sábado, 26 de outubro de 2024

Comunidade científica do Rio se mobiliza contra troca de presidente da Faperj

 


Cláudio Castro avança com indicações políticas sem respaldo técnico na Ciência e Tecnologia do Estado

 

Manifestantes fizeram nessa quinta-feira, dia 24, um abraço coletivo simbólico na sede da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), no Centro do Rio. A manifestação, que reuniu principalmente pesquisadores do estado e funcionários da entidade, teve como motivação evitar que a fundação de amparo a pesquisas científicas seja presidida pelo empresário e ex-deputado federal Alexandre Valle. Bolsonarista e membro do PL, Valle seria o nome do governador Cláudio Castro para a Faperj, o que contraria fortemente a posição da comunidade científica do Rio de Janeiro, que quer a permanência do professor e pesquisador Jerson Lima da Silva na instituição.

 

A manifestação conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), duas das maiores entidades científicas do país. Em carta para o governador do Rio de Janeiro, SBPC e ABC destacaram o impacto positivo da gestão de Jerson Lima na inovação e no desenvolvimento científico do estado. A carta chama a atenção para o risco de que a escolha da liderança da Faperj seja meramente uma indicação partidária, o que pode comprometer a excelência científica e tecnológica que tem sido marca da fundação.

 

Jerson Lima da Silva, o atual presidente da Faperj, é médico, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um pesquisador altamente reconhecido na área de biologia estrutural e doenças neurodegenerativas e câncer no Brasil e no exterior. Já o bolsonarista Alexandre Valle tem perfil estritamente político, sem nenhuma ligação com a área de pesquisa e atuação como pesquisador. Valle é empresário no ramo de seguros, já se candidatou algumas vezes à Prefeitura de Itaguaí e foi derrotado em todas as ocasiões, inclusive na eleição deste ano, mesmo com o apoio de Bolsonaro e de outras figuras da extrema direita, como Nikolas Ferreira.

 

Atualmente a Faperj coordena mais de 6 mil bolsistas (de pré-iniciação científica, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e mais de 9 mil pesquisadores. As lideranças envolvidas na manifestação em defesa da Fapesp entendem que a pessoa à frente da fundação precisa ter um currículo compatível com a responsabilidade do fomento à pesquisa.

 

Além da SBPC e da ABC, a manifestação em repúdio à interferência política (sem o mínimo de respaldo técnico) na Faperj inclui outras vozes importantes, como a Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), que em nota destacou que uma nomeação estritamente política para gerir a fundação “vulnerabiliza a Faperj, coloca em risco o planejamento da agência e enfraquece a pesquisa em tecnologia e inovação no Rio de Janeiro”. 

 

Deputadas do PCdoB em defesa da Faperj

Parlamentares do Rio de Janeiro que têm como bandeira a defesa da ciência já se manifestaram contra mais essa decisão do governador Cláudio Castro. A deputada estadual, professora universitária e vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj, Dani Balbi (PCdoB) destacou que a Faperj é um dos principais pilares de apoio à ciência, à tecnologia e à inovação no Estado do Rio de Janeiro e que o setor de CT&I deve ser tratado como uma questão de Estado, e não apenas de governo, pois demanda planejamento de longo prazo. A deputada acaba de protocolar o Projeto de Lei 4328/2024, que altera a Lei nº 3.783, de 18 de março de 2002, para que o cargo de presidente da Faperj passe a ser necessariamente indicado por lista tríplice, formulada pela comunidade científica. A parlamentar explica:

 

– A Lei 3.783, de 18 de março de 2002, garante ao diretor científico e ao diretor de tecnologia um mandato de três anos, com nomeação a partir de uma lista tríplice. No entanto, a presidência da instituição, que é responsável pela direção geral de todas as atividades voltadas à consecução dos objetivos da fundação, bem como por sua representação judicial e extrajudicial, permanece como um cargo de livre nomeação e exoneração. Por essa razão, propõe-se que a nomeação do presidente siga as mesmas regras aplicáveis aos diretores científico e de tecnologia – explica Dani Balbi. 

 

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ) também se manifestou em defesa da Faperj, de Jerson Lima da Silva e da ciência do Rio de Janeiro. A parlamentar destacou que a Faperj sempre teve gestores comprometidos com a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

 

– O professor Jerson tem visão estratégica de longo prazo, honra e amplia esta tradição para fazer da fundação um pilar do desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação do estado. A exoneração do professor contraria isso tudo e não é aceitável. A Faperj não pode servir a indicações políticas –resumiu Jandira.

 

Secretário de Ciência do Estado já propôs a extinção da Uerj

A decisão pela exoneração do professor Jerson teria sido comunicada a ele há poucos dias pelo secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Anderson Moraes, também do PL e homem de confiança da família Bolsonaro. Quando falamos em Anderson Moraes, o cenário de desrespeito às instituições científicas fluminenses fica ainda mais caracterizado. Em 2021, quando era deputado estadual, Anderson Moraes protocolou na Alerj nada mais nada menos que um projeto para a extinção e venda da Uerj. Seu Projeto de Lei também previa que bens e alunos da Uerj fossem remanejados para universidades particulares.

 

A alegação de Anderson Moraes seria o gasto de dinheiro público para custear a Uerj. Seu pedido também trazia traços claros de guerra cultural contra às universidades, como a afirmação de haver “nítido aparelhamento ideológico de viés socialista na universidade”. A depreciação da imagem das instituições de ensino superior, com o uso de guerra cultural, pânico moral, negacionismo científico e anti-intelectualismo/antiacademicismo, tem sido uma arma política nas mãos da extrema direita no Brasil e no mundo.

 

Era de se esperar que um político com uma agenda tão antagônica a uma instituição de ensino e pesquisa passasse longe de um cargo público na área de Ciência e Tecnologia. Entretanto, em junho deste ano, Cláudio Castro nomeou Moraes como secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, para a surpresa e indignação de grande parte da comunidade científica fluminense. O geógrafo, professor e pesquisador da Uenf, Marcos Pędłowski, destaca que, na ocasião da nomeação de Moraes, faltou mobilização da comunidade científica.

 

– Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação [semelhante a que ocorre agora por causa da Faperj], o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj – explica o geógrafo.

 

A fala de Pędłowski acende um sinal de que, sem mobilização incisiva da comunidade acadêmica e científica do Rio de Janeiro, a politização institucional do setor à extrema direita e sem o cumprimento de requisitos técnicos mínimos tende a piorar.

 

A comunidade científica e acadêmica da Uerj criou uma petição pública contrária a saída do professor Jerson Lima da presidência da Faperj, que até o momento tem mais de 22 mil assinaturas. O texto do abaixo-assinado destaca que “A Faperj é essencial para o financiamento da ciência no estado do RJ, apoiando não só as universidades estaduais e federais, como também diversas frentes que valorizam a sociedade fluminense”.

 

As assinaturas serão entregues ao governador Cláudio Castro. Quem quiser assinar deve acessar o endereço abaixo:

 

https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR143907

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