as diferenças?

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