quarta-feira, 24 de setembro de 2025

“Mussolini, o filho do século" expõe origens do fascismo

 




Série constrói uma genealogia política, um fio condutor que nos leva da Itália fascista à extrema direita atual

 

Lançada neste mês na plataforma Mubi, a série “Mussolini, o filho do século” expõe as raízes do fascismo na Itália do pós-Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador. Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por “Orgulho e Preconceito), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.

 

Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: “Make Italy great again”. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.

 

Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar "muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista". Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios.

 

Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de “Mussolini, o filho do século”. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.

 

O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre “Deus, pátria e família”. Isso lembra algo?

 

Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) [1] contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.  

 

Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção [2]. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam “lados de uma mesma moeda”, que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo [3].  

 

“Mussolini, o filho do século” é baseada no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.

 

Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo [4], o contexto da Itália de Mussolini [5] e suas influências no Brasil [6]. Aqui temos algumas dicas.

 

“A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida”, diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?

 

Referências:

[1] Mas afinal, o que é fascismo?

https://camerapolis.blogspot.com/2020/04/mas-afinal-o-que-e-fascismo.html

 

[2] Nazismo e Socialismo: as comparações e os erros de uma equivalência

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/nazismo-e-socialismo-as-comparacoes-e-os-erros-de-uma-equivalencia/

 

[3] “Nazismo de esquerda” e Fake History: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade

https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428

 

[4] O que é Fascismo? História, definição e sobrevivência no presente

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/o-que-e-fascismo-historia-definicao-e-sobrevivencia-no-presente/

 

[5] Itália Fascista: das origens do Fascismo ao fim da Segunda Guerra

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/italia-fascista-das-origens-do-fascismo-ao-fim-da-segunda-guerra/

 

[6] Integralismo: das origens ao neofascismo do século XXI

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/integralismo-das-origens-ao-neofascismo-do-seculo-xxi/


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