Divulgador científico faz reducionismo caricato de controvérsias
científicas no campo da psicologia
Nesta semana o geofísico e
divulgador científico Sérgio Sacani, responsável por projetos de grande alcance
de público nas mídias digitais, como os canais Ciência sem Fim e Space Today,
causou polêmica em uma participação que fez no podcast Redcast. Em uma conversa
da qual também fazia parte o ex-deputado estadual Arthur do Val, mais conhecido
como Mamãe Falei e ligado ao movimento direitista MBL, Sacani referiu-se a um
evento do qual participou no mês de novembro, na Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC), de uma forma bastante pejorativa.
Fomos eu, Eslen Delanogare e uma professora falar sobre mudanças
climáticas. Os caras invadiram a mesa e falaram ‘essa mesa não representa
ninguém’. Eles queriam um índio, uma trans, um viado e um negro. Aí eu falei
brincando para o Eslen: se fantasia de índio aí. [1]
O evento ao qual Sacani se refere
dessa forma preconceituosa e grosseira foi a palestra de abertura da 21ª Semana
de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (Sepex), no dia 6 de novembro. A mesa
foi intitulada “Cosmos, Vida na Terra e Saúde Mental: Uma Viagem Científica”,
realizada no campus de Florianópolis, que contou com a participação da
professora Regina Rodrigues, coordenadora de Oceanografia da UFSC; de Eslen
Delanogare, psicólogo, doutor em Neurociências pela UFSC e também divulgador
científico; e do próprio Sérgio Sacani.
Após a fala polêmica, a
jornalista da UFSC, Amanda Miranda, foi à rede social X para desmentir Sacani:
Sou jornalista da UFSC e cobri essa mesa. De fato, somos uma
universidade inclusiva, aberta e plural, mas não trabalhamos com mentiras. Isso
não aconteceu! Lamentável uma pessoa com visibilidade e influência lançar um
factoide absurdo para achincalhar a universidade pública.
Amanda postou vídeo com a
exibição na íntegra daquela mesa, comprovando que não houve nenhum tipo de
invasão. [2] Outro que veio a público desmentir o divulgador científico foi o
secretário de comunicação da UFSC, responsável pela organização da Sepex 2024,
Marcus Paulo Pessôa, que reafirmou que não houve invasão. “O que aconteceu foi
que, antes do evento, quando as portas do auditório foram abertas, alguns
estudantes foram lá muito respeitosamente e levaram faixas, com alguns
protestos”.
Somando-se a Amanda Miranda e
Marcus Pessôa, a própria UFSC emitiu uma nota afirmando não ter havido nenhuma
invasão no evento, lamentando a fala de Sacani e reforçando que ele não mais
será chamado para participar de nenhum evento na instituição:
Lamentamos a forma desrespeitosa com que o Sr. Sérgio Sacani referiu-se
à UFSC e seus estudantes em sua participação em podcast. Mesmo submetida a uma
forte restrição orçamentária, a UFSC se empenhou em um enorme esforço
institucional de valorização da Sepex, que teve na mesa de abertura seu evento
de maior visibilidade, com cerca de 2.000 pessoas presentes, além de
significativa audiência online e cobertura da imprensa local. No entanto, tal
esforço parece não ter logrado êxito em demonstrar ao convidado toda a potência
e diversidade da UFSC.
Reforçamos nosso compromisso com a diversidade, com o debate
democrático de ideias, com a universidade pública e gratuita, e por isso
anunciamos que o Sr. Sérgio Sacani não será mais convidado a participar de
atividades organizadas pela Administração Central da UFSC na atual gestão. [3]
Contrariado publicamente, em vez
de se retratar, Sacani preferiu fazer um malabarismo semântico a respeito do
conceito de “invasão”, para continuar sustentando que sim, teria havido uma
invasão à mesa da qual participou. Em outra participação no mesmo Redcast,
Sacani explica que a tal “invasão” teria sido a colocação de faixas de protesto
feitas por estudantes da própria UFSC no palco onde haveria o evento pouco
antes do evento começar.
“Uma pessoa que não era convidada
subiu no palco e esticou a faixa lá”. Uma ideia controversa de invasão, já que
as faixas foram colocadas pelos próprios estudantes da UFSC, que não precisam
de convite para estar em um evento aberto da universidade na qual estudam. A
própria instituição, responsável pelo espaço, não considera tal atitude como
invasão, conforme consta na nota oficial.
O que realmente ocorreu?
Não vou aqui me alongar sobre o
que é ou não é uma invasão. Embora particularmente eu entenda que Sérgio Sacani
mentiu ao relatar o ocorrido na UFSC, basta-me reforçar que o que ele fez foi,
no mínimo, uma distorção grosseira (em vários sentidos) do que de fato ocorreu
e do que de fato estava sendo reivindicado pelos estudantes. Houve, sim,
manifestações críticas a respeito da composição da mesa na qual o divulgador
científico participou. Entretanto, essas manifestações, feitas por graduandos
de psicologia da UFSC, foram mais complexas e mais técnicas do que Sacani
tentou fazer parecer ao dizer que queriam “um índio e um viado na mesa”.
Em uma postagem feita no dia do
evento, em 6 de novembro, na página de Instagram do “Centro Acadêmico Livre de
Psicologia” da UFSC ( @calpsi ), os graduandos de psicologia escreveram suas
críticas à composição daquela mesa. É possível observar que as reinvindicações
dos estudantes não se assemelham a caricaturização grosseira apresentada por
Sérgio Sacani. Segue a nota dos graduandos:
Hoje, quarta-feira (06/11/2024), às 18h30, ocorrerá no auditório
Garapuvu a mesa de abertura da 21ª SEPEX intitulada “Cosmos, vida na Terra e
saúde mental”. Entretanto, nós, corpo discente do curso de Psicologia, nos
questionamos: a abordagem que será feita acerca de saúde mental e ciência
reflete a pluralidade de epistemologias, subjetividades e modos de vida? De
quais lugares partem os palestrantes escolhidos? Cadê os trabalhadores da rede
de atenção psicossocial nesta mesa? Por que não houve diálogo com o curso e com
o departamento de Psicologia para a construção deste evento, em se tratando de
uma temática que nos é tão particular? Quais foram os critérios adotados pela
comissão científica do evento? Em um território onde está vigente a política de
morte manicomial da internação compulsória, é a partir dessa perspectiva que
escolhemos discutir?
Na apresentação do palestrante convidado para falar sobre saúde mental,
a universidade exalta o seu “estilo de vida saudável” e o reconhecimento que
possui baseado na quantidade de seguidores nas redes sociais. Além disso,
apresenta uma visão predominantemente biologizante e individual sobre a saúde
mental com um debate raso: ou você a tem, ou não, beirando a lógica da
medicamentalização. Diante disso, nos questionamos: a correlação entre a
produção de saúde mental e características/escolhas individuais reflete o
conhecimento e as práticas que estamos produzindo e gostaríamos de produzir
enquanto curso, ciência e profissão?
Baseado em todos esses questionamentos, manifestamos a nossa
insatisfação com a maneira como este evento foi planejado, e comunicamos que realizaremos
uma intervenção no auditório Guarapuvu, fixando os cartazes que estão sendo
produzidos coletivamente pelos estudantes do curso no dia de hoje.
Há muitas considerações que
podemos fazer a respeito dessa manifestação dos estudantes. Em primeiro lugar,
as críticas são direcionadas à escolha de Eslen Delanogare para a mesa. Não
tinha a ver com Sacani. Os questionamentos envolvem controvérsias científicas e
técnicas da área de psicologia, como quem teria mais legitimidade para falar
sobre saúde mental; a ausência de um profissional de psicologia com experiência
em atendimento psicossocial; a falta de diálogo com o curso de psicologia para
a elaboração de evento cujo tema tem a ver com a área; um embate entre
abordagens diferentes no campo da psicologia, já que, aparentemente, os
estudantes têm uma, e o convidado, outra.
No texto dos graduandos,
percebe-se ainda uma crítica às formas de validação de quem seria ou não
especialista para falar sobre temas em tempos de mídias digitais, já que o
texto critica a exaltação do número de seguidores do convidado a palestrante.
Esse é um questionamento bastante pertinente nos dias atuais para a divulgação
científica e que diz respeito a toda a sociedade e esfera pública.
Há ainda uma crítica à figura do
influenciador digital que “vende” qualidade de vida de forma individualista e
descontextualizada das condições sociais predominantes para a maioria da
população, pregando um estilo de vida ao qual poucos têm acesso.
Entretanto, nada disso significa
que eu concorde plenamente com a posição dos graduandos de psicologia da UFSC
ou ache que as críticas feitas pelos mesmos se apliquem perfeitamente à figura
pública de Eslen Delanogare. A questão aqui é outra. A questão é que a
manifestação crítica dos estudantes é muito mais técnica e complexa do que
querer colocar “um índio e um viado” na mesa, como Sacani fez parecer. Ao
reduzir a discussão a uma caricatura grosseira, Sacani passou por cima de
controvérsias científicas complexas de uma área que ele não domina. E isso é um
erro enorme para um divulgador científico.
Por que Sacani mentiu ou distorceu os fatos?
Por que Sacani fez isso? Ele
mentiu? Embora eu esteja convencido que é possível classificar a fala de Sacani
como mentira, basta-me enfatizar que houve, no mínimo, uma distorção grosseira
dos fatos e da discussão ocorrida dentro da universidade a respeito de um
evento acadêmico.
E por que essa distorção ocorreu?
É possível que isso tenha a ver com a busca de Sérgio Sacani por uma modulação
de seu discurso, para falar a língua da audiência que ele entende ter ou que
busca ter. Não é possível analisar a fala do divulgador científico sem levar em
conta seus interlocutores e o canal no qual ele estava falando. Como dito
anteriormente, Mamãe Falei, ligado à direita, era um dos integrantes da
conversa, realizada no Redcast, um canal de destaque dentro da comunidade red
pill, que também possui inclinação à direita.
Os círculos de direita e extrema
direita têm como parte do repertório político ataques às universidades,
principalmente às públicas. A guerra cultural virou uma importante ferramenta
retórica desses grupos. Dentro dessa guerra cultural está incluída uma visão
estereotipada das universidades enquanto antros de militância marxista, de
esquerda identitária ou coisas do tipo. Uma estereotipagem normalmente muito
rasa.
Não significa que as
universidades vez por outra não mereçam críticas nesse sentido. Basta
lembrarmos da performance intitulada “Educando com o cu”, da pesquisadora que
mostrou as nádegas em evento da Universidade Federal do Maranhão.
Eventualmente, episódios lamentáveis como esse ocorrem nas universidades. Logo,
não é necessário criar nenhuma fanfic ou factoide como fez Sérgio Sacani. É
importante criticar, mas mantendo a pertinência aos fatos.
Sacani conhece o repertório da
bolha para a qual se direciona. Ele sabe da visão estereotipada da direita e
extrema direita sobre as universidades. Ao resumir o que houve na UFSC a
quererem um viado, um índio, uma trans e um negro em uma mesa de abertura, o
divulgador científico busca conexão com o repertório que essa bolha já possui e
gosta de lançar mão sempre que pode (e sempre que não pode, também).
Não deixa de ser curioso que
Sacani reclame de invasão em universidade em uma mesa com o Mamãe Falei, este
sim, um recorrente invasor de evento acadêmico, que já invadiu um evento
fantasiado de vagina, em uma clara atitude de provocação às mulheres
participantes. Aí pode invadir, né?
Dizem que não se deve jogar
xadrez com pombo, porque ele espalha as peças, suja o tabuleiro e fica
impossível jogar. Neste caso, o pombo foi o Sacani. Com todo respeito que tenho
por seu bom trabalho enquanto divulgador científico, ao criar uma
caricaturização grosseira de um debate complexo, ele apagou a complexidade do
debate, tornou a discussão séria algo impossível e prestou um enorme
desserviço.
Referências:
[1] https://www.instagram.com/pragmatismopolitico/reel/DDxUT0ch6lg/
[2] https://www.youtube.com/watch?v=ZlI409w6vV0
[4] https://www.instagram.com/p/DCCuZlKvcmn/?img_index=1






