sábado, 24 de agosto de 2024

Tudólogos: quem são? Onde vivem? Do que se alimentam?

 


Há muitos bons influenciadores digitais, mas cuidado com aqueles que opinam sobre tudo! Eu seguia uma influenciadora que falava sobre filosofia, sexualidade e relacionamentos. Segundo ela, sua página é um “espaço dedicado à filosofia e curiosidades”.

 

E não para por aí. A pessoa aborda psicanálise, religião etc... Daí me apareceu com um vídeo sobre mudanças climáticas. O que isso tem a ver com relacionamentos e sexualidade? Fiquei curioso e fui assistir.

 

Basicamente, tratava-se de um conteúdo que flerta fortíssimo com o negacionismo. No vídeo ela defendia que as mudanças climáticas não são nada de novo, pois o clima da Terra já mudou várias vezes na longa história do planeta devido a catástrofes ambientais.

 

De fato, mudanças no eixo da Terra, queda de meteoro e outras catástrofes já alteraram o clima da Terra. Entretanto, não dá para misturar as coisas. As mudanças climáticas atuais têm um diferencial: são antropogênicas, ou seja, provocadas pela ação direta do homem. São resultado de uma emissão massiva de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano, vapor d’água...) que coincide com o período da Revolução Industrial. Há provas suficientes disso e um consenso de mais de 95% dos artigos na comunidade científica atestando o caráter antropogênico do aquecimento planetário [1].

 

Sendo assim, deixei de segui-la.

 

Dicas importantes

Há muitos formatos de produção de conteúdo, e é preciso ter cuidado com alguns deles. Há influenciadores que possuem uma formação ou competência em uma área restrita e se limitam a falar sobre assuntos dentro dessa área restrita. Tudo ok. Se eles se propõem a ultrapassar suas áreas de competência/formação e abraçar uma gama mais ampla de assuntos, mas para isso convidam especialistas de acordo com o tema a ser abordado, tudo ok também.

 

Mas cuidado com aqueles que extrapolam suas próprias formações/competências e se metem a falar sobre tudo, qualquer coisa, por conta própria, sem convidados especialistas. Ligue o desconfiômetro nesses casos.

 

E por falar em formação/competência, outra dica de cuidados com o que consumimos nas redes é buscar informação sobre o currículo dos influenciadores e o que eles têm de portfólio para além de suas atuações como influenciadores digitais. Porque falar bonito na internet é fácil para aqueles que possuem talento para a comunicação.

 

Tenho como um dos meus filtros de internet pesquisar o currículo de uma personalidade quando ela se destaca como formadora de opinião. Vale Lattes, Linkedin, Vitae. Vejo a formação, a experiência profissional, o que eu puder. Já fui criticado por isso, mas no terreno arenoso da internet, onde cada um diz qualquer coisa, acho válido. Na sociedade de espetacularização midiática em que vivemos, as estratégias de propaganda, marketing e relações públicas estão a todo momento atropelando e se sobrepondo ao conhecimento. É a forma frequentemente esmagando o conteúdo.

 

Procure pela formação da pessoa, suas realizações, onde trabalha ou trabalhou.

 

Uma terceira dica é avaliar esse tipo de página “de tudo um pouco” a partir de algum conteúdo cujo assunto você detenha um mínimo de conhecimento e formação, para ver se o conteúdo faz ou não sentido. Como precisei ler muito sobre mudanças climáticas para a minha dissertação, no meu caso, dentre o tanto de conteúdo diversificado que essa influenciadora produz, esse vídeo dela sobre mudanças climáticas foi um balizador para mim. E foi a gota d’água.

 

Significa que o restante do conteúdo que ela produz não presta? Não posso afirmar isso, mas como já sou bastante crítico a esse formato em que uma só pessoa se mete a falar sobre tudo, achei melhor não mais acompanha-la.

 

A quarta dica é estar atento(a) à transparência que o(a) influenciador(a) dá a suas próprias referências. Esse produtor de conteúdo disponibiliza as fontes que usou? Ele facilita o acesso a elas (por meio de links)? Essas fontes lhe parecem confiáveis? É bem verdade que fontes podem ser falseadas ou o influenciador pode usar fontes muito ruins, apenas de modo a legitimar a própria opinião. Mas há muito conteúdo por aí que nem fonte tem. Não custa cobrarmos transparência com as fontes.   

 

Ninguém consegue falar sobre tudo. Fuja de tudólogos!

 

Referências:

[1] Considerações sobre o aquecimento global

https://socientifica.com.br/consideracoes-sobre-o-aquecimento-global/

Silvio Santos, entre críticas e vínculos afetivos

 


No dia 17 de agosto morreu o maior nome da história da TV brasileira. O empresário e apresentador Silvio Santos foi uma daquelas pessoas representativas de uma era. Por isso sua morte tem cara de fim de era. Talvez o fim dos tempos de comunicação de massa por meio da TV aberta.

Para mim e para muitos da minha geração, significa a perda de uma referência cultural importante e bastante presente durante muitos anos. Na medida em que essas referências ficam para trás, nós ficamos um pouco mais isolados e desterrados no mundo. Bate uma certa tristeza, não só por quem partiu, mas também por nós.

Entretanto, não quero falar do Silvio Santos, mas sobre o que vem sendo falado a respeito dele. Meu interesse é o discurso sobre a pessoa e não a pessoa.

A maioria das menções que vi a respeito de Silvio Santos tem sido elogiosa, em tom de homenagem, ressaltando suas qualidades e sua importância. Algumas poucas, no entanto, em tom crítico e negativo, ressaltam seus defeitos: misoginia, racismo, alinhamento à ditadura militar, exploração dos pobres. Porque não há nada hoje em dia que não seja polarizado de forma acirrada [1].

Pessoalmente, normalmente evito tecer críticas negativas a quem acabou de morrer. Mais do que isso, acho que agir assim é uma decorrência de um tipo de associação mental que as pessoas fazem entre falar mal de algo/alguém e parecer mais inteligente e esperto que a média, como se ao criticar negativamente alguma coisa a pessoa demonstrasse enxergar mais longe que as outras.

Chamo isso de “cacoete da crítica” e tenho alguma experiência a esse respeito, por transitar nas áreas de humanidades e ciências sociais. Há muito desse modus operandi nessas áreas.

Algumas personalidades orgulhosamente manifestaram suas críticas a Silvio Santos no calor de seu falecimento. Uma delas foi o ator Pedro Cardoso. Já a jornalista Rachel Sheherazade, que durante alguns anos foi apresentadora do telejornal da emissora de Silvio, optou por jogar indireta. A jornalista postou em seu perfil a imagem de uma ovelha e a legenda: “É um privilégio não se encaixar. E vc? Segue a manada ou faz seu próprio caminho?” [2].  Esse é um bom exemplo de como é forte essa associação entre falar mal de algo e parecer mais esperto que a “manada”.


Política e afetos

Penso sobre tudo isso enquanto assisto, por exemplo, a dois dos principais influenciadores digitais webcomunistas que não perderam tempo para produzirem conteúdo chamando Silvio Santos de “canalha, que agora morreu e virou santo” e que foi para a “terra do pé junto”. Coisas do tipo.

Não significa que as críticas ao apresentador/empresário estejam erradas. Pelo contrário. Ele merece muitas críticas. A questão é a eficácia desse tipo de postura e discurso junto às audiências, inclusive tendo em vista o timing. Afinal, a pessoa acabara de morrer.

A política se constrói principalmente à base dos afetos (hoje em dia, exageradamente à base dos afetos). Um dos erros políticos de muitas pessoas, principalmente à esquerda (caso desses webcomunistas), é achar que vão esfregar alguns fatos na cara dos outros e que isso vai mudar alguma coisa sobre como os outros pensam. Ainda que críticas a Silvio Santos sejam objetivamente pertinentes, é preciso considerar e lidar com o fato de que boa parte da vinculação do povo com Silvio se dá pelo campo dos afetos. Então é muito provável que as pessoas antipatizem com conteúdos negativos sobre ele no calor de sua morte e também antipatizem com os autores desse tipo de conteúdo negativo.

Talvez se as críticas fossem feitas em um outro momento…

A repercussão da morte do Silvio Santos me fez lembrar o caso da propaganda da Volkswagen, que juntou por inteligência artificial as cantoras Elis Regina e Maria Rita, mãe e filha privadas pelo destino do convívio uma com a outra, ao som de uma canção de Belchior [2]. Havia na peça publicitária uma subversão do sentido da letra da canção? Sim. A Volkswagen apoiou a ditadura militar e perseguiu dissidentes? Sim. Os críticos ressaltaram esses pontos. Mas naquela peça publicitária havia outras camadas de significado que apelavam para a emoção e engajavam pelo afeto, levando em conta os vínculos familiares e as relações pais e filhos, tão importantes na vida de tantas pessoas.

Quem vem com a locomotiva da objetividade passando com tudo por cima dos vínculos afetivos engajadores corre sério risco de sair dos trilhos. Considero essa uma leitura importante para se pensar nas disputas políticas atuais.   Por isso acho que é preciso cuidado com certos discursos críticos que se reivindicam objetivos. O que se pretende? Se for para parecer mais inteligente, pregar para convertidos ou desopilar o fígado, ok. Mas se for para engajar, trazer simpatizantes para sua causa, formar opinião, aí é preciso um pouco de cuidado com a forma e, em se tratando especificamente de falecimentos, com o timing.


Referências:

[1] Em rede social, nem rei pode descansar em paz

https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/rosana-hermann/2024/08/em-redes-sociais-nem-rei-pode-descansar-em-paz.shtml

[2] Pedro Cardoso e Rachel Sheherazade

https://www.youtube.com/watch?v=uEuP-OPnGHs

[3] “Como Nossos Pais”? Comercial que reúne Maria Rita e Elis Regina provoca debate sobre canção:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2023/07/como-nossos-pais-comercial-que-reune-maria-rita-e-elis-regina-provoca-debate-sobre-cancao-cljr2vbfb001o0150ax5jzbeg.html