terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Conservadores ou reacionários? Entenda as diferenças

 


O Carnaval acabou e, como frequentemente ocorre, gerou algumas polêmicas. Talvez a principal delas tenha sido o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação prestou uma homenagem ao presidente Lula que deu o que falar antes, durante e depois do desfile. Como já era de se esperar, a escola foi rebaixada, o que normalmente ocorre com as recém-chegadas no Grupo Especial vindas da Série Ouro (a segunda divisão das escolas de samba do Rio).

 

A principal polêmica pós-desfile foi a ala “Neoconservadores em conserva”, cujas fantasias mostravam famílias em latas de conserva, explorando o trocadilho. De acordo com a agremiação, a ala representava grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos, que juntos no Congresso formariam um bloco conservador.

 

Políticos de direita e extrema direita criticaram publicamente o desfile e principalmente a ala. Com uso de inteligência artificial, muitos publicaram imagens de suas próprias famílias em latas de conservas, demonstrando o orgulho de serem conservadores [1]. Alguns veículos de comunicação, como o jornal Zero Hora, publicaram um passo a passo sobre como entrar na “trend da família em conserva” e fazer a ilustração dos familiares sorridentes dentro da latinha [2].

 

A apropriação da trend pela direita e extrema direita nos mostra o problema que pode haver na comunicação política quando se critica alguém nos termos em que esse alguém se enxerga e se promove e não nos termos em que ele realmente é e age. Um artigo de Alex Castro nos dá um bom exemplo desse tipo de situação. Em “Carta aberta aos humoristas do Brasil” [3], Castro desconstrói a ideia do “politicamente incorreto”, chamando a atenção para o fato de que muitos daqueles que se julgam “contra o sistema”, que se dizem alinhados ao politicamente incorreto por fazerem piadas com gays, mulheres, negros e outros grupos minoritários e/ou subjugados, na verdade não são contra o sistema coisa nenhuma. Embora eles gostem de se olhar no espelho como rebeldes e insurgentes, no fundo eles estão alinhados politicamente a grupos que sempre estiveram no poder (homens, brancos, héteros e de elite), fazendo as mesmas piadas que seus avós faziam. O termo “politicamente incorreto” seria, assim, um equívoco, já que esses pseudoinsurgentes estão alinhados ao que politicamente é mais do mesmo há muitos anos.

 

Nesse caso, se ver como politicamente incorreto tem mais a ver com alter ego, com o modo como a pessoa quer se enxergar, do que objetivamente com o comportamento que ela adota. Em muitos pontos o mesmo se aplica ao rótulo de conservador. Todos aqueles que se autodenominam orgulhosamente como conservadores são realmente conservadores? Ou seriam reacionários? No debate político e por vezes até nas pesquisas acadêmicas relacionadas ao contexto sociopolítico brasileiro, os termos “conservador”, “reacionário”, “conservadorismo” e “reacionarismo” são utilizados de forma misturada. Além disso, há de fato certa mistura no cenário político, se pensarmos nas alianças partidárias e seus representantes políticos.

 

CONSERVADORISMO X REACIONARISMO

Basicamente, enquanto o conservador tenta conservar aquilo que ele acha que funciona bem dentro de um estado de coisas do presente, o reacionário reivindica o retorno a um estado de coisas que não existe mais (e que normalmente nunca existiu exatamente do jeito que ele pensa), o que implica a supressão de direitos construídos dentro de um processo civilizatório [4]. Vamos tentar destacar as principais diferenças entre o conservadorismo e o reacionarismo.

 

Norberto Bobbio, em seu “Dicionário de Política” [5], faz considerações diferenciadas sobre conservadores e sobre reacionários. À luz da ciência política, o filósofo italiano destaca que o conservadorismo “designa ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças inovadoras”. Mais ainda, Bobbio afirma que o conservadorismo, ao fazer a defesa do poder político vigente, que vê como “condição indispensável à convivência social que é necessário controlar, mas não destruir”, põe-se como reação ao contínuo e rápido avanço do progressismo.

 

Já o reacionarismo é classificado pelo autor a partir de um caráter anti-igualitário, visto que os impulsos reacionários teriam origem principalmente na hostilidade daqueles componentes sociais que, pelo progresso e igualdade, são prejudicados em seus privilégios. Bobbio traz um exemplo europeu: à época da restauração pós-revolucionária, “o sistema que a Reação declarava querer defender se baseava no princípio de que o poder e o privilégio eram de origem divina e que o Ancien Régime [sistema político, econômico e social da monarquia anterior à Revolução Francesa] obedecia a uma lei universal transcendente e imutável”.

 

Ainda, Bobbio associa ao reacionarismo recortes raciais, nacionalistas e religiosos, situando o fascismo e o nazismo como fenômenos reacionários de massa. Isso respalda nosso entendimento de situar a extrema direita bolsonarista no reacionarismo e não no conservadorismo, ainda que seus adeptos com frequência se denominem como conservadores e assim queiram ser vistos. Como exemplo, podemos citar slogans bolsonaristas de campanha e de governo, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Deus, pátria e família”, emprestado do integralismo, movimento político brasileiro das primeiras décadas do século 20 influenciado pelo fascismo italiano (slogan depois modificado pelo bolsonarismo para “Deus, pátria, família e liberdade”).

 

No Brasil, alguns autores também nos ajudam a diferenciar conservadorismo de reacionarismo. Os professores e cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, do Iesp/Uerj, partindo de suas pesquisas sobre a compreensão do pensamento político e da cultura política brasileiros, explicam que os conservadores/conservadorismo admitem mudanças oportunas e tentam controlar a velocidade das mudanças, conciliando tradição e mudanças (estas últimas, com muita parcimônia) [6].

 

Já os reacionários/reacionarismo vivem em uma utopia regressiva e acreditam que o mundo ideal e/ou desejável faz parte do passado. Assim como o revolucionário de esquerda acredita em uma utopia futurista, o reacionário vê a utopia no passado, em uma espécie de “era de ouro” para a qual é possível retornar. Para muitos reacionários, como apontam os cientistas políticos, o apogeu da humanidade foi a Idade Média, e o mundo está decaindo desde a Renascença. Por isso, os reacionários são chamados por Lynch e Cassimiro também de “decadentistas”.

 

No mesmo sentido, explica o historiador e professor Daniel Gomes de Carvalho [7]. Para este, o reacionário é um crítico da sociedade vigente e desconfia das mudanças e transformações (assim como os conservadores), mas essa desconfiança se traduz em uma nostalgia, que frequentemente vem com uma idealização sobre o passado, como se o passado fosse uma era de ouro, e, o presente, uma era decadente. A modernidade representaria essa decadência. O professor ressalta o peso do ressentimento no pensamento reacionário para o desenvolvimento dessa nostalgia e idealização do passado. Ele chama atenção para o detalhe curioso que é ver brasileiros falarem saudosamente de uma era de ouro medieval, com base em sociedades europeias, já que no Brasil, no mesmo período histórico, a realidade era bastante diferente da do Velho Continente.

 

Já o conservador, ainda para o professor, aceita a necessidade da mudança. Citando pensadores como Edmund Burke, Carvalho fala sobre a visão reformista que se faz presente no pensamento conservador. Porém, a reforma precisa ser gradativa. O conservadorismo busca dar coerência à defesa das tradições econômicas e sociais, aceitando a necessidade de reformas (não de revoluções), desde que lentas e graduais. Tradicionalismo, organicismo e ceticismo político seriam as três principais características do conservadorismo.

 

Enquanto Lynch e Cassimiro entendem o bolsonarismo (parte muito expressiva da extrema direita brasileira) como uma expressão reacionária, um “reacionarismo populista”, Carvalho classifica o ideólogo e astrólogo Olavo de Carvalho, apontado como uma espécie de guru do bolsonarismo, como um autor reacionário, o que demonstra a convergência dos três professores tanto em relação às diferenças conceituais entre conservadorismo e reacionarismo, quanto na identificação do pertencimento do bolsonarismo ao segundo campo político-ideológico, ou seja, ao campo reacionário.

 

EXTREMA DIREITA: REACIONARISMO ACIMA DE TUDO

A extrema direita atual é, portanto, muito mais reacionária do que conservadora. Isso pode ser identificado nas suas diversas leituras idealizadas e romantizadas do passado. Leituras estas negacionistas, quando comparadas à produção historiográfica séria, ou seja, metodológica. Simplificações romantizadas sobre o período medieval, sobre a monarquia brasileira, sobre a ditadura militar (esta última lembrada pela polêmica ala da Acadêmicos de Niterói) circulam com muita frequência nas bolhas de extrema direita.

 

Por traz dessa utopia regressiva, há constantemente a busca pela supressão de direitos de determinados grupos sociais – como negros, mulheres, LGBT+, indígenas etc – que obtiveram alguns avanços em direitos civis e em indicadores de igualdade nas últimas décadas. O reacionarismo almeja não só a supressão desses direitos, mas dos níveis de democracia construídos ao longo do processo de redemocratização, principalmente a partir da Constituição de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”. Isso fica óbvio nas leituras negacionistas e romantizadas sobre a ditadura civil-militar do Brasil. Mais do que uma utopia regressiva, o reacionarismo é uma utopia regressiva autoritária.

 

A esquerda brasileira precisa parar de chamar reacionários de conservadores. Não se trata de um preciosismo conceitual acadêmico, mas de uma estratégia de comunicação política. Ao criticar “conservadores” de um modo genérico, a esquerda alarga demasiadamente a crítica, amplia seus inimigos e antipatizantes, colocando no mesmo balaio a extrema direita e uma direita e centro-direita não radicalizadas. Há diferenças consideráveis entre um bolsonarista fanático como Carlos Jordy e um adepto de uma direita pragmática como Aureo Ribeiro, apenas para citar dois deputados federais da bancada fluminense. Ambos, entretanto, entraram na trend da família em conserva.     

 

A ala da Acadêmicos de Niterói pegou no contrapé os esforços do governo para melhorar sua relação com os evangélicos e reduzir seus índices de rejeição nesse segmento. Seria mais assertivo se a agremiação criticasse os reacionários e não os conservadores (ainda que perdesse o gancho do trocadilho com as latas de conserva). Assim a crítica soaria mais precisa, com foco nas supressões de direitos de alguns grupos sociais e da democracia, e menos confundida com ataque à família, o que definitivamente não é o caso. A esquerda não é contra a família, mas a favor da ampliação de direitos. Chamar os reacionários de reacionários é denunciá-los pelo que eles de fato são, em vez de legitimar a imagem de conservadores que eles tentam construir de si próprios.  

 

Referências:

[1] Postagens dos deputados federais Aureo Ribeiro, Otoni de Paula e Carlos Jordy

https://www.instagram.com/p/DU6WAjVkmtl/

https://www.instagram.com/p/DU1jk2XD2ok/

https://www.instagram.com/p/DU1s8RWDJJo/

 

[2] Como fazer a trend da família em conserva com inteligência artificial? Veja o passo a passo

https://gauchazh.clicrbs.com.br/viral/noticia/2026/02/como-fazer-a-trend-da-familia-em-conserva-com-inteligencia-artificial-veja-o-passo-a-passo-cmluvuhaf01rk013kw2zx63o1.html

 

[3] “Carta aberta aos humoristas do Brasil”

https://www.geledes.org.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil-por-alex-castro/

 

[4] Como o campo conservador/reacionário vê o ensino superior:

https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/65

 

[5] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfrancisco. Dicionário de Política vol I. Nicola Matteucci e Gianfranco. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

 

[6] Populismo Reacionário | com Christian Lynch & Paulo Henrique Cassimiro

https://www.youtube.com/watch?v=9gWdnVQ-ZzU

 

[7] Conservadores, reacionários e contrarrevolucionários | Quais as diferenças?

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=Qloa0KMP3fU&fbclid=IwAR3R_PC5JnYaeS0dRtxAq82gG92agFQTNbgbamtoflubHDQw-JQUcmBHrZE

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Túlio Maravilha e o capital simbólico das universidades públicas


Não que alguém tenha perguntado, mas o ex-jogador Túlio Maravilha, ídolo do Botafogo, juntamente com sua esposa, Christiane Maravilha, gravou um vídeo para anunciar que a filha do casal, Tulianne, que também participa do anúncio, passou para duas universidades públicas, mas vai abrir mão das vagas e estudar em universidade particular. O vídeo soa caricato, dos rostos com botox ao cachorrinho frufru, além do próprio conteúdo da mensagem, os signos deixam claro que uma família de classe alta está a menosprezar o ensino superior gratuito. Isso significa muita coisa e representa um sinal de alerta.

 

Dentre os argumentos apresentados pela família Maravilha está a preocupação em manter os valores familiares [1]. Como explica Christiane, “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e aos nossos princípios”. A família não entra em detalhes sobre de que modo a universidade pública feriria seus princípios e valores, mas tudo indica que se trata de uma visão estereotipada influenciada pela guerra cultural e pânico moral que envolvem a imagem da universidade pública e são parte de ataques de cunho político-ideológico [2].

 

A jovem Tulianne passou para Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Odontologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Da forma que a mãe falou, fica parecendo que a menina passou para algum curso como História ou Ciências Sociais, que já integra o movimento estudantil e já se filiou a algum partido da esquerda radical. De que forma aprender Nutrição ou Odontologia pode ferir os valores e princípios familiares? Ao contrário, isso poderia contribuir para a harmonização facial e para a dieta do casal.  

 

Exagero à parte, Túlio e sua esposa demonstram também preocupações factíveis: com a mobilidade urbana do Rio de Janeiro, cujas ruas vivem congestionadas; com a violência urbana, principalmente nas imediações do campus da UFRJ; e com o sucateamento das universidades. O craque e sua filha falam sobre greves, estrutura “caindo aos pedaços” e até “falta de papel higiênico”. Lamentavelmente, o sucateamento do ensino superior e os cortes orçamentários da área de pesquisa são problemas reais.

 

DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR

Entretanto, o menosprezo de uma elite pela universidade pública, caricaturalmente demonstrado por Túlio e família, não pode ser entendido só como resultado de um sucateamento. A relação de causa e efeito não é tão simples assim. Esse menosprezo não se dá tão somente por conta da precariedade dos serviços, mas faz parte de uma dinâmica social que envolve distinção de classe e está diretamente ligada à democratização que o acesso ao ensino superior teve nos últimos anos. As universidades públicas ficaram mais acessíveis às classes populares, o que provoca uma alteração em seu capital simbólico.

 

Da década de 2000 para cá, houve avanços expressivos na busca por uma universalização do acesso ao ensino superior, por meio de políticas públicas, como as ações afirmativas, com cotas para determinados grupos sociais antes sub-representados e alunos da rede pública [3]. Segundo estudo dos sociológicos Luiz Augusto Campos e Márcia Lima, as cotas aumentaram o ingresso de pessoas negras, pardas, indígenas, com deficiência e oriundas de escolas públicas nas universidades. Se até o final dos anos 1990 o ensino superior brasileiro era dominado por estudantes brancos e de classes médias e altas, em 2021 os estudantes pretos, pardos e indígenas já representavam 52,4% dos matriculados nas universidades públicas, um significativo aumento em relação aos 31,5% que eles somavam em 2001. No mesmo período, a presença de alunos das classes D e E também saltou de 20% para 52%, evidenciando uma clara mudança de perfil socioeconômico dos discentes.

 

Para além das cotas, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se um mecanismo importante de democratização, pois permite que estudantes de qualquer região e condição socioeconômica concorram às vagas de forma padronizada [4]. Já o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) unificou os processos seletivos e reduziu custos e dificuldades de acesso (como pagar vestibulares ou viajar para prestar provas em diferentes estados). Isso ampliou a mobilidade e equidade no acesso [5]. Tudo isso somado mudou a cara da universidade pública brasileira e há muitos dados atestando a democratização alcançada [6].

 

PIERRE BOURDIEU E O CAPITAL SIMBÓLICO

O problema é que quando o acesso de todos a uma coisa fica mais fácil, para as elites essa coisa perde a graça. Isso porque, como lembra o antropólogo Michel Alcoforado, a identidade dos ricos se dá, dentre outros modos, pelo afastamento dos não ricos [7]. A elite está sempre a buscar e reinventar mil e uma formas de se distinguir das classes mais baixas em seus hábitos, consumos e territórios. Aqui é fundamental entender o conceito de capital simbólico, conforme ele é trabalhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu [8]. Capital simbólico é o prestígio, reconhecimento, honra ou legitimidade social que uma pessoa, grupo ou instituição possui, ou seja, aquilo que é socialmente valorizado e reconhecido como importante ou respeitável.

 

Esse capital simbólico será comunicado pelos ricos por meio da arte, dos lugares frequentados e, principalmente, dos bens de consumo. Um tipo de relógio ou uma marca de roupa têm potencial para que ricos mostrem o quanto são ricos. Por sua vez, a classe média, que sempre tenta imitar os ricos e parecer ter mais do que realmente tem, na medida em que se apropria desses itens, altera o potencial de capital simbólico desses itens, fazendo com que os ricos percam o interesse neles. E os ricos tentam sempre deter a cópia. É um verdadeiro jogo de gato e rato: uma marca identificada como de elite, se muito pirateada, copiada, adquirida pela classe média, é deixada de lado por essa elite, que logo abraça outra marca.

 

O mesmo pode ser observado em relação a locais públicos. O mercado da aviação civil passou por uma certa popularização no Brasil das últimas duas décadas e com isso os voos ficaram mais acessíveis. Não demorou para a elite começar a reclamar que os aeroportos estavam parecendo rodoviárias, como nos lembra Alcoforado em entrevista. Para os ricos, a fronteira precisa estar bem demarcada. Até em nossos próprios corpos. Com a magreza mais acessível nos últimos anos, por conta das novidades farmacêuticas, os braços tonificados, esculpidos por uma rotina de academia, vêm se tornando um novo padrão de beleza [9]. Os músculos se tornam um veículo de capital simbólico que comunica controle do tempo e um uso do tempo voltado para o autocuidado, para a vida fitness. Esse uso do tempo é mais fácil para uma pessoa da elite e mais difícil para um(a) trabalhador(a) comum, que enfrenta horas de trânsito para ir e voltar de seu trabalho presencial, por exemplo. Assim o físico fitness vira símbolo de status, como resume a colunista de moda Ilca Maria Estevão:

 

Quando um padrão de beleza antes considerado inalcançável se populariza, é comum que outro surja em seu lugar. Em resposta à chamada “democratização” do corpo magro, ganharam protagonismo os braços tonificados (...). A frase “nem todo mundo tem as mesmas 24 horas” ajuda a traduzir o impacto visual que a estética fitness busca comunicar: mais do que força física, ela sinaliza disponibilidade, organização e acesso a recursos que permitem transformar o corpo em um projeto contínuo.

 

As tatuagens são um outro exemplo de como o capital simbólico pode ser acionado na demarcação de fronteiras entre ricos e pobres nos corpos. Na medida em que as tattoos se popularizam, os ricos tentam manter um corpo mais clean [10]. Criar cancelas em ruas, quarto de empregada, elevador social, inventar camarotes vips, ultra vips, super ultra vips... Tudo isso faz parte da demarcação de fronteiras para evidenciar as diferenças.

 

E NO ENSINO SUPERIOR?

Com o ensino superior ocorre o mesmo. Por muitos anos a universidade pública brasileira teve um perfil elitizado. Luiz Augusto Campos nos lembra do período da ditadura civil-militar com seu projeto desenvolvimentista, dentro do qual cabia às universidades a formação de uma elite altamente qualificada e, por meio dos vestibulares, selecionava-se os “melhores” estudantes, com potencial para se tornarem os “melhores” profissionais do mercado [11]. Justamente por ser voltado em grande medida para uma elite é que o ensino superior gratuito construiu um capital simbólico atraente para os ricos e para a classe média que se inspira nos ricos. Como lembra Alcoforado, sobre sua própria experiência:

 

Minha mãe me botou numa escola no Rio porque ela estava preocupada se aquela escola aprovava no vestibular. Porque naquele tempo era um ativo importante para a classe média estudar na universidade pública

 

Mas se as elites não se interessam mais como antes pela universidade pública, basta apenas que as classes populares usufruam dos serviços numa boa e na santa paz, certo? É aí que mora o problema. Quando as elites se afastam, a tendência é que o serviço se precarize, perca investimentos. Isso porque o estado brasileiro é fortemente cooptado por uma elite dirigente. Os interesses dos mais ricos se fundem com os interesses do estado. Vimos algo parecido com o ensino público em geral, ao longo de décadas, e o mesmo processo está em curso atualmente no ensino superior. É o que aponta Alcoforado:

 

A elite brasileira durante muito tempo viu a educação pública, sobretudo o ensino superior, como um valor. E aí quando a gente faz a política de cotas e coloca gente com outras origens e trajetórias sociais dentro da universidade, toda a elite brasileira agora manda filho para estudar fora. E a gente já viu esse ciclo na sociedade brasileira inúmeras vezes: quando a elite sai dos espaços, esses espaços perdem investimento, perdem reputação, perdem relevância”.   

 

Portanto, as críticas de Túlio Maravilha e sua família às universidades públicas não são uma reação direta e objetiva à precarização. Na verdade, o menosprezo das elites ao ensino superior gratuito e a precarização desse serviço se retroalimentam. Vale lembrar que apesar das críticas, o ensino superior gratuito ainda é referência e de qualidade, se comparado com o que é oferecido por grande parte das instituições privadas, e as universidades públicas respondem pela maior parte da produção científica do país. Também é importante lembrar que a universidade pública ainda tem prestigio no Brasil. Apesar de tudo que foi dito no vídeo, a família maravilha destacou que a filha passou em duas universidades públicas. Algo que foi considerado um feito relevante e digno de se tornar público. 

 

Que Tulianne tenha uma passagem de sucesso e proveitosa pela universidade que escolher. E cabe às classes populares a luta contínua em defesa da universidade pública de qualidade. Democrática e também de qualidade. Uma luta que está inserida em lutas mais amplas: pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país e pela educação de forma geral.     

 

Referências:

[1] Túlio Maravilha explica por que impediu filha de estudar na UFRJ

https://www.metropoles.com/colunas/fabia-oliveira/tulio-maravilha-explica-por-que-impediu-filha-de-estudar-na-ufrj

 

[2] O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política

https://apatria.org/o-que-e-um-professor-doutrinador-para-o-bolsonarismo-guerra-cultural-e-panico-moral-como-estrategia-politica/

 

[3] Estudo mostra como cotas impulsionaram o acesso às universidades públicas

https://www.andifes.org.br/2025/05/23/estudo-mostra-como-cotas-impulsionaram-o-acesso-as-universidades-publicas/

 

[4] O Enem das universidades

https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/enem-2021-a-porta-de-acesso-ao-ensino-superior/

 

[5] Sisu impulsiona inclusão nas universidades públicas

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/sisu-impulsiona-inclusao-nas-universidades-publicas

 

[6] 10 mitos sobre a universidade pública no Brasil

https://jornal.usp.br/universidade/10-mitos-sobre-a-universidade-publica-no-brasil/

 

[7] Entrevista de Michel Alcoforado sobre seu livro “Coisa de Rico”

https://open.spotify.com/episode/56Jl8rCHthB5JFhgKEwln1?si=0Le8xHT3RKChxIfWlMvEHg&nd=1&dlsi=05f467cddba74982

 

[8] Pierre Bordieu | Resumo | Saiba o essencial

https://www.youtube.com/watch?v=enC1fguq-Fg&t=2559s

 

[9] Corpos magros dão lugar a braços tonificados como símbolo de status

https://www.metropoles.com/colunas/ilca-maria-estevao/corpos-magros-dao-lugar-a-bracos-tonificados-como-simbolo-de-status

 

[10] Tatuagem virou coisa de pobre?? Sobre laser, desvalorização e mudanças na profissão

https://www.youtube.com/watch?v=ZNKse-lF1i0

 

[11] Mensalidade não é solução para universidade pública

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/post/2022/05/mensalidade-nao-e-solucao-para-universidade-publica.ghtml