domingo, 28 de abril de 2024

Filme Guerra Civil enaltece o jornalismo e alerta sobre o perigo do extremismo de direita


Estreou neste mês de abril o filme Guerra Civil, do diretor Alex Garland, uma superprodução americana estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura. O filme é antes de mais nada uma exaltação do papel do jornalismo, e, mais especificamente, do fotojornalismo, na defesa e manutenção da democracia e no registro de grandes guerras e conflitos. Moura é um repórter viciado em adrenalina que, ao lado de Kirsten Dunst, que é uma veterana fotógrafa de guerra, e mais dois profissionais de imprensa (Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson), viaja os EUA para uma entrevista com um presidente que está prestes a ser derrubado por rebeldes numa guerra civil.

 

O filme retrata o jornalismo em sua essência, como ele deve ser – isento e imparcial –, e não como ele é na prática, com seus vieses e interesses.  “Nós gravamos para que outras pessoas possam fazer as perguntas”, diz a fotógrafa interpretada por Dunst em certo momento [1]. Ainda que essa escolha narrativa soe ingênua, ela é compreensível dentro do contexto político atual, de ataques nem sempre justos à imprensa, em parte suplantada por máquinas de desinformação que são muito piores que ela.

 

Sobre o contexto político, o filme tem recebido críticas por não se aprofundar em questões ideológicas e nas razões que levaram ao caos retratado na trama. Discordo parcialmente. Ainda que o filme propositadamente seja superficial nas questões políticas, ele está longe de ser “isentão”, como alguns críticos e espectadores apontam [2]. Fico com as palavras do diretor: “O filme oferece respostas, mas de forma sutil” [3].

 

Ainda que tente colocar uma névoa em sua posição política, como mostrando uma aliança rebelde entre Califórnia e Texas (estados tradicionalmente de alinhamentos políticos opostos: o primeiro, mais democrata; o segundo, mais republicano), a obra dá algumas pistas sobre o que propõe. Temos um presidente americano que está em seu terceiro mandato - o que é inconstitucional –, que dissolveu as instituições (o FBI, por exemplo), que em seu discurso fala em Deus, pátria e “americanos de bem”, cujos apoiadores atiram na imprensa. Na cena mais tensa e perturbadora da trama, um soldado governista ameaça a equipe de imprensa e pergunta que tipo de americanos eles são. O purismo racial e a xenofobia (principalmente contra chineses) ficam claros. Tiago Gayet, pós-graduado em Sociologia pela USP e professor de História, fala sobre esses aspectos:

 

‘Make America Great Again‘ era a máxima da campanha de Trump, assim como os meios para devolver aos EUA seu louvor: construir uma muralha anti-imigrantes. Lembra bastante o modus operandi do nazi-fascismo do entreguerras (1919-1939), de enaltecer uma construção idílica de pátria, colocá-la ‘acima de tudo’ e apontar supostos culpados indesejáveis nesse paraíso a ser construído: comunistas, judeus, populações racializadas etc. [1]

 

Do outro lado, o das Forças Ocidentais que querem depor o presidente, há soldados negros, asiáticos e mulheres. Suas bases têm pichações multicoloridas, o que possivelmente é usado como recurso narrativo para apontar para uma multidiversidade. Essas cores diversas também estão em detalhes como cabelos e unhas de alguns soldados (o que apontaria para o movimento LGBT+) [4]. Além disso, essas bases militares rebeldes são mais receptivas à equipe de imprensa (o que nem é difícil, já que o lado oposto está matando jornalistas).

 

Em entrevista, Wagner Moura disse que o filme alerta para o risco da polarização [5]. Mas isso não é tudo, pois polarização é um fenômeno antigo, seja nos EUA (entre republicanos e democratas), seja no Brasil (basta lembrar da polarização pós-redemocratização, entre PT e PSDB) [6]. Já Alex Garland disse que o filme é um alerta sobre o extremismo [3]. Também não é tudo, já que o extremismo de esquerda é muito pequeno na maior parte do mundo. Por isso proponho que o filme é um alerta sobre o extremismo de direita. Esse sim, significativo e que tem tomado algumas das principais potências econômicas. É a partir deste contexto atual que a distopia de Guerra Civil é construída. Como explica Gayet:

 

Na França, a extrema-direita cresce e ameaça ganhar eleições; na Alemanha, núcleos neonazistas também somam recorde histórico desde o fim da Segunda Guerra. Nos EUA, Trump ressurge com forças renovadas. Não existe polarização, mas sim uma verdadeira campanha de radicalização das pessoas para que encontrem um culpado entre as minorias (pessoas racializadas, LGBTQIA+, minorias religiosas, imigrantes), e elejam políticos da extrema direita. [1]

 

Sobre a polarização, para Gayet, essa suposta polarização acontece quando pessoas contrárias a esses valores extremistas resolvem fazer oposição. De certo modo, as palavras do historiador são parecidas com as do próprio diretor do filme, quando disse em entrevista que “a crise mundial hoje não é entre esquerda e direita, mas entre extremistas e o centro” [3]

 

Para além dessa discussão, vale ressaltar um aspecto técnico do filme: seu design de som é excelente, com sequências de tiros e bombas sendo intercalados com flashes de câmeras fotográficas, além de muitas hélices de helicópteros. Sem contar uma trilha sonora também bastante interessante. A sequência do confronto em Washington, lá pelo final do filme, é uma longa pancada na orelha. No bom sentido! Podem escrever: Guerra Civil certamente será indicado para alguns dos principais prêmios ligados a som.

 

Referências:

[1] “Guerra Civil”: o que o filme com Wagner Moura ensina sobre História e política

https://guiadoestudante.abril.com.br/dica-cultural/guerra-civil-o-que-o-filme-com-wagner-moura-ensina-sobre-historia-e-politica/

 

[2] Civil War (Guerra Civil) - Crítica: reverência ao fotojornalismo

https://www.youtube.com/watch?v=HfbhlG

 

[3] “O extremismo mata”, diz Alex Garland, diretor do sucesso ‘Guerra Civil’

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/o-extremismo-mata-diz-alex-garland-diretor-do-sucesso-guerra-civil

 

[4] GUERRA CIVIL: É isso que nos aguarda?

https://www.youtube.com/watch?v=flHlSwbU21M

 

[5] Guerra Civil é um filme sobre os perigos da polarização, diz Wagner Moura

https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/282119-guerra-civil-filme-perigos-polarizacao-diz-wagner-moura.htm

 

[6] POLARIZAÇÃO? ANTAGONISMOS POLÍTICOS NO BRASIL

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/polarizacao-antagonismos-politicos-no-brasil/

 

 


sexta-feira, 12 de abril de 2024

“Brizola”: documentário estreia em festival e conta a história do líder trabalhista

 


Estreou no Rio de Janeiro, no último domingo, dia 7, no festival de documentários É Tudo Verdade, o filme “Brizola”, sobre a vida deste que foi uma das maiores lideranças políticas do Brasil no século 20. Ainda dentro da programação do festival, o filme foi novamente exibido na terça-feira, dia 9, também no Rio, e em São Paulo, nos dias 12 e 13 de abril. Depois disso, a previsão é de que “Brizola” seja lançado no Canal Curta!.

 

A sessão de estreia ficou lotada. As cadeiras da sala do Estação NET, em Botafogo, não foram suficientes. As cadeiras extras também não foram, e teve gente que precisou assistir ao filme no chão mesmo. Dentre os presentes, algumas lideranças do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado por Brizola em 1980, como a deputada estadual Martha Rocha, presidente do PDT-Rio. Na tela, muitos nomes clássicos da legenda, que com seus depoimentos ajudam a recontar a história de Leonel Brizola, como Darcy Ribeiro, Miro Teixeira, Nilo Batista, dentre outros.

 

Ao dar as boas-vindas ao público, Amir Labaki, organizador do festival, disse que “Brizola foi uma daquelas pessoas que só não fez mais pelo Brasil porque não pôde. Se pudesse ter feito mais, nosso país seria muito melhor”. Dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho (Dona Rosa Filmes), o filme emocionou do início ao fim em sua exibição de estreia, provocando diversos momentos de aplausos, levando o público às lágrimas, mas também às risadas, com algumas das tiradas espirituosas de seu protagonista, notoriamente conhecido por ter sido um líder político carismático e personalista.

 

Os realizadores contaram com o apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo de suas quatro décadas de existência e com o trabalho de pesquisa do Centro de Memória Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP). Falar sobre Brizola é também contar uma parte significativa da história do trabalhismo brasileiro. Juntamente com Getúlio Vargas e João Goulart (Jango), o fundador do PDT forma o trio emblemático dessa corrente política que, como conceitua o professor Reinaldo Lohn (HISTÓRIA FM 134, 2023), se caracteriza como um conjunto de práticas de reformismo social voltadas para a extensão e ampliação de direitos sociais, com foco nas classes trabalhadoras.

 

O trabalhismo não pressupõe uma perspectiva de superação do capitalismo, mas a convivência entre o capitalismo e o mundo dos direitos sociais. Isso vai se configurar com muita densidade em países europeus. O caso clássico é o da Inglaterra, que se estendeu para todo o Reino Unido por meio do Partido Trabalhista Britânico. No Brasil, o termo foi apropriado nos anos 30 e 40. A noção internacional de trabalhismo, no caso brasileiro, serve como uma roupagem. Aqui, nossa invenção do trabalhismo tem uma trajetória toda própria, relacionada ao getulhismo ou varguismo. O reformismo social aqui está presente, mas o encaminhamento dessas reformas é distinto, numa trajetória latino-americana (HISTÓRIA FM 134, 2023).

 

A narrativa do filme começa com o retorno de Brizola ao Brasil, em 1979, após um longo exílio de 15 anos no qual ele passou por países como Uruguai, Estados Unidos e Portugal. Naquela ocasião, Brizola retornara a solo brasileiro sendo considerado o inimigo número um da ditadura militar que o expulsara do país, permanecendo no posto de inimigo número um até o fim do regime. O filme então recapitula a trajetória do líder político alinhado ao então vigente processo de redemocratização, começando por seu nascimento e infância pobre, em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul.

 

Sua formação – graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e seu ingresso na carreira política são retratados brevemente. Nessa época, em que Getúlio Vargas era a mais notória personalidade política do país, o jovem Brizola entra para o recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que não deve ser confundido de forma alguma com o PTB mais recente, do período de redemocratização, que abrigou figuras como Roberto Jefferson e que no fim do ano passado se fundiu ao Patriotas. Mas essa história é contada mais à frente pelo filme.

 

Após se eleger deputado estadual e federal e prefeito de Porto Alegre, em 1958 o caudilho é eleito governador do Rio Grande do Sul. É nesse cargo que Brizola se notabiliza como defensor do processo democrático, ao coordenar o que ficou conhecido como “campanha da legalidade”. Com a renúncia de Jânio Quadros, o sucessor legal e direto na presidência do país era Jango. Diante da iminência de um golpe, mobilizado por setores das elites conservadoras do país desfavoráveis a Jango, Brizola, aliado ao comando do III Exército, lidera em 1961 civis e militares em uma grande mobilização para que a sucessão presidencial se desse conforme a Constituição vigente à época. Por isso o nome “campanha da legalidade”. Tratava-se de um movimento para que a lei fosse cumprida.

 

Naquele momento, o golpismo fora derrotado e Jango assume a presidência. Mas três anos depois, em 1964, os golpistas teriam sua revanche. Jango é deposto. Brizola se propõe a resistir ao golpe, mas Jango, temendo um derramamento de sangue e não vendo alternativa, se resigna com o exílio. O filme pontua bem as diferenças entre as duas grandes figuras trabalhistas daquela época: de um lado, um Jango moderado que parecia acreditar demais na conciliação e na possibilidade de governar com o apoio da direita; de outro, um Brizola mais inflamado, mais à esquerda e disposto ao risco de uma possível luta armada. Golpe posto, ambos têm de sair do país.

 

O filme enfatiza, deixa claro, inclusive pelas palavras do próprio Brizola, que os golpistas de 64 eram os mesmos que tentaram o golpe em 1961, que por sua vez eram os mesmos que, anos antes, tentaram também golpear Getúlio Vargas. Essa tradição golpista fica bem caracterizada no documentário de Marco Abujamra. Em entrevista, o diretor destacou que Brizola usou seu poder de comunicação para “promover ideias consideradas extremistas e comunistas” pelos setores conservadores.  De acordo com Abujamra, “é surpreendente que, em 2024, as mesmas ideias continuem a ser consideradas extremistas por grande parte da população”, disse o diretor [1].

 

O filme parece sugerir um certo caráter cíclico da história, mostrar as continuidades, um passado que ainda se faz presente. Mesmo após o golpe, durante e depois do exílio, os ditadores não deixaram de dificultar as coisas para o velho caudilho. Em 1980, já de volta ao Brasil, Brizola tenta refundar o PTB para protagonizar à frente do histórico partido a retomada do processo democrático. Mas a ditadura militar, mesmo desgastada àquela altura, consegue dar mais uma cartada e, numa manobra jurídica por meio do Tribunal Superior Eleitoral, é concedido o direito ao uso da legenda a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas e alinhada aos conservadores. João Trajano de Lima Sento-Sé, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), fala sobre a disputa entre Ivete e Brizola:

 

O processo de redemocratização foi controlado pelas elites vinculadas aos militares de forma que o poder não escapasse destas mãos. O trabalhismo era o grande fantasma e tinha um nome singular que assustava especialmente: o de Brizola. Os setores conservadores influenciaram decisivamente na vitória judicial de Ivete Vargas. É historiograficamente aceito que a decisão judicial teve clara influência dos militares (SENTO-SÉ, 2018).

 

Derrotado na disputa pela legenda PTB, Brizola funda o PDT. O novo partido, herdeiro do trabalhismo histórico, é bastante influente no processo de redemocratização, agitando as massas por democracia, ou, nas palavras do próprio Brizola, “com essas três letras vamos eletrizar o Brasil”. Aqui temos mais um ponto de destaque na narrativa de Abujamra: os dois mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro: de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994.

 

O primeiro mandato é marcado pela criação dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), projeto elaborado por Darcy Ribeiro. As unidades, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, foram popularmente batizadas de “Brizolões”. A iniciativa era bastante avançada para os padrões do ensino público da época (e até para os dias de hoje), com ensino em tempo integral, muitas atividades esportivas, recreativas e culturais, atendimento médico e odontológico para as crianças, dentre outros serviços. Mas uma parcela da sociedade considerava o projeto dos Cieps caro demais. Brizola respondia que “cara é a ignorância”.

 

Nesse ponto o filme mostra com clareza um embate político que marcaria os mandatos de Brizola no Rio de Janeiro e a esfera pública fluminense: de um lado, os apoiadores de Brizola, aqueles que apostavam na educação e na extensão de um estado de direitos sociais para as camadas mais pobres da sociedade; de outro, adversários de Brizola apostavam na segurança pública e aumento da repressão contra uma criminalidade que, segundo eles, havia se ampliado no Rio de Janeiro comandado por Brizola.

 

Venceu o segundo grupo e, aos poucos, o projeto dos Cieps foi descontinuado. Por outro lado, a situação da segurança pública no estado também piorou. O filme retrata o quanto a má fama com a qual Brizola teve que conviver até o fim de sua vida, de ser um político que contribuiu para o aumento da violência e criminalidade, foi inflada por seus adversários conservadores e pela mídia – principalmente pela Rede Globo. Aliás, o célebre direito de resposta que o caudilho conseguiu na justiça contra a emissora, lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, é um dos momentos mais marcantes do documentário e que mais despertou reações da plateia na sessão de estreia.

 

Cabe acrescentar que, ao ser alvo de uma campanha de desconstrução da imagem enquanto suposto responsável por uma crise de segurança pública, Brizola seria só o primeiro de uma sequência de políticos do Rio de Janeiro desgastados por um tipo de marketing eleitoral folclórico da política fluminense que é a criação da figura do político “defensor de bandido”. Geralmente, essa acusação de “defensor de bandido” recai em políticos de esquerda e centro-esquerda. Brizola foi o primeiro (no Rio, chegaram a apelidar cocaína de “Brizola”), seguido por Benedita da Silva, Fernando Gabeira (“quem fuma e cheira vota no Gabeira”, diziam), Marcelo Freixo e até Marielle Franco, ainda que esta não tenha tido tempo para disputar um mandato no Executivo. Setores à direita tiram proveito desse discurso. Curiosamente, governadores que foram efetivamente parar na cadeia, como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, não sofreram com essa pecha.

 

A acusação a Brizola não é amparada em dados concretos sobre criminalidade. Passados 30 anos do fim de seu segundo mandato como governador, a violência no estado do Rio de Janeiro segue alarmante, inclusive com o aprofundamento do problema das milícias e o aumento de sua infiltração no estado. O sociólogo José Cláudio Alves, com pesquisa sobre a violência no Grande Rio, ressalta essa falta de fundamentação na desconstrução da imagem do velho caudilho.

 

Ao meu ver isso é uma espécie de criação de um bode expiatório político. O Brizola tinha uma política de não abuso, não violência contra membros de favelas e comunidades pobres, por conta da própria lógica do populismo, da qual o Brizola vem - herança de Getúlio Vargas, de um poder calcado no popular (ALVES, 2010).

 

Mesmo sucateado com o passar dos anos, o projeto dos Cieps ainda influenciaria outras iniciativas de ensino público no Brasil, como os Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics), do governo Collor, e as Escolas do Amanhã, do governo Eduardo Paes no município do Rio. O filme nos mostra a inspiração brizolista sobre os Caics. Nesse ponto, o diretor Abujamra parece superdimensionar o peso da influência de Brizola em Collor como uma das possíveis razões que culminariam no processo de impeachment deste último, ao levantar a hipótese de um Roberto Marinho bastante insatisfeito com Collor por causa do projeto das escolas federais, brizolistas demais para o gosto do barão da comunicação. A insatisfação do megaempresário, adversário político de Brizola, teria sido, na perspectiva do filme, crucial para que a Globo retirasse o apoio político dado a Collor e que anos antes ajudara a elegê-lo.    

 

Outros feitos de Leonel Brizola recebem destaque no filme, como a criação do Sambódromo, em 1984, que foi cercada de polêmicas e críticas – para variar – das Organizações Globo. “Contrária às novas regras, inclusive o desfile em dois dias, a TV Globo e O Globo boicotaram a obra e praticamente torciam para ela não ficar pronta a tempo. Diariamente, um ‘especialista’ era chamado a opinar para criticar o projeto” [2].

 

Lançado no ano em que se completam 40 anos de Sambódromo e 20 da morte de Leonel Brizola, o documentário nos ajuda a entender o cenário político brasileiro do século 20 e suas continuidades no século 21. E deixa no espectador uma sensação de que o Brasil seria melhor se Brizola tivesse podido fazer mais, como bem disse o organizador do festival antes do início da exibição. Para quem quiser saber mais sobre Brizola e o trabalhismo, recomendamos o artigo de Ângela de Castro Gomes, cujo nome é justamente “Brizola e o Trabalhismo” (GOMES, 2004). Escrito na ocasião da morte de Brizola, a autora fez indagações sobre o futuro do trabalhismo após a morte do velho caudilho. Tais indefinições persistem 20 anos depois.

 

Ainda que seja muito difícil saber se ele vai conseguir se transformar e renovar-se para sobreviver, não há dúvida de que o trabalhismo pode ser reconhecido como uma das ideologias  e  tradições  mais  importantes  da  cultura política do Brasil republicano (GOMES, 2004, p. 19).

 

 

Referências

ALVES, José Cláudio. 'Os dois segmentos que organizam o crime no Rio - o Estado e as facções - saíram vitoriosos'. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. 10 dez 2010. Disponível em: < https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/os-dois-segmentos-que-organizam-o-crime-no-rio-o-estado-e-faccoes-sairam >. Acesso 11 abr 2024.

 

GOMES, Ângela de Castro. Brizola e o trabalhismo. In: Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p.11-20, jan./dez. 2004.

 

HISTÓRIA FM 134: Trabalhismo: das origens ao seu desenvolvimento no Brasil. Entrevistador: Icles Rodrigues. Entrevistado: Reinaldo Lohn . [s.l.] Leitura ObrigaHISTÓRIA, 01 mai. 2023. Podcast. Disponível em < https://leituraobrigahistoria.com/podcast/trabalhismo-das-origens-ao-seu-desenvolvimento-no-brasil/ >. Acesso em: 11 abr 2024

 

SENTO-SÉ, João Trajano de Lima. De Getúlio Vargas a Cristiane Brasil, como o PTB passou do trabalhismo histórico aos ataques à Justiça do Trabalho. BBC Brasil. 31 jan 2018. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42881692 >. Acesso em 11 abr 2024.

 

Notas

[1] Fundador do PDT, Brizola ganha documentário sobre sua história

https://www.boletimdaliberdade.com.br/2024/03/20/fundador-do-pdt-brizola-ganha-documentario-sobre-sua-historia/

 

[2] O dia que a TV Manchete destronou a TV Globo na transmissão do Carnaval do Rio

https://bafafa.com.br/arte-e-cultura/carnaval/o-dia-que-a-tv-manchete-destronou-a-tv-globo-na-transmissao-do-carnaval-do-rio