quarta-feira, 12 de julho de 2023

O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política


Em um evento pró-armas realizado no Distrito Federal, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, vulgo “Bananinha”, compara professores que ele próprio considera “doutrinadores” a traficantes.  

 

“Não tem diferença de um professor doutrinador para um traficante que tenta sequestrar e levar os nossos filhos para o mundo do crime. Talvez até o professor doutrinador seja ainda pior”, disse o deputado [1].

 

A figura retórica do “professor doutrinador” a desvirtuar seus alunos, corromper “nossos filhos”, aplicando algum tipo de lavagem cerebral não é rara na pauta bolsonarista e do campo político reacionário em geral. Ela foi acionada, com frequência, no projeto do Movimento Escola sem Partido [2], que visava reduzir sensivelmente a liberdade de cátedra e perseguir professores. Ainda hoje há projetos similares e sendo incentivados por meio desse discurso.

 

Muito mais falas do que ações

Mas antes de entrarmos naquilo que o campo reacionário, do qual Eduardo Bolsonaro faz parte, julga ser um “doutrinador”, é preciso ressaltar que frases de impacto e falas agressivas sempre fizeram parte do repertório político da família Bolsonaro. Tanto o pai Jair quanto os filhos nunca foram exatamente gestores/administradores públicos. Ou seja, nunca se importaram com políticas públicas de fato.

 

Cabe exemplificar que em três décadas como deputado, Bolsonaro teve apenas dois de seus projetos aprovados e que viraram lei [3]. Um deles liberando a fosfoetanolamina para o combate ao câncer. Chamada de “pílula do câncer” à época, mais tarde o STF julgaria a lei sem efeito por falta de testes e falta de comprovação de eficácia da substância [4]. Era uma prévia do charlatanismo que Bolsonaro viria a popularizar durante a pandemia, encorajando o uso de medicações ineficazes contra a covid, como a cloroquina e a ivermectina.

 

A projeção política da família, principalmente do pai, se deve quase que exclusivamente à contundência das falas. Algo que alguns poderiam chamar de “lacração” ou coisa pior. Declarações que se valem do ódio, da violência política, e que frequentemente fomentam um clima de conflito. Esse clima de conflito é necessário para manter os adeptos do bolsonarismo constantemente engajados, já que projetos e políticas públicas nunca foram o forte.

 

Guerra cultural e pânico moral:

Essa lacração faz uso e abuso de artifícios retóricos manjados como a guerra cultural e o pânico moral. Quanto ao primeiro, Cristina Teixeira de Melo e Paulo Vaz (2021) destacam que o conceito de guerra cultural surgiu com o livro Culture Wars: The Strugle To Define America, de James Hunter, publicado em 1991, e que seu sentido imediato seria a existência de conflitos morais. Hunter, segundo Melo e Vaz, cita exemplos que estariam dentro da gama desses conflitos morais, sendo possível perceber que, assim que o conceito de guerras culturais é proposto ou, pelo menos, adensado, logo de cara estão alguns embates da área educacional, o que é o caso em questão, no qual Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes.

 

Hunter destaca as disputas em torno ao aborto, à posição da mulher na família e na sociedade, à sexualidade, aos direitos do que hoje chamamos população LGBTQI+, ao financiamento público de projetos culturais e exposições artísticas, à separação entre Igreja e Estado, ao multiculturalismo, às cotas para minorias nas universidades, ao cânone dos autores ocidentais no ensino universitário, ao politicamente correto e ao currículo das escolas primárias (MELO e VAZ, 2021, p. 6).

 

Apesar da multiplicidade de temas, há aspectos em comum que viabilizam uma conceituação sobre o que seriam as guerras culturais. Melo e Vaz citam dois. O primeiro é referente ao modo como o processo de disputa social ocorre: inicialmente, um determinado grupo obtém avanços, por exemplo, no campo dos direitos civis, e, com esses avanços ocorrem mudanças de valores morais. Entretanto, de forma quase que simultânea, há uma reação conservadora organizada. A segunda característica seria, em linhas gerais, um processo amplo de secularização, visto que a noção de guerras culturais fora cunhada dentro do contexto da história política e cultural estadunidense.

 

Dados o poder de mobilização política e a força da religião na constituição da moralidade nos Estados Unidos, Hunter caracteriza a mudança como um processo de secularização. Por essa razão, ele supõe que o conflito em torno do direito ao aborto seria o protótipo das guerras culturais (MELO e VAZ, 2021, p. 7).

 

Já o pânico moral ou cultura do medo é quando, por exemplo, apela-se para o medo, atentando para supostos "riscos que rondam as nossas crianças", “os nossos filhos”, exatamente como fez o deputado. Antônio de Oliveira Bitencourt (2013) destaca que o conceito de pânico moral abarca circunstâncias em que, influenciados por notícias alarmantes diárias, somos postos em uma situação em que não estamos devidamente inclinados com o que realmente deveríamos nos preocupar, como, por exemplo, a pobreza e a fome, que ele cita como problemas sociais graves. “Os pânicos morais estão associados a alguma espécie de perigo iminente e emanam do social” (BITENCOURT, 2013, p. 40).

 

O conceito não é um termo de alçada popular e comumente é utilizado por políticos, sociólogos, jornalistas, entre outros profissionais, para explicar situações sociais nas quais existe uma percepção, por alguém, que uma determinada situação representa um risco potencial (real ou imaginário) para uma população. (Ibid)

 

Disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro:

Também é preciso compreender o momento em que Eduardo Bolsonaro dispara sua frase comparando profissionais da educação a traficantes. Jair Bolsonaro foi derrotado nas urnas, mas muitos de seus apoiadores se elegeram. O Bolsonarismo segue vivo, ainda que não demonstre a mesma força que tinha há cinco anos. Por isso, há certa indecisão nos rumos do movimento. Como ainda não se sabe qual nome da extrema direita irá herdar o espólio político de Jair Bolsonaro, muitos nomes começam a se insinuar. Eduardo Bolsonaro sabe que é preciso manter-se em evidência para não perder o posto de herdeiro político. E como a estratégia política dos Bolsonaro sempre foi a contundência das falas, o deputado federal mantém o jogo que, em linhas gerais, sempre funcionou para sua família.

 

Mas a disputa não é fácil. Sempre há um Nikolas Ferreira disposto a lacrar mais alto. O deputado mineiro chegou a vestir no plenário da Câmara uma peruca loura e se rebatizar como Nicole [5], tudo para disseminar o mesmo discurso transfóbico que alavancou sua carreira política e tentar aparecer. Conseguiu. A briga pelo espólio político do ex-presidente Bolsonaro fica ainda mais difícil porque, segundo analistas, a direita agora busca um nome mais moderado (comparativamente aos Bolsonaro) para quem sabe tentar uma eleição presidencial em 2026. Nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema, governadores de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente, são alguns dos cotados. Se for esse o caminho, a agressividade retórica de Eduardo Bolsonaro pode não ajudá-lo. O tempo dirá e ainda há muita água para rolar.

 

O que seria um “professor doutrinador” pela ótica reacionária? Uma análise a partir do ensino de história

Os defensores de Eduardo Bolsonaro alegam que ele não comparou professores a traficantes (de armas ou drogas, vai saber), mas somente aqueles professores específicos, que agem como doutrinadores. O problema é a abrangência do termo “doutrinador” para o campo extremista e reacionário do qual o deputado faz parte. O que seria exatamente um “professor doutrinador”?

 

Basicamente é todo professor que ensina um conteúdo em sentido contrário às confabulações políticas infundadas disseminadas de forma manipulatória pelo bolsonarismo. E aqui cabe-nos explicar do ponto de vista do ensino de história, área que nos é mais afeita e uma das mais atacadas por esse tipo de discurso que se vale da guerra cultural e do pânico moral.

 

Doutrinador pode ser, por exemplo, o professor que explica os problemas sociais, políticos e econômicos da ditadura militar no Brasil, uma vez que a ditadura é glorificada pelos bolsonaristas e demais reacionários. Doutrinador pode ser aquele que aponta para as sequelas até hoje sentidas na sociedade brasileira por conta do etnocídio sofrido pelos povos indígenas ou pela escravidão imposta aos negros no Brasil. Também pode ser entendido como doutrinador aquele profissional que analisa, em perspectiva histórica, o problema do latifúndio, da enorme concentração de terras no país, algo que remete aos tempos das capitanias hereditárias, e que explica a importância histórica da luta por reforma agrária. Tudo isso, pela ótica bolsonarista, vira “doutrinação”. Não é pouco!      

 

No artigo do Café História escrito por Bruno Carvalho e Nilton Mullet (2021), ao abordarem o assunto no campo do ensino de história, os autores explicam que, por trás da acusação de doutrinação, o que existe é um ataque à pluralidade de um ensino que dá voz e vez a grupos até então subjugados:

 

O tom acusatório com que apontam professores de História de doutrinadores apenas tem o objetivo de continuar, contraditoriamente, a mostrar um mundo baseado em apenas uma doutrina, uma mesma visão de mundo, àquela legada, através do genocídio e da escravização, pelo colonizador (CARVALHO e MULLET, 2021, on-line).

 

Os autores contextualizam, esclarecendo as mudanças pelas quais o ensino de história passou nas últimas décadas, absorvendo novas vozes, novos atores sociais. Com frequência ouvimos a frase que diz que “a história é escrita pelos vencedores”. Pois as últimas mudanças na pesquisa e ensino de história são direcionadas justamente no sentido contrário a essa frase, desconstruindo a noção de que somente vencedores devem explicar como tudo aconteceu e como chegamos onde chegamos. Restringir a história à versão dos vitoriosos e grupos dominantes (de ontem e hoje) não é bom para a historiografia. Não é bom para a ciência!

 

Por muito tempo, o Ensino de História privilegiou doutrinas e visões de mundo marcadamente europeias, silenciando sobre doutrinas de outros povos e culturas. Vale dizer, por exemplo, que durante muito tempo as aulas de história não discutiam a cultura e as doutrinas religiosas de matriz africana, dedicando-se, quase exclusivamente, às religiões e doutrinas grega, romana e cristã.

 

Isso porque a aula de História era afetada por uma visão de mundo específica: a do agente colonizador europeu. Durante séculos, o Brasil foi colonizado por uma nação europeia, e isso deixou marcas profundas em nossa sociedade, a começar pela forma como entendemos a história. Acostumamo-nos a ver os povos africanos e indígenas como atrasados, passivos e sem protagonismo, enquanto que os povos europeus seriam aqueles que fizeram a humanidade realmente avançar, produzindo uma cultura “universal”.

 

Há algumas décadas, essa forma de escrever a história mudou. Historiadores em todo o mundo passaram a estudar, pesquisar e escrever muito mais sobre outros povos e culturas, e recentemente, essa “nova história”, muito mais plural e representativa, chegou aos livros didáticos. Acontece que, como toda mudança, essa gerou desconforto. Algumas pessoas entenderam que falar, por exemplo, de religiões de matriz africana, era o mesmo que diminuir a importância das religiões cristãs, ou ainda, que explorar a história dos povos da Ásia e os seus feitos ao longo do tempo, era o mesmo que ignorar a cultura europeia. O professor, ao fazer isso, estaria “doutrinando” suas turmas (...).

 

Uma aula de História é um espaço público onde se aprende sim doutrinas e teorias diversas, mas é, sobretudo, o lugar onde se aprende a conviver, a difícil arte da convivência, do respeito e do diálogo. Um jovem que não vai à escola e não frequenta uma aula de História onde pode debater e discutir com seus colegas e professores, não aprende a entender a pluralidade do mundo. Uma criança ou um jovem não são “tábulas rasas”, incapazes de dialogar, de contestar ou de resistir (Ibid).

 

Referências:

BITENCOURT, Antonio Belamar Oliveira de. Risco e pânico moral: um estudo sociológico do "Medo do Crime" na revista Superinteressante 2008-2012. Santa Maria: UFSM, 2013.

 

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de; MULLET, Nilton. Professores e professoras de história são mesmo doutrinadores? (Artigo) In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/professores-e-professoras-de-historia-sao-mesmo-doutrinadores/. Publicado em: 27 jul. 2021. ISSN: 2674-5917.

 

MELO, Cristina Teixeira de; VAZ, Paulo. Guerras Culturais: conceito e trajetória. In: Revista Eco-Pós, v. 24, n. 2, 2021.

 

[1] Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes; PF deve analisar fala

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/eduardo-bolsonaro-compara-professores-a-traficantes-pf-deve-analisar-fala/

 

[2] Escola sem Partido | Fernando Penna

https://www.youtube.com/watch?v=pVS7lYGaUQo

 

[3] Em 27 anos como deputado, Bolsonaro tem dois projetos aprovados

https://www.redebrasilatual.com.br/politica/em-27-anos-como-deputado-bolsonaro-tem-dois-projetos-aprovados/

 

[4] STF JULGA INCONSTITUCIONAL LEI DE BOLSONARO QUE AUTORIZA PÍLULA DO CÂNCER

https://congressoemfoco.uol.com.br/area/justica/stf-julga-inconstitucional-lei-de-bolsonaro-que-autoriza-pilula-do-cancer/

 

[5] Nikolas Ferreira veste peruca na Câmara e ironiza mulheres trans

https://www.youtube.com/watch?v=sB2YUgzfHvM

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Somos todos macacos? Racismo no futebol e os 9 anos de uma campanha polêmica

 


O execrável caso de racismo envolvendo o jogador Vinícius Jr. no jogo entre Valencia e Real Madrid pelo campeonato espanhol, lamentavelmente, tem seus antecedentes. Um dos casos de maior repercussão ocorreu há nove anos, em 2014, com o jogador Daniel Alves. No dia 30 de março daquele ano, aos 30 minutos do segundo tempo de uma partida entre Barcelona e Villarreal, um torcedor atirou uma banana em campo, em uma clara provocação racista contra Daniel Alves, que teve uma reação inesperada: pegou a fruta do gramado e a comeu.

 

O caso teve muita repercussão, não só pelo ataque racista, mas pela reação do jogador. A revista Veja estampou Daniel Alves em uma capa com uma legenda bastante controversa: “Daniel Alves, da Seleção Brasileira e do Barcelona, comeu a banana, os racistas dos estádios escorregaram na casca e o preconceito quebrou a cara – talvez para sempre.”

 


O tom triunfalista da revista ao acreditar que o racismo havia sofrido um derradeiro golpe, derrotado “talvez para sempre”, era de quem aparentemente não havia se dado conta do quanto o problema está enraizado na sociedade – na Espanha, no Brasil e em outros países do mundo. Vinícius Jr. que o diga. O jornalismo, também ele, havia escorregado numa casca de banana.

 

Mas a polêmica (ou a escorregada?) não ficou no jornalismo. A repercussão da reação de Daniel Alves foi aproveitada para o lançamento da campanha publicitária “Somos todos macacos”, em que pessoas postavam selfies segurando bananas. Xuxa, Ivete Sangalo, Angélica e Luciano Huck foram algumas das personalidades a aderirem à campanha. Este último foi acusado de estar lucrando com o caso, já que sua empresa lançou produtos com a estampa, como camisas e canecas [1].

 


Outro que achou que a campanha “Somos todos macacos” era uma boa ideia foi ´Reinaldo Azevedo, colunista da própria revista Veja. Em sua coluna “A aula de Daniel Alves e Neymar de combate ao racismo. Ou: Também sou macaco!” [2], Azevedo elogiava a atitude dos jogadores. O primeiro, por ter comido a banana em campo; o segundo, por ter dado início à campanha, postando uma foto em rede social segurando uma banana, com a hashtag “#somostodosmacacos”.

 

“Por falar em Neymar, ele também fez a coisa certa. Publicou uma foto no Instagram, comendo uma banana, ao lado do filho. (...) Fez circular ainda a seguinte mensagem: ‘SOMOS TODOS IGUAIS, SOMOS TODOS MACACOS. RACISMO NÃO!!!!!’”, destacou Azevedo, em seu texto, sem explicar, no entanto, que a campanha “Somos todos macacos” era uma criação da agência Loducca e que a imagem postada por Neymar fazia parte da campanha. 

 


O colunista continua. Demonstrando entusiasmo com a suposta habilidade dos jogadores no combate ao racismo, Azevedo acredita que as atitudes dos futebolistas brasileiros são mais acertadas contra o problema do que a produção intelectual da época. Para ele, Daniel Alves e Neymar, “que não se querem pensadores profundos — são mesmo é bons de bola, graças a Deus —, são mais sábios do que alguns intelectuais do miolo mole. É claro que acho que manifestações racistas, quando flagradas, têm de ser punidas. Mas a histeria politicamente correta só alimenta os idiotas.”

 

Azevedo não deixa claro quem seriam os “intelectuais de miolo mole” e nem o que exatamente seria a “histeria politicamente correta”, embora possamos deduzir quem e o que são ambos. É provável que os tais intelectuais criticados sejam aqueles que recorrentemente têm produzido sobre racismo estrutural e demais pautas genericamente denominadas como “identitárias”, cujas produções são, com frequência, rotuladas como “politicamente corretas”, em certo tom pejorativo.

 

Embora não seja a pretensão deste artigo abarcar o assunto, vale ressaltar que há discussões interessantes sobre o uso desse termo, como no caso de Alex Castro, que levanta a bola ao tratar do humorismo [3], defendendo haver uma certa contradição no uso do termo “politicamente correto” para se referir às causas de minorias desfavorecidas, haja vista que elas são contra-hegemônicas se comparadas à política vigente, há séculos dominada por homens, heterossexuais e brancos. Esta política vigente e tradicional, sim, por ser predominante há tantos anos, seria verdadeiramente a merecedora do rótulo de “politicamente correta”.

 

Também é interessante a posição de Moira Weigel, pesquisadora de Harvard sobre o tema, que defende que o “politicamente correto” é um “inimigo imaginário”.

 

Realmente não acredito que o politicamente correto exista. Você pode perguntar: mas então a que as pessoas se referem quando usam esse termo? É à linguagem que usamos e aos cuidados que temos quando falamos para não ofender ninguém. O que existe são formas diferentes de diálogo, de discurso, à medida que a sociedade se desenvolve e diversifica. Se você olhar para as universidades, como a da Califórnia, por exemplo, vai ver que, em meados dos anos 80, a maioria dos estudantes era branca. Isso mudou. A diversidade aumentou. Quando isso acontece, a maneira como você fala também muda e você passa a se preocupar em não ofender os outros. Não existe nenhuma organização política secreta forçando as pessoas a falar de certa maneira. [4]

 

Fato é que, apesar da empolgação de alguns, a campanha “Somos todos macacos” desagradou parte do movimento negro, que a considerou superficial, além de esconder a negritude e disfarçar a desigualdade racial [5]. Outro fato é que, passados nove anos do incidente com Daniel Alves e da campanha, mais casos de racismo envolvendo jogadores negros no futebol continuaram a acontecer na Espanha, no Brasil e em diversos países. A aposta da revista Veja de que o racismo poderia quebrar a cara para sempre confirmou-se como ingênua, lamentavelmente; e a campanha “Somos todos macacos”, que pareceu uma boa ideia para muita gente há nove anos, hoje soa ainda mais questionável e controversa.

 

Tanto a capa da revista quanto a campanha, cada uma a sua maneira, minimizaram o racismo, sua persistência, seu enraizamento. Rotular a militância e a produção intelectual antirracista como “politicamente corretas”, em tom pejorativo, também pode abrir caminho para a minimização do verdadeiro problema a ser enfrentado.

 

Relembrar a atitude de Daniel Alves e a polêmica da campanha leva a um questionamento: quais as melhores estratégias de combate ao racismo? Certamente as reações e campanhas antirracistas não podem ser ideias e atitudes que desagradem a própria comunidade negra. O que dá esperança é que, ainda que haja muitos casos de racismo, a reprovação aos racistas agressores tem sido intensa. O caso recente ocorrido com Vinícius Jr. e a reação indignada do jogador têm obtido apoio e estimulado cobranças por providências da parte da liga espanhola. A luta é grande e continua!


Referências:

[1] Huck se defende por camisa e diz: "não vou ganhar um tostão":

https://www.terra.com.br/esportes/futebol/internacional/espanha/campeonato-espanhol/huck-se-defende-por-camisa-e-diz-nao-vou-ganhar-um-tostao,becdbd420c4b5410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

 

[2] A aula de Daniel Alves e Neymar de combate ao racismo. Ou: Também sou macaco!:

https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/a-aula-de-daniel-alves-e-neymar-de-combate-ao-racismo-ou-tambem-sou-macaco

 

[3] Carta aberta aos humoristas do Brasil:

https://papodehomem.com.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil/?fbclid=IwAR2Hedzvzn9mUxljkStFnb8H9a1lZ5hYTUw5S2bc5hJb4YKxzYnf2CY7YE0

 

[4] Estudiosa do politicamente correto afirma que ele não existe. É um “inimigo imaginário”:

https://oglobo.globo.com/epoca/estudiosa-do-politicamente-correto-afirma-que-ele-nao-existe-um-inimigo-imaginario-23374222

 

[5] Para movimento negro, campanha “Somos todos macacos” reproduz racismo:

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-04/para-movimento-negro-campanha-somostodosmacacos-reproduz-racismo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Desconstruindo o velho sábio

 

É preciso desconstruir já o estereótipo do velho sábio. Esta é uma percepção que fazia sentido na Antiguidade e Idade Média, mas não se encaixa na contemporaneidade, embora ela ainda circule pelo nosso imaginário. Basta pensar em personagens como o Mestre dos Magos, de “Caverna do Dragão”, ou Gandalf, de “Senhor dos Anéis”, universo fictício claramente inspirado no período medieval. A desconstrução não significa, de forma alguma, um ataque à terceira idade. Não! Com os anos é possível acumular muita sabedoria, mas, lamentavelmente, em alguns casos (espero que minoritários) também se pode acumular muita burrice.


Na Antiguidade e Idade Média, envelhecer era uma tarefa difícil. Tanto que a expectativa de vida era mais baixa (pelo menos na Europa). Era preciso ser bom em alguma coisa para envelhecer: bom em lutar ou, quem sabe, bom em correr da luta; bom em manter certa diplomacia para preservar a própria vida. Havia pestes, doenças e poucas respostas da medicina. Então era preciso também ser bom em manter a própria saúde de alguma forma. Viver era bem difícil. Envelhecer era privilégio. De fato era preciso ser sábio (ou rico).


Aí vêm a Idade Moderna, o iluminismo, a ciência moderna, o estado moderno… Figuras como Galileu e Copérnico possibilitaram o avanço de métodos científicos, que se refletiriam em ganhos para a medicina, entendimento do mundo microscópico de vírus e bactérias, desenvolvimento de vacinas, popularização de noções básicas de higiene, como a ocorrida por meio das pesquisas da enfermeira Florence Nightingale, pioneira da enfermagem moderna, etc.


O Direito também se desenvolveu, com novas percepções de mundo e sociedade, a fim de se evitar a barbárie. Os chamados “autores contratualistas” foram fundamentais nesse processo. Um deles era Thomas Hobbes. Se “o homem é lobo do homem”, como ele defendia, então seria necessária a consolidação de um estado, com um regramento que possibilitaria um convívio minimamente harmônico em sociedade. Mais tarde, Montesquieu, um dos principais pensadores do iluminismo, em sua obra “Espírito das leis” (1748), propôs a tripartição do poder em Legislativo, Judiciário, e Executivo, como forma de evitar abusos por parte das autoridades. Duzentos anos depois, em 1948, um outro avanço jurídico e civilizatório seria a Declaração dos Direitos Humanos. Também no século 20, surge o estado de bem-estar social e a ideia de um estado provedor de recursos básicos, como saúde e educação.


Assim chegamos ao século 21 em um cenário que, apesar das consideráveis variáveis quanto à localidade e classe social, é mais fácil envelhecer do que era em séculos anteriores. Até idiotas conseguem, bastando para isso usufruírem das benesses que nem sabem que obtiveram. Afinal, são idiotas! E, como tais, para piorar mais ainda iniciam uma cruzada contra tudo aquilo que os possibilitou chegar à terceira idade. Porque idiota que é idiota tem que dar tiro no pé. Lutam contra o estado moderno, suas instituições democráticas, sua interdependência e tripartição de poderes, seu processo eleitoral. Lutam também contra a ciência, contra a vacina. Enfim, lutam contra a modernidade e o iluminismo, embora pensem que estão lutando contra outras coisas.


Mas esses guerreiros de Whatsapp não aguentam 15 segundos de spray de pimenta, um tapa na cara dado por um PM ou duas refeições de macarrão com nuggets ou com salsicha. Imagina se estivessem no meio de um ataque viking em pleno medievo!


Vida longa aos velhos sábios! Temos muito o que aprender com eles. Quanto aos outros, o lance é romper o ciclo, estudar história, investir em educação midiática e pedir a um neto ou neta que não tenha sido contaminado(a) pelo vovô e vovó para monitorá-los no tempo de uso de celular.  


Referências:

 

Iluminismo: o que foi e qual a sua importância?

https://www.politize.com.br/iluminismo/#:~:text=O%20Iluminismo%20se%20iniciou%20como,em%20detrimento%20do%20pensamento%20religioso.

 

Galileu e a ciência moderna

https://estadodaarte.estadao.com.br/galileu-nova-fisica-tossato/?fbclid=IwAR0Ye07NWxNVYy9xYuIQ8LOwN9db9_8MuibaJMvHZprwZa9qpLzhurD2zEs

 

Dia Internacional dos Enfermeiros: A história de Florence Nightingale

https://www.youtube.com/watch?v=L0m94DdJvwM

 

Contratualistas - Hobbes, Locke e Rousseau

https://trilhante.com.br/curso/filosofia-do-direito/aula/contratualistas-hobbes-locke-e-rousseau-1

 

Declaração Universal dos Direitos Humanos

https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos

 

Estado do bem-estar social - História e crise do welfare state

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/estado-do-bem-estar-social-historia-e-crise-do-welfare-state.htm

 

Educação Midiática: entenda o conceito em 5 minutos!

https://www.politize.com.br/educacao-midiatica/


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Não mate o mensageiro: negacionismo e ataque a jornalistas

 


No último feriado nacional de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro hostilizaram e encurralaram um cinegrafista e um reporter da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo. A cena foi transmitida ao vivo pela CNN Brasil em plena celebração católica no Santuário Nacional de Aparecida, um local sagrado e de peregrinação, que atrai milhares de fiéis todos os anos. Os profissionais da imprensa acompanhavam a missa, que teve a presença do presidente Bolsonaro e, consequentemente, de seus próprios fiéis. Os jornalistas precisaram da ajuda de seguranças da TV Aparecida para deixar o local [1].

Uma semana antes, no dia 4 de outubro, profissionais da imprensa que cobriam a ida de Bolsonaro em campanha eleitoral a uma igreja da Assembleia de Deus no Brás, na capital paulista, também foram hostilizados, ameaçados e perseguidos por fiéis, de Bolsonaro e da própria igreja (sendo difícil distinguir de quem esses fiéis são mais fiéis). Após o fim do culto (a imprensa não pôde entrar na igreja), um grupo de bolsonaristas notou a presença dos profissionais e passou a hostilizá-los. De acordo com o Síndicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, policias militares que estavam no entorno foram embora, apesar do visível tumulto, deixando em risco os profissionais da imprensa [2].

Esses dois casos – o do Santuário Nacional de Aparecda e o da Assembleia de Deus – ocorridos nas duas primeiras semanas de outubro, se somam a tantos outros casos de ataques a jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas e demais profissionais de imprensa que vêm crescendo no Brasil, tornando o exercício da profissão ainda mais difícil e o ambiente para a prática do jornalismo ainda mais hostil.

Já não é mais possível se surpreender sequer com o fato de os ataques terem acontecido em ambientes religiosos, que deveriam inspirar outros sentimentos que não o ódio. Não é a primeira vez que bolsonaristas atacam jornalistas durante as comemorações da padroeira do Brasil. Em 2021, também no Santuário Nacional de Aparecida, o cinegrafista Leandro Matozo e o repórter Victor Ferreira foram insultados pelo bolsonarista Gustavo Milsoni, de Mogi das Cruzes (SP). Após xingar a equipe de reportagem e dizer que “se pudesse” mataria os jornalista, Milsoni cabeceou o cinegrafista, que ficou ferido. De acordo com Victor Ferreira, o agressor foi liberado da delegacia antes mesmo dele e de seu colega de trabalho, o agredido, e “ainda pegou carona no carro da PM para voltar ao santuáro” [3].

Ne nuntium necare

Quem assistiu a filmes cujas histótias que se passam em tempos remotos, como a Antiguidade ou a Idade Média, já deve ter visto idas e vindas de mensageiros aliados ou inimigos em guerras e batalhas, O filme Cruzada (2005), de Ridley Scott, é um dos muitos exemplos e mostra a atuação e o infortúnio de um desses mensageiros [4]. Nem sempre eles acabavam bem. Por isso, há um antigo provérbio latino que diz “Ne nuntium necare”, ou, em bom português, “Não mate o mensageiro”. Ele remonta a essas guerras muito antigas, das quais há relatos de que grandes líderes e imperadores matavam os mensageiros que lhes traziam notícias ruins.

Era um mundo bem diferente do que há hoje. Não havia TV, rádio ou internet. O modo de se obter informações era, por exemplo, por meio dos mensageiros. Dario III, rei da Pérsia, derrotado na guerra, teria determinado a morte do mensageiro que o informara que seus guerreiros sucumbiram ao exército de Alexandre, o Grande [5]. O filósofo grego Plutarco nos conta que o mensageiro que anunciou ao rei armênio Tigranes a chegada do exército romano teve sua cabeça cortada. E então ninguém mais se atreveu a trazer mais (e más) notícias ao rei, que passou a viver cercado de aduladores [6]. O governante do império Mongol Gengis Khan (o rosto na ilustração deste artigo, criada por André Bacchi) também estaria entre os líderes que tinham o “péssimo hábito” de matar os mensageiros que lhes traziam notícias ruins [7]. Sobre matar mensageiros, Marco Antônio dos Santos Martins diz o seguinte:

A motivação desta decisão pode ser analisada, no mínimo, a partir de dois ângulos: um pessoal e outro político. O pessoal provém da irritação de quem se crê “soberano”, e vê a realidade contrariar seus desejos, os quais deveriam estar acima de tudo, por ser a expressão das necessidades divina. Já o componente político passa pela intenção de evitar que outros, além do soberano, tenham acesso à informação [5].

Jornalismo profissional e crescimento das TICs

Uma das características de estados democráticos é a liberdade de imprensa. Podemos até discutir em que medida a imprensa e a mídia em geral são de fato livres e imparcias em diversos países pelo mundo. Obviamente precisamos ter sempre uma leitura crítica do conteúdo que consumimos por meio da imprensa que, por sua vez, precisa ter autocrítica a respeito do clima hostil que existe atualmente no país (o artigo da jornalista Milly Lacombe é contundente e preciso nesse sentido [8]). Mas, como me dizia um ex-chefe e colega de trabalho, “se a carta é ruim, a culpa não é do carteiro”. Ou, nas palavras de Marcelo Tertuliano: “quando digo para ‘não matar o mensageiro’, refiro-me ao fato de que é imprescindível discernir entre o mensageiro e a mensagem” [7].

Com o surgimento e popularização da internet nas últimas décadas do século 20, seguidos pelo crescimento das mídias digitais e redes sociais nas prímeiras décadas do século 21, por sua vez seguido das bolhas informacionais produzidas pelas lógicas algorítmicas, muitas pessoas ficaram um pouco tirânicas em relação à informação. Ainda que o receptor (leitor, telespectador, ouvinte) não seja um governante de um império, como Gengis Khan, ele também mata o mensageiro, de formas diferentes.

Isso porque com as bolhas informacionais houve uma customização da informação: as pessoas aos poucos se acostumam a moldar o ambiente informacional no qual estão inseridas de modo a receber apenas informações com as quais concordem, afastando as informações desagradáveis e dissonantes, assegurando para si uma certa zona de conforto. Os algorítmos fortalecem o processo gerando um círculo vicioso, oferecendo mais do mesmo, por conta de sua lógica comercial. Isso acontece principalmente por meio das redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp…) e terminam por afetar outras instâncias das relações interpessoais. Por exemplo: brigas de famílias podem ser provocadas nos ambientes digitais e se estenderem aos encontros familiares presenciais, com grupos de parentes divididos conforme as opiniões.

Com todo esse desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e comunicação (TICs), mais do que um pouco tirano, muita gente virou expert no trato da informação. Mas claro que, no fundo, a coisa não é bem assim. Por mais que todos se julguem esclarecidos e hábeis no trato com a informação, quando observamos a nossa coletividade, ou seja, nossa sociedade como um todo, nunca tivemos tantos problemas de desinformação em massa, a ponto de prejudicar sensivelmente nossa esfera pública e nossa democracia. Mas, embora para alguns analistas, episódios como a pandemia de covid-19, que trouxe a reboque uma pandemia de desinformação (ou desinfodemia) [9], tenham servido para reforçar o papel fundamental do jornalismo profissional no mundo contemporâneo [10] [11], não é fácil convencer os indivíduos desse papel fundamental.

Viés de confirmação e dissonância cognitiva

O cientista social Davi Carvalho nos lembra que as pessoas creem em informações falsas porque, normalmente, essas informações falsas são condizentes com aquilo que elas já acreditavam previamente. ‘Tendemos a buscar e a privilegiar informações condizentes com nossas crenças pré-existentes” [12]. Esse fenômeno é conhecido na psicologia social como viés de confirmação. E quando conseguimos provar a alguém que determinada informação que ela acredita e compartilha é falsa ou uma distorção, disparamos nela a dissonância cognitiva, algo que normalmente as pessoas detestam.

A dissonância cognitiva pode ser definida como o mal-estar psicológico que sentimos quando temos valores ou crenças em contradição. Essa tensão psicológica é disparada quando nos deparamos com evidências que contradizem qualquer crença pré-estabelecida. Um exemplo bastante claro disso é quando alguém que crê em uma fake news tem sua crença confrontada com a informação verdadeira. Quando isso acontece, a pessoa passa a ter duas cognições dissonantes em sua mente, a crença anterior e a nova informação, daí o fenômeno ter sido denominado “dissonância cognitiva” por seu criador, o psicólogo social Leon Festinger. [12]

Porteira aberta para o negacionismo

Nesse contexto, a figura do jornalista profissional tem passado por mortes físicas, aqui representadas pelas agressões e intimidações como as anteriormente citadas, e também por mortes simbólicas, como o descredenciamento de seu papel e importância para a democracia e a esfera pública. Não tem sido fácil ser o mensageiro em um mundo em que as pessoas só acreditam no que querem acreditar, refugiando-se em bolhas de informação e rechaçando, de forma muitas vezes agressiva, as dissonâncias cognitivas.

Não escutar, dificultar a comunicação, ignorar o que chega ao seu conhecimento ou – pior! – criar situações de constrangimento para aqueles que são portadores de conteúdos que descortinam dados e fatos nem sempre positivos criam não apenas o distanciamento, mas o medo e a insegurança de quem gostaria de ver mudanças significativas, que poderiam melhorar processos, solucionar problemas e ampliar resultados [7].

Se você mata o mensageiro porque ele traz notícias ruins ou desconfortáveis, você seleciona só os mensageiros que trazem notícias boas. Não é um bom negócio viver cercado por aduladores e/ou mentirosos. Isso é a abertura de porteira para o negacionismo. E é um problema que vai além do jornalismo, afetando diversas áreas do conhecimento. O jornalista alemão Philipp Lichterbeck cita como exemplo a tentativa de Bolsonaro de criminalizar institutos de pesquisa no período eleitoral e como isso se encaixa em um quadro mais amplo do bolsonarismo de prejudicar a produção de conhecimento, um movimento essencialmente anticientífico e anti-iluminista.

Foi assim quando Bolsonaro acusou o renomado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de falsificar dados sobre queimadas na Amazônia e despediu o diretor (e físico) do Inpe Ricardo Galvão. Foi assim na pandemia, quando o presidente defendeu o uso de um remédio contra a malária e desaconselhou a vacinação contra covid-19. Foi assim quando o governo cancelou o censo de 2021 ou quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que os dados sobre insegurança alimentar da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan) estavam errados [6].

Lichterbeck destaca que a hostilidade do bolsonarismo ao conhecimento científico culminou em cortes nos orçamentos para universidades e pesquisa, acarretando uma verdadeira fuga de cérebros brasileiros para universidades estrangeiras. E, mais do que dificultar a produção de conhecimento, o governo Bolsonaro tenta apagar as distinções entre verdade, boato e mentira, com o objetivo de criar confusão.

O uso racional do conhecimento e das informações, inclusive com coragem para lidar com as informações indesejáveis, é fundamental para tomarmos decisões mais adequadas para enfrentar os problemas reais, que não vão desaparecer apenas por fecharmos nossos olhos e ouvidos. Porque a realidade sempre nos cerca e nos alcança.

Pode-se dizer, em geral, que nunca é uma boa ideia fechar-se à verdade e ao conhecimento. Pior ainda é punir quem produz informações que não lhe agradam. Não é, portanto, surpreendente que o rei Tigranes acima mencionado tenha perdido a guerra contra os romanos no ano 68 antes de Cristo [6].

Não mate o mensageiro!


Referências

[1] Jornalistas são ameaçados por bolsonaristas no Santuário Nacional de Aparecida

https://jornalistaslivres.org/jornalistas-sao-ameacados-por-bolsonaristas-no-santuario-nacional-de-aparecida/?fbclid=IwAR2TrNUX8jpXxlfcz_b9WvzkwzrZ_GdAfRchlQxSx33kPbrbj1jfTrNpK_0


[2] Jornalistas são cercados, ameaçados e hostilizados por apoiadores de Bolsonaro após culto na Assembleia de Deus

https://sjsp.org.br/noticias/jornalistas-sao-cercados-ameacados-e-hostilizados-por-apoiadores-de-bolsonaro-ap-f2c4


[3] Bolsonarista agride e ameaça cinegrafista da GloboNews de morte em Aparecida

https://www.poder360.com.br/brasil/bolsonarista-agride-e-ameaca-cinegrafista-da-globonews-de-morte-em-aparecida/


[4] Cruzada 2005

https://www.youtube.com/watch?v=QOqUUZKXOik&t=467s


[5] Panorama: “Ne nuntium necare”

https://fapers.org.br/new-portal/2021/02/panorama-ne-nuntium-necare/


[6] A atual versão brasileira de "atirar no mensageiro"

https://www.dw.com/pt-br/a-atual-vers%C3%A3o-brasileira-de-atirar-no-mensageiro/a-63460188?fbclid=IwAR1E34NqizPukyMpWixnokUUIpsK-aNixiVbDRFhtJ6RmydQiHaHGJJhZrw


[7] “Não mate o mensageiro”

https://diariodocomercio.com.br/opiniao/nao-mate-o-mensageiro/


[8] Mídia deve assumir seu papel na naturalização da extrema-direita no Brasil

https://www.uol.com.br/esporte/colunas/milly-lacombe/2022/10/05/midia-deve-assumir-seu-papel-na-naturalizacao-da-extrema-direita-no-brasil.htm?fbclid=IwAR3oGBylIjmzEkV54YiEW1v2ZJvuQozFFcUcHnDzlCkn6cC3v0FC9UAUxgo


[9] Competência em informação e desinfodemia no contexto da pandemia de covid-19

https://revista.ibict.br/liinc/article/view/5391


[10] O mundo depois do coronavírus. Artigo de Yuval Noah Harari

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597469-o-mundo-depois-do-coronavirus-artigo-de-yuval-noah-harari


[11] Como será o mundo depois do coronavírus, segundo Yuval Noah Harari

https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597364-como-sera-o-mundo-depois-do-coronavirus-segundo-yuval-noah-harari


[12] Por que é tão difícil combater a crença em fake news, segundo a psicologia social

https://www.blogs.unicamp.br/politicanacabeca/2019/07/22/por-que-e-tao-dificil-combater-a-crenca-em-fake-news/


Ilustração: professor André Bacchi, no curso “Introdução ao pensamento científico”

https://www.youtube.com/c/Andr%C3%A9Bacchi


domingo, 18 de setembro de 2022

Corações Sujos: um filme para pensar sobre negacionismo e pós-verdade

 


Entrou no catálogo da Netflix no mês passado (agosto) o filme Corações Sujos (2011), do diretor Vicente Amorim. A produção é baseada no livro-reportagem homônimo de Fernando Moraes, publicado em 2000, que conta o que sem dúvida é um impressionante caso de estudo para a psicologia social ocorrido no Brasil na década de 1940 do século passado. Logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, com a vitória dos países Aliados e a derrota do Eixo (formado principalmente por Alemanha, Itália e Japão), a organização extremista Shindo Renmei, formada no interior de São Paulo, onde a colônia japonesa era numerosa, se recusava a aceitar a derrota do Japão na guerra e atacava membros da própria comunidade que reconheciam que o país havia sido derrotado.

A produção conta com atores japoneses e brasileiros, dentre eles Eduardo Moscovis, e é falada em japonês e português, tendo sido exibida nos circuitos de cinema dos dois países. Contrariando algumas expectativas que se tinha com relação ao governo Getúlio Vargas, o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados, juntamente com países como Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e França, o que gerou uma situação de muita tensão perante três das maiores colônias de imigrantes no Brasil: a alemã, a italiana e a japonesa. Para se ter uma ideia, o maior partido nazista fora da Alemanha era o Partido Nazista do Brasil, que chegou a ter 2.900 filiados, tendo início em Santa Catarina entre imigrantes alemães, mas se espalhando por diversos estados brasileiros [1].

Os idiomas alemão, italiano e japonês chegaram a ser proibídos dentro do Brasil. Com isso, nenhum material falado ou escrito nessas línguas ou vindo desses países poderia circular pelo no país. Foi nessa época que, por exemplo, o Palestra Itália virou Palmeiras, e o colégio paulistano Deutsche Schule virou Porto Seguro. Isso gerou um problema maior particularmente para a colônia japonesa, já que boa parte dos imigrantes e mesmo seus descendentes não dominavam o português e se informavam por jornais escritos em japonês. A dificuldade com o idioma falado no Brasil fica explícita em diversos momentos do filme. Isso contribui para que muitos colonos não acreditem que o Japão acabara de ser derrotado.

Mas a negação da realidade não se dá somente por isso. Corações Sujos é um filme sobre fanatismo e como ele pode destruir vidas e provocar tragédias que poderiam ser evitadas. A organização Shindo Renmei, composta por colonos japoneses extremistas que não acreditavam na derrota japonesa ou mesmo se recusavam a aceitar aquela realidade, atuou nos dois anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial – 1946 e 1947 – atacando outros imigrantes e descendentes nipônicos que declaravam compreender a derrota de seu país de origem perante os Aliados. Esses imigrantes japoneses que reconheciam a derrota eram rotulados pelos membros da Shindo Renmei como traidores ou “kegareta kokoro” (“coração sujo”, traduzido para o português, daí o nome do filme e do livro), merecedores de punição. O saldo do confronto naqueles dois anos foi de dezenas de mortos, centenas de feridos, milhares de japoneses presos e 381 deles condenados, que foram anistiados 10 anos depois.


Negacionismo e pós-verdade (ou pós-fato)

Ainda que se passe na década de 1940 do século passado, em um contexto social distinto do atual, o filme trabalha alguns dos elementos que impulsionam a onda de negacionismo tão presente na chamada era da pós-verdade. Antes de falarmos sobre esses elementos contidos na trama, cabe abordar, introdutoriamente, o negacionismo e a pós-verdade. O negacionismo costuma ser entendido como “o ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história” [2] ou mesmo “a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável” [3].

Para ficarmos em exemplos relacionados à Segunda Guerra Mundial, podemos citar a negação do Holocausto como uma das principais manifestações negacionistas, a despeito de todo trabalho de historiadores de diversas partes do mundo que atestam a existência das câmaras de gás, campos de concentração e massacres de judeus; ou a ideia de que o nazismo foi uma doutrina política de esquerda, o que contraria discursos e escritos dos próprios nazistas, assim como os estudos de historiadores e cientistas políticos [4] [5].

Já o negacionismo científico pode ser compreendido por “seu caráter intencional e articulado para produzir e disseminar desinformação e dúvidas, por meio de estratégias organizadas com o objetivo de contrariar evidências e alegações consensualmente reconhecidas pela comunidade científica” [6]. A conceituação, escrita por Simone Kropf, é uma dentre os muitos verbetes contidos na obra Dicionário dos Negacionismos no Brasil, Organizada pelo professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj) José Szwako e pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Luiz Ratton.

Em 2016, o Oxford Dictionaries escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano, definindo-a como “circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal” [7]. O termo teria sido usado pela primeira vez em 1992, na revista The Nation, em artigo do escritor sérvio-norte-americano Steve Tesich, sobre um contexto nacional que envolvia escândalos como Watergate e Irã-Contras. Entretanto, o termo pós-verdade somente se popularizou a ponto de ser ecolhido como palavra do ano na década passada, impulsionado por fatores como as eleições de Donald Trump, nos EUA, e do Brexit, no Reino Unido, cujas campanhas se valeram de afirmações absurdas. O termo pós-verdade, no entanto, é controverso, e muitos especialistas na área de comunicação preferem utilizar o termo “pós-fato”. É o caso do professor da USP Carlos Eduardo Lins da Silva, que argumenta que pós-fato soa menos pretensioso e mais adequado à realidade da comunicação e do jornalismo, já que “verdade” é um conceito filosoficamente mais complexo [8].


O ímpeto japonês

A trama de Corações Sujos gira em torno do imigrante japonês Takahashi, um sujeito aparentemente normal, mas que ao ser manipulado pelo coronel Watanabe, do Exército Imperial Japonês, transforma-se em um assassino vingador, pronto para executar os “infiés” colonos japoneses que demonstraram compreender a derrota do Japão. A aparente normalidade de Takahashi não está na trama à toa. Ela serve para mostrar como qualquer indivíduo, quando manipulado e movido pelo fanatismo, é capaz de cometer barbaridades. Incumbido pelo coronel Watanabe da missão de executar os “corações sujos”, Takahashi, hesitoso, chega a questionar por que foi escolhido, já que é apenas um homem comum. Mas é justamente essa normalidade que é ressaltada pelo coronel: “você é o epítome de um homem japonês”, responde Watanabe. Sendo, portanto, um típico japonês, Takahashi seria o homem certo para a tarefa.

E qual era o perfil de um homem japonês naquela época? Além de construírem uma sociedade rigidamente hierárquica, os japoneses eram extremamente fiéis ao imperador, que era venerado como o próprio deus vivo. Além de cultuarem fortemente valores como honra e tradição, a fidelidade ao imperador se misturava à fidelidade ao próprio Japão. E todas essas características eram fundamentais como base da rigida hierarquia do estado totalitário e imperialista que era o Japão do imperador Hirohito. O país se juntou à Alemanha nazista e à Itália fascista visando ampliar seu poder diante de outros países asiáticos [9].

Soldados das mais diversas nacionalidades, em situações francamente adversas, costumam se render. Não era esse o caso dos japoneses da Segunda Guerra Mundial. Os soldados japoneses impressionaram os inimigos – principalmente os estadunidenses – por nunca se renderem, por lutarem até a morte. Os kamikazes – pilotos japoneses que lançavam suas aeronaves contra os alvos em ataques suicidas – foram o maior símbolo desse ímpeto guerreiro do Japão imperial. O oficial japonês Hiroo Onoda só se rendeu em 1974, quase 30 anos após o fim da guerra, quando finalmente foi convencido de que o Japão havia perdido. Durante todo esse período ele passou escondido nas matas das Filipinas [10].

Todo esse ímpeto japonês, que em alguns deles chegava ao fanatismo negacionista, era movido por elementos que até hoje podem ser vistos em muitos casos de negacionismo: nacionalismo, religião e uma visão distorcida e romantizada do próprio passado de seu povo, por exemplo. Esses elementos não são os únicos a mover as engrenagens do pós-fato, mas são alguns dos mais preponderantes e estão presentes na trama de Corações Sujos. Uns mais evidentes; outros menos.


Nacionalismo

O nacionalismo fica claro logo no início do filme, no modo como um grupo de japoneses reage ao tratamento desrespeitoso que um militar brasileiro dá à bandeira do Japão. A truculência do estado getulista não é poupada de crítica em Corações Sujos e isso fica bem caracterizado em algumas passagens do filme. O nacionalismo japonês é reforçado entre os colonos em textos de lavagem cerebral ditos uns aos outros ou lidos para si próprios:

Aqueles que negam o valor dessas coisas e aceitam as coisas como estão no momento desistiram de sua identidade japonesa e estão com os corações sujos. Em outras palavras, são traidores”, diz Takahashi para si mesmo, lendo um panfleto propagandista da Shindo Renmei.

Traçando um comparativo com os tempos atuais, movimentos nacionalistas pelo mundo com frequência possibilitam contextos sociopolíticos de crescimento de negacionismos dos mais diversos. O jornalista Soutik Biswas, correspondente da BBC na Índia, ressalta o quanto a pseudociência avançou da marginalidade para o mainstream naquele país durante a gestão do partido nacionalista hindu BJP, do primeiro-ministro Narendra Modi [11]. A reportagem da BBC dá exemplos de absurdos ditos até mesmo dentro da comunidade científica da Índia, como a afirmação de que antigos hindus inventaram a pesquisa com células-tronco há milhares de anos; ou que o rei demônio do Ramayana, épico religioso hindu, tinha 24 tipos de aeronaves e uma rede de pistas de pouso no território em que hoje fica o Sri Lanka.

Um cientista indiano afirmou ainda que Newton falhou em "entender as forças gravitacionais repulsivas" e que as teorias de Einstein eram "enganosas". Segundo ele, as ondas gravitacionais deveriam ser chamadas de "Ondas de Narendra Modi", uma referência ao primeiro-ministro do país. Modi, por sua vez, disse que a cirurgia estética era praticada na Índia há milhares de anos e usou como exemplo o deus hindu Ganesha - cuja cabeça de elefante está presa a um corpo humano – o que, segundo ele, mostra que a cirurgia estética existia na Índia na antiguidade. Perceptivelmente, esse nacionalismo exacerbado está entrelaçado com o pensamento religioso e a mistificação e romantização do passado.

O historiador Luiz Marques é um dos especialistas que destacam como o negacionismo de consensos científicos se prolifera em meio aos discursos nacionalistas, de esquerda ou direita, e diz: “O discurso negacionista nutre-se do medo e do compreensível desejo das pessoas de se apegar cegamente à identidade de tribo, à eliminação da dissonância, à autoridade moral do pater famílias, em suma, ao mundo do passado, aquele mundo em que o futuro era, malgrado alguns ‘tropeços’ da história, uma promessa” [12]. A identidade tribal, a eliminação (inclusive física) daqueles que ousam compreender a realidade e anunciá-la, a rigidez patriarcal, a mitificação do passado. Todos esses traços podem ser vistos em Corações Sujos no negacionismo de uma realidade imediata: a derrota japonesa.


Religião e passado mítico

Se o nacionalismo é exacerbado no filme, a religiosidade é tratada de uma forma mais sutil. Para quem não conhece nada sobre o xintoísmo, pode soar ainda mais estranho entender por que aqueles colonos japoneses eram tão devotos de sua nação, mas o pensamento religioso era um propulsor dessa devoção, já que o imperador Hirohito, pela religião xintoista, era visto como um deus, o que fica pouco ressaltado, exceto em um diálogo em que um colono que compreendia português e que já havia reconhecido a derrota japonesa (ou seja, um “coração sujo”) tenta dissuadir Takahashi do fanatismo, ao afirmar que o imperador não é um deus.

Àquela altura, com o fim da guerra, o imperador Hirohito já havia renunciado publicamente perante o povo japonês o seu status de divindade, por imposição dos vencedores do conflito: "Os laços que nos unem a vós, nossos súditos, não são o resultado da mitologia ou de lendas. Não se baseiam jamais no conceito de que o imperador é deus ou qualquer outra divindade viva", disse o monarca. [13].

Para muitos japoneses, aquela era a primeira vez que ouviam a voz de Hirohito no rádio. Nunca ter ouvido ou, em alguns casos, nem ter visto pessoalmente o imperador, era algo que só reforçava sua figura mítica e a fé em seu caráter divino. Os japoneses não perderam só a guerra, perderam também um deus. Tudo de uma só vez.

Sobre a mistificação do passado, cabe ressaltar que, de fato, o império japonês nunca havia perdido uma guerra contra outra nação, o que fazia a derrota na Segunda Guerra Mundial ainda mais difícil de ser aceita. Mas o passado glorioso do Japão nos campos de batalha, posto literalmente pelos ares pelas bombas atômicas, não incluia a família imperial como descendente de Amaterasu, deusa xintoísta do sol. Tratava-se de uma crença, um passado idílico que desmoronava. O Japão não era uma nação invencível sob a proteção divina, como a Shindo Renmei acreditava. Os fatos novos estavam postos e precisavam ser aceitos.


A pós-verdade, enfim, não é tão nova assim

Até mesmo fabricação de fake news – ou “desinformação”, como preferem muitos especialistas da área de comunicação – é possível encontrar em Corações Sujos. O responsável é o coronel Watanabe, que demonstra uma postura dúbia: em parte, lucra financeiramente com as mentiras que fabrica e propaga; em parte, também parece acreditar nelas. Esses traços comportamentais de Watanabe podem ser encontrados em diversos dos agentes que contribuem para o processo de desinformação pública – ou desinfodemia: há os que conscientemente fabricam a desinformação para lucrar; há os que ingenuamente acreditam nas mentiras e as disseminam; e há aqueles que parecem ser um pouco de ambos, sabendo que as mentiras são mentiras, mas ao mesmo tempo as vendo como um tipo de verdade, pois condizem com suas visões de mundo.

Por esse raciocínio torto, um livro de um suposto kit gay apresentado por um candidato à Presidência em uma entrevista de TV pode ser falso [14], mas se a falsidade denuncia o que considero algum tipo de deturpação moral nas escolas infantis, por que não repassar a mentira em nome de um “bem maior”?

Estou usando mentiras para lutar contra mentiras”, se defende o coronel Watanabe, ao ser questionado sobre a fabricação de desinformação. “A verdade está dentro de nós”, ele diz. Aqui, há a ideia de que nossos desejos, crenças e percepções valem mais do que os fatos a nossa frente, esfregados em nossa cara. Mas esse comportamento negacionista não funciona e cedo ou tarde cobra um preço. A verdade não está dentro de nós!

No fim das contas, Corações Sujos é um filme para nos alertar que a pós-verdade ou pós-fato não é um fenômeno totalmente novo e nos mostrar como operam alguns elementos psicológicos e sociopolíticos do negacionismo e desses novos tempos, como o nacionalismo, a religião, a mistificação do passado, a incapacidade de lidar com fatos novos e quebras de paradigmas etc.

Em seu livro chamado “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, Matthew D’ancona diferencia a pós-verdade de uma longa tradição de mentiras políticas, mostrando o peso das novas tecnologias e das midias sociais nesse processo de manipulação, polarizando e enraizando opiniões [5]. Ao falar sobre a pós-verdade, André Cabette Fábio também destaca o papel das novas mídias, ao dizer que “Plataformas como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de boatos e mentiras. Grande parte dos factóides são compartilhados por conhecidos nos quais os usuários têm confiança, o que aumenta a aparência de legitimidade das histórias. Os algoritmos utilizados pelo Facebook fazem com que usuários tendam a receber informações que corroboram seu ponto de vista, formando bolhas que isolam as narrativas às quais aderem de questionamentos à esquerda ou à direita”[15].

D’ancona pontua que o fenômeno da pós-verdade não é de todo novo: “Na maior parte da história humana, histórias tribais e mitologias compartilhadas fizeram mais para explicar o comportamento humano do que a avaliação fria da evidência verificável. Todas as sociedades possuem suas lendas fundadoras que as unem, moldam seus limites morais e habitam seus sonhos de futuro. Desde a Revolução Científica e o Iluminismo, porém, essas narrativas coletivas competiram com a racionalidade, o pluralismo e a prioridade da verdade como base para a organização social. O que é novo é a extensão pela qual, no novo cenário de digitalização e interconexão global, a emoção está recuperando sua primazia, e a verdade, batendo em retirada.” [5].

Corações Sujos nos faz refletir sobre como essas histórias tribais e mitológicas já circulavam e provocavam situações de negação da realidade antes da existência das mídias digitais que, aparentemente, deu a elas uma nova e potente propulsão.


Referências:

[1] Brasil teve maior partido nazista fora da Alemanha, apontam historiadores:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/02/08/historia-partido-nazista-no-brasil.htm


[2] Negacionismo

https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm


[3] Negacionismo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo#cite_note-1


[4] CAMPOS, Alexandre Freitas. “Nazismo de esquerda: análise de uma fake history a partir de vídeo da embaixada e consulado alemães. In 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2021, virtual. Disponível em: <https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt5-cd/alexandre-freitas-campos.pdf>


[5] CAMPOS, Alexandre Freitas; WANDERLEY, Sonia Maria de Almeida Ignatiuk. “Nazismo de esquerda” e fake history: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade. Revista Historiar, Vol. 14, Nº. 26, Jan./Jun de 2022. Disponível em: < https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428 >


[6] Dicionário dos Negacionismos no Brasil traz verbetes de pesquisadores da COC/Fiocruz

https://www.coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/2207-dicionario-dos-negacionismos-no-brasil-traz-verbetes-de-pesquisadores-da-coc-fiocruz.html


[7] D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. Barueri: Faro Editora, 2018.


[8] Pós-fato é o novo antagonista da veracidade no jornalismo

https://jornal.usp.br/radio-usp/colunistas/carlos-eduardo-lins-da-silva/pos-fato-e-o-novo-antagonista-da-veracidade-no-jornalismo/


[9] Guerra no Pacífico: de Pearl Harbor às bombas atômicas

https://anchor.fm/historia-fm/episodes/067-Guerra-no-Pacfico-de-Pearl-Harbor-s-bombas-atmicas-e15i50j


[10] Oficial japonês que demorou 30 anos para se render morre em Tóquio

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/01/oficial-japones-que-demorou-30-anos-para-se-render-morre-em-toquio.html


[11] 'Einstein e Newton estavam errados': estimulada por políticos nacionalistas, 'pseudociência' avança na Índia

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46780542?fbclid=IwAR2Yu73sfd1n6bYJW7szoWWCPN04q2qoe0GVW1kyGJO2-RihI_-N5JdruQQ


[12] Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/01/negacao-da-ciencia-ganha-forca-em-nacionalismo-que-une-esquerda-e-direita.shtml


[13] A época em que o imperador japonês era mais venerado no Brasil do que no Japão

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50104588


[14] Bolsonaro mentiu ao falar de livro de educação sexual no ‘Jornal Nacional’

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/29/politica/1535564207_054097.html


[15] O que é ‘pós-verdade’, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

The Boys, democracia e regulação: os riscos da concentração de poderes

 

Em 2019 estreou na Amazon Prime a série The Boys, inspirada na saga homônima vinda das revistas em quadrinhos. Misturando humor, aventura, deboche, violência e momentos escatológicos, a série, dirigida por Eric Kripke, vem ganhando fãs a cada ano e está em fase de elaboração de sua quarta temporada. Nas três temporadas disponíveis, bem-sucedidas com público e crítica, The Boys já nos presenteou com muitos momentos desconcertantes que compõem uma caracterização bastante atípica dos super-heróis, se comparados àqueles que conhecemos dos universos Marvel e DC, por exemplo. Momentos esses que incluem um super-herói capaz de encolher de tamanho, entrar no ânus de uma pessoa e aumentar de tamanho dentro dela, explodindo-a de dentro para fora, ou o famigerado “herogasmic”, uma grande orgia entre os super-heróis.

Os realizadores da série vêm cumprindo bem o grande desafio estético de transpor para o audiovisual momentos bizarros como esses, superpoderes e cenas de ação extraídas de The Boys das histórias em quadrinhos, o que não é tarefa fácil. Criada por Garth Ennis e Darick Robertson e publicada entre 2006 e 2012, a saga de HQs é, para alguns fãs, ainda mais sombria e debochada que a sua versão nas telas. The Boys foi originalmente publicado pelo selo Wildstorm, da DC Comics, que entretanto ficou receosa com o conteúdo e cancelou a série [1]. Quem deu continuidade às publicações foi a Dynamite Entertainment.

Billy Bruto nos quadrinhos é bem mais intimidador que sua versão streaming (interpretada por Karl Urban), a ponto de disputar com o Capitão Pátria o posto de principal vilão da história em algumas circunstâncias. Já o Trem-Bala (Jessie T. Usher), na última temporada parece querer se redimir, repensando sua postura e até pedindo desculpas a Hughie (Jack Quaid). Nos quadrinhos, o personagem não chega nem perto de aprender com os erros ou se arrepender [2].

Mas as supostas amenizações da adaptação ao streaming – e parece difícil acreditar que a versão HQ é ainda mais pesada – não impedem que The Boys seja uma das melhores críticas ao capitalismo feitas atualmentes em forma de produção audiovisual. Sim, pois toda a absurdice e escatologia não tiram o senso crítico da série. São tantas as críticas à sociedade contemporânea que é difícil saber por onde começar. The Boys dispara contra o hiperconsumismo, a espetacularização midiática, as indústrias farmacêuticas e bélicas, o avanço da alt-right trumpista nos EUA etc.


Concentração de poderes x democracia

Mas há uma ideia central fundamental: parafraseando a clássica fala do Tio Ben (do Homem-Aranha), que disse que "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", em The Boys fica claro que “Com grandes poderes, vem a absoluta certeza de que você se tornará um grande babaca.” A frase inclusive é dita literalmente por Billy Bruto em um dos episódios da última temporada. E nem precisava ser dita, porque naquela altura da trama, essa ideia central já estava muito clara.

Isso porque, no universo ficcional de The Boys, os poderes sobre-humanos dos super-heróis os levam a se comportarem como donos do mundo. Eles só querem saber mesmo é de seus próprios interesses e, somente nos palanques ou perante às câmeras de TVs e celulares, fingem se importar com o bem comum. Essa é a principal diferença entre os super-heróis de The Boys e aqueles com os quais nos acostumamos nos universos Marvel e DC Comics. A série é perfeita ao mostrar como o excesso de poder mexe com a cabeça das pessoas. Os super-heróis posam de defensores da sociedade perante a mídia, mas agem como vilões quando ninguém está olhando. Aqueles que se propõem a enfrentá-los também ficam seduzidos pelo gosto do poder quando o experimentam.

Na vida real não há os mesmos poderes sobre-humanos, mas há outros, como o poder aquisitivo por exemplo. E, numa sociedade capitalista, com o poder aquisitivo vêm outros poderes, como o poder político e o poder da informação e difusão das ideias. Por isso, quando a gente vê pessoas acreditando que a "boa vontade" de bilionários como Elon Musk vai garantir liberdade de expressão para a sociedade como um todo e de forma democrática, temos a certeza de quem aplaudiria o Capitão-Pátria se vivesse no universo ficcional de The Boys.

Pois foi em nome da liberdade de expressão e com o argumento de sua garantia que o bilionário sul-africano anunciou que compraria a rede social Twitter. Houve gente comemorando. Em seguida, Musk recuou, alegando que a empresa não estaria sendo transparente na prestação de informações sobre a plataforma, mais especificamente sobre o número de perfis fake. A briga entre Musk e o Twitter foi parar na justiça, com acusações mútuas [3],


Regulação

No meio de tudo isso, existe a discussão sobre a necessidade de mecanismos de regulação para restringir os excessos de poder - das mídias, das grandes fortunas, das armas, do Estado – de tudo o que possa pôr em risco a democracia. Porque grandes poderes concentrados nas mãos de poucos são sempre perigosos. Sejam esses poucos os bilionários ou as big techs (ou a mistura entre ambos). Sobre as concentrações de grandes fortunas, o economista Eduardo Moreira Real diz:

A partir de um certo valor, todo o dinheiro que a pessoa ganha não é mais para comprar carro ou avião. Ele é só poder. Portanto, o dinheiro que vem na última camada, a dos super-ricos, é só concentração de poder. E uma sociedade tem que tomar muito cuidado com para quem ela vai dar todo o poder concentrado, pois esse cara que vai ter todo esse poder concentrado não é alguém que foi eleito, votado, escolhido. Esse cara não pode comandar uma sociedade sem ter legitimidade para isso [4].

Se Eduardo Moreira chama a atenção para os riscos que bilionários implicam para a democracia, ao mesmo tempo em que critica o modo de tributação no Brasil – o que invariavelmente nos leva à discussão sobre a tributação de grandes fortunas – quando o assunto é tecnologia, o que não falta são especialistas apontando para os perigos dos usos e abusos dos dados de usuários pelas diversas plataformas e como elas podem interferir em processos eleitorais e, consequentemente, em legislações, moldando o estado e a sociedade conforme seus próprios interesses.

Um desses especialistas é o cientista da computação Silvio Romero de Lemos Meira, um dos responsáveis pela criação do Porto Digital, um dos principais polos de tecnologia do país e que abriga em torno de 350 empresas de base tecnológica em Pernambuco. Ele fala sobre a necessidade de regulação e os riscos de se encarar a tecnologia com muito entusiasmo:

É preciso abordar criticamente o desenvolvimento tecnológico, com todas as suas dimensões filosóficas e regulatórias. Deveríamos permitir qualquer propaganda no Facebook, inclusive as que incentivam, às vezes de maneira subliminar, comportamentos nazifascistas? Ou permitir mentiras explícitas em propagandas políticas? Deveríamos responsabilizar o intermediário? A tese que levou à explosão das mídias sociais é a seguinte: os intermediários, como o Facebook, não têm responsabilidade. É como se a mídia social fosse apenas um fio telefônico que transmite informações. Mas o Facebook não é apenas um transmissor, ele é praticamente uma estação de informação global e faz intervenção editorial. Deveria ser regulado [5].

Depois dos efeitos negativos da desinformação em redes sociais nos processos eleitorais na década de 2010 e da onda de negacionismo científico e mentiras que prejudicaram a saúde pública durante a pandemia de covid-19, representantes do poder público e da sociedade civil em diversos países vêm aprimorando mecanismos de regulação e cobrando maior proatividade por parte das empresas de tecnologia para lidar com os problemas [6].

Aqui não se trata de traçar um comparativo do ponto de vista moral entre Elon Musk e Capitão-Pátria (aliás, magistralmente interpretado por Antony Starr), mas sim chamar a atenção para a necessidade de mecanismos regulatórios que protejam a democracia contra eventuais riscos por conta das concentrações de poder em diversas instâncias da esfera pública, da vida social. Democracias sólidas não devem (ou ao menos não deveriam) ficar à mercê de supostas boas intenções de seus poderosos, mas sim aprimorar e amadurecer formas de regulação. Até porque, assim como os super-heróis em The Boys, todos posam de bonzinhos perante a mídia, que geralmente tem papel central como caixa de ressonância do poder, maquiando os poderosos, dando-lhes aquele verniz moral, para que pareçam belos e nobres aos olhos da opinião pública.


Cinema e HQs para pensar a sociedade

The Boys, de forma debochada e sanguinolenta, segue mostrando os riscos da concentração de poder. Mas vale lembrar que o assunto não é novidade nas histórias em quadrinhos e suas adaptações ao audiovisual. O universo cinematográfico da Marvel chegou a fazer essa crítica sobre o excesso de poder e a necessidade de mecanismos regulatórios ao adaptar para as telas a saga Guerra Civil, ainda que não de forma tão contundente como faz The Boys.

Em Guerra Civil, por conta dos danos provocados pelos combates, a organização das Nações Unidas decide estabelecer lei para regulamentar as ações dos heróis. O Homem de Ferro se posiciona a favor, mas o Capitão América se coloca contra. Outros heróis se juntam a ambos provocando um racha entre os Vingadores. Mais do que um conflito entre super-heróis, Guerra Civil promove um debate sobre segurança x liberdade, valores importantes para a vida em sociedade.

Para quem se interessar, a proposta de Guerra Civil é muito bem discutida no livro "Os Dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis", de Bruno Andreotti, Adriano Marangoni, Iberê Moreno e Mauricio Zanolini [7].


Referências:

[1] The Boys: As maiores diferenças da HQ para a série da Amazon:

https://br.ign.com/the-boys-26/85104/feature/the-boys-as-maiores-diferencas-da-hq-para-a-serie-da-amazon

[2] The Boys: Diferenças e semelhanças entre a terceira temporada e as Hqs:

https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/the-boys-diferencas-e-semelhancas-entre-a-terceira-temporada-e-as-hqs/

[3] Entenda por que o Twitter está processando Elon Musk; batalha judicial começa nesta terça-feira

https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2022/07/19/entenda-por-que-o-twitter-esta-processando-elon-musk-batalha-judicial-comeca-nesta-terca-feira.ghtml

[4] Os bancos são covardes por Eduardo Moreira:

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=-R8u-5PdEI4&fbclid=IwAR3vJiVkN7RXUzJpkguhDD6LvYGKJaDaBwm2NN685bCJMBG78waw2Rv87iY

[5] Silvio Meira: Um realista esperançoso:

https://revistapesquisa.fapesp.br/silvio-meira-um-realista-esperancoso/

[6] DAMASCENO, Natanael. Desinformação em Rede. MIT Technology Review. Ano 02, nº 87, abr/jun, 2022.

[7] Os dois Lados da Guerra Civil - Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-heróis

http://editoracriativo.com.br/produtos/exibir/147/os-dois-lados-da-guerra-civil-analise-historica-e-filosofica-do-maior-conflito-entre-super-herois#.YxJiNHbMLIU