Há muitos bons influenciadores digitais, mas cuidado com
aqueles que opinam sobre tudo! Eu seguia uma influenciadora que falava sobre
filosofia, sexualidade e relacionamentos. Segundo ela, sua página é um “espaço
dedicado à filosofia e curiosidades”.
E não para por aí. A pessoa aborda psicanálise, religião
etc... Daí me apareceu com um vídeo sobre mudanças climáticas. O que isso tem a
ver com relacionamentos e sexualidade? Fiquei curioso e fui assistir.
Basicamente, tratava-se de um conteúdo que flerta fortíssimo
com o negacionismo. No vídeo ela defendia que as mudanças climáticas não são
nada de novo, pois o clima da Terra já mudou várias vezes na longa história do
planeta devido a catástrofes ambientais.
De fato, mudanças no eixo da Terra, queda de meteoro e outras
catástrofes já alteraram o clima da Terra. Entretanto, não dá para misturar as
coisas. As mudanças climáticas atuais têm um diferencial: são antropogênicas,
ou seja, provocadas pela ação direta do homem. São resultado de uma emissão
massiva de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano, vapor d’água...)
que coincide com o período da Revolução Industrial. Há provas suficientes disso
e um consenso de mais de 95% dos artigos na comunidade científica atestando o
caráter antropogênico do aquecimento planetário [1].
Sendo assim, deixei de segui-la.
Dicas importantes
Há muitos formatos de produção de conteúdo, e é preciso ter
cuidado com alguns deles. Há influenciadores que possuem uma formação ou
competência em uma área restrita e se limitam a falar sobre assuntos dentro
dessa área restrita. Tudo ok. Se eles se propõem a ultrapassar suas áreas de
competência/formação e abraçar uma gama mais ampla de assuntos, mas para isso convidam
especialistas de acordo com o tema a ser abordado, tudo ok também.
Mas cuidado com aqueles que extrapolam suas próprias
formações/competências e se metem a falar sobre tudo, qualquer coisa, por conta
própria, sem convidados especialistas. Ligue o desconfiômetro nesses casos.
E por falar em formação/competência, outra dica de cuidados
com o que consumimos nas redes é buscar informação sobre o currículo dos
influenciadores e o que eles têm de portfólio para além de suas atuações como
influenciadores digitais. Porque falar bonito na internet é fácil para aqueles
que possuem talento para a comunicação.
Tenho como um dos meus filtros de internet pesquisar o
currículo de uma personalidade quando ela se destaca como formadora de opinião.
Vale Lattes, Linkedin, Vitae. Vejo a formação, a experiência profissional, o
que eu puder. Já fui criticado por isso, mas no terreno arenoso da internet,
onde cada um diz qualquer coisa, acho válido. Na sociedade de espetacularização
midiática em que vivemos, as estratégias de propaganda, marketing e relações
públicas estão a todo momento atropelando e se sobrepondo ao conhecimento. É a
forma frequentemente esmagando o conteúdo.
Procure pela formação da pessoa, suas realizações, onde
trabalha ou trabalhou.
Uma terceira dica é avaliar esse tipo de página “de tudo um
pouco” a partir de algum conteúdo cujo assunto você detenha um mínimo de
conhecimento e formação, para ver se o conteúdo faz ou não sentido. Como
precisei ler muito sobre mudanças climáticas para a minha dissertação, no meu
caso, dentre o tanto de conteúdo diversificado que essa influenciadora produz, esse
vídeo dela sobre mudanças climáticas foi um balizador para mim. E foi a gota
d’água.
Significa que o restante do conteúdo que ela produz não
presta? Não posso afirmar isso, mas como já sou bastante crítico a esse formato
em que uma só pessoa se mete a falar sobre tudo, achei melhor não mais
acompanha-la.
A quarta dica é estar atento(a) à transparência que o(a)
influenciador(a) dá a suas próprias referências. Esse produtor de conteúdo
disponibiliza as fontes que usou? Ele facilita o acesso a elas (por meio de
links)? Essas fontes lhe parecem confiáveis? É bem verdade que fontes podem ser
falseadas ou o influenciador pode usar fontes muito ruins, apenas de modo a
legitimar a própria opinião. Mas há muito conteúdo por aí que nem fonte tem.
Não custa cobrarmos transparência com as fontes.
Ninguém consegue falar sobre tudo. Fuja de tudólogos!
Referências:
[1] Considerações sobre o aquecimento global
https://socientifica.com.br/consideracoes-sobre-o-aquecimento-global/

