Estreou
no Rio de Janeiro, no último domingo, dia 7, no festival de documentários É
Tudo Verdade, o filme “Brizola”, sobre a vida deste que foi uma das maiores
lideranças políticas do Brasil no século 20. Ainda dentro da programação do
festival, o filme foi novamente exibido na terça-feira, dia 9, também no Rio, e
em São Paulo, nos dias 12 e 13 de abril. Depois disso, a previsão é de que
“Brizola” seja lançado no Canal Curta!.
A
sessão de estreia ficou lotada. As cadeiras da sala do Estação NET, em
Botafogo, não foram suficientes. As cadeiras extras também não foram, e teve
gente que precisou assistir ao filme no chão mesmo. Dentre os presentes,
algumas lideranças do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado por
Brizola em 1980, como a deputada estadual Martha Rocha, presidente do PDT-Rio.
Na tela, muitos nomes clássicos da legenda, que com seus depoimentos ajudam a
recontar a história de Leonel Brizola, como Darcy Ribeiro, Miro Teixeira, Nilo
Batista, dentre outros.
Ao
dar as boas-vindas ao público, Amir Labaki, organizador do festival, disse que
“Brizola foi uma daquelas pessoas que só não fez mais pelo Brasil porque não
pôde. Se pudesse ter feito mais, nosso país seria muito melhor”. Dirigido por Marco
Abujamra e produzido por Mariana Marinho (Dona Rosa Filmes), o filme emocionou
do início ao fim em sua exibição de estreia, provocando diversos momentos de
aplausos, levando o público às lágrimas, mas também às risadas, com algumas das
tiradas espirituosas de seu protagonista, notoriamente conhecido por ter sido
um líder político carismático e personalista.
Os
realizadores contaram com o apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo de suas
quatro décadas de existência e com o trabalho de pesquisa do Centro de Memória
Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP).
Falar sobre Brizola é também contar uma parte significativa da história do
trabalhismo brasileiro. Juntamente com Getúlio Vargas e João Goulart (Jango), o
fundador do PDT forma o trio emblemático dessa corrente política que, como
conceitua o professor Reinaldo Lohn (HISTÓRIA FM 134, 2023), se caracteriza
como um conjunto de práticas de reformismo social voltadas para a extensão e
ampliação de direitos sociais, com foco nas classes trabalhadoras.
O
trabalhismo não pressupõe uma perspectiva de superação do capitalismo, mas a
convivência entre o capitalismo e o mundo dos direitos sociais. Isso vai se
configurar com muita densidade em países europeus. O caso clássico é o da
Inglaterra, que se estendeu para todo o Reino Unido por meio do Partido
Trabalhista Britânico. No Brasil, o termo foi apropriado nos anos 30 e 40. A
noção internacional de trabalhismo, no caso brasileiro, serve como uma
roupagem. Aqui, nossa invenção do trabalhismo tem uma trajetória toda própria,
relacionada ao getulhismo ou varguismo. O reformismo social aqui está presente,
mas o encaminhamento dessas reformas é distinto, numa trajetória
latino-americana (HISTÓRIA FM 134, 2023).
A
narrativa do filme começa com o retorno de Brizola ao Brasil, em 1979, após um
longo exílio de 15 anos no qual ele passou por países como Uruguai, Estados
Unidos e Portugal. Naquela ocasião, Brizola retornara a solo brasileiro sendo
considerado o inimigo número um da ditadura militar que o expulsara do país,
permanecendo no posto de inimigo número um até o fim do regime. O filme então
recapitula a trajetória do líder político alinhado ao então vigente processo de
redemocratização, começando por seu nascimento e infância pobre, em Carazinho,
interior do Rio Grande do Sul.
Sua
formação – graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul – e seu ingresso na carreira política são retratados brevemente. Nessa
época, em que Getúlio Vargas era a mais notória personalidade política do país,
o jovem Brizola entra para o recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
que não deve ser confundido de forma alguma com o PTB mais recente, do período
de redemocratização, que abrigou figuras como Roberto Jefferson e que no fim do
ano passado se fundiu ao Patriotas. Mas essa história é contada mais à frente
pelo filme.
Após
se eleger deputado estadual e federal e prefeito de Porto Alegre, em 1958 o
caudilho é eleito governador do Rio Grande do Sul. É nesse cargo que Brizola se
notabiliza como defensor do processo democrático, ao coordenar o que ficou
conhecido como “campanha da legalidade”. Com a renúncia de Jânio Quadros, o sucessor
legal e direto na presidência do país era Jango. Diante da iminência de um
golpe, mobilizado por setores das elites conservadoras do país desfavoráveis a
Jango, Brizola, aliado ao comando do III Exército, lidera em 1961 civis e
militares em uma grande mobilização para que a sucessão presidencial se desse
conforme a Constituição vigente à época. Por isso o nome “campanha da
legalidade”. Tratava-se de um movimento para que a lei fosse cumprida.
Naquele
momento, o golpismo fora derrotado e Jango assume a presidência. Mas três anos
depois, em 1964, os golpistas teriam sua revanche. Jango é deposto. Brizola se
propõe a resistir ao golpe, mas Jango, temendo um derramamento de sangue e não
vendo alternativa, se resigna com o exílio. O filme pontua bem as diferenças
entre as duas grandes figuras trabalhistas daquela época: de um lado, um Jango
moderado que parecia acreditar demais na conciliação e na possibilidade de
governar com o apoio da direita; de outro, um Brizola mais inflamado, mais à
esquerda e disposto ao risco de uma possível luta armada. Golpe posto, ambos
têm de sair do país.
O
filme enfatiza, deixa claro, inclusive pelas palavras do próprio Brizola, que
os golpistas de 64 eram os mesmos que tentaram o golpe em 1961, que por sua vez
eram os mesmos que, anos antes, tentaram também golpear Getúlio Vargas. Essa
tradição golpista fica bem caracterizada no documentário de Marco Abujamra. Em
entrevista, o diretor destacou que Brizola usou seu poder de comunicação para
“promover ideias consideradas extremistas e comunistas” pelos setores
conservadores. De acordo com Abujamra,
“é surpreendente que, em 2024, as mesmas ideias continuem a ser consideradas
extremistas por grande parte da população”, disse o diretor [1].
O
filme parece sugerir um certo caráter cíclico da história, mostrar as
continuidades, um passado que ainda se faz presente. Mesmo após o golpe,
durante e depois do exílio, os ditadores não deixaram de dificultar as coisas
para o velho caudilho. Em 1980, já de volta ao Brasil, Brizola tenta refundar o
PTB para protagonizar à frente do histórico partido a retomada do processo
democrático. Mas a ditadura militar, mesmo desgastada àquela altura, consegue
dar mais uma cartada e, numa manobra jurídica por meio do Tribunal Superior
Eleitoral, é concedido o direito ao uso da legenda a Ivete Vargas, sobrinha de
Getúlio Vargas e alinhada aos conservadores. João Trajano de Lima Sento-Sé,
cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(Uerj), fala sobre a disputa entre Ivete e Brizola:
O
processo de redemocratização foi controlado pelas elites vinculadas aos
militares de forma que o poder não escapasse destas mãos. O trabalhismo era o
grande fantasma e tinha um nome singular que assustava especialmente: o de
Brizola. Os setores conservadores influenciaram decisivamente na vitória
judicial de Ivete Vargas. É historiograficamente aceito que a decisão judicial
teve clara influência dos militares (SENTO-SÉ, 2018).
Derrotado
na disputa pela legenda PTB, Brizola funda o PDT. O novo partido, herdeiro do
trabalhismo histórico, é bastante influente no processo de redemocratização,
agitando as massas por democracia, ou, nas palavras do próprio Brizola, “com
essas três letras vamos eletrizar o Brasil”. Aqui temos mais um ponto de destaque
na narrativa de Abujamra: os dois mandatos de Brizola como governador do Rio de
Janeiro: de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994.
O
primeiro mandato é marcado pela criação dos Centros Integrados de Educação
Pública (Cieps), projeto elaborado por Darcy Ribeiro. As unidades, com projeto
arquitetônico de Oscar Niemeyer, foram popularmente batizadas de “Brizolões”. A
iniciativa era bastante avançada para os padrões do ensino público da época (e
até para os dias de hoje), com ensino em tempo integral, muitas atividades
esportivas, recreativas e culturais, atendimento médico e odontológico para as
crianças, dentre outros serviços. Mas uma parcela da sociedade considerava o
projeto dos Cieps caro demais. Brizola respondia que “cara é a ignorância”.
Nesse
ponto o filme mostra com clareza um embate político que marcaria os mandatos de
Brizola no Rio de Janeiro e a esfera pública fluminense: de um lado, os
apoiadores de Brizola, aqueles que apostavam na educação e na extensão de um
estado de direitos sociais para as camadas mais pobres da sociedade; de outro,
adversários de Brizola apostavam na segurança pública e aumento da repressão
contra uma criminalidade que, segundo eles, havia se ampliado no Rio de Janeiro
comandado por Brizola.
Venceu
o segundo grupo e, aos poucos, o projeto dos Cieps foi descontinuado. Por outro
lado, a situação da segurança pública no estado também piorou. O filme retrata
o quanto a má fama com a qual Brizola teve que conviver até o fim de sua vida,
de ser um político que contribuiu para o aumento da violência e criminalidade,
foi inflada por seus adversários conservadores e pela mídia – principalmente
pela Rede Globo. Aliás, o célebre direito de resposta que o caudilho conseguiu
na justiça contra a emissora, lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, é um dos
momentos mais marcantes do documentário e que mais despertou reações da plateia
na sessão de estreia.
Cabe
acrescentar que, ao ser alvo de uma campanha de desconstrução da imagem
enquanto suposto responsável por uma crise de segurança pública, Brizola seria
só o primeiro de uma sequência de políticos do Rio de Janeiro desgastados por
um tipo de marketing eleitoral folclórico da política fluminense que é a
criação da figura do político “defensor de bandido”. Geralmente, essa acusação
de “defensor de bandido” recai em políticos de esquerda e centro-esquerda.
Brizola foi o primeiro (no Rio, chegaram a apelidar cocaína de “Brizola”),
seguido por Benedita da Silva, Fernando Gabeira (“quem fuma e cheira vota no
Gabeira”, diziam), Marcelo Freixo e até Marielle Franco, ainda que esta não
tenha tido tempo para disputar um mandato no Executivo. Setores à direita tiram
proveito desse discurso. Curiosamente, governadores que foram efetivamente
parar na cadeia, como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, não sofreram com
essa pecha.
A
acusação a Brizola não é amparada em dados concretos sobre criminalidade.
Passados 30 anos do fim de seu segundo mandato como governador, a violência no
estado do Rio de Janeiro segue alarmante, inclusive com o aprofundamento do
problema das milícias e o aumento de sua infiltração no estado. O sociólogo
José Cláudio Alves, com pesquisa sobre a violência no Grande Rio, ressalta essa
falta de fundamentação na desconstrução da imagem do velho caudilho.
Ao
meu ver isso é uma espécie de criação de um bode expiatório político. O Brizola
tinha uma política de não abuso, não violência contra membros de favelas e
comunidades pobres, por conta da própria lógica do populismo, da qual o Brizola
vem - herança de Getúlio Vargas, de um poder calcado no popular (ALVES, 2010).
Mesmo
sucateado com o passar dos anos, o projeto dos Cieps ainda influenciaria outras
iniciativas de ensino público no Brasil, como os Centros de Atenção Integral à
Criança e ao Adolescente (Caics), do governo Collor, e as Escolas do Amanhã, do
governo Eduardo Paes no município do Rio. O filme nos mostra a inspiração
brizolista sobre os Caics. Nesse ponto, o diretor Abujamra parece
superdimensionar o peso da influência de Brizola em Collor como uma das
possíveis razões que culminariam no processo de impeachment deste último, ao
levantar a hipótese de um Roberto Marinho bastante insatisfeito com Collor por
causa do projeto das escolas federais, brizolistas demais para o gosto do barão
da comunicação. A insatisfação do megaempresário, adversário político de
Brizola, teria sido, na perspectiva do filme, crucial para que a Globo
retirasse o apoio político dado a Collor e que anos antes ajudara a
elegê-lo.
Outros
feitos de Leonel Brizola recebem destaque no filme, como a criação do
Sambódromo, em 1984, que foi cercada de polêmicas e críticas – para variar –
das Organizações Globo. “Contrária às novas regras, inclusive o desfile em dois
dias, a TV Globo e O Globo boicotaram a obra e praticamente torciam para ela
não ficar pronta a tempo. Diariamente, um ‘especialista’ era chamado a opinar
para criticar o projeto” [2].
Lançado
no ano em que se completam 40 anos de Sambódromo e 20 da morte de Leonel
Brizola, o documentário nos ajuda a entender o cenário político brasileiro do século
20 e suas continuidades no século 21. E deixa no espectador uma sensação de que
o Brasil seria melhor se Brizola tivesse podido fazer mais, como bem disse o
organizador do festival antes do início da exibição. Para quem quiser saber
mais sobre Brizola e o trabalhismo, recomendamos o artigo de Ângela de Castro
Gomes, cujo nome é justamente “Brizola e o Trabalhismo” (GOMES, 2004). Escrito
na ocasião da morte de Brizola, a autora fez indagações sobre o futuro do
trabalhismo após a morte do velho caudilho. Tais indefinições persistem 20 anos
depois.
Ainda
que seja muito difícil saber se ele vai conseguir se transformar e renovar-se
para sobreviver, não há dúvida de que o trabalhismo pode ser reconhecido como
uma das ideologias e tradições
mais importantes da
cultura política do Brasil republicano (GOMES, 2004, p. 19).
Referências
ALVES,
José Cláudio. 'Os dois segmentos que organizam o crime no Rio - o Estado e as
facções - saíram vitoriosos'. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. 10
dez 2010. Disponível em: < https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/os-dois-segmentos-que-organizam-o-crime-no-rio-o-estado-e-faccoes-sairam
>. Acesso 11 abr 2024.
GOMES,
Ângela de Castro. Brizola e o trabalhismo. In: Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n.
19/20, p.11-20, jan./dez. 2004.
HISTÓRIA
FM 134: Trabalhismo: das origens ao seu desenvolvimento no Brasil. Entrevistador:
Icles Rodrigues. Entrevistado: Reinaldo Lohn . [s.l.] Leitura ObrigaHISTÓRIA,
01 mai. 2023. Podcast. Disponível em < https://leituraobrigahistoria.com/podcast/trabalhismo-das-origens-ao-seu-desenvolvimento-no-brasil/ >.
Acesso em: 11 abr 2024
SENTO-SÉ,
João Trajano de Lima. De Getúlio Vargas a Cristiane Brasil, como o PTB passou
do trabalhismo histórico aos ataques à Justiça do Trabalho. BBC Brasil. 31 jan
2018. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42881692
>. Acesso em 11 abr 2024.
Notas
[1]
Fundador do PDT, Brizola ganha documentário sobre sua história
https://www.boletimdaliberdade.com.br/2024/03/20/fundador-do-pdt-brizola-ganha-documentario-sobre-sua-historia/
[2]
O dia que a TV Manchete destronou a TV Globo na transmissão do Carnaval do Rio
https://bafafa.com.br/arte-e-cultura/carnaval/o-dia-que-a-tv-manchete-destronou-a-tv-globo-na-transmissao-do-carnaval-do-rio