segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Malês, o filme: protagonismo negro na luta contra a escravidão

 


Considerada a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil, Revolta dos Malês está nas telas dos cinemas

 

Mais uma vez o cinema nacional produz uma obra relevante para lançar luz sobre um episódio da história do Brasil. Neste caso, a Revolta dos Malês, um levante de negros escravizados ocorrido em Salvador (BA), em 1835. Dirigido por Antônio Pitanga, que também atua no papel do líder religioso Pacífico Licutan, de importância central na revolta, o filme Malês estreou nos cinemas no dia 2 de outubro e segue em cartaz. O roteiro é de Manuela Dias, e o elenco traz nomes como Camila Pitanga, Rocco Pitanga, Patrícia Pillar e Rodrigo de Odé.

 

Episódio importante das revoltas do período regencial (1831-1840), a Revolta dos Malês por muitos anos esteve ofuscada dentro da historiografia nacional e teve seus efeitos políticos pouco discutidos, quando comparada a outros conflitos da época, como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Guerra dos Farrapos. Trata-se no entanto do movimento que é considerado a mais importante insurreição urbana de escravizados do Brasil [1]. O resgate histórico dos Malês, que agora chega ao audiovisual, é fruto de pesquisas e concepções desenvolvidas nas últimas décadas que compreendem o protagonismo negro no processo histórico que levou ao fim da escravidão no país.

 

Mas o dimensionamento da Revolta dos Malês dentro da historiografia é controverso. Se por um lado, ela não teve o mesmo espaço que demais conflitos do período regencial, por outro, há outras revoltas de escravos, inclusive na Bahia, que foram mais numerosas, mais intensas e não são tão estudadas.

 

— A Revolta dos Malês é as vezes superdimensionada pela historiografia porque produziu um enorme volume de documentos, e, por isso, pode ser melhor conhecida, ao contrário de outras revoltas e conspirações escravas na Bahia da época, que foram mais de 30. Algumas delas foram bem mais sérias do que a dos malês pelo número maior de africanos envolvidos, pela sua duração, por acontecerem na região dos engenhos, o Recôncavo, pelo estrago material e número de vítimas provocados pelos rebeldes. A Revolta dos Malês, no entanto, aconteceu no coração de uma grande cidade, onde os brancos se sentiam mais protegidos do que no Recôncavo – explica o historiador João José Reis, importante pesquisador do tema [2]. 

 

A narrativa de Malês começa na África, com a celebração do casamento entre Dassalu (Rocco Pitanga) e Abayome (Samira Carvalho). Assim como muitos africanos ao logo da história, eles são capturados por um grupo rival e trazidos à força para o Brasil. Em terras brasileiras, tribos e etnias que rivalizavam entre si no continente africano sofrem o mesmo processo de desumanização e apagamento das raízes culturais, generalizadas como “negros” e subjugadas à condição de escravizados. O filme mostra um esforço de união entre esses diferentes grupos e de superação dessas diferenças em prol da luta pela liberdade. A maioria dos participantes da revolta era de nagôs e haussás, mas outros grupos étnicos também participaram, inclusive alguns negros libertos. A palavra “malês” utilizada para nomear o acontecimento é derivada de “imalê”, que no idioma iorubá significa “muçulmano”.

 

O processo de desumanização e apagamento das raízes é muito bem retratado no filme, no drama pessoal de vários personagens, como Ahuna (Rodrigo de Odé). Personagem histórico apontado como um dos líderes da revolta, Ahuna tem o respeito de seus pares escravizados, que enxergam suas raízes e história trazidas da África, ou seja, reconhecem quem ele verdadeiramente é. Para sobreviver, Ahuna precisa, no entanto, encarnar um papel de escravo submisso que lhe foi imposto numa ordem escravagista. Ordem personificada principalmente na figura da senhora de escravos interpretada por Patrícia Pillar. Em um dado momento, exausto, Ahuna diz a sua senhora que o negro escravizado que ela conhece não existe dentro dele próprio. Não corresponde a quem ele verdadeiramente é.

 

Aliás, uma particularidade que faz de Malês uma obra complexa é a construção das personagens femininas brancas. Com essa construção, a obra se afasta de um possível clichê que seria a culpabilização exclusiva do “homem branco malvadão”. Sim, eles existem e não poderia ser diferente. Mas as figuras femininas são bem mais atemorizantes. A senhora de escravos e a freira (Ítala Nandi) lançam olhares ameaçadores aos negros enquanto carregam artefatos de tortura e castigo. Elas nos fazem pensar no quanto algumas mulheres eram (e ainda são, em boa medida) alinhadas, beneficiárias e perpetradoras da ordem vigente.     

 

A boa elaboração dos figurinos e cenografia ajuda-nos a fazer uma imersão à Bahia escravagista do século 19. De forma sagaz, a fotografia evita o uso de planos mais amplos, o que poderia comprometer essa caracterização. Também chama a atenção o sotaque de alguns personagens, os modos diversos de falar que coabitam naquela Salvador. A preparação de elenco foi parte importante da produção e incluiu mentoria aos atores para eles aprenderem um pouco de árabe e a falar um português mais próximo ao dos escravizados [3]. As formas diferentes de falar reforçam a diversidade existente no movimento, ainda que ele tenha sido liderado por negros muçulmanos.

 

Aqui entram outros elementos importantes no filme e que também ajudam a entender a Revolta dos Malês enquanto acontecimento histórico: o papel relevante da escrita e da leitura (em árabe) na organização do levante. O peso da cultura e da religião islâmica também foi significativo. A narrativa se concentra bem mais na organização da revolta do que propriamente no conflito armado. Isso pode ser explicado por questões orçamentárias da obra ou porque, de fato, a Revolta dos Malês durou apenas a noite de 25 de janeiro de 1835. O planejamento foi prejudicado por causa de uma delação, e a ação precisou ser antecipada, o que comprometeu a efetividade da insurgência.

 

Ainda assim, aquela rebelião marcou a história da escravidão no Brasil, mostrando aos senhores de escravos que se foi possível uma rebelião daquela proporção acontecer, outras mais seriam possíveis. Por todo Brasil, o medo de novas rebeliões se espalhou. Além disso, a Revolta dos Malês deixou um legado na historiografia brasileira no sentido de contribuir para o entendimento de que a abolição da escravidão foi resultado de um acúmulo de longo prazo de lutas protagonizadas pelos próprios negros, e não simplesmente da dádiva concedida por aristocratas benevolentes.

 

- Onde houve escravidão, houve resistência. No Brasil os escravizados se revoltavam a todo momento. Exemplos como a Revolta dos Malês dão a tônica de que o negro brasileiro e os africanos enviados ao Brasil resistiram à escravidão desde os primeiros navios negreiros que aqui chegaram. Desde 1570 há informações dos primeiros quilombos, de revoltas de quilombos, de escravizados, de fugas individuais e coletivas. O legado dos Malês é nos fazer entender o século 19 como um longo caminho para a abolição – explica o professor e historiador Danilo Luiz Marques [4].  

 

O drama dos castigos físicos é retratado com crueza no filme. Também chamam a atenção os estupros praticados contra mulheres negras. Assim, o filme ressalta toda a dor – física e psicológica – que a escravidão impôs aos negros, o que deixou cicatrizes até os dias de hoje. A escravidão é um dos fatores estruturantes da ordem social brasileira, influenciando até a atualidade na composição étnica das classes sociais, nas relações do mercado de trabalho etc.

 

Para quem quiser saber mais sobre a Revolta dos Malês, duas obras bastante influentes são Rebeliões da Senzala, de Clóvis Moura [5], e Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835, de João José Reis [6]. Outro livro que merece uma conferida é Malês 1835: negra utopia, de Fábio Nogueira [7]. O Portal Vermelho também abordou o tema algumas vezes, destacando a coragem e o protagonismo dos malês na luta pela liberdade [8].    

 

Referências:

[1] Revolta dos Malês completa 190 anos sob resgate histórico de levante negro que abalou Bahia

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/01/revolta-dos-males-completa-190-anos-sob-resgate-historico-de-levante-negro-que-abalou-bahia.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=fbfolha&fbclid=IwY2xjawNQlfJleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFxalFpakZzUEo5YVVCWUhUAR7Qojif_WSiTOiDIDjEQQASOm5jSIQDLdFSUqtYM1QrMAeTprDLMazfevmRWQ_aem_jFVT0FX1OE9ROjrMj02XTw 

 

[2] Revolta dos Malês é revista em textos de escravos e de jornais da época

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/revolta-dos-males-revista-em-textos-de-escravos-de-jornais-da-epoca-15015704

 

[3] “Malês”: novo filme de Antônio Pitanga tem pré-estreia na USP

https://jornal.usp.br/diversidade/males-novo-filme-de-antonio-pitanga-tem-pre-estreia-na-usp/

 

[4] Revolta dos Malês: a rebelião de escravizados que abalou Salvador

https://www.youtube.com/watch?v=YmA2BKvElhU&t=1s

 

[5] Rebeliões da Senzala (Clóvis Moura)

https://museudehistoriadopiaui.ufpi.edu.br/acervo/livros/livros-sobre-o-piau%C3%AD/intelectuais-piauienses/cl%C3%B3vis-moura

 

[6] Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835

https://pdfcoffee.com/rebeliao-escrava-no-brasil-a-historia-do-levante-dos-males-em-1835-by-joao-jose-reis-pdf-free.html

 

[7] Malês 1835: negra utopia

https://flcmf.org.br/males-1835-negra-utopia/

 

[8]

A revolta dos Malês: O levante e o heroísmo dos protagonistas

https://vermelho.org.br/2018/01/24/a-revolta-dos-males-o-levante-e-o-heroismo-dos-protagonistas/

 

Malês: a revolta que ousou pôr fim a escravidão e conquistar a liberdade

https://vermelho.org.br/coluna/males-a-revolta-que-ousou-por-fim-a-escravidao-e-conquistar-a-liberdade/


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