domingo, 3 de agosto de 2025

De Toffoli a Barroso: os presidentes do STF frente à História da ditadura


 

Fala dos ministros na sessão de abertura contrasta com a de Toffoli em 2018, quando chamou o golpe de 64 de “movimento”

 

Vamos pasquinar, recordar

Sorrir sem censura

Botar a boca no mundo, buscar bem fundo

Sem a tal da ditadura

 

Soltavam as bruxas, o pau comia

De golpe em golpe, quanta covardia!

(G.R.E.S. Acadêmicos de Santa Cruz - Samba-Enredo 1990 - Os Heróis da Resistência)

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu na sexta-feira, 1º de agosto, seus trabalhos do segundo semestre de 2025 com uma sessão cheia de fortes declarações no Plenário. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, e os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes adotaram um tom de defesa da democracia, da soberania nacional e da independência da Suprema Corte, mas também de combatividade aos golpistas e repúdio aos autoritarismos [1]. Coube a Barroso dar uma boa e breve aula de história em seu discurso, na abertura da sessão. O presidente do STF citou os tantos golpes, intervenções militares, rupturas ou tentativas de ruptura institucional e ditaduras que fragilizam de longuíssima data a democracia do país. Ele se referiu à tomada do poder pelos militares em 1964 como “golpe” e ao período de 1964 a 1985 como “ditadura” e “anos de chumbo”, lembrando feridas como tortura, exílio, censura, mortes e desaparecimentos. Barroso se referiu ao caso de Rubens Paiva, ao citar o premiado filme “Ainda estou aqui” como um retrato daquela época.

 

Para muitos pode parecer óbvio o uso do termo “ditadura” na denominação daquele período, mas é preciso ressaltar dois pontos. O primeiro é que, lamentavelmente, ainda há muitas pessoas, em sua maioria simpatizantes dos atuais golpistas, que negam ter existido uma ditadura no Brasil (há ainda uma vertente numerosa que não a nega, mas a justifica com argumentos infundados e já desmontados). Um exemplo notório é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. No início do mês de junho, em entrevista para a Folha de S. Paulo, Zema disse que a existência ou não de uma ditadura seria “uma questão de interpretação” [2]. Como Zema é um dos principais políticos atuais a disputar o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro, ele precisa abraçar o negacionismo histórico da ditadura como parte do repertório que pode legitimá-lo junto ao bolsonarismo na corrida presidencial. O alinhamento político é elemento crucial da negação da ditadura civil-militar. Outro elemento é o desconhecimento da História.

 

O segundo ponto pelo qual devemos enaltecer a fala de Barroso é que outro ministro do STF, Dias Toffoli, quando presidente da Corte, disse preferir se referir ao nosso passado ditatorial como um “movimento”, evitando a palavra “golpe” [3]. “Eu não me refiro nem mais a golpe, nem a revolução de 1964. Eu me refiro a movimento de 1964”, afirmou, em palestra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em 2018, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil. Por uma triste ironia, aquele evento marcava os 30 anos da Constituição Federal.  

 

TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS

A fala de Toffoli ressoava uma linha de raciocínio superada na historiografia latino-americana conhecida como “teoria dos dois demônios”. Esse pensamento atribuía às esquerdas e às direitas as mesmas responsabilidades. Então seriam dois demônios que a sociedade deveria exorcizar. Essa ideia traz consigo uma relativização ou mesmo isenção dos culpados pelas ditaduras, além de tentar estabelecer um meio termo. Mas História não é matemática (ainda que exista a história da matemática): não dá para somar dois valores e depois dividir por dois para se chegar a uma média. Ao menos não neste caso.

 

Quem critica a teoria dos dois demônios é o historiador Daniel Aarão Reis. Para ele, “parece utópico igualar camponeses que lutam pela terra a latifundiários. É impróprio igualar aqueles que lutam por justiça social com os que querem eternizar a injustiça social” [4]. Ao se referir à conjuntura de antes de 1964, Aarão Reis cita como exemplo marinheiros que lutavam pelo direito ao voto e oligarquias que não queriam democratizar o voto. “Havia um movimento muito grande no Brasil antes de 64 por justiça social e democracia, e comparar isso aos que recusavam a democracia me parece um procedimento vesgo.

 

Outro historiador, Rodrigo Bonciani, nos propôs a lembrança de um episódio que serve como metáfora para desconstruir a teoria dos dois demônios, ao ressaltar que Toffoli não mencionou, por exemplo, que em 1968, na rua Maria Antônia (São Paulo), houve um conflito entre os alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, contrários à ditadura, e os do Mackenzie, que a defendiam e que disparavam com armas de fogo contra uspianos armados de pedras e paus. Uma bala matou um estudante secundarista que tinha se unido aos uspianos. O episódio inclusive é retratado no filme “A batalha da rua Maria Antônia”, lançado neste ano [5], que tem o mérito de adotar uma linguagem audiovisual ousada, filmado todo em planos-sequência.

 

Para piorar, Toffoli, além de maquiar a memória da ditadura com o uso da palavra “movimento”, tentou respaldar sua fala afirmando se basear no próprio Daniel Aarão Reis. O historiador tratou de deixar claro que não tinha nada a ver com isso, que essa culpa ele não carregava, e criticou publicamente a fala de Toffoli. “Foi muito infeliz da parte dele dizer que abandona a terminologia ditadura, que expressa perfeitamente o estado de exceção que se passou no país, para assumir um outro conceito”, afirmou Aarão Reis na época, destacando o agravante de isso vir justamente do então presidente do STF. 

 

AMACIAR A EXTREMA DIREITA É COMO ALIMENTAR CROCODILOS

Na ocasião, o historiador classificou o discurso de Toffoli como um “aceno conciliador” para um extremismo autoritário que crescia à direita e tomava o país como uma onda. Aarão Reis apontava essa tentativa de “amaciar” os extremistas como um equívoco. “A extrema direita, historicamente, avança sobre concessões inconsistentes e se fortalece com isto" [6]. Essa afirmação nos faz lembrar de uma das mais importantes personalidades políticas do século 20, que dizia algo parecido. Longe de ser algum tipo de esquerdista, pelo contrário, era um conservador: Winston Churchill.

 

Primeiro-ministro britânico na ocasião da Segunda Guerra Mundial, Churchill dizia que “um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado”. Tratava-se de uma crítica a Neville Chamberlain, seu antecessor no cargo. Às vésperas do início da guerra, diante da ascensão do nazismo, Chamberlain apostava na negociação com Hitler, na esperança de que isso pudesse apaziguar a sanha nazista. Ao comentar o que chamava de “ingenuidade das democracias liberais”, a filósofa Agnes Heller, autora da obra “O cotidiano e a história”, citava o caso: “Chamberlain veio para Munique, em 1938, com um pedaço de papel no qual pedia que Hitler renunciasse ao uso da força. Foi entregue e assinado. E Chamberlain vendeu como uma vitória” [7]. Um dos maiores enganos da história. No ano seguinte a guerra se iniciaria.

 

Na ocasião da fala de Toffoli, em 2018, Aarão Reis já nos alertava para o que chamava de indulgência dos democratas de direita e liberais conservadores em relação ao então crescente fenômeno do bolsonarismo. Naquele ano, diante da fala do então presidente da Corte e da possibilidade de vitória de Bolsonaro, ele já recorria à História para nos dar o alerta:

 

Às vésperas de 1964, muitos liberais imaginaram usar ou se servir dos militares para alcançar suas finalidades, afastando líderes populares que os assustavam. Os resultados foram desastrosos para esta gente —todos foram eliminados pelos militares ou tiveram que se conformar com posições secundárias de poder.

 

Sobre malogrados acenos conciliadores e apaziguadores feitos por liberais/conservadores à extrema direita, há exemplos concretos muito mais específicos em relação à Justiça e à democracia brasileiras do que o de Neville Chamberlain. O historiador lembrara que na ocasião do golpe de 1964, o presidente do STF de então, Ribeiro da Costa, disfarçou o golpe com um ar de legitimidade, sem nem consultar seus colegas, que também se calaram. Havia uma expectativa de boa relação com os golpistas. Mas o próprio Ribeiro da Costa entraria em repetidos conflitos com a ditadura, quando já era tarde. Churchill diria que ele alimentou um crocodilo.

 

MUITA ÁGUA ROLOU. E A ÁGUA BATEU NO NARIZ DO STF

De Toffoli, em 2018, a Barroso, na sessão de abertura deste segundo semestre, muita água rolou. Bolsonaro assumiu a presidência e o bolsonarismo se impregnou na máquina pública. Seus líderes e seus adeptos testaram os limites da democracia e das instituições reiteradas vezes. Foram incontáveis faixas e cartazes pedindo fechamento do Congresso e do STF, além de intervenção militar (ou seja, golpe!). Na medida em que, em nome da governabilidade, Bolsonaro fez acordos com o chamado “Centrão”, a artilharia bolsonarista foi se voltando cada vez mais contra o Supremo, em especial contra o ministro Alexandre de Moraes. A distinção e independência entre poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – não são bem-vistas pelos autoritarismos. Eles não gostam muito de Montesquieu. Para fechar o STF bastaria um soldado e um cabo, disse Eduardo Bolsonaro, como quem faz uma sugestão.

 

Por tudo isso, a fala de abertura de Luís Roberto Barroso na última sessão reflete um STF mais ciente dos riscos e que sentiu o perigo dos ataques que vem sofrendo. É uma fala que dá nome aos bois. Que chama ditadura de ditadura e os golpes de golpes. Focando em nosso período republicano, sobre golpes e tentativas de golpes, o presidente da Corte citou o primeiro presidente da República, Deodoro da Fonseca, que renunciou após tentativa fracassada de golpe, sendo substituído pelo vice, Floriano Peixoto, que se manteve ilegitimamente no cargo até 1894, deixando de convocar eleições.

 

Citou também tentativas de golpe do movimento Tenentista em 1922 e 1924; a Revolução de 30; a Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932; a Intentona Comunista de 1935; o golpe do Estado Novo de 1937; a destituição de Getúlio Vargas em 1945; o contragolpe preventivo do Marechal Lott para assegurar a posse de Juscelino Kubitschek em 1955; duas rebeliões contra Juscelino: a de Jacareacanga (1956) e a de Aragarças (1959).

 

E ainda: o veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart na ocasião da renúncia de Jânio Quadros em 1961; o já citado golpe militar de 1964; a prorrogação do mandato de Castelo Branco com a não realização das eleições de 1965; o Ato Institucional nº 5 de 1968; o impedimento à posse do vice-presidente Pedro Aleixo em 1969; a outorga pelos ministros militares da emenda constitucional nº 1 à Constituição de 1967, com o Congresso fechado; os anos de chumbo do governo Médici, período mais cruel e asfixiante da ditadura; e o fechamento do Congresso Nacional por Geisel, no Pacote de Abril de 1977.

 

“Do início da República até a Constituição de 1988, o sistema de justiça não conseguiu se opor de forma eficaz às ameaças autoritárias e às quebras da legalidade constitucional”, disse Barroso, que resumiu o que chamou de “três facetas da história constitucional e republicana brasileira: presidentes autoritários, militares envolvidos em política e ameaças ao Supremo Tribunal Federal.

 

Sobre a longa tradição de participação dos militares na política e nos golpes, vale acrescentar, em primeiro lugar, que esta é a primeira vez que militares serão julgados pela Justiça civil – no STF – pela tentativa de golpe de estado no país, o que faz do julgamento em curso (que envolve o 8 de janeiro) um episódio importante de nossa história; e, em segundo, que está disponível no mercado editorial o mais recente livro do professor e historiador Carlos Fico chamado “Utopia autoritária brasileira”. Na obra, Fico mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889 e examina as principais intervenções militares que moldaram a história republicana brasileira [8] [9]. A maioria delas citada por Barroso.

 

A HISTÓRIA NÃO PERDOA

A História não é uma disciplina utilitarista, mas ainda assim ela tem suas utilidades. Na esfera individual, serve, por exemplo, na formação para a cidadania; na institucional, serve, dentre outras coisas, para que as instituições se posicionem diante de certas ameaças, como no caso do STF frente aos avanços antidemocráticos. Nas duas esferas – individual e institucional – a História nos ajuda a nos conduzir. Assim que Toffoli chamou um golpe de “movimento”, lá em 2018, o historiador e professor Rodrigo Bonciani quase que vaticinou: “a história não perdoa” [10].

 

O passado falseado permite a repetição da história como nova tragédia. Quando esse falseamento parte do presidente da mais alta corte do país, numa palestra sobre os 30 anos da Constituição, todo edifício da nossa frágil democracia pode desmoronar”, dizia Bonciani. E não deu outra! Ou quase. Os extremistas, de fato, miraram e ainda miram no STF, mas a Corte, considerando os discursos desta sessão de abertura, parece disposta a agir com firmeza e punir os golpistas, em vez de ficar alimentando crocodilos. A sociedade aguarda atenta. 

 

Referências:

[1] Na abertura do semestre, ministros reafirmam independência do STF e defesa da democracia e da soberania nacional

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/na-abertura-do-semestre-ministros-reafirmam-a-independencia-do-stf-e-a-defesa-da-democracia-e-da-soberania-nacional/

 

[2] Fala de Zema questionando ditadura gera reação na Assembleia e pressão por política de memória

https://www.otempo.com.br/politica/2025/6/5/fala-de-zema-questionando-ditadura-gera-reacao-na-assembleia-e-pressao-por-politica-de-memoria

  

[3] Toffoli diz que militares fizeram “movimento”, e não golpe em 1964

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/toffoli-diz-que-militares-fizeram-movimento-e-nao-golpe-em-1964

 

[4] Historiador citado por Toffoli rejeita chamar ditadura de ‘movimento’

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/historiador-citado-por-toffoli-diz-que-e-errado-chamar-ditadura-de-movimento-de-64/

 

[5] “O Brasil ainda é a Rua Maria Antônia”. A histórica batalha entre estudantes da USP e do Mackenzie é retratada nos cinemas e tema da última edição do programa Cultura na USP

https://jornal.usp.br/cadernodecultura/o-brasil-ainda-e-a-rua-maria-antonia-a-historica-batalha-entre-estudantes-da-usp-e-do-mackenzie-e-retratada-nos-cinemas-e-tema-da-ultima-edicao-do-programa-cultura-na-usp/

 

[6] “Toffoli imagina amaciar a extrema direita com acenos conciliadores”, diz historiador citado por ministro

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538497133_463693.html

 

[7] Agnes Heller: “A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

 

[8] Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889

https://www.cafehistoria.com.br/novo-livro-militares-carlos-fico/

 

[9] PROVOCAÇÃO HISTÓRICA - 04/06/25 - ''OS MILITARES DO BRASIL E A UTOPIA AUTORITÁRIA''

https://www.youtube.com/watch?v=eqgiEF2a7kU&t=2672s

 

[10] O ‘movimento’ de Dias Toffoli: a história não perdoa

https://www.nexojornal.com.br/o-movimento-de-dias-toffoli-a-historia-nao-perdoa

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Uerj revoga título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Médici

 


A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) decidiu, na última sexta-feira, dia 9, revogar o título de Doutor Honoris Causa concedido em 1974 pela instituição ao general Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil entre 1969 e 1974, durante a ditadura militar. A decisão se deu por unanimidade, em sessão do Conselho Universitário (Consun) [1]. O parecer que embasou a decisão foi elaborado pela Comissão da Verdade e Memória Luiz Paulo da Cruz Nunes, da Uerj, instituída pela universidade em 2024 para averiguar os fatos ocorridos na instituição durante o período ditatorial (1964-1985). 

 

De acordo com o parecer [2], Médici não atendia aos critérios estabelecidos no regimento para outorga da honraria: “personalidade eminente, nacional ou estrangeira, que tenha se destacado singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à humanidade”.

 

Alinhado às forças reacionárias de extrema-direita responsáveis pelo golpe de 1964, Médici cumpriu papeis de protagonismo no regime militar ditatorial. Ele foi comandante da Academia Militar de Agulhas Negras na época do golpe de 1964 e um de seus principais conspiradores. Serviu dois anos como adido militar na Embaixada do Brasil em Washington, quando estreitou laços militares e políticos com os EUA, país que contribuiu com o golpe no Brasil contra João Goulart e as forças trabalhistas. De volta ao Brasil, em 1967, Médici assumiu a chefia do Serviço Nacional de Informações (SNI).

 

Antes mesmo de assumir a presidência do país, Médici colaborou para a edição, em 1968, do AI-5, ato institucional que representou o endurecimento de um regime que aplicava práticas de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas críticas ao golpe. Na presidência, Médici atuou como ditador, com ameaças aos opositores e silenciamento contínuo. Seu mandato pôs em prática as arbitrariedades previstas no AI-5, “com o objetivo de sufocar toda e qualquer oposição à ditadura, liquidar a resistência das organizações revolucionárias e impor a aceitação do regime”, conforme explica o parecer da Comissão da Verdade da Uerj. “Suas armas foram a violência, a tortura, os assassinatos de presos políticos, a censura e a propaganda”, diz o documento.

 

O golpe perpetrado pela direita brasileira usurpou a República e roubou, naquele momento, o sonho de um Brasil independente, democrático e popular. O governo Médici representou os anos mais duros daquele regime ditatorial. Enquanto o general esteve no comando, 98 pessoas foram assassinadas por motivação política, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, entregue à presidente Dilma Rousseff.

 

As universidades brasileiras, entre elas a Uerj, também foram alvo da repressão. Havia também um certo “colaboracionismo” das autoridades universitárias com o regime ditatorial e a concessão do título poderia trazer maiores benefícios para a instituição. É o que explica o relator da proposta de revogação, o conselheiro André Furtado. A concessão do título de Doutor Honoris Causa a Médici foi feita quando ele ainda era presidente.

 

Em um momento em que no Brasil há um inédito processo em curso para punir a tentativa de golpe feita pela extrema direita, incluindo a participação de militares, o ato da Uerj é mais um exemplo de como a pesquisa histórica dialoga com o presente. Ele é um recado sobre a importância da valorização e do fortalecimento das instituições democráticas. Nesse ponto, a fala da reitora da Uerj, Gulnar Azevedo e Silva, que comemorou a decisão, é significativa: “Fico muito feliz. Estamos cumprindo nosso papel de reparação, num momento em que o mundo precisa entender que a defesa incondicional da democracia deve estar presente em todos os espaços” [3], afirmou em seu pronunciamento na sessão do Consun.

 

Com a decisão, a Uerj se junta a outras universidades que nesta década já revogaram títulos a presidentes ditadores, como a UFRGS, a UFRN, a Ufes, a UFPel etc. No caso desta última, a decisão de revogação foi tomada alinhada a recomendações da Comissão Nacional da Verdade e do Ministério Público Federal (MPF).

 

As revogações de títulos a ditadores contam com o apoio de grande parte da comunidade acadêmica e da sociedade em geral. Mas, em uma sociedade muito polarizada, é claro que tem quem discorde: aqueles que se alinham aos setores reacionários e golpistas, saudosistas da ditadura, reagem mal às revogações. Em abril do ano passado, por exemplo, quando a Universidade Federal do Paraná (UFPR) revogou os títulos de três presidentes da República militares (Castelo Branco, Costa e Silva e Ernesto Geisel), um dos críticos foi o deputado federal Hélio Lopes, do Rio de Janeiro, que escreveu em suas redes: “É impressionante como o brasileiro tem a mania de reescrever a própria história, concordam?”

 

Talvez Hélio Lopes não saiba, mas a reescrita da história faz parte da historiografia, no Brasil e no mundo. A ciência, em geral, muda seus postulados na medida em que fatos e indícios novos contrariam fatos e indícios anteriores. Portanto, a ciência não é estanque, não é estática. Logo, a história, enquanto ciência que lida com as transformações do homem no tempo, também não é.

 

Os títulos revogados foram concedidos em um período de forte repressão. No caso da UFPR, o de Castelo Branco foi entregue em 1964; o de Costa e Silva, em 1968; e o de Geisel foi concedido em 1976 e entregue em 1981. Pensemos no tanto de mudanças sociais que ocorreram no Brasil de lá para cá. Mais especificamente, pensemos no tanto de material de pesquisa, que constitui novos fatos e provas que foram se acumulando por todos esses anos. Estamos falando, por exemplo, da abertura de arquivos a partir da redemocratização; do tanto de relatos orais de vítimas da ditadura que foram registrados; de ciência forense aplicada em ossadas e desovas clandestinas que foram encontradas (como no cemitério de Perus, em São Paulo)  [4]; do uso da arqueologia histórica em locais que foram centros de tortura, como o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Belo Horizonte e o Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo [5].

 

Tudo isso é material de pesquisa histórica e, na medida em que surge e é analisado, justifica as tais reescritas da história, sobre a ditadura e sobre outros demais fenômenos do passado. O que não se justifica é defender sempre as mesmas coisas mesmo diante de fatos e indícios contrários que se acumulam com os anos.

 

Nesse ponto, cabe ressaltar um trecho do parecer da Uerj pela revogação que é muito significativo: “Durante muito tempo, alguns fatos ficaram desconhecidos, até que se conseguiu revelar os terrores dos tempos ditatoriais.” É exatamente isso! A história muda. A ciência muda. Mas os dogmáticos não mudam nunca.

 

Como foi escrito em um muro do cemitério de Perus: “Os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos”.

 

Referências:

[1] 09/05/2025 - 4ª Sessão Ordinária do CONSUN:

https://www.youtube.com/watch?v=Nu9y_755BAg

 

[2] Parecer da Comissão da Verdade da Uerj:

https://www.uerj.br/wp-content/uploads/2025/05/PARECER-Comissao_da_Verdade_e_Memoria__CVM_UERJ_cancelamento_do_titulo_Medici_2.pdf

 

[3] Conselho Universitário da Uerj revoga título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Emílio Médici:

https://www.uerj.br/noticia/conselho-universitario-da-uerj-revoga-titulo-de-doutor-honoris-causa-do-ex-presidente-emilio-medici/

 

[4]

Ciência forense ajuda a identificar mortos da ditadura militar brasileira:

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/03/ciencia-forense-ajuda-identificar-mortos-da-ditadura-militar-brasileira.html

 

Uma luta contra o desaparecimento

https://revistapesquisa.fapesp.br/uma-luta-contra-o-desaparecimento/

 

[5] Arqueologia histórica investiga da colonização à ditadura

https://revistapesquisa.fapesp.br/arqueologia-historica-investiga-da-colonizacao-a-ditadura/

 


domingo, 13 de abril de 2025

O roqueiro reaça ataca novamente: as polêmicas envolvendo a banda Ira!

 


Apesar da postura e posicionamento de algumas bandas, não se pode negar o caráter reacionário de boa parte dos fãs de rock

 

Na última semana uma produtora teve um post viralizado no qual comunicava o cancelamento de quatro shows da banda Ira! no Sul do Brasil. Era mais um episódio da polêmica recente envolvendo o grupo que surgiu nos anos de 1980 e faz parte de uma geração que marcou a história do rock nacional, junto com Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Capital Inicial, Barão Vermelho e tantas outras bandas.

 

Quem acompanha a trajetória do Ira! sabe que a banda tem um histórico de polêmicas e de posicionamentos firmes, em relação à política e à indústria musical. De acordo com os jornalistas e pesquisadores musicais Arthur Dapieve e Luiz Henrique Romanholli (2000), dentre os artistas do rock 80, o Ira!, juntamente com a Legião Urbana, foi a banda a segurar com mais firmeza a bandeira da ética.

 

Os shows foram cancelados nas cidades de Jaraguá do Sul (SC), Blumenau (SC), Caxias do Sul (RS) e Pelotas (RS). Os cancelamentos, segundo a produtora, foram resultados do abandono de patrocinadores e devolução de ingressos. Tudo porque em um show em Contagem (MG), dias antes, o vocalista Nasi gritou “sem anistia”, como forma de pedir punição aos golpistas do 8 de janeiro. Ele recebeu aplausos de parte do público, mas também algumas vaias, vindas de uma dúzia de Zé Golpinhos. Às vaias, o vocalista respondeu:

 

“Pra vocês que estão vaiando, eu vou falar uma coisa: tem gente que acompanha o Ira!, mas nunca entendeu o Ira! Nunca entendeu o Ira! Tem gente que acompanha a gente e é reacionário, tem gente que acompanha o Ira! e é bolsonarista, isso não tem nada a ver, gente! Por favor, vão embora! Vão embora da nossa vida! Vão embora e não apareçam mais em shows, não comprem nossos discos, não apareçam mais. É um pedido que eu faço”.

 

Talvez as palavras não tenham sido bem escolhidas. O problema desse discurso, feito no calor das emoções, é que ele lança luz em uma polarização entre esquerda e extrema direita, quando, nesse caso bem específico, a polarização é entre defensores da democracia e defensores do golpe. Nem todos os simpatizantes da direita ou que votaram em Bolsonaro necessariamente defendem golpe de estado.

 

Portanto, a ira de Nasi foi contra os golpistas. E golpe é crime! Quem defende golpe publicamente está defendendo crime publicamente. Golpe é crime previsto em nossa legislação assim como estupro e homicídio. E o fato de você simpatizar com um golpista não faz com que um golpe de estado deixe de ser crime. Do mesmo modo, simpatizar com um estuprador não faz o estupro deixar de ser crime.

 

Logo, não deveria ser razoável pedir aos artistas ou a quem quer que seja isenção e imparcialidade quando se está diante de uma polarização na qual há democracia de um lado e golpismo de outro. Golpe é crime e não se pode ser isento quanto a isso. Aqueles que vaiaram Nasi por causa de seu grito de “sem anistia” acham que o voto deles vale mais do que o dos outros. São pessoas que talvez, quando crianças, quando estavam perdendo o jogo de futebol ou de queimada, furavam a bola e acabavam com o jogo. Mas não é assim que nossa complexa sociedade e seu sistema político funcionam. Quem perde nas urnas deve esperar a próxima eleição.

 

O discurso de Nasi em Contagem levanta também uma questão: a dissonância entre a obra de um artista e a compreensão da obra por parte de seu público. Não é de hoje que o problema aparece. Em uma das vindas de Roger Waters ao Brasil, alguns fãs (bolsonaristas) ficaram indignados com os posicionamentos políticos do lendário vocalista do Pink Floyd em suas apresentações. Mas, convenhamos: para quem acompanha a carreira e as letras do artista isso não deveria ser surpresa nenhuma.

 

Da mesma forma, sobre o Ira!, a jornalista Mariliz Pereira Jorge chama a atenção para essa dissonância:

 

“Será que as pessoas que estavam no show em Contagem e vaiaram compraram ingresso e nunca prestaram atenção nas letras das músicas da banda? Nunca pensaram em que contexto histórico não só o Ira!, mas muitas bandas de rock nasceram? Para e pensa na letra de ‘Núcleo Base’, do Ira!, que é de 1985: ‘Eu tentei fugir / Não queria me alistar / Eu quero lutar / Mas não com essa farda’” [1].

 

A jornalista destaca que o Ira! é uma daquelas bandas surgidas no início dos anos 1980, nos últimos anos da ditadura empresarial civil-militar que cerceou direitos políticos e liberdades individuais, que censurou artistas e a imprensa. Foi nesse contexto e contra esse estado de coisas que o Ira!, os Titãs e tantas outras bandas influenciadas por um punk rock mais à esquerda eclodiram na cena musical do Brasil. 

 

Faz sentido gostar de uma artista, gostar de sua obra, mas discordar do conteúdo do ponto de vista político? Entendo que sim. A arte é livre e o público também. Mas isso é sempre uma pena, pois quando isso acontece deixa claro que algo está se perdendo na fruição da obra. Algo está se perdendo na comunicação entre artista e público. E também não dá para demonstrar muita surpresa quando o vocalista de uma banda como o Ira!, surgida no contexto em que surgiu, pede punição a gente que queria uma nova intervenção militar no país, influenciada pelo golpe de 64, e forçou uma barra para isso por meio de atos violentos. Sem contar que, no fundo, o texto da anistia visa proteger principalmente os idealizadores do golpe: políticos e militares de alto escalão que não tiveram coragem de dar as caras na Praça dos Três Poderes naquele 8 de janeiro.

 

A HISTÓRIA DA BANDA

Formada em São Paulo, em 1981, com forte influência do punk rock e também da estética mod e de bandas como o The Jam, a formação clássica do Ira! conta com Nasi (voz), André Jung (bateria), Ricardo Gaspa (baixo) e o lendário guitarrista Edgard Scandurra, considerado um dos melhores daquela geração anos 1980, com uma técnica peculiar de tocar: canhoto, ele toca com a guitarra invertida (feita para destro), mas sem alterar as cordas.

 

Desde o início de carreira a banda insurgiu contra gravadoras e as máfias de rádios FM, que exigiam grana (o famoso “jabá”) e a participação em shows gratuitos promocionais para tocar as músicas dos artistas. O mesmo acontecia no famoso Programa do Chacrinha, na Rede Globo. Foi nos bastidores do Chacrinha que ocorreu uma das tretas mais famosas do Ira! Em uma apresentação especial de Natal, a produção do programa exigiu que os diversos artistas entrassem no palco do estúdio com gorro de Papai Noel. O Ira!, que já não curtia fazer playback, não queria usar o gorro e não gostou da forma impositiva como a produção do programa agiu, ameaçando-os inclusive de nunca mais se apresentarem na Globo caso se negassem a usar o adereço. Resultado: na hora H os integrantes da banda largaram o gorro e saíram fora do estúdio. Apesar do boicote, ainda assim depois disso eles emplacaram a canção “Flores em você” na abertura da novela das oito “O outro” na emissora. Nada mal.

 

Mas nem tudo são flores na história do Ira! Um dos primeiros sucessos da banda, a canção “Pobre paulista” é considerada xenófoba e preconceituosa contra imigrantes nordestinos. Críticas que a banda sempre rebateu alegando que a letra era coisa de garotos que não sabiam bem o que estavam dizendo. Isso aliás é algo que deve ser destacado quando falamos sobre posicionamentos políticos de roqueiros. Normalmente os artistas de rock fazem sucesso muito jovens e por isso, por mais contraditório que isso possa soar em relação a este texto, é complicado esperar coesão plena desses músicos quando se trata de política. São artistas e não cientistas políticos (Tom Morello, ex-guitarrista do Rage Against the Machine e do Audioslave, é também cientista político formado por Harvard. Mas ele é exceção).

 

Nasi (cujo nome verdadeiro é Marcos Valadão) recebeu esse apelido no tempo da escola por ser muito encrenqueiro. A polêmica canção “Pobre paulista” e o apelido do vocalista (que ele faz questão de grafar com S e não com Z, para se dissociar da extrema direita) foram motivos para que, no início de carreira, o Ira! fosse associado por alguns críticos e produtores ao nazifascismo. Associação que não se sustentou ao longo da história da banda. Essas e outras confusões da banda são lembradas pelo crítico Júlio Ettori, para quem o Ira! é “a banda mais rebelde e maldita do rock nacional” [2].  

 

Claro que a postura do grupo gerou problemas para seus integrantes ao longo da carreira. Então esses cancelamentos de shows no Sul do Brasil não chegam a ser novidade na história do Ira!. No mesacast Inteligência Ltda, Nasi explica porque o Ira! não fez tanto sucesso comercial quanto outras bandas daquela geração, como Titãs e Legião Urbana:

 

"Eu vejo várias matérias: 'Ah, o Ira, banda injustiçada', realmente. Mas eu falo com muito orgulho, o Ira fez a sua escolha. Eu não lamento não ter vendido tantos discos como os Titãs, como Legião, mas entendo que foi uma escolha nossa. Algumas coisas, se eu voltasse no tempo eu repensaria, mas a touquinha não!" [3], disse o vocalista, ressaltando que rock, para ele, tem a ver com indisciplina, e relembrando o caso da imposição do gorro de Papai Noel no Programa do Chacrinha. "Imagina botar fogo numa touquinha?", complementa Nasi, para as risadas no estúdio do mesacast.

 

O ROQUEIRO REAÇA

O cancelamento dos shows da banda em cidades sulistas levantou mais uma vez a polêmica sobre a figura do roqueiro reaça. Esses fãs golpistas que supostamente devolveram os ingressos. Apesar da postura do Ira!, roqueiro reaça é uma figura comum que a essa altura não deveria causar muita surpresa. Falamos sobre isso ao comentarmos a posição negacionista do cantor Marcelo Nova (Camisa de Vênus) na ocasião da pandemia [4].

 

Vez ou outra, por conta de alguma declaração política feita por algum músico – ou como no caso do Ira! por conta da reação do público – surge no debate público falas a respeito do roqueiro reaça, sempre carregadas com um certo tom de indignação e surpresa, vindas de gente que se diz espantada com o fato de um roqueiro ser reacionário, de extrema direita ou conservador. Muita gente que se entende de esquerda ou progressista fala em decepção por causa de velhos roqueiros como Eric Clapton, Morrissey, Marcelo Nova, Lobão, Digão (da banda Raimundos) e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), que adotaram posições reacionárias e até negacionistas (principalmente no período pandêmico).

 

Mas a figura do roqueiro reaça não deveria impressionar tanto, não deveria ser vista como um exemplo de pessoa contraditória. Por várias razões. Primeiro, porque quem se espanta com o roqueiro reaça, achando-o contraditório, é porque (1) não conhece a história do rock e não sabe que desde sua popularização, na década de 1950, o gênero sempre esteve vinculado a uma classe média branca (apesar das raízes negras), ou (2) bota muita fé no “progressismo” das classes médias brancas no Brasil e no mundo.

 

A classe média branca tem um potencial para o reacionarismo mais do que comprovado. Movimentos como o fascismo e o nazismo foram disseminados e consolidados em grande medida com base na força da classe média branca europeia. Nos Estados Unidos, onde o rock surgiu, mesmo bebendo da fonte da música negra e de artistas negros, logo em seu nascedouro esse gênero musical foi rapidamente embranquecido, e a indústria musical elegeu Elvis Presley, um branco, como o “rei do rock”. Não cabe aqui nenhuma crítica a Elvis como artista, muito menos uma acusação de que ele próprio seria racista. Não é isso! Aliás, Elvis chegou a abrir espaço para artistas negros em sua carreira e, de seu modo, se contrapôs ao conservadorismo da época. A questão é o que a escolha de um artista branco como ídolo maior de um estilo musical de origem negra revela sobre a indústria e, principalmente, sobre a sociedade e aquela audiência da época.

 

Mas isso foi na década de 1950. De lá para cá muita coisa mudou, certo? Mais ou menos. Basta ver o hall da fama do rock ao longo de sua história. Quantos ídolos do gênero são negros, pardos ou mulheres? São poucos os exemplos. A grande maioria é homem branco mesmo.

 

Também não estou afirmando que a classe média branca é necessariamente reacionária, mas que é preciso cautela quanto às expectativas políticas progressistas depositadas sobre ela. Se rappers como Emicida, MV Bill ou Mano Brown se tornarem reacionários no futuro, eu até ficaria um pouco surpreso, já que há anos o rap/hip-hop possui forte identificação com as periferias, onde está a grande maioria da classe proletária. Mas esse já não é mais o caso do rock, tão assimilado pela classe média branca e aos poucos distanciado da periferia (de onde veio o Ira!).

 

O reacionarismo de roqueiros não deveria mais causar espanto em tanta gente. Sobre o modo como o rock foi sendo aos poucos assimilado pelo mainstream e perdendo sua aura contestadora, vale a pena conferir uma série de videoensaios do canal Normose [5].

 

Em resposta à produtora que cancelou os shows do Ira!, uma outra produtora dos shows da banda fez uma postagem em tom de deboche, usando a mesma letra e visual da mensagem da produtora anterior, confirmando que o show em Porto Alegre está de pé:

 

“Informamos que devido aos últimos acontecimentos envolvendo a banda Ira!, não temos outra alternativa a não ser comunicar que o show ‘Ira! Acústico 20 Anos’, que estava programado para o dia 8 de novembro, sábado, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, irá ocorrer normalmente (e a previsão é de casa cheia, viu?)”. [6]

 

Enfim, mais uma treta na história do Ira!, a banda mais maldita da geração roqueira oitentista. Nada que eles não estejam acostumados. Vida que segue. Viva o Ira! Golpistas na cadeia!

 

Referências:

DAPIEVE, Arthur; ROMANHOLLI, Luiz Henrique. Guia de Rock em CD: uma discoteca básica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

 

[1] A direita cancela o Ira! | De Tédio a Gente Não Morre

https://www.youtube.com/watch?v=PCnPXpwL1jU&list=PLoqCk3g6WofXq9WR-d3ydU1NMEhc00jM_

 

[2] O IRA! ERA UMA BANDA MALDITA - E ESTA É A HISTÓRIA PROIBIDA DE TRETAS, SEXO E DR*OGAS

https://www.youtube.com/watch?v=agPc3daJFi0

 

[3] POR QUE a BANDA IRA! NÃO VENDEU TANTOS DISCOS QUANTO TITÃS e LEGIÃO URBANA? - NASI e REGIS TADEU

https://www.youtube.com/watch?v=vAHPOvK4R-k

 

[4] Dia Mundial do Rock: roqueiros reaças, falácias e negacionismo

https://apatria.org/politica/dia-mundial-do-rock-roqueiros-reacas-falacias-e-negacionismo/

 

[5] Por que o ROCK virou coisa de reaça? (partes 1, 2 e 3)

https://www.youtube.com/watch?v=flo0_pi_z80

https://www.youtube.com/watch?v=woeM87KUUCw&t=3s

https://www.youtube.com/watch?v=tykiORw-POM

 

[6] A mensagem debochada de produtora de Porto Alegre, que manteve show do Ira!

https://igormiranda.com.br/2025/04/ira-mensagem-produtora-porto-alegre-mantem-show/

 

 

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sexta-feira, 21 de março de 2025

Mickey 17 e o escapismo tecnológico

 


Modelo de desenvolvimento e colonização exploratória, que tanto fez estragos à própria Terra, é levado a outro planeta

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho com certeza sabia que não tinha uma tarefa fácil pela frente. Depois de vencer o Oscar de melhor filme com Parasita (2019), primeiro filme em língua não inglesa a faturar na categoria principal da maior premiação cinematográfica do mundo, era óbvio que as expectativas a respeito de suas próximas produções iriam aumentar e que o sarrafo seria elevado para avaliar o seu próximo filme. A “solução” encontrada por ele foi investir em uma obra divertida, que se vale de um humor caricatural, talvez para se distanciar dos parâmetros de Parasita. Assim surge Mickey 17 (2025), em cartaz nos cinemas, que deixa claro que se vale de tons e tintas distintos da premiada obra anterior.

Mas não é nada fácil escapar do peso da crítica. Com um sarrafo elevado, alguns críticos têm apontado falhas e afirmado que este se trata do filme mais fraco do diretor, ainda que ponderem que ser um filme fraco dentro da filmografia de Bong Joon-ho ainda assim é algo bem relevante. Fato é que o longa-metragem, estrelado por Robert Pattinson, teve seu lançamento aprisionado pelas expectativas elevadas. Passados alguns anos, certamente Mickey 17 será valorizado por suas características intrínsecas e o tempo lhe será generoso.

No filme, Pattinson interpreta Mickey, um jovem que, tendo pouca formação e muitas dívidas, aceita ser usado para todo tipo de trabalho perigoso e degradante como parte de um programa de exploração espacial. Esses trabalhos com frequência o levam à morte, mas ele é sempre recriado, com suas memórias e seu corpo mantidos. Ele é, portanto, o que se chama de “descartável”, e justamente por isso pode ser usado nos trabalhos mais perigosos e degradantes. Apesar dessa premissa, o filme é divertido.

Se por um lado a filmografia de Joon-ho aprisiona esse lançamento em expectativas elevadas, por outro, ela nos ajuda a nos ambientar no universo do diretor e entender de forma clara suas propostas. A precarização do trabalho e a descartabilidade do trabalhador são questões pertinentes e óbvias em Mickey 17, principalmente se levarmos em conta que a luta de classes é assunto recorrente na obra do diretor. Podemos citar como exemplo O expresso do amanhã (2013) e o próprio Parasita, que também tratam do assunto com clareza. Mickey 17 tem muito dos dois, mas mais do primeiro (por se tratar de ficção científica e de retratar uma microssociedade que reproduz questões da sociedade mais ampla), além de beber muito da fonte de Okja (2017), outra obra de Joon-ho, por causa de certo tom fantástico adotado.

O novo filme aponta para muitas direções em suas críticas sociais e filosóficas: clonagem e identidade (o que faz você ser você?), exploração predatória da natureza, pureza racial e eugenia, populismo autoritário, tecnopopulismo, segregação de classe (o indivíduo “descartável” vale menos que as “pessoas normais”), relação entre alma e corpo etc. Por ser tão inflado de ideias, Mickey 17 se aprofunda em pouca coisa. Mas talvez isso faça parte de sua proposta. As questões são levantadas e seguidamente descartadas, tal qual o personagem de Pattinson. Entretanto, uma ideia vai crescendo na segunda metade do filme e ganha protagonismo. Trata-se da colonização e da relação entre colonizadores e povos nativos, aqui representada na relação entre os terráqueos, que fazem parte da expedição espacial, e os “rastejantes”, habitantes do planeta nevado que é candidato a substituir a Terra como nosso novo lar. Isso pode decepcionar algumas pessoas, pois o tema principal e óbvio, que era a precarização do trabalho, aos poucos cede espaço para este outro. Alguns críticos, desapontados com essa surpresa, reclamaram dessa descartabilidade de ideias.

“Parece um croissant mergulhado na merda”. Assim a personagem de Tony Collete – que junto com Mark Rufallo forma o casal caricato de vilões da trama – se refere à aparência de um rastejante. A estética repugnante desses seres nativos não é posta na tela à toa. Trata-se de uma opção estética para nos levar ao asco em relação a esses nativos para, pouco depois, sermos pegos no contrapé, ao descobrirmos que esses seres feios e esquisitos possuem capacidade de empatia, senso de coletividade e nível de organização bastante avançados, até mesmo para nossos padrões.

 

ESCAPISMO TECNOLÓGICO

                Obviamente que, ao vermos o empreendimento de colonização predatória dos terráqueos pesar contra os rastejantes nativos, estabelecemos analogias com o que conhecemos dos processos de colonização exploratória que vimos em nosso planeta. Por exemplo, a colonização europeia promovida em detrimento de povos das Américas, África e Ásia. No filme, entretanto, a colonização interplanetária feita pelos terráqueos é resultante de algum tipo de cenário pós-apocalíptico no qual a vida na Terra se tornou degradante ou insustentável sem a exploração de mais e mais recursos e territórios, que seriam então obtidos com a dominação e o controle de outros planetas. Aliás, é justamente por conta dos riscos do empreendimento que um trabalhador descartável se torna necessário. Há muitos perigos no espaço e nos novos territórios, como vírus ou seres rastejantes famintos. Um descartável pode servir de bucha de canhão ou cobaia nas mais diversas ocasiões.

                Em meio a tantas questões lançadas superficialmente no filme, esta tangencia várias delas: a de que a solução para problemas gerados na Terra pelo nosso avanço exploratório se dá (advinha!) com mais e mais exploração. E o desenvolvimento tecnológico seria o caminho, sempre a tirar um coelho da cartola para nos possibilitar a exploração infinita. É o que aqui chamamos de escapismo tecnológico. A historiadora Tatiana Roque (2021) desenvolve essa ideia. Ela explica que a história da humanidade nos últimos 300 anos, baseada em uma linearidade rumo ao progresso, é uma história excepcional. Essa visão de mundo, de que o futuro será sempre tecnologicamente mais avançado e mais próspero que o presente, tem sua base no Iluminismo e em um modelo de colonização europeia. Entretanto essa visão só foi possível nos últimos séculos às custas do uso desenfreado dos recursos naturais e do consumo de combustíveis fósseis. Ela não foi predominante na maior parte do tempo da existência humana e não é mais sustentável diante dos desafios contemporâneos.   

                Mas perante a necessidade de repensarmos nossos valores, há os que preferem dobrar a aposta na exploração capitalista. E o escapismo tecnológico representa essa dobra de aposta, valendo-se do desenvolvimento da tecnologia em busca de saídas milagrosas. Para que ampliarmos nossos cuidados com o planeta se podemos desenvolver tecnologias diversas suficientes para explorar outros planetas (inclusive a clonagem, para a criação de trabalhadores precarizados descartáveis que nos ajudarão nesse empreendimento exploratório espacial realizando os serviços mais difíceis)?

                Roque nos lembra da fala de Sam Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT, quando perguntado a respeito de como seria solucionada a alta pegada energética da inteligência artificial [1]. Isso porque o desenvolvimento e uso da inteligência artificial aumenta a demanda por eletricidade no planeta, o que se choca com as políticas de sustentabilidade. A resposta dada por Altman é o uso da fusão nuclear como forma de alimentação da IA. O problema é que, como explicam alguns pesquisadores, a fusão nuclear está distante de ser uma realidade que possa suprir a grande pegada de carbono da IA [2]. Logo, o que temos de concreto, de realidade imediata, é o desenvolvimento de sistemas e produtos tecnológicos que ampliam a demanda por energia. E para resolver isso? Não temos muito, só um suposto otimismo de seus desenvolvedores de que uma nova tecnologia virá solucionar o problema.

                Há outros casos por aí que talvez possamos classificar como escapismos tecnológicos. Um deles vem da geoengenharia: a injeção de partículas (aerossóis) na atmosfera para tentar reduzir o aquecimento global. A ideia é aumentar o albedo da Terra, sobretudo na estratosfera, para que ela passe a refletir mais radiação de volta ao espaço e, assim, torne-se um pouco menos quente. O albedo é a fração da luz refletida em relação à absorvida por um corpo ou superfície. Em vez de investimentos em ações concretas para a redução de gases de efeito estufa, um tipo de gambiarra de geoengenharia surge no horizonte como pseudossolução.

Dentro da ciência, ao que me parece, estamos descobrindo a duras penas que essa aparente progressão técnico-científica leva a um ponto que não é sustentável. É um ponto irreal. E aí temos uma grande cisão. Há quem insista e dobre a aposta: ‘Se eu emiti carbono demais e mudei o clima do planeta, o que eu preciso agora é de uma tecnologia de captura de carbono. E com essa nova tecnologia a gente vai dar um passo além, tirar a consequência do carbono e seguir a vida como ela é, usando mais petróleo e fazendo de tudo’ (...). Essa vertente aposta ainda mais nesse conhecimento técnico-científico e diz que daí virá a próxima solução. E há uma outra vertente que diz: ‘olha, há essas outras formas de conhecimento, de manejo, que estão se mostrando muito mais sustentáveis a longo prazo’”, resume o divulgador científico e biólogo Átila Iamarino, sobre a necessidade de se buscar outros valores e cosmovisões para além da visão iluminista e capitalista de progresso [3].  

Mickey 17 está longe de ser o primeiro filme a tratar desse problema. Em Não olhe para cima (2021), outra comédia, a temática é desenvolvida de forma bastante interessante. Um asteroide – que funciona como metáfora do risco das mudanças climáticas – está vindo na direção da Terra e irá destruí-la. Entretanto, em vez de as nações se unirem para destruí-lo antes que atinja o planeta, um bilionário CEO tecnopopulista (desses, tipo Elon Musk e Jeff Bezos), opta por uma missão pouco confiável, que é aproveitar partes do asteroide para extrair recursos minerais e, com isso, obter uma suposta prosperidade que seria distribuída a todos (tipo fazer crescer o bolo para depois dividi-lo, ou coisa parecida).

                É a tecnologia como panaceia, que irá nos possibilitar exploração e desenvolvimento contínuos. Os robôs responsáveis pela extração de minérios no asteroide são o escapismo da vez. O plano dá errado. Mas o escapismo continua, pois a empresa responsável pelo plano absurdo possuía uma nave preparada para vagar pelo espaço por séculos até encontrar um novo planeta caso a extração dos minérios desse errado e a Terra fosse destruída. Claro que nessa nave havia poucas vagas, somente para alguns privilegiado$.

                Mickey 17 é mais um desses bons filmes que retratam o uso capitalista da tecnologia a criar diversionismos, ou seja, a desviar o foco de problemas concretos e imediatos em busca de alguma suposta salvação que está no porvir, a depender de novas tecnologias. O filme poderia ter se aprofundado mais no quanto a tecnologia, que já foi vista como uma forma de amenizar o peso do trabalho sobre o homem, foi instrumentalizada para aprisionar esse homem em mais e mais trabalho? Talvez. No filme, a tecnologia inclusive é usada para, em nome do trabalho, replicar várias e várias vezes a vida de um homem, condenando-o a um trabalho perpétuo. Mas, retratar a tecnologia como um caminho para a expansão a outros planetas de um modelo de colonização exploratória que tanto fez estragos à própria Terra, é um achado bastante interessante que Mickey 17 proporciona. 

               

Referências:

Roque, Tatiana. O dia em que voltamos de Marte: uma história da ciência e do poder com pistas para um novo presente. São Paulo, Planeta.

 

[1] Negacionismo e Crise de Confiança na Ciência

https://www.youtube.com/watch?v=s5-gUjbl49U

 

[2] Sam Altman diz que fusão nuclear é solução para demanda de energia de IA

https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/sam-altman-diz-que-fusao-nuclear-e-solucao-para-demanda-de-energia-de-ia/#goog_rewarded

 

[3] O que é Deus? - Podcast Não Ficção

https://www.youtube.com/watch?v=tcwAHNJkwfw

sábado, 21 de dezembro de 2024

Sérgio Sacani não entendeu (ou fingiu não entender) o que houve na UFSC

 


Divulgador científico faz reducionismo caricato de controvérsias científicas no campo da psicologia

 

Nesta semana o geofísico e divulgador científico Sérgio Sacani, responsável por projetos de grande alcance de público nas mídias digitais, como os canais Ciência sem Fim e Space Today, causou polêmica em uma participação que fez no podcast Redcast. Em uma conversa da qual também fazia parte o ex-deputado estadual Arthur do Val, mais conhecido como Mamãe Falei e ligado ao movimento direitista MBL, Sacani referiu-se a um evento do qual participou no mês de novembro, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de uma forma bastante pejorativa.

 

Fomos eu, Eslen Delanogare e uma professora falar sobre mudanças climáticas. Os caras invadiram a mesa e falaram ‘essa mesa não representa ninguém’. Eles queriam um índio, uma trans, um viado e um negro. Aí eu falei brincando para o Eslen: se fantasia de índio aí. [1]

 

O evento ao qual Sacani se refere dessa forma preconceituosa e grosseira foi a palestra de abertura da 21ª Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (Sepex), no dia 6 de novembro. A mesa foi intitulada “Cosmos, Vida na Terra e Saúde Mental: Uma Viagem Científica”, realizada no campus de Florianópolis, que contou com a participação da professora Regina Rodrigues, coordenadora de Oceanografia da UFSC; de Eslen Delanogare, psicólogo, doutor em Neurociências pela UFSC e também divulgador científico; e do próprio Sérgio Sacani.

 

Após a fala polêmica, a jornalista da UFSC, Amanda Miranda, foi à rede social X para desmentir Sacani:

 

Sou jornalista da UFSC e cobri essa mesa. De fato, somos uma universidade inclusiva, aberta e plural, mas não trabalhamos com mentiras. Isso não aconteceu! Lamentável uma pessoa com visibilidade e influência lançar um factoide absurdo para achincalhar a universidade pública.

 

Amanda postou vídeo com a exibição na íntegra daquela mesa, comprovando que não houve nenhum tipo de invasão. [2] Outro que veio a público desmentir o divulgador científico foi o secretário de comunicação da UFSC, responsável pela organização da Sepex 2024, Marcus Paulo Pessôa, que reafirmou que não houve invasão. “O que aconteceu foi que, antes do evento, quando as portas do auditório foram abertas, alguns estudantes foram lá muito respeitosamente e levaram faixas, com alguns protestos”.

 

Somando-se a Amanda Miranda e Marcus Pessôa, a própria UFSC emitiu uma nota afirmando não ter havido nenhuma invasão no evento, lamentando a fala de Sacani e reforçando que ele não mais será chamado para participar de nenhum evento na instituição:

 

Lamentamos a forma desrespeitosa com que o Sr. Sérgio Sacani referiu-se à UFSC e seus estudantes em sua participação em podcast. Mesmo submetida a uma forte restrição orçamentária, a UFSC se empenhou em um enorme esforço institucional de valorização da Sepex, que teve na mesa de abertura seu evento de maior visibilidade, com cerca de 2.000 pessoas presentes, além de significativa audiência online e cobertura da imprensa local. No entanto, tal esforço parece não ter logrado êxito em demonstrar ao convidado toda a potência e diversidade da UFSC.

 

Reforçamos nosso compromisso com a diversidade, com o debate democrático de ideias, com a universidade pública e gratuita, e por isso anunciamos que o Sr. Sérgio Sacani não será mais convidado a participar de atividades organizadas pela Administração Central da UFSC na atual gestão. [3]

 

Contrariado publicamente, em vez de se retratar, Sacani preferiu fazer um malabarismo semântico a respeito do conceito de “invasão”, para continuar sustentando que sim, teria havido uma invasão à mesa da qual participou. Em outra participação no mesmo Redcast, Sacani explica que a tal “invasão” teria sido a colocação de faixas de protesto feitas por estudantes da própria UFSC no palco onde haveria o evento pouco antes do evento começar.

 

“Uma pessoa que não era convidada subiu no palco e esticou a faixa lá”. Uma ideia controversa de invasão, já que as faixas foram colocadas pelos próprios estudantes da UFSC, que não precisam de convite para estar em um evento aberto da universidade na qual estudam. A própria instituição, responsável pelo espaço, não considera tal atitude como invasão, conforme consta na nota oficial.

 

O que realmente ocorreu?

 

Não vou aqui me alongar sobre o que é ou não é uma invasão. Embora particularmente eu entenda que Sérgio Sacani mentiu ao relatar o ocorrido na UFSC, basta-me reforçar que o que ele fez foi, no mínimo, uma distorção grosseira (em vários sentidos) do que de fato ocorreu e do que de fato estava sendo reivindicado pelos estudantes. Houve, sim, manifestações críticas a respeito da composição da mesa na qual o divulgador científico participou. Entretanto, essas manifestações, feitas por graduandos de psicologia da UFSC, foram mais complexas e mais técnicas do que Sacani tentou fazer parecer ao dizer que queriam “um índio e um viado na mesa”.

 

Em uma postagem feita no dia do evento, em 6 de novembro, na página de Instagram do “Centro Acadêmico Livre de Psicologia” da UFSC ( @calpsi ), os graduandos de psicologia escreveram suas críticas à composição daquela mesa. É possível observar que as reinvindicações dos estudantes não se assemelham a caricaturização grosseira apresentada por Sérgio Sacani. Segue a nota dos graduandos:

 

Hoje, quarta-feira (06/11/2024), às 18h30, ocorrerá no auditório Garapuvu a mesa de abertura da 21ª SEPEX intitulada “Cosmos, vida na Terra e saúde mental”. Entretanto, nós, corpo discente do curso de Psicologia, nos questionamos: a abordagem que será feita acerca de saúde mental e ciência reflete a pluralidade de epistemologias, subjetividades e modos de vida? De quais lugares partem os palestrantes escolhidos? Cadê os trabalhadores da rede de atenção psicossocial nesta mesa? Por que não houve diálogo com o curso e com o departamento de Psicologia para a construção deste evento, em se tratando de uma temática que nos é tão particular? Quais foram os critérios adotados pela comissão científica do evento? Em um território onde está vigente a política de morte manicomial da internação compulsória, é a partir dessa perspectiva que escolhemos discutir?

 

Na apresentação do palestrante convidado para falar sobre saúde mental, a universidade exalta o seu “estilo de vida saudável” e o reconhecimento que possui baseado na quantidade de seguidores nas redes sociais. Além disso, apresenta uma visão predominantemente biologizante e individual sobre a saúde mental com um debate raso: ou você a tem, ou não, beirando a lógica da medicamentalização. Diante disso, nos questionamos: a correlação entre a produção de saúde mental e características/escolhas individuais reflete o conhecimento e as práticas que estamos produzindo e gostaríamos de produzir enquanto curso, ciência e profissão?

 

Baseado em todos esses questionamentos, manifestamos a nossa insatisfação com a maneira como este evento foi planejado, e comunicamos que realizaremos uma intervenção no auditório Guarapuvu, fixando os cartazes que estão sendo produzidos coletivamente pelos estudantes do curso no dia de hoje.

 

Há muitas considerações que podemos fazer a respeito dessa manifestação dos estudantes. Em primeiro lugar, as críticas são direcionadas à escolha de Eslen Delanogare para a mesa. Não tinha a ver com Sacani. Os questionamentos envolvem controvérsias científicas e técnicas da área de psicologia, como quem teria mais legitimidade para falar sobre saúde mental; a ausência de um profissional de psicologia com experiência em atendimento psicossocial; a falta de diálogo com o curso de psicologia para a elaboração de evento cujo tema tem a ver com a área; um embate entre abordagens diferentes no campo da psicologia, já que, aparentemente, os estudantes têm uma, e o convidado, outra.

 

No texto dos graduandos, percebe-se ainda uma crítica às formas de validação de quem seria ou não especialista para falar sobre temas em tempos de mídias digitais, já que o texto critica a exaltação do número de seguidores do convidado a palestrante. Esse é um questionamento bastante pertinente nos dias atuais para a divulgação científica e que diz respeito a toda a sociedade e esfera pública.

 

Há ainda uma crítica à figura do influenciador digital que “vende” qualidade de vida de forma individualista e descontextualizada das condições sociais predominantes para a maioria da população, pregando um estilo de vida ao qual poucos têm acesso.

 

Entretanto, nada disso significa que eu concorde plenamente com a posição dos graduandos de psicologia da UFSC ou ache que as críticas feitas pelos mesmos se apliquem perfeitamente à figura pública de Eslen Delanogare. A questão aqui é outra. A questão é que a manifestação crítica dos estudantes é muito mais técnica e complexa do que querer colocar “um índio e um viado” na mesa, como Sacani fez parecer. Ao reduzir a discussão a uma caricatura grosseira, Sacani passou por cima de controvérsias científicas complexas de uma área que ele não domina. E isso é um erro enorme para um divulgador científico.

 

Por que Sacani mentiu ou distorceu os fatos?

 

Por que Sacani fez isso? Ele mentiu? Embora eu esteja convencido que é possível classificar a fala de Sacani como mentira, basta-me enfatizar que houve, no mínimo, uma distorção grosseira dos fatos e da discussão ocorrida dentro da universidade a respeito de um evento acadêmico.

 

E por que essa distorção ocorreu? É possível que isso tenha a ver com a busca de Sérgio Sacani por uma modulação de seu discurso, para falar a língua da audiência que ele entende ter ou que busca ter. Não é possível analisar a fala do divulgador científico sem levar em conta seus interlocutores e o canal no qual ele estava falando. Como dito anteriormente, Mamãe Falei, ligado à direita, era um dos integrantes da conversa, realizada no Redcast, um canal de destaque dentro da comunidade red pill, que também possui inclinação à direita.

 

Os círculos de direita e extrema direita têm como parte do repertório político ataques às universidades, principalmente às públicas. A guerra cultural virou uma importante ferramenta retórica desses grupos. Dentro dessa guerra cultural está incluída uma visão estereotipada das universidades enquanto antros de militância marxista, de esquerda identitária ou coisas do tipo. Uma estereotipagem normalmente muito rasa.

 

Não significa que as universidades vez por outra não mereçam críticas nesse sentido. Basta lembrarmos da performance intitulada “Educando com o cu”, da pesquisadora que mostrou as nádegas em evento da Universidade Federal do Maranhão. Eventualmente, episódios lamentáveis como esse ocorrem nas universidades. Logo, não é necessário criar nenhuma fanfic ou factoide como fez Sérgio Sacani. É importante criticar, mas mantendo a pertinência aos fatos.

 

Sacani conhece o repertório da bolha para a qual se direciona. Ele sabe da visão estereotipada da direita e extrema direita sobre as universidades. Ao resumir o que houve na UFSC a quererem um viado, um índio, uma trans e um negro em uma mesa de abertura, o divulgador científico busca conexão com o repertório que essa bolha já possui e gosta de lançar mão sempre que pode (e sempre que não pode, também).

 

Não deixa de ser curioso que Sacani reclame de invasão em universidade em uma mesa com o Mamãe Falei, este sim, um recorrente invasor de evento acadêmico, que já invadiu um evento fantasiado de vagina, em uma clara atitude de provocação às mulheres participantes. Aí pode invadir, né?

 

Dizem que não se deve jogar xadrez com pombo, porque ele espalha as peças, suja o tabuleiro e fica impossível jogar. Neste caso, o pombo foi o Sacani. Com todo respeito que tenho por seu bom trabalho enquanto divulgador científico, ao criar uma caricaturização grosseira de um debate complexo, ele apagou a complexidade do debate, tornou a discussão séria algo impossível e prestou um enorme desserviço.     

 

Referências:

[1] https://www.instagram.com/pragmatismopolitico/reel/DDxUT0ch6lg/

 

[2] https://www.youtube.com/watch?v=ZlI409w6vV0

 

[3] https://noticias.ufsc.br/2024/12/nota-da-administracao-central-da-ufsc-sobre-a-mesa-de-abertura-da-sepex/

 

[4] https://www.instagram.com/p/DCCuZlKvcmn/?img_index=1