Considerada a mais importante insurreição urbana de escravizados do
Brasil, Revolta dos Malês está nas telas dos cinemas
Mais uma vez o
cinema nacional produz uma obra relevante para lançar luz sobre um episódio da
história do Brasil. Neste caso, a Revolta dos Malês, um levante de negros
escravizados ocorrido em Salvador (BA), em 1835. Dirigido por Antônio Pitanga,
que também atua no papel do líder religioso Pacífico Licutan, de importância central
na revolta, o filme Malês estreou nos cinemas no dia 2 de outubro e segue em
cartaz. O roteiro é de Manuela Dias, e o elenco traz nomes como Camila Pitanga,
Rocco Pitanga, Patrícia Pillar e Rodrigo de Odé.
Episódio
importante das revoltas do período regencial (1831-1840), a Revolta dos Malês
por muitos anos esteve ofuscada dentro da historiografia nacional e teve seus
efeitos políticos pouco discutidos, quando comparada a outros conflitos da
época, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Guerra dos Farrapos. Trata-se
no entanto do movimento que é considerado a mais importante insurreição urbana
de escravizados do Brasil [1]. O resgate histórico dos Malês, que agora chega
ao audiovisual, é fruto de pesquisas e concepções desenvolvidas nas últimas
décadas que compreendem o protagonismo negro no processo histórico que levou ao
fim da escravidão no país.
Mas o
dimensionamento da Revolta dos Malês dentro da historiografia é controverso. Se
por um lado, ela não teve o mesmo espaço que demais conflitos do período
regencial, por outro, há outras revoltas de escravos, inclusive na Bahia, que
foram mais numerosas, mais intensas e não são tão estudadas.
— A Revolta dos
Malês é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um
enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao
contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que
foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo
número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na
região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas
provocados pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no
coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que
no Recôncavo – explica o historiador João José Reis, importante pesquisador do
tema [2].
A narrativa de Malês
começa na África, com a celebração do casamento entre Dassalu (Rocco Pitanga) e
Abayome (Samira Carvalho). Assim como muitos africanos ao logo da história,
eles são capturados por um grupo rival e trazidos à força para o Brasil. Em
terras brasileiras, tribos e etnias que rivalizavam entre si no continente
africano sofrem o mesmo processo de desumanização e apagamento das raízes
culturais, generalizadas como “negros” e subjugadas à condição de escravizados.
O filme mostra um esforço de união entre esses diferentes grupos e de superação
dessas diferenças em prol da luta pela liberdade. A maioria dos participantes
da revolta era de nagôs e haussás, mas outros grupos étnicos também
participaram, inclusive alguns negros libertos. A palavra “malês” utilizada
para nomear o acontecimento é derivada de “imalê”, que no idioma iorubá
significa “muçulmano”.
O processo de
desumanização e apagamento das raízes é muito bem retratado no filme, no drama
pessoal de vários personagens, como Ahuna (Rodrigo de Odé). Personagem
histórico apontado como um dos líderes da revolta, Ahuna tem o respeito de seus
pares escravizados, que enxergam suas raízes e história trazidas da África, ou
seja, reconhecem quem ele verdadeiramente é. Para sobreviver, Ahuna precisa, no
entanto, encarnar um papel de escravo submisso que lhe foi imposto numa ordem
escravagista. Ordem personificada principalmente na figura da senhora de escravos
interpretada por Patrícia Pillar. Em um dado momento, exausto, Ahuna diz a sua
senhora que o negro escravizado que ela conhece não existe dentro dele próprio.
Não corresponde a quem ele verdadeiramente é.
Aliás, uma
particularidade que faz de Malês uma obra complexa é a construção das
personagens femininas brancas. Com essa construção, a obra se afasta de um
possível clichê que seria a culpabilização exclusiva do “homem branco
malvadão”. Sim, eles existem e não poderia ser diferente. Mas as figuras
femininas são bem mais atemorizantes. A senhora de escravos e a freira (Ítala
Nandi) lançam olhares ameaçadores aos negros enquanto carregam artefatos de
tortura e castigo. Elas nos fazem pensar no quanto algumas mulheres eram (e
ainda são, em boa medida) alinhadas, beneficiárias e perpetradoras da ordem
vigente.
A boa elaboração
dos figurinos e cenografia ajuda-nos a fazer uma imersão à Bahia escravagista
do século 19. De forma sagaz, a fotografia evita o uso de planos mais amplos, o
que poderia comprometer essa caracterização. Também chama a atenção o sotaque
de alguns personagens, os modos diversos de falar que coabitam naquela
Salvador. A preparação de elenco foi parte importante da produção e incluiu
mentoria aos atores para eles aprenderem um pouco de árabe e a falar um
português mais próximo ao dos escravizados [3]. As formas diferentes de falar
reforçam a diversidade existente no movimento, ainda que ele tenha sido
liderado por negros muçulmanos.
Aqui entram
outros elementos importantes no filme e que também ajudam a entender a Revolta
dos Malês enquanto acontecimento histórico: o papel relevante da escrita e da
leitura (em árabe) na organização do levante. O peso da cultura e da religião
islâmica também foi significativo. A narrativa se concentra bem mais na
organização da revolta do que propriamente no conflito armado. Isso pode ser
explicado por questões orçamentárias da obra ou porque, de fato, a Revolta dos
Malês durou apenas a noite de 25 de janeiro de 1835. O planejamento foi
prejudicado por causa de uma delação, e a ação precisou ser antecipada, o que
comprometeu a efetividade da insurgência.
Ainda assim,
aquela rebelião marcou a história da escravidão no Brasil, mostrando aos
senhores de escravos que se foi possível uma rebelião daquela proporção acontecer,
outras mais seriam possíveis. Por todo Brasil, o medo de novas rebeliões se
espalhou. Além disso, a Revolta dos Malês deixou um legado na historiografia
brasileira no sentido de contribuir para o entendimento de que a abolição da escravidão
foi resultado de um acúmulo de longo prazo de lutas protagonizadas pelos
próprios negros, e não simplesmente da dádiva concedida por aristocratas
benevolentes.
- Onde houve
escravidão, houve resistência. No Brasil os escravizados se revoltavam a todo
momento. Exemplos como a Revolta dos Malês dão a tônica de que o negro
brasileiro e os africanos enviados ao Brasil resistiram à escravidão desde os
primeiros navios negreiros que aqui chegaram. Desde 1570 há informações dos
primeiros quilombos, de revoltas de quilombos, de escravizados, de fugas
individuais e coletivas. O legado dos Malês é nos fazer entender o século 19
como um longo caminho para a abolição – explica o professor e historiador Danilo
Luiz Marques [4].
O drama dos
castigos físicos é retratado com crueza no filme. Também chamam a atenção os
estupros praticados contra mulheres negras. Assim, o filme ressalta toda a dor
– física e psicológica – que a escravidão impôs aos negros, o que deixou
cicatrizes até os dias de hoje. A escravidão é um dos fatores estruturantes da
ordem social brasileira, influenciando até a atualidade na composição étnica
das classes sociais, nas relações do mercado de trabalho etc.
Para quem quiser
saber mais sobre a Revolta dos Malês, duas obras bastante influentes são
Rebeliões da Senzala, de Clóvis Moura [5], e Rebelião Escrava no Brasil: a
história do levante dos Malês em 1835, de João José Reis [6]. Outro livro que
merece uma conferida é Malês 1835: negra utopia, de Fábio Nogueira [7]. O
Portal Vermelho também abordou o tema algumas vezes, destacando a coragem e o
protagonismo dos malês na luta pela liberdade [8].
Referências:
[1] Revolta dos
Malês completa 190 anos sob resgate histórico de levante negro que abalou Bahia
[2] Revolta dos
Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época
[3] “Malês”:
novo filme de Antônio Pitanga tem pré-estreia na USP
https://jornal.usp.br/diversidade/males-novo-filme-de-antonio-pitanga-tem-pre-estreia-na-usp/
[4] Revolta dos
Malês: a rebelião de escravizados que abalou Salvador
https://www.youtube.com/watch?v=YmA2BKvElhU&t=1s
[5] Rebeliões da Senzala (Clóvis Moura)
[6] Rebelião Escrava no Brasil: a
história do levante dos Malês em 1835
[7] Malês 1835: negra utopia
https://flcmf.org.br/males-1835-negra-utopia/
[8]
A revolta dos Malês: O levante e
o heroísmo dos protagonistas
https://vermelho.org.br/2018/01/24/a-revolta-dos-males-o-levante-e-o-heroismo-dos-protagonistas/
Malês: a revolta que ousou pôr
fim a escravidão e conquistar a liberdade

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