Série constrói uma genealogia
política, um fio condutor que nos leva da Itália fascista à extrema direita
atual
Lançada neste mês na plataforma
Mubi, a série “Mussolini, o filho do século” expõe as raízes do fascismo na
Itália do pós-Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao
poder, em uma trajetória de jornalista a ditador. Dirigida por Joe Wright
(vencedor do Bafta por “Orgulho e Preconceito), com o ator Luca Marinelli dando
vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao
explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início
do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita,
jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do
fascismo italiano.
Jogar na cara aqui não é só força
de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa
claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando
que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois,
suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini
quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma
explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para
a câmera e diz, em inglês: “Make Italy great again”. Uma clara referência ao
MAGA, de Donald Trump nos EUA.
Na estreia da série no Festival
de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar
"muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista". Então
a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos
episódios.
Assim, pouco a pouco, a obra vai
construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a
primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da
década de 1920. Não espere sutileza de “Mussolini, o filho do século”. Também
não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas
doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de
cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e
covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém
eloquente, com grande capacidade retórica.
O antissocialismo, a violência
como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o
supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as
costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com
a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em
conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras
sobre “Deus, pátria e família”. Isso lembra algo?
Os Camisas Negras fascistas,
movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite,
prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o
fascismo é, em essência) [1] contra o socialismo e o proletariado e eram
difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.
Com essa narrativa, a série
contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem
informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de
esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini
tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série
desautoriza essa distorção [2]. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo
seriam “lados de uma mesma moeda”, que fique claro, não tem amparo acadêmico,
não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam
do nazifascismo [3].
“Mussolini, o filho do século” é
baseada no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa
histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de
inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição
da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.
Apesar de a série ser explícita
em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla
discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a
dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos),
mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do
conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo [4], o contexto da
Itália de Mussolini [5] e suas influências no Brasil [6]. Aqui temos algumas
dicas.
“A democracia é linda. Ela nos dá
liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida”, diz Mussolini, olhando
para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de
1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?
Referências:
[1] Mas afinal, o que é fascismo?
https://camerapolis.blogspot.com/2020/04/mas-afinal-o-que-e-fascismo.html
[2] Nazismo e Socialismo: as
comparações e os erros de uma equivalência
[3] “Nazismo de esquerda” e Fake
History: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em
tempos de pós-verdade
https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428
[4] O que é Fascismo? História,
definição e sobrevivência no presente
[5] Itália Fascista: das origens
do Fascismo ao fim da Segunda Guerra
[6] Integralismo: das origens ao
neofascismo do século XXI
https://leituraobrigahistoria.com/podcast/integralismo-das-origens-ao-neofascismo-do-seculo-xxi/
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