Cláudio
Castro avança com indicações políticas sem respaldo técnico na Ciência e
Tecnologia do Estado
Manifestantes
fizeram nessa quinta-feira, dia 24, um abraço coletivo simbólico na sede da
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
(Faperj), no Centro do Rio. A manifestação, que reuniu principalmente
pesquisadores do estado e funcionários da entidade, teve como motivação evitar
que a fundação de amparo a pesquisas científicas seja presidida pelo empresário
e ex-deputado federal Alexandre Valle. Bolsonarista e membro do PL, Valle seria
o nome do governador Cláudio Castro para a Faperj, o que contraria fortemente a
posição da comunidade científica do Rio de Janeiro, que quer a permanência do
professor e pesquisador Jerson Lima da Silva na instituição.
A
manifestação conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), duas das maiores
entidades científicas do país. Em carta para o governador do Rio de Janeiro,
SBPC e ABC destacaram o impacto positivo da gestão de Jerson Lima na inovação e
no desenvolvimento científico do estado. A carta chama a atenção para o risco
de que a escolha da liderança da Faperj seja meramente uma indicação
partidária, o que pode comprometer a excelência científica e tecnológica que
tem sido marca da fundação.
Jerson
Lima da Silva, o atual presidente da Faperj, é médico, professor titular da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um pesquisador altamente reconhecido na área
de biologia estrutural e doenças neurodegenerativas e câncer no Brasil e no
exterior. Já o bolsonarista Alexandre Valle tem perfil estritamente político, sem
nenhuma ligação com a área de pesquisa e atuação como pesquisador. Valle é
empresário no ramo de seguros, já se candidatou algumas vezes à Prefeitura de
Itaguaí e foi derrotado em todas as ocasiões, inclusive na eleição deste ano,
mesmo com o apoio de Bolsonaro e de outras figuras da extrema direita, como
Nikolas Ferreira.
Atualmente
a Faperj coordena mais de 6 mil bolsistas (de pré-iniciação científica,
iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e mais de 9 mil pesquisadores.
As lideranças envolvidas na manifestação em defesa da Fapesp entendem que a
pessoa à frente da fundação precisa ter um currículo compatível com a
responsabilidade do fomento à pesquisa.
Além
da SBPC e da ABC, a manifestação em repúdio à interferência política (sem o
mínimo de respaldo técnico) na Faperj inclui outras vozes importantes, como a
Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), que em nota destacou que uma nomeação
estritamente política para gerir a fundação “vulnerabiliza a Faperj, coloca em
risco o planejamento da agência e enfraquece a pesquisa em tecnologia e
inovação no Rio de Janeiro”.
Deputadas do PCdoB em defesa da
Faperj
Parlamentares
do Rio de Janeiro que têm como bandeira a defesa da ciência já se manifestaram
contra mais essa decisão do governador Cláudio Castro. A deputada estadual, professora
universitária e vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj,
Dani Balbi (PCdoB) destacou que a Faperj é um dos principais pilares de apoio à
ciência, à tecnologia e à inovação no Estado do Rio de Janeiro e que o setor de
CT&I deve ser tratado como uma questão de Estado, e não apenas de governo,
pois demanda planejamento de longo prazo. A deputada acaba de protocolar o
Projeto de Lei 4328/2024, que altera a Lei nº 3.783, de 18 de março de 2002,
para que o cargo de presidente da Faperj passe a ser necessariamente indicado
por lista tríplice, formulada pela comunidade científica. A parlamentar
explica:
–
A Lei 3.783, de 18 de março de 2002, garante ao diretor científico e ao diretor
de tecnologia um mandato de três anos, com nomeação a partir de uma lista
tríplice. No entanto, a presidência da instituição, que é responsável pela
direção geral de todas as atividades voltadas à consecução dos objetivos da fundação,
bem como por sua representação judicial e extrajudicial, permanece como um
cargo de livre nomeação e exoneração. Por essa razão, propõe-se que a nomeação
do presidente siga as mesmas regras aplicáveis aos diretores científico e de
tecnologia – explica Dani Balbi.
A
deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ) também se manifestou em defesa da
Faperj, de Jerson Lima da Silva e da ciência do Rio de Janeiro. A parlamentar
destacou que a Faperj sempre teve gestores comprometidos com a área de ciência,
tecnologia e inovação (CT&I).
–
O professor Jerson tem visão estratégica de longo prazo, honra e amplia esta
tradição para fazer da fundação um pilar do desenvolvimento científico,
tecnológico e de inovação do estado. A exoneração do professor contraria isso
tudo e não é aceitável. A Faperj não pode servir a indicações políticas
–resumiu Jandira.
Secretário de Ciência do Estado já
propôs a extinção da Uerj
A
decisão pela exoneração do professor Jerson teria sido comunicada a ele há
poucos dias pelo secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Anderson Moraes,
também do PL e homem de confiança da família Bolsonaro. Quando falamos em
Anderson Moraes, o cenário de desrespeito às instituições científicas
fluminenses fica ainda mais caracterizado. Em 2021, quando era deputado
estadual, Anderson Moraes protocolou na Alerj nada mais nada menos que um
projeto para a extinção e venda da Uerj. Seu Projeto de Lei também previa que
bens e alunos da Uerj fossem remanejados para universidades particulares.
A
alegação de Anderson Moraes seria o gasto de dinheiro público para custear a
Uerj. Seu pedido também trazia traços claros de guerra cultural contra às
universidades, como a afirmação de haver “nítido aparelhamento ideológico de
viés socialista na universidade”. A depreciação da imagem das instituições de
ensino superior, com o uso de guerra cultural, pânico moral, negacionismo
científico e anti-intelectualismo/antiacademicismo, tem sido uma arma política
nas mãos da extrema direita no Brasil e no mundo.
Era
de se esperar que um político com uma agenda tão antagônica a uma instituição
de ensino e pesquisa passasse longe de um cargo público na área de Ciência e
Tecnologia. Entretanto, em junho deste ano, Cláudio Castro nomeou Moraes como secretário
de Ciência e Tecnologia do Estado, para a surpresa e indignação de grande parte
da comunidade científica fluminense. O geógrafo, professor e pesquisador da
Uenf, Marcos Pędłowski, destaca que, na ocasião da nomeação de Moraes, faltou mobilização
da comunidade científica.
–
Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação
[semelhante a que ocorre agora por causa da Faperj], o que considero um erro
óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está
hierarquicamente acima do presidente da Faperj – explica o geógrafo.
A
fala de Pędłowski acende um sinal de que, sem mobilização incisiva da
comunidade acadêmica e científica do Rio de Janeiro, a politização
institucional do setor à extrema direita e sem o cumprimento de requisitos
técnicos mínimos tende a piorar.
A
comunidade científica e acadêmica da Uerj criou uma petição pública contrária a
saída do professor Jerson Lima da presidência da Faperj, que até o momento tem
mais de 22 mil assinaturas. O texto do abaixo-assinado destaca que “A Faperj é
essencial para o financiamento da ciência no estado do RJ, apoiando não só as
universidades estaduais e federais, como também diversas frentes que valorizam
a sociedade fluminense”.
As
assinaturas serão entregues ao governador Cláudio Castro. Quem quiser assinar
deve acessar o endereço abaixo:


