Estreou
neste mês de abril o filme Guerra Civil, do diretor Alex Garland, uma
superprodução americana estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura. O filme é
antes de mais nada uma exaltação do papel do jornalismo, e, mais
especificamente, do fotojornalismo, na defesa e manutenção da democracia e no
registro de grandes guerras e conflitos. Moura é um repórter viciado em
adrenalina que, ao lado de Kirsten Dunst, que é uma veterana fotógrafa de guerra,
e mais dois profissionais de imprensa (Cailee Spaeny e Stephen McKinley
Henderson), viaja os EUA para uma entrevista com um presidente que está prestes
a ser derrubado por rebeldes numa guerra civil.
O
filme retrata o jornalismo em sua essência, como ele deve ser – isento e
imparcial –, e não como ele é na prática, com seus vieses e interesses. “Nós gravamos para que outras pessoas possam
fazer as perguntas”, diz a fotógrafa interpretada por Dunst em certo momento
[1]. Ainda que essa escolha narrativa soe ingênua, ela é compreensível dentro
do contexto político atual, de ataques nem sempre justos à imprensa, em parte
suplantada por máquinas de desinformação que são muito piores que ela.
Sobre
o contexto político, o filme tem recebido críticas por não se aprofundar em
questões ideológicas e nas razões que levaram ao caos retratado na trama.
Discordo parcialmente. Ainda que o filme propositadamente seja superficial nas
questões políticas, ele está longe de ser “isentão”, como alguns críticos e
espectadores apontam [2]. Fico com as palavras do diretor: “O filme oferece
respostas, mas de forma sutil” [3].
Ainda
que tente colocar uma névoa em sua posição política, como mostrando uma aliança
rebelde entre Califórnia e Texas (estados tradicionalmente de alinhamentos
políticos opostos: o primeiro, mais democrata; o segundo, mais republicano), a
obra dá algumas pistas sobre o que propõe. Temos um presidente americano que
está em seu terceiro mandato - o que é inconstitucional –, que dissolveu as
instituições (o FBI, por exemplo), que em seu discurso fala em Deus, pátria e
“americanos de bem”, cujos apoiadores atiram na imprensa. Na cena mais tensa e
perturbadora da trama, um soldado governista ameaça a equipe de imprensa e
pergunta que tipo de americanos eles são. O purismo racial e a xenofobia
(principalmente contra chineses) ficam claros. Tiago Gayet, pós-graduado em
Sociologia pela USP e professor de História, fala sobre esses aspectos:
‘Make
America Great Again‘ era a máxima da campanha de Trump, assim como os meios
para devolver aos EUA seu louvor: construir uma muralha anti-imigrantes. Lembra
bastante o modus operandi do nazi-fascismo do entreguerras (1919-1939), de
enaltecer uma construção idílica de pátria, colocá-la ‘acima de tudo’ e apontar
supostos culpados indesejáveis nesse paraíso a ser construído: comunistas,
judeus, populações racializadas etc.
[1]
Do
outro lado, o das Forças Ocidentais que querem depor o presidente, há soldados
negros, asiáticos e mulheres. Suas bases têm pichações multicoloridas, o que
possivelmente é usado como recurso narrativo para apontar para uma multidiversidade.
Essas cores diversas também estão em detalhes como cabelos e unhas de alguns
soldados (o que apontaria para o movimento LGBT+) [4]. Além disso, essas bases
militares rebeldes são mais receptivas à equipe de imprensa (o que nem é
difícil, já que o lado oposto está matando jornalistas).
Em
entrevista, Wagner Moura disse que o filme alerta para o risco da polarização
[5]. Mas isso não é tudo, pois polarização é um fenômeno antigo, seja nos EUA
(entre republicanos e democratas), seja no Brasil (basta lembrar da polarização
pós-redemocratização, entre PT e PSDB) [6]. Já Alex Garland disse que o filme é
um alerta sobre o extremismo [3]. Também não é tudo, já que o extremismo de
esquerda é muito pequeno na maior parte do mundo. Por isso proponho que o filme
é um alerta sobre o extremismo de direita. Esse sim, significativo e que tem
tomado algumas das principais potências econômicas. É a partir deste contexto
atual que a distopia de Guerra Civil é construída. Como explica Gayet:
Na
França, a extrema-direita cresce e ameaça ganhar eleições; na Alemanha, núcleos
neonazistas também somam recorde histórico desde o fim da Segunda Guerra. Nos
EUA, Trump ressurge com forças renovadas. Não existe polarização, mas sim uma
verdadeira campanha de radicalização das pessoas para que encontrem um culpado
entre as minorias (pessoas racializadas, LGBTQIA+, minorias religiosas,
imigrantes), e elejam políticos da extrema direita. [1]
Sobre
a polarização, para Gayet, essa suposta polarização acontece quando pessoas
contrárias a esses valores extremistas resolvem fazer oposição. De certo modo,
as palavras do historiador são parecidas com as do próprio diretor do filme,
quando disse em entrevista que “a crise mundial hoje não é entre esquerda e
direita, mas entre extremistas e o centro” [3]
Para
além dessa discussão, vale ressaltar um aspecto técnico do filme: seu design de
som é excelente, com sequências de tiros e bombas sendo intercalados com
flashes de câmeras fotográficas, além de muitas hélices de helicópteros. Sem
contar uma trilha sonora também bastante interessante. A sequência do confronto
em Washington, lá pelo final do filme, é uma longa pancada na orelha. No bom
sentido! Podem escrever: Guerra Civil certamente será indicado para alguns dos
principais prêmios ligados a som.
Referências:
[1] “Guerra Civil”: o que
o filme com Wagner Moura ensina sobre História e política
[2] Civil War (Guerra
Civil) - Crítica: reverência ao fotojornalismo
https://www.youtube.com/watch?v=HfbhlG
[3] “O extremismo mata”,
diz Alex Garland, diretor do sucesso ‘Guerra Civil’
[4] GUERRA CIVIL: É isso
que nos aguarda?
https://www.youtube.com/watch?v=flHlSwbU21M
[5] Guerra Civil é um
filme sobre os perigos da polarização, diz Wagner Moura
[6] POLARIZAÇÃO?
ANTAGONISMOS POLÍTICOS NO BRASIL
https://leituraobrigahistoria.com/podcast/polarizacao-antagonismos-politicos-no-brasil/

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