segunda-feira, 24 de junho de 2024

Brasil Paralelo mira licenciatura para formar novos professores

 

Fundadores da Brasil Paralelo: estudantes de administração da ESPM

A empresa de entretenimento Brasil Paralelo, conhecida por suas produções de narrativas históricas frequentemente contestadas por historiadores profissionais, virou notícia na última semana por conta de duas situações diversas. Uma delas foi a repercussão de uma postagem no Instagram feita pela CEO e cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, na qual a empresária agradecia pelo convite que receberá para o evento "We Who Wrestle With God", palestra do psicólogo canadense Jordan Peterson, autor conhecido por suas posições conservadoras. No post, Junqueira agradece o convite e marca o perfil de Peterson, além dos perfis da Brasil Paralelo e da Fronteiras do Pensamento, respectivamente apoiadora e organizadora do evento.

 

A empresária postou o convite como story no Instagram. A publicação ficou disponível tempo suficiente para gerar diversas mensagens críticas de correntistas do Nubank que ameaçaram cancelar suas contas, alegando relação entre o banco e a empresa. Uma dessas mensagens dizia: "Olha, se você tá no @nubank pensa se deve realmente usufruir deste serviço... CEO da Nubank divulgando evento do Brasil Paralelo é bizarro e nojento". Outras mensagens explicavam o procedimento para o cancelamento da conta. A repercussão negativa foi grande o suficiente para que o Nubank emitisse nota afirmando ter um comportamento “apartidário” e não se associar a “movimentos políticos, religiosos ou ideológicos”.

 

A outra situação envolvendo a Brasil Paralelo foi a publicação de uma reportagem da Agência Pública mostrando como a empresa de entretenimento ligada à extrema direita vem agora investindo no ensino superior EAD, na formação de professores. O curso a distância (EAD) de licenciatura em história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, aprovado pelo MEC durante o governo Bolsonaro, funciona em parceria com a Brasil Paralelo e é coordenado pelo bolsonarista e monarquista Rafael Nogueira, que foi presidente da Biblioteca Nacional em 2019 e 2020.

 

Amanda Audi, jornalista da Agência Pública, matriculou-se no curso para fazer a reportagem. Ela explica que a ligação da universidade com a produtora de conteúdo conservador/reacionário chegou a ser anunciada na página que divulgava o vestibular (sendo posteriormente retirada por conta da repercussão da reportagem): “Somando-se ao cenário da educação brasileira e a real necessidade de educadores competentes e comprometidos em prol da qualidade da educação, a Brasil Paralelo, em parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro, oferece o vestibular especial de licenciatura em História”, dizia o texto, juntamente à logo da Brasil Paralelo.  

 

Ainda de acordo com a reportagem, a visão reacionária da produtora de conteúdo faz parte da base curricular do curso, que se propõe a “não omitir a versão cristã da História”, e alguns dos professores são diretamente ligados à Brasil Paralelo. O conteúdo das aulas é muito parecido com as produções da empresa. Por ter uma “visão cristã”, o curso defende, por exemplo, a atuação dos jesuítas contra indígenas, que os reis eram enviados divinos e as Cruzadas promovidas pela Igreja Católica foram algo necessário. Quem conclui o curso está apto a dar aulas de história para estudantes da educação infantil e ensinos fundamental e médio.

 

Para se matricular no curso do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, Amanda Audi conta que só precisou escrever dois parágrafos sobre um tema proposto – “consequências da pandemia” –, coisa que ela fez usando o ChatGPT. Já o coordenador do curso, Rafael Nogueira, além de monarquista e bolsonarista, é também professor em cursos da Brasil Paralelo e discípulo do falecido ideólogo Olavo de Carvalho, de quem decorre o termo “olavismo”, um arremedo de teorias anticomunistas e reacionárias que inclui grande aversão às universidades, à mídia, à classe artística e à esquerda de um modo geral. O olavismo e a Brasil Paralelo possuem clara interseção de conteúdos e ideias e dão lastro ideológico ao bolsonarismo.

 

Seguindo os padrões dos docentes do curso, Lucas Ribeiro Fernandes, professor da disciplina Brasil Colonial 1, se diz um fã da monarquia brasileira, especialmente da princesa Isabel. O conteúdo de sua matéria, em vez de mencionar o genocídio e a escravidão de povos indígenas, elogia os jesuítas, que tentavam “garantir que aqueles povos, que até então viveram encobertos do resto do mundo, pudessem acessar as verdades eternas como qualquer europeu”.

 

A polêmica parceria entre a Brasil Paralelo e a instituição de ensino superior vem à tona em um momento delicado para o setor. No início deste mês, o MEC suspendeu a criação de cursos EAD até março de 2025. Segundo o ministério, a decisão é parte do processo de revisão do marco regulatório da educação a distância (EAD), cujo objetivo é garantir a sustentabilidade e a qualidade dos cursos de graduação oferecidos. No mês passado, o MEC já havia definido que cursos EAD para formação de professores – caso do curso de história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro – devem ter metade de carga horária presencial.

 

O empreendimento empresarial e sua relação com a educação e governos

A Brasil Paralelo foi criada em 2016 por estudantes de Porto Alegre ligados à área de administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing, uma das universidades privadas mais caras do Brasil (a mensalidade do curso de administração na unidade de Porto Alegre está em R$ 6.057,00). Sua criação se deu no contexto da ascensão da onda conservadora e reacionária no país. A empresa teve enorme crescimento durante o governo Bolsonaro. Em 2020, com apenas quatro anos de existência, a Brasil Paralelo já faturava R$ 30 milhões anuais, um crescimento de 355% em relação ao ano anterior.

 

Ao longo de sua trajetória, o empreendimento ampliou sua produção, como com a criação da plataforma de streaming BP Select, além de iniciativas no setor educacional, como a parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro na curadoria do curso responsável por formar professores. A produtora anunciou que pretende financiar cursos de história, geografia e ciências sociais para estudantes de baixa renda e assim “formar a próxima geração de professores” do país.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo vai ampliando suas investidas no setor educacional, como forma de inserir entre alunos e futuros docentes seus conteúdos revisionistas ideológicos, negacionistas e conspiracionistas. Por ser um lastro ideológico da extrema direita, suas produções por vezes são adotadas como parte do conteúdo educativo oficial ligados a governos identificados com tal campo do espectro político. No mês passado, a Procuradoria-Geral de Justiça foi acionada por conta da Secretaria de Educação de São Paulo, do governo Tarcísio de Freitas, estar usando conteúdo do canal da Brasil Paralelo como fonte para o material didático digital enviado às escolas estaduais. Em 2019, durante o governo Bolsonaro, a TV Escola, ligada ao MEC, exibiu documentários da Brasil Paralelo. Um episódio inclusive trazia entrevista de Olavo de Carvalho.

 

Marketing, teoria conspiratória e negacionismos

A Brasil Paralelo dissemina um conteúdo com narrativas históricas amplamente criticado por historiadores devido a vários problemas. Além de a empresa investir muito mais em divulgação do que em pesquisa histórica propriamente dita, geralmente imitando o formato de produções de divulgação científica, com falas de especialistas (e não caberia aqui a discussão sobre em que medida as personalidades entrevistadas são ou não especialistas nos assuntos em que se propõem a falar), fazendo jus ao seu próprio nome, seu conteúdo frequentemente é vendido como uma alternativa à produção acadêmica convencional na área de história, como um tipo de “verdade paralela”. Algo que “o seu professor está escondendo de você”. Algo que “eles não querem que você saiba”.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo inclui em seu conteúdo um apelo de marketing muito semelhante ao de teorias conspiratórias: uma verdade que está sendo revelada e que fará daquele que a receber uma pessoa mais esperta que a média, livre das amarras de algum tipo de dominação e manipulação cultural. É um apelo de marketing que encontra ampla adesão não somente naqueles que possuem alguma identificação com ideias conservadoras e reacionárias, mas em um contingente enorme de pessoas que se sentem excluídas de oportunidades na sociedade, inclusive na área da educação, e por isso convenientemente acreditam que ao assistirem alguns poucos vídeos da produtora já “sabem mais que o professor”.

 

O mesmo modus operandi vale também para a filosofia e ciências humanas e sociais em geral. Mas não somente. A produtora chamou a atenção por conta de conteúdos negacionistas na ocasião da pandemia de coronavírus e também em relação às mudanças climáticas. Esse ponto veio à tona com as enchentes do Rio Grande do Sul, já que Ricardo Gomes, do PL, partido de Jair Bolsonaro, é vice-prefeito de Porto Alegre e também professor e apresentador da Brasil Paralelo. Gomes chegou a usar um boné da Brasil Paralelo em uma transmissão ao vivo durante o trabalho de resgate de vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Os conteúdos da empresa questionam que as emergências climáticas estejam diretamente relacionadas às atividades humanas, sobretudo ao aquecimento global impulsionado pela queima de combustíveis fósseis.

 

Guerras culturais, marxismo cultural e historiografia ultrapassada

É preciso entender a Brasil Paralelo e seu apelo de marketing conspiracionista dentro do contexto das guerras culturais. É no meio delas, alimentando-as e sendo alimentada por elas, que a empresa opera e produz seu conteúdo. O termo “guerras culturais” refere-se aos conflitos sociopolíticos e culturais de uma sociedade profundamente segregada, fragmentada. A expressão começou a ser usada nos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial e ganhou força principalmente a partir dos anos de 1980. No Brasil, as guerras culturais tiveram seus contornos melhor definidos com a popularização da internet e das redes sociais. Após a irrupção da onda conservadora a partir de 2013, a engrenagem que move e é movida pela Brasil Paralelo estava preparada. 

 

Dentro do contexto das guerras culturais, a Brasil Paralelo opera principalmente com a ideia de “marxismo cultural”, um tipo de teoria conspiratória fruto de leituras distorcidas de teóricos como Antonio Gramsci e Herbert Marcuse. Cada um desses pensadores, a sua maneira, falou sobre a necessidade e importância da conquista de corações e mentes no cenário político-cultural. O problema é que aqueles que acreditam na ideia de marxismo cultural acham que há uma ação orquestrada da esquerda junto à mídia, às universidades, às artes, à educação e à ciência em geral para dominar essas áreas e instrumentalizá-las para algum tipo de plano de manipulação das massas. Daí o marketing apelativo da Brasil Paralelo sobre seu conteúdo ser uma forma de libertação e de saber mais do que o professor.

 

Para abordarmos outros problemas do conteúdo da Brasil Paralelo precisamos entrar em aspectos mais técnicos de historiografia. Primeiramente, cabe fazer uma ressalva sobre o revisionismo. Ele costuma ser importante para o desenvolvimento da ciência histórica. Em ciência, de uma forma mais abrangente, na medida em que fontes e fatos novos surgem e refutam ou contestam antigas teorias, essas antigas teorias vão sendo deixadas de lado e novas teorias começam a ser elaboradas. A verdade da ciência é circunscrita ao tempo. Ela é uma verdade em seu tempo. Ou seja, um apontamento científico atual pode contrariar algo que já se entendeu como verdade há décadas atrás, mas esse mesmo apontamento científico atual pode ser refutado daqui a algumas décadas, na medida em que fatos novos surgem (costumo dizer que a ciência é a verdade que se tem pra hoje. Dito assim pode parecer pouco, mas isso é muita coisa!).

 

Na ciência histórica, o revisionismo faz esse trabalho de comparação entre antigas e novas teorias. Trabalho amparado por novos fatos e fontes. Só que isso é diferente do revisionismo político-ideológico da Brasil Paralelo, que não se baseia em novos fatos e fontes. Pelo contrário, trata-se de um arremedo requentado com base em uma historiografia antiga e ultrapassada. Chega a ser irônico, pois o revisionismo traz em si uma ideia de novidade, mas o que a produtora faz tem muita cara de século retrasado.

 

A historiografia do século 19 estava preocupada em consolidar a história como ciência e assim distingui-la da literatura. Eram tempos de escolas como o historicismo, o positivismo e a escola metódica. Aliás, o positivismo influenciou muito da ciência e filosofia daquele século. Para aqueles historiadores, a fonte primordial de pesquisa eram os documentos oficiais (e isso fazia sentido, naquele contexto cultural, para firmar a história enquanto ciência). Se por um lado historiadores e escolas historiográficas do século 19 foram fundamentais para criar um status de cientificidade à história, por outro, a grande valorização de documentos e acervos oficiais levou à escrita de uma história oficialesca, feita de cima para baixo. Afinal, quando ouvimos que “a história é escrita pelos vencedores”, em boa medida trata-se desse tipo de historiografia: se a prioridade são os documentos oficiais, esses documentos, por sua vez, quase que em sua totalidade são produzidos pelas instituições oficiais, que, do mesmo modo, quase que em sua totalidade são comandadas pelas elites dirigentes.

 

Portanto, por conta do tipo de fonte e da forma de pesquisa, essa história será principalmente uma história das elites. Dela decorre a construção das figuras de grandes heróis nacionais e seus grandes feitos. Essa história foi fundamental também para a formação das memórias oficiais dos estados nacionais. Entretanto, ao longo do século 20, outras escolas historiográficas e novas formas de pesquisa foram ganhando força, juntamente com a valorização de uma diversidade maior de fontes. Isso possibilitou o crescimento de uma historiografia mais plural e menos oficialesca. Mas apesar de um século de desenvolvimento da historiografia, as narrativas históricas da Brasil Paralelo refletem um jeito ultrapassado de se fazer história, por vezes defendendo teorias já refutadas.

 

Um bom exemplo é o que a produtora divulga a respeito da ditadura militar, tratando o golpe como um tipo de mal necessário para impedir que um regime comunista se instaurasse no Brasil. Só que essa era a narrativa dos golpistas e dos ditadores, como forma de legitimarem seu poder. Era a narrativa oficial do poder. Não cabe mais defende-la hoje em dia, após tantos arquivos que já foram abertos sobre a ditadura desde o fim do regime militar. Até arqueologia histórica em antigas sedes de órgãos de repressão foi e continua sendo feita. São muitas provas que se avolumam. Enfim, novos fatos e fontes que refutam teorias antigas. Mas a Brasil Paralelo, que investe pouco em pesquisa e muito em marketing e divulgação, ignora tudo isso. 

 

“Eles [a Brasil Paralelo] reabilitam uma historiografia hegemônica no século 19, que já foi superada por novas perspectivas – que por sua vez são deixadas de lado ou reduzidas a caricaturas,” diz o professor e historiador Murilo Cleto, que fez a sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre o revisionismo histórico da Brasil Paralelo [1]. “Muitos fãs da empresa Brasil Paralelo devem ter uma gravura do Varnhagen junto com outra do Olavo de Carvalho na parede da casa”, diz o professor e historiador Fernando Nicolazzi, ao se referir ao historiador do século 19 e sua história bastante conservadora [2]. Francisco Adolfo de Varnhagen foi uma espécie de historiador oficial do império, anti-indigenista e de pouco apreço pelos africanos.

 

Outro exemplo interessante diz respeito à escravidão. Pessoas com um pouco mais de idade aprenderam sobre escravidão nos tempos da escola com um certo protagonismo da princesa Isabel, reflexo de uma história oficialesca, centrada na figura de grandes heróis (geralmente representantes da elite) e que foi valorizada pela ditadura militar. A partir de uma nova historiografia e novas fontes, que chegaram aos livros didáticos nos últimos anos (vale destacar que novas correntes historiográficas levam um certo tempo até chegarem aos livros didáticos do ensino básico), outros protagonistas ganharam força, como Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Protagonistas de baixo para cima. Mas a Brasil Paralelo não se interessa muito por eles, porque, no fundo, quer uma narrativa histórica elitista, para dar lastro ideológico a um projeto político elitista.

 

Não à toa, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares na gestão bolsonarista, quis mudar o nome da instituição para “Fundação Princesa Isabel”. A intenção, mais do que revalorizar uma figura aristocrática da história do Brasil (e aqui não estamos negando o valor desta ou de outra figura) é também resgatar uma história aristocrática, de cima para baixo, dos vencedores, apagando ou reduzindo bastante as lutas e os personagens populares. A assinatura de um documento oficial como a Lei Áurea não dá conta de protagonizar uma luta de tantos anos como a da abolição. Apenas na cabeça daqueles inspirados por uma história oficialesca.

 

A Brasil Paralelo difunde uma visão decadentista de mundo, típica do reacionarismo, que idealiza e romantiza o passado. Essa visão pode ser percebida até em obras que se distanciam da história do Brasil como tema principal e falam sobre cultura, cinema etc. Um exemplo é o documentário “O fim da beleza”. Uma ideia central dessa e outras obras pode se resumir na manjada frase “antigamente é que era bom”, que sempre ouvimos por aí. Essa visão decadentista vai encontrar em uma historiografia ultrapassada e em um conjunto limitado de fontes algum refúgio e alguma viabilidade para fortalecer narrativas históricas dos vencedores e das elites. Se fosse uma unidade hospitalar, a Brasil Paralelo talvez estivesse promovendo sangrias nos pacientes para reequilibrar os quatro humores (bile negra, catarro, bile amarela e sangue), prática com origens na Antiguidade e que foi usada até o século 19. A medicina já deixou isso para trás, mas a Brasil Paralelo talvez repaginasse o procedimento, disfarçando-o de novidade rebelde, insurgente, esperta e fora da caixa.    

 

Referências:

[1] Coordenado por monarquista, curso ligado à Brasil Paralelo forma professores de história

https://apublica.org/2024/06/coordenado-por-monarquista-curso-ligado-a-brasil-paralelo-forma-professores-de-historia/

 

[2] Historiografia brasileira: a escrita da História no Brasil

https://www.youtube.com/watch?v=HhYGfT5SKfc&t=597s

domingo, 28 de abril de 2024

Filme Guerra Civil enaltece o jornalismo e alerta sobre o perigo do extremismo de direita


Estreou neste mês de abril o filme Guerra Civil, do diretor Alex Garland, uma superprodução americana estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura. O filme é antes de mais nada uma exaltação do papel do jornalismo, e, mais especificamente, do fotojornalismo, na defesa e manutenção da democracia e no registro de grandes guerras e conflitos. Moura é um repórter viciado em adrenalina que, ao lado de Kirsten Dunst, que é uma veterana fotógrafa de guerra, e mais dois profissionais de imprensa (Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson), viaja os EUA para uma entrevista com um presidente que está prestes a ser derrubado por rebeldes numa guerra civil.

 

O filme retrata o jornalismo em sua essência, como ele deve ser – isento e imparcial –, e não como ele é na prática, com seus vieses e interesses.  “Nós gravamos para que outras pessoas possam fazer as perguntas”, diz a fotógrafa interpretada por Dunst em certo momento [1]. Ainda que essa escolha narrativa soe ingênua, ela é compreensível dentro do contexto político atual, de ataques nem sempre justos à imprensa, em parte suplantada por máquinas de desinformação que são muito piores que ela.

 

Sobre o contexto político, o filme tem recebido críticas por não se aprofundar em questões ideológicas e nas razões que levaram ao caos retratado na trama. Discordo parcialmente. Ainda que o filme propositadamente seja superficial nas questões políticas, ele está longe de ser “isentão”, como alguns críticos e espectadores apontam [2]. Fico com as palavras do diretor: “O filme oferece respostas, mas de forma sutil” [3].

 

Ainda que tente colocar uma névoa em sua posição política, como mostrando uma aliança rebelde entre Califórnia e Texas (estados tradicionalmente de alinhamentos políticos opostos: o primeiro, mais democrata; o segundo, mais republicano), a obra dá algumas pistas sobre o que propõe. Temos um presidente americano que está em seu terceiro mandato - o que é inconstitucional –, que dissolveu as instituições (o FBI, por exemplo), que em seu discurso fala em Deus, pátria e “americanos de bem”, cujos apoiadores atiram na imprensa. Na cena mais tensa e perturbadora da trama, um soldado governista ameaça a equipe de imprensa e pergunta que tipo de americanos eles são. O purismo racial e a xenofobia (principalmente contra chineses) ficam claros. Tiago Gayet, pós-graduado em Sociologia pela USP e professor de História, fala sobre esses aspectos:

 

‘Make America Great Again‘ era a máxima da campanha de Trump, assim como os meios para devolver aos EUA seu louvor: construir uma muralha anti-imigrantes. Lembra bastante o modus operandi do nazi-fascismo do entreguerras (1919-1939), de enaltecer uma construção idílica de pátria, colocá-la ‘acima de tudo’ e apontar supostos culpados indesejáveis nesse paraíso a ser construído: comunistas, judeus, populações racializadas etc. [1]

 

Do outro lado, o das Forças Ocidentais que querem depor o presidente, há soldados negros, asiáticos e mulheres. Suas bases têm pichações multicoloridas, o que possivelmente é usado como recurso narrativo para apontar para uma multidiversidade. Essas cores diversas também estão em detalhes como cabelos e unhas de alguns soldados (o que apontaria para o movimento LGBT+) [4]. Além disso, essas bases militares rebeldes são mais receptivas à equipe de imprensa (o que nem é difícil, já que o lado oposto está matando jornalistas).

 

Em entrevista, Wagner Moura disse que o filme alerta para o risco da polarização [5]. Mas isso não é tudo, pois polarização é um fenômeno antigo, seja nos EUA (entre republicanos e democratas), seja no Brasil (basta lembrar da polarização pós-redemocratização, entre PT e PSDB) [6]. Já Alex Garland disse que o filme é um alerta sobre o extremismo [3]. Também não é tudo, já que o extremismo de esquerda é muito pequeno na maior parte do mundo. Por isso proponho que o filme é um alerta sobre o extremismo de direita. Esse sim, significativo e que tem tomado algumas das principais potências econômicas. É a partir deste contexto atual que a distopia de Guerra Civil é construída. Como explica Gayet:

 

Na França, a extrema-direita cresce e ameaça ganhar eleições; na Alemanha, núcleos neonazistas também somam recorde histórico desde o fim da Segunda Guerra. Nos EUA, Trump ressurge com forças renovadas. Não existe polarização, mas sim uma verdadeira campanha de radicalização das pessoas para que encontrem um culpado entre as minorias (pessoas racializadas, LGBTQIA+, minorias religiosas, imigrantes), e elejam políticos da extrema direita. [1]

 

Sobre a polarização, para Gayet, essa suposta polarização acontece quando pessoas contrárias a esses valores extremistas resolvem fazer oposição. De certo modo, as palavras do historiador são parecidas com as do próprio diretor do filme, quando disse em entrevista que “a crise mundial hoje não é entre esquerda e direita, mas entre extremistas e o centro” [3]

 

Para além dessa discussão, vale ressaltar um aspecto técnico do filme: seu design de som é excelente, com sequências de tiros e bombas sendo intercalados com flashes de câmeras fotográficas, além de muitas hélices de helicópteros. Sem contar uma trilha sonora também bastante interessante. A sequência do confronto em Washington, lá pelo final do filme, é uma longa pancada na orelha. No bom sentido! Podem escrever: Guerra Civil certamente será indicado para alguns dos principais prêmios ligados a som.

 

Referências:

[1] “Guerra Civil”: o que o filme com Wagner Moura ensina sobre História e política

https://guiadoestudante.abril.com.br/dica-cultural/guerra-civil-o-que-o-filme-com-wagner-moura-ensina-sobre-historia-e-politica/

 

[2] Civil War (Guerra Civil) - Crítica: reverência ao fotojornalismo

https://www.youtube.com/watch?v=HfbhlG

 

[3] “O extremismo mata”, diz Alex Garland, diretor do sucesso ‘Guerra Civil’

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/o-extremismo-mata-diz-alex-garland-diretor-do-sucesso-guerra-civil

 

[4] GUERRA CIVIL: É isso que nos aguarda?

https://www.youtube.com/watch?v=flHlSwbU21M

 

[5] Guerra Civil é um filme sobre os perigos da polarização, diz Wagner Moura

https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/282119-guerra-civil-filme-perigos-polarizacao-diz-wagner-moura.htm

 

[6] POLARIZAÇÃO? ANTAGONISMOS POLÍTICOS NO BRASIL

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/polarizacao-antagonismos-politicos-no-brasil/

 

 


sexta-feira, 12 de abril de 2024

“Brizola”: documentário estreia em festival e conta a história do líder trabalhista

 


Estreou no Rio de Janeiro, no último domingo, dia 7, no festival de documentários É Tudo Verdade, o filme “Brizola”, sobre a vida deste que foi uma das maiores lideranças políticas do Brasil no século 20. Ainda dentro da programação do festival, o filme foi novamente exibido na terça-feira, dia 9, também no Rio, e em São Paulo, nos dias 12 e 13 de abril. Depois disso, a previsão é de que “Brizola” seja lançado no Canal Curta!.

 

A sessão de estreia ficou lotada. As cadeiras da sala do Estação NET, em Botafogo, não foram suficientes. As cadeiras extras também não foram, e teve gente que precisou assistir ao filme no chão mesmo. Dentre os presentes, algumas lideranças do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado por Brizola em 1980, como a deputada estadual Martha Rocha, presidente do PDT-Rio. Na tela, muitos nomes clássicos da legenda, que com seus depoimentos ajudam a recontar a história de Leonel Brizola, como Darcy Ribeiro, Miro Teixeira, Nilo Batista, dentre outros.

 

Ao dar as boas-vindas ao público, Amir Labaki, organizador do festival, disse que “Brizola foi uma daquelas pessoas que só não fez mais pelo Brasil porque não pôde. Se pudesse ter feito mais, nosso país seria muito melhor”. Dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho (Dona Rosa Filmes), o filme emocionou do início ao fim em sua exibição de estreia, provocando diversos momentos de aplausos, levando o público às lágrimas, mas também às risadas, com algumas das tiradas espirituosas de seu protagonista, notoriamente conhecido por ter sido um líder político carismático e personalista.

 

Os realizadores contaram com o apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo de suas quatro décadas de existência e com o trabalho de pesquisa do Centro de Memória Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP). Falar sobre Brizola é também contar uma parte significativa da história do trabalhismo brasileiro. Juntamente com Getúlio Vargas e João Goulart (Jango), o fundador do PDT forma o trio emblemático dessa corrente política que, como conceitua o professor Reinaldo Lohn (HISTÓRIA FM 134, 2023), se caracteriza como um conjunto de práticas de reformismo social voltadas para a extensão e ampliação de direitos sociais, com foco nas classes trabalhadoras.

 

O trabalhismo não pressupõe uma perspectiva de superação do capitalismo, mas a convivência entre o capitalismo e o mundo dos direitos sociais. Isso vai se configurar com muita densidade em países europeus. O caso clássico é o da Inglaterra, que se estendeu para todo o Reino Unido por meio do Partido Trabalhista Britânico. No Brasil, o termo foi apropriado nos anos 30 e 40. A noção internacional de trabalhismo, no caso brasileiro, serve como uma roupagem. Aqui, nossa invenção do trabalhismo tem uma trajetória toda própria, relacionada ao getulhismo ou varguismo. O reformismo social aqui está presente, mas o encaminhamento dessas reformas é distinto, numa trajetória latino-americana (HISTÓRIA FM 134, 2023).

 

A narrativa do filme começa com o retorno de Brizola ao Brasil, em 1979, após um longo exílio de 15 anos no qual ele passou por países como Uruguai, Estados Unidos e Portugal. Naquela ocasião, Brizola retornara a solo brasileiro sendo considerado o inimigo número um da ditadura militar que o expulsara do país, permanecendo no posto de inimigo número um até o fim do regime. O filme então recapitula a trajetória do líder político alinhado ao então vigente processo de redemocratização, começando por seu nascimento e infância pobre, em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul.

 

Sua formação – graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e seu ingresso na carreira política são retratados brevemente. Nessa época, em que Getúlio Vargas era a mais notória personalidade política do país, o jovem Brizola entra para o recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que não deve ser confundido de forma alguma com o PTB mais recente, do período de redemocratização, que abrigou figuras como Roberto Jefferson e que no fim do ano passado se fundiu ao Patriotas. Mas essa história é contada mais à frente pelo filme.

 

Após se eleger deputado estadual e federal e prefeito de Porto Alegre, em 1958 o caudilho é eleito governador do Rio Grande do Sul. É nesse cargo que Brizola se notabiliza como defensor do processo democrático, ao coordenar o que ficou conhecido como “campanha da legalidade”. Com a renúncia de Jânio Quadros, o sucessor legal e direto na presidência do país era Jango. Diante da iminência de um golpe, mobilizado por setores das elites conservadoras do país desfavoráveis a Jango, Brizola, aliado ao comando do III Exército, lidera em 1961 civis e militares em uma grande mobilização para que a sucessão presidencial se desse conforme a Constituição vigente à época. Por isso o nome “campanha da legalidade”. Tratava-se de um movimento para que a lei fosse cumprida.

 

Naquele momento, o golpismo fora derrotado e Jango assume a presidência. Mas três anos depois, em 1964, os golpistas teriam sua revanche. Jango é deposto. Brizola se propõe a resistir ao golpe, mas Jango, temendo um derramamento de sangue e não vendo alternativa, se resigna com o exílio. O filme pontua bem as diferenças entre as duas grandes figuras trabalhistas daquela época: de um lado, um Jango moderado que parecia acreditar demais na conciliação e na possibilidade de governar com o apoio da direita; de outro, um Brizola mais inflamado, mais à esquerda e disposto ao risco de uma possível luta armada. Golpe posto, ambos têm de sair do país.

 

O filme enfatiza, deixa claro, inclusive pelas palavras do próprio Brizola, que os golpistas de 64 eram os mesmos que tentaram o golpe em 1961, que por sua vez eram os mesmos que, anos antes, tentaram também golpear Getúlio Vargas. Essa tradição golpista fica bem caracterizada no documentário de Marco Abujamra. Em entrevista, o diretor destacou que Brizola usou seu poder de comunicação para “promover ideias consideradas extremistas e comunistas” pelos setores conservadores.  De acordo com Abujamra, “é surpreendente que, em 2024, as mesmas ideias continuem a ser consideradas extremistas por grande parte da população”, disse o diretor [1].

 

O filme parece sugerir um certo caráter cíclico da história, mostrar as continuidades, um passado que ainda se faz presente. Mesmo após o golpe, durante e depois do exílio, os ditadores não deixaram de dificultar as coisas para o velho caudilho. Em 1980, já de volta ao Brasil, Brizola tenta refundar o PTB para protagonizar à frente do histórico partido a retomada do processo democrático. Mas a ditadura militar, mesmo desgastada àquela altura, consegue dar mais uma cartada e, numa manobra jurídica por meio do Tribunal Superior Eleitoral, é concedido o direito ao uso da legenda a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas e alinhada aos conservadores. João Trajano de Lima Sento-Sé, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), fala sobre a disputa entre Ivete e Brizola:

 

O processo de redemocratização foi controlado pelas elites vinculadas aos militares de forma que o poder não escapasse destas mãos. O trabalhismo era o grande fantasma e tinha um nome singular que assustava especialmente: o de Brizola. Os setores conservadores influenciaram decisivamente na vitória judicial de Ivete Vargas. É historiograficamente aceito que a decisão judicial teve clara influência dos militares (SENTO-SÉ, 2018).

 

Derrotado na disputa pela legenda PTB, Brizola funda o PDT. O novo partido, herdeiro do trabalhismo histórico, é bastante influente no processo de redemocratização, agitando as massas por democracia, ou, nas palavras do próprio Brizola, “com essas três letras vamos eletrizar o Brasil”. Aqui temos mais um ponto de destaque na narrativa de Abujamra: os dois mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro: de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994.

 

O primeiro mandato é marcado pela criação dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), projeto elaborado por Darcy Ribeiro. As unidades, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, foram popularmente batizadas de “Brizolões”. A iniciativa era bastante avançada para os padrões do ensino público da época (e até para os dias de hoje), com ensino em tempo integral, muitas atividades esportivas, recreativas e culturais, atendimento médico e odontológico para as crianças, dentre outros serviços. Mas uma parcela da sociedade considerava o projeto dos Cieps caro demais. Brizola respondia que “cara é a ignorância”.

 

Nesse ponto o filme mostra com clareza um embate político que marcaria os mandatos de Brizola no Rio de Janeiro e a esfera pública fluminense: de um lado, os apoiadores de Brizola, aqueles que apostavam na educação e na extensão de um estado de direitos sociais para as camadas mais pobres da sociedade; de outro, adversários de Brizola apostavam na segurança pública e aumento da repressão contra uma criminalidade que, segundo eles, havia se ampliado no Rio de Janeiro comandado por Brizola.

 

Venceu o segundo grupo e, aos poucos, o projeto dos Cieps foi descontinuado. Por outro lado, a situação da segurança pública no estado também piorou. O filme retrata o quanto a má fama com a qual Brizola teve que conviver até o fim de sua vida, de ser um político que contribuiu para o aumento da violência e criminalidade, foi inflada por seus adversários conservadores e pela mídia – principalmente pela Rede Globo. Aliás, o célebre direito de resposta que o caudilho conseguiu na justiça contra a emissora, lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, é um dos momentos mais marcantes do documentário e que mais despertou reações da plateia na sessão de estreia.

 

Cabe acrescentar que, ao ser alvo de uma campanha de desconstrução da imagem enquanto suposto responsável por uma crise de segurança pública, Brizola seria só o primeiro de uma sequência de políticos do Rio de Janeiro desgastados por um tipo de marketing eleitoral folclórico da política fluminense que é a criação da figura do político “defensor de bandido”. Geralmente, essa acusação de “defensor de bandido” recai em políticos de esquerda e centro-esquerda. Brizola foi o primeiro (no Rio, chegaram a apelidar cocaína de “Brizola”), seguido por Benedita da Silva, Fernando Gabeira (“quem fuma e cheira vota no Gabeira”, diziam), Marcelo Freixo e até Marielle Franco, ainda que esta não tenha tido tempo para disputar um mandato no Executivo. Setores à direita tiram proveito desse discurso. Curiosamente, governadores que foram efetivamente parar na cadeia, como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, não sofreram com essa pecha.

 

A acusação a Brizola não é amparada em dados concretos sobre criminalidade. Passados 30 anos do fim de seu segundo mandato como governador, a violência no estado do Rio de Janeiro segue alarmante, inclusive com o aprofundamento do problema das milícias e o aumento de sua infiltração no estado. O sociólogo José Cláudio Alves, com pesquisa sobre a violência no Grande Rio, ressalta essa falta de fundamentação na desconstrução da imagem do velho caudilho.

 

Ao meu ver isso é uma espécie de criação de um bode expiatório político. O Brizola tinha uma política de não abuso, não violência contra membros de favelas e comunidades pobres, por conta da própria lógica do populismo, da qual o Brizola vem - herança de Getúlio Vargas, de um poder calcado no popular (ALVES, 2010).

 

Mesmo sucateado com o passar dos anos, o projeto dos Cieps ainda influenciaria outras iniciativas de ensino público no Brasil, como os Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics), do governo Collor, e as Escolas do Amanhã, do governo Eduardo Paes no município do Rio. O filme nos mostra a inspiração brizolista sobre os Caics. Nesse ponto, o diretor Abujamra parece superdimensionar o peso da influência de Brizola em Collor como uma das possíveis razões que culminariam no processo de impeachment deste último, ao levantar a hipótese de um Roberto Marinho bastante insatisfeito com Collor por causa do projeto das escolas federais, brizolistas demais para o gosto do barão da comunicação. A insatisfação do megaempresário, adversário político de Brizola, teria sido, na perspectiva do filme, crucial para que a Globo retirasse o apoio político dado a Collor e que anos antes ajudara a elegê-lo.    

 

Outros feitos de Leonel Brizola recebem destaque no filme, como a criação do Sambódromo, em 1984, que foi cercada de polêmicas e críticas – para variar – das Organizações Globo. “Contrária às novas regras, inclusive o desfile em dois dias, a TV Globo e O Globo boicotaram a obra e praticamente torciam para ela não ficar pronta a tempo. Diariamente, um ‘especialista’ era chamado a opinar para criticar o projeto” [2].

 

Lançado no ano em que se completam 40 anos de Sambódromo e 20 da morte de Leonel Brizola, o documentário nos ajuda a entender o cenário político brasileiro do século 20 e suas continuidades no século 21. E deixa no espectador uma sensação de que o Brasil seria melhor se Brizola tivesse podido fazer mais, como bem disse o organizador do festival antes do início da exibição. Para quem quiser saber mais sobre Brizola e o trabalhismo, recomendamos o artigo de Ângela de Castro Gomes, cujo nome é justamente “Brizola e o Trabalhismo” (GOMES, 2004). Escrito na ocasião da morte de Brizola, a autora fez indagações sobre o futuro do trabalhismo após a morte do velho caudilho. Tais indefinições persistem 20 anos depois.

 

Ainda que seja muito difícil saber se ele vai conseguir se transformar e renovar-se para sobreviver, não há dúvida de que o trabalhismo pode ser reconhecido como uma das ideologias  e  tradições  mais  importantes  da  cultura política do Brasil republicano (GOMES, 2004, p. 19).

 

 

Referências

ALVES, José Cláudio. 'Os dois segmentos que organizam o crime no Rio - o Estado e as facções - saíram vitoriosos'. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. 10 dez 2010. Disponível em: < https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/os-dois-segmentos-que-organizam-o-crime-no-rio-o-estado-e-faccoes-sairam >. Acesso 11 abr 2024.

 

GOMES, Ângela de Castro. Brizola e o trabalhismo. In: Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p.11-20, jan./dez. 2004.

 

HISTÓRIA FM 134: Trabalhismo: das origens ao seu desenvolvimento no Brasil. Entrevistador: Icles Rodrigues. Entrevistado: Reinaldo Lohn . [s.l.] Leitura ObrigaHISTÓRIA, 01 mai. 2023. Podcast. Disponível em < https://leituraobrigahistoria.com/podcast/trabalhismo-das-origens-ao-seu-desenvolvimento-no-brasil/ >. Acesso em: 11 abr 2024

 

SENTO-SÉ, João Trajano de Lima. De Getúlio Vargas a Cristiane Brasil, como o PTB passou do trabalhismo histórico aos ataques à Justiça do Trabalho. BBC Brasil. 31 jan 2018. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42881692 >. Acesso em 11 abr 2024.

 

Notas

[1] Fundador do PDT, Brizola ganha documentário sobre sua história

https://www.boletimdaliberdade.com.br/2024/03/20/fundador-do-pdt-brizola-ganha-documentario-sobre-sua-historia/

 

[2] O dia que a TV Manchete destronou a TV Globo na transmissão do Carnaval do Rio

https://bafafa.com.br/arte-e-cultura/carnaval/o-dia-que-a-tv-manchete-destronou-a-tv-globo-na-transmissao-do-carnaval-do-rio


segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Luísa Sonza e a diluição entre o pessoal e o político



Eu não queria falar sobre o famigerado caso de traição sofrido pela cantora Luísa Sonza, até para não incorrer no mesmo problema apontado por Tati Bernardi em sua coluna. Problema este que a escritora e colunista classificou como “lacração das acadêmicas” [1]. Basicamente, a referida lacração foi o grande volume de análises pretensamente intelectualizadas em torno da traição, da reação da cantora e das repercussões do fato. Nas palavras da colunista:

 

Por que mulheres com milhares de horas de boas leituras, que frequentaram renomadas universidades, param o que estão fazendo para cometer pequenos mestrados indigestos com pretensões eruditas e sociológicas sobre uma celebridade que foi traída (e que provavelmente está sofrendo, mas vai ganhar uma fortuna com sua exposição sobre o tema)? Fiquei pensando longos dois segundos e concluí: porque muitas acadêmicas lacradoras vivem na mesmíssima mediocridade gananciosa por cliques. Uns chamam de "Bomba, bomba, traída em boteco chora na TV", e outros de "O patriarcado em um banheiro de bar: Uma análise à luz da ética kantiana e do existencialismo beauvoiriano".

 

Parece-me uma constatação pertinente. Mas, contrariando a análise da escritora e a minha própria vontade, tive que me render à repercussão do caso, ainda que deixando passar um pouco o hype, quando percebi que a polêmica envolvendo a cantora é um exemplo de fenômenos sociais maiores. Primeiro, a diluição da fronteira entre o público e o privado, certamente reforçada pela popularidade crescente das redes sociais nos últimos anos. Segundo, uma outra diluição, que parece ter acelerado nesse mesmo contexto das novas mídias, que é a diluição entre o político e o pessoal. É sobre isso – a relação cada vez mais misturada entre pessoal e político – que quero falar na verdade. E não propriamente sobre uma traição em banheiro de bar.

 

Recapitulando para aqueles que não acompanharam o caso, a cantora Luísa Sonza teria recebido mensagens de fãs denunciando que seu então namorado a traia em um bar do Rio de Janeiro. A reação da cantora foi publicizar o término do relacionamento no programa televisivo de Ana Maria Braga, na Globo, com direito a “textão” [2]. Antes de iniciar a leitura de seu texto, a cantora ressaltou que o texto não era somente sobre ela, "mas sobre tudo que eu vi desde criança e o lugar que isso pega em mim".

 

Ou seja, Sonza partiu de seu drama pessoal para falar em nome das mulheres em geral e criticar certo comportamento masculino: “Hoje vocês não vencem. Hoje eu quebro um ciclo pela minha mãe, por minhas tias, e por todas as mulheres que eu vi minha vida inteira sendo traídas.”

 

Marketing à parte – e o marketing não deve ser desconsiderado em casos como este envolvendo celebridades extremamente midiáticas [3] – ao transformar a traição em um texto-manifesto em cadeia nacional, Luísa Sonza faz de seu drama pessoal um ato político em nome de uma coletividade. O texto teve a pretensão de ser não só sobre a cantora, mas sobre a sua mãe, a sua tia e todas as mulheres. Assim, Sonza se apropria de uma pauta pública e a mistura com seu drama pessoal. É preciso, no entanto, considerar que essa estratégia tem riscos. Vou citar aqui dois problemas e seus respectivos exemplos.

 

O primeiro problema é que assim que a cantora cometer qualquer vacilo em sua vida pessoal (e todos nós estamos sujeitos a deslizes), grande parte da opinião pública vai usar o vacilo pessoal dela para desqualificar a pauta pública a qual ela vinculou seu drama. Um bom exemplo recente foi o da atriz Amber Heard, ex do ator Johnny Depp. Inicialmente, a atriz se colocou como um símbolo das mulheres vítimas de violência doméstica. Mas na medida em que o ator conseguiu reverter o litígio perante a Justiça, que se convenceu que houve manipulação da parte de Heard, o desgaste não pesou apenas contra a pessoa da atriz, mas contra a pauta em geral. Pauta legítima, aliás. Vale a pena assistir a série documental da Netflix chamada “Johnny Depp x Amber Heard”, que conta essa história em três episódios [4].

 

Outro problema é que vento que venta lá venta cá. Se o pessoal é político para você, também será para muitas outras pessoas, com as pautas das mais diversas, algumas, inclusive, divergentes das suas. Um exemplo é o movimento red pill. Muitos dos homens que aderem a tais círculos o fazem por conta de dramas pessoais, como rejeição ou relacionamentos conturbados. Dramas normais do cotidiano e, muitas das vezes, legítimos (não é vergonha sofrer por causa de rejeição, traição e coração partido). O problema é que de um papo de bar com fins de desabafo para análises sociológicas equivocadas é um pulo. E atualmente já é possível ver nesses círculos, por exemplo, uma campanha de descrédito da Lei Maria da Penha, culpabilizando a vítima que dá nome a lei. Os adeptos desses grupos também estão partindo do pessoal para o político e aderindo a ideias bastante perigosas.

 

É possível que questões ligadas à sexualidade sejam um fator de arregimentação política e, a partir delas, os indivíduos assimilem outras ideias e posicionamentos que os consolidam em um espectro político, seja à esquerda ou à direita. O jornalista Cesar Baima escreveu um artigo sobre o que chamou de “paradoxo do contágio ideológico” [5], uma tendência que as pessoas têm de, pouco a pouco, irem assimilando ideias que as consolidam numa determinada tribo política. Baima explica:

 

Para ser um suposto "conservador" ou "de direita" não basta mais defender o liberalismo econômico e o Estado mínimo, entre outras pautas típicas relacionadas a esta vertente de opinião. Para muitos, é preciso também ser antivacina, antiglobalista, negar as mudanças climáticas, duvidar da lisura dos processos eleitorais e aderir a teorias conspiratórias como estas e outras que também passaram a ser associadas a esta posição política.

 

Não que o outro lado do espectro partidário esteja livre do mesmo problema. Hoje, para ser um legítimo "progressista" ou "de esquerda", muitas vezes também não é suficiente apoiar o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária, com inclusão econômica e social, e um papel ativo do Estado na economia. É preciso também aderir a um estilo de vida "natureba", a favor de produtos orgânicos e contra o uso de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados (OGMs), e ter uma - ou mais - "pseudociência" do coração, como homeopatia, Reiki, Constelação Familiar ou qualquer outra das muitas chamadas "práticas integrativas e complementares" (PICs) na saúde.

 

Baima apresenta pesquisas e hipóteses sobre o fenômeno “em que identidades políticas se expandem para incluir cada vez mais pautas e crenças ‘requeridas’ dos sócios de carteirinha”. É por esse contágio ideológico que as identidades políticas são consolidadas. E pensar que questões pessoais e íntimas de nossas vidas possam ter papel preponderante na consolidação de nossas posições políticas é algo que deve nos ajudar a ser mais alertas e autocríticos. Afinal, será que faz sentido, por exemplo, você abraçar algum revisionismo ideológico histórico equivocado só porque você é homem? Vamos supor que por conta de alguns dissabores pessoais em seu histórico de relacionamento com mulheres, você, homem, hoje em dia acredite e defenda publicamente que o regime nazista foi baseado em uma doutrina política de esquerda.

 

É uma conjectura de minha parte que soa absurda, parece não fazer o menor sentido, algo sem conexão alguma. Mas em uma de minhas pesquisas, na qual investiguei quem são as pessoas que afirmam que o nazismo foi um movimento de esquerda (contrariando a bibliografia canônica da história e da ciência política, que demonstra que o nazismo foi de extrema-direita), para a minha surpresa (mas não muita), identifiquei que a maioria esmagadora daqueles que fazem tal afirmação revisionista equivocada é de homens [6].

 

Era de se esperar que a composição desse grupo de pessoas fosse predominantemente de adeptos da direita política (o que se confirmou) e, mais especificamente, de bolsonaristas (o que também se confirmou), mas o inusitado, que saltou aos olhos pela superioridade numérica, foi a questão do gênero masculino.

 

Se pensarmos racionalmente, não faz nenhum sentido que homens sejam mais propensos a acreditar erroneamente que o nazismo foi de esquerda, mas a política não é um campo tão racional assim. Adotamos certas ideias por conta de afetos, subjetividades, razões inconfessáveis. Gostamos de nos ver como racionais, mas não somos bem assim. A parcela de racionalidade na política deve ser mantida ou ampliada por meio de um esforço contínuo da nossa parte que envolva autocrítica e autoconhecimento.      

 

Quem pesquisa os movimentos conservadores, reacionários, de direita e extrema direita pelo mundo sabe que a sexualidade e o machismo têm um peso forte na consolidação desses grupos políticos. Para o sociólogo Michael Lowy, “em todos os países, seja na Europa, nos Estados Unidos, ou no Brasil, a extrema-direita racista, autoritária, ou fascista é predominantemente masculina" [7]. Somando isso aos usos políticos do passado enquanto ferramenta importante para as narrativas de grupos políticos, começamos a puxar um fio sociopolítico que nos faz entender por que, dentre aqueles que repetem o revisionismo ideológico de que o nazismo foi um movimento de esquerda, a esmagadora maioria é formada por direitistas e homens.

 

Fazer esse tipo de reflexão nos torna mais atentos sobre o quanto nossas frustrações e angústias, muitas das vezes de cunho predominantemente pessoal, podem estar a nos direcionar para essa ou aquela ideia. Essa tomada de consciência deve nos ajudar a estabelecer alguma divisória entre o político e o pessoal. Mesmo que a separação nunca possa ser totalmente precisa.  

 

Desde muitos anos é comum ouvir gente bradando que o pessoal também é político. Está correto. Mas hoje em dia, mais do que nunca, é preciso refletir sobre essa mistura e pensar alguns limites a respeito, porque quando a mistura se dá por completo, sem perceber a gente passa a decidir eleições de gestores públicos com base em chifre que sofremos nas relações afetivas. Nossas subjetividades pessoais nem sempre são boas conselheiras nos engajamentos políticos.

 

Referências:

[1] A traição do ator, a sofrência da atriz e a lacração das acadêmicas

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/2023/09/a-traicao-do-ator-a-sofrencia-da-atriz-e-a-lacracao-das-academicas.shtml

 

[2] Leia texto completo de Luísa Sonza sobre término com Chico Moedas

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2023/09/20/leia-texto-completo-de-luisa-sonza-sobre-termino-com-chico-moedas.ghtml

 

[3] Luísa Sonza e Chico Moedas: como desabafos públicos de celebridades podem ser um bom negócio

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cnkgkzkz802o

 

[4] Johnny Depp x Amber Heard

https://www.netflix.com/br/title/81644798

 

[5] O paradoxo do contágio ideológico à esquerda e à direita

https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2023/09/14/o-paradoxo-do-contagio-ideologico-esquerda-e-direita?fbclid=IwAR3gjspoLDgWJg8LreieLC6b3ddktnlYIHDJh1QPogYC_IWiYuxt-_JdkwE

 

[6]

CAMPOS, Alexandre Freitas. “Nazismo de esquerda”: análise de uma fake history a partir de vídeo da embaixada e consulado alemães. In: 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2021. Disponível em: < https://www.portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt5-cd/alexandre-freitas-campos.pdf?fbclid=IwAR0JhS6Cl6AqPXNrR6zc3pkXK3C7zt937R_OefBOJm77tmeSUDkKNauifas >.  

 

[7] É a frustração masculina que decide os rumos políticos do Brasil hoje

https://www.vice.com/pt/article/wj3qay/e-a-frustracao-masculina-que-decide-os-rumos-politicos-do-brasil-hoje

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Red pills x blue pills: maniqueísmo e tabu em um debate delicado

 


Neste artigo, quero falar sobre uma discussão que frequentemente me incomoda, pelo tanto de exagero, militância e enviesamento político, da parte de adeptos e de críticos: a discussão que envolve os tais movimentos masculinistas, dentre eles, a red pill. Farei essa análise a partir de um episódio de podcast que se propõe a criticá-los, para reforçar que as críticas a esses grupos também têm lá os seus problemas: exagero, militância e enviesamento político.

 

De acordo com o vocabulário masculinista, os red pills seriam homens que despertaram para a realidade a respeito de um sistema que favorece as mulheres. Desconsiderando muitas e muitas evidencias sócio-históricas da dominação de mulheres por homens em tantas sociedades patriarcais, esses homens se veem portadores de um conhecimento privilegiado e não acreditam nas relações com mulheres.

 

Ao contrário, os blue pills seriam homens que ainda não viram a verdade, portanto continuam a viver uma ilusão, dominados e usados pelas mulheres. Blue pills e red pills são uma analogia retirada do filme Matrix, na qual o protagonista precisa decidir entre tomar a pílula azul, que o mantém preso em um mundo de ilusão, ou a pílula vermelha, que o faz ver a realidade como tal. No extenso vocabulário masculinista, há ainda outras categorias e cores: black pills, sigmas etc.

 

Depois de tantos canais dedicados a “filosofia” red pill, surge um dedicado à blue pill. O Bluecast. Aparentemente, uma proposta vinda do humorista Thiago Santinelli para zoar os reds. Os blue pills seriam, ao que me parece, homens identificados com uma esquerda identitária (na falta de um nome melhor que me ocorra).

 

O viés político é bastante forte nessas discussões envolvendo grupos masculinistas. E assistindo a um episódio do canal Bluecast, em que Santinelli entrevista a militante comunista/feminista Carolline Sardá sobre “O que é ser homem” [1] (de início me pareceu estranho, já que ela é uma mulher. Mas ok, vá lá...), me lembrei do porquê não gosto dessas discussões sobre movimentos masculinistas e em geral acho tudo bem ruim.

 

Geralmente são discussões de 8 contra 80. Explico: do lado da red, culpam as mulheres por tudo, há muita misoginia e muita, mas muita pseudociência. Como bobagens sobre macho “alfa” e macho “beta” que tiram do mundo animal e tentam aplicar à força no comportamento humano social. Há também um forte reforço de papeis de gênero, por vezes apelando às pseudociências (pra variar), como quando dizem que certas atividades podem gerar desequilíbrios ampliando energias masculinas ou femininas [2] (por exemplo, não seria recomendável aos homens lavar a louça, pois isso reforçaria uma energia feminina nesses homens). Os mais radicais da red pill possuem um discurso que pode embasar violência doméstica e contra mulheres, inclusive há uma campanha em curso para desacreditar a Lei Maria da Penha. Soma-se a tudo isso a adesão a todo tipo de radicalismo de direita.  

 

Mas, por outro lado, dentre os principais críticos da red – que em geral são alinhados a uma esquerda identitária  – o discurso é construído sempre de forma a romantizar a mulher e blindá-la de qualquer crítica, e daí vira um tabu posicioná-la enquanto partícipe de quaisquer processos de marginalização masculina (e aqui não falo em “culpa” da mulher, mas em “participação”, daí a palavra “partícipe”. Esse ponto precisa ficar bem claro!).

 

Em mais de uma hora de conversa no tal episódio que assisti do Bluecast, Carolline Sardá, Thiago Santinelli e Ítalo Costa apontam a culpa da frustração masculina para os próprios homens, os pais desses homens, o machismo e principalmente o capitalismo. A parte da responsabilização do capitalismo é bastante reforçada. Acho essa parte interessante, porque gosto de discussões e pesquisas que apontem para o quanto questões socioeconômicas atravessam nossos relacionamentos afetivos. Isso significa que nesse ponto – o capitalismo como principal culpado pelas frustrações masculinas – eu até concordei com o que ouvi.

 

O problema é que em mais de uma hora de conversa, enquanto apontavam os culpados pelo crescimento dos movimentos masculinistas, Sardá enfatizava – com o aval de seus colegas –  que as mulheres não têm nada a ver com isso, que o problema é do capitalismo mesmo e é isso aí. Simples assim! Ou seja, assim como outros debates e textos semelhantes que vi sobre o assunto, à esquerda, constrói-se uma narrativa maniqueísta, como se o capitalismo operasse independentemente das pessoas; como se mulheres e capitalismo fossem ambos totalmente apartados. Nem por um minuto sequer Sardá toca no ponto do quanto o comportamento feminino e a visão feminina de mundo e de relacionamentos são também atravessados pelo capital (e olha que estamos falando de mais de uma hora de bate-papo).

 

Mulheres não são seres etéreos. Elas vivem em sociedade e naturalmente incorporam valores, preconceitos e discriminações dessa sociedade. E reproduzem isso nas várias instâncias da vida, incluindo os relacionamentos e, dentre eles, os relacionamentos com os homens.

 

Sendo assim, falar que o problema da frustração masculina é o capitalismo significa falar também do quanto mulheres criam uma valoração dos homens baseada, por tantas vezes, no aspecto financeiro, de modo que aqueles homens com menor poder aquisitivo valem menos como homens, e, aqueles com maior poder aquisitivo valem mais. Fora outras formas de valorações, como raciais, estéticas etc.

 

Aliás, o youtuber Ricardo Thomé, que certa vez debateu com Sardá, tem vídeos interessantes sobre a questão racial do ponto de vista masculino em relacionamentos com mulheres [3]. Thomé, que é negro, fala sobre como pesa nos ombros de homens héteros negros o estereótipo nos relacionamentos amorosos/sexuais, de modo a terem que se encaixar no tipo “negão-sarado-jogador-de-basquete” ou no tipo “bem-sucedido” (ou ainda em qualquer intercessão entre esses dois tipos), caso contrário, sobra para eles a invisibilização e insucesso enquanto parceiros. É o tipo de discussão que pouco se vê em círculos de esquerda liberal (por que será?) e que Thomé, por ser negro, fala com certa propriedade.

 

E assim, a narrativa de Sardá cria uma dicotomia falsa na qual o “capitalismo malvadão” está de um lado e, as mulheres, de outro. Sem mistura, sem intercessão e sem nuances. Aliás, é preciso ser justo. A narrativa não é só dela. Santinelli e Costa estão ali, não como mediadores ou entrevistadores, mas como colegas de prosa, fazendo uma triangulação com Sardá na qual um levanta a bola para o outro a todo momento, como em um jogo de compadres.

 

E assim qualquer crítica ao comportamento feminino vira tabu nos círculos mais à esquerda. A despeito de tabus que tentam minar os debates, a psicologia social tem, sim, indicativos de que, enquanto homens se focam muito mais na aparência física na escolha de parceiras, as mulheres se focam muito mais no status social dos parceiros [4]. Dentre estudos recentes, um que achei interessante, feito com amostras de mais de 100 países, concentrou-se na sexualização de mulheres em redes sociais. O estudo encontrou relação entre a quantidade de selfies sensuais postadas por mulheres e a desigualdade econômica: os resultados sugerem que as mulheres investem mais na beleza quando percebem que recursos valiosos estão mais concentrados nas mãos masculinas, como forma de acessar esses recursos, e que a quantidade de selfies sensuais femininas aumenta em sociedades com maior desigualdade econômica [5].

 

Por outro lado, para evitar que caiamos em preconceitos ao pensar sobre a relação entre sexualidade feminina e capital, é preciso considerar o tanto que o patriarcado e milênios de dominação masculina influenciaram e influenciam nas relações socioafetivas. As últimas décadas foram de grandes e louváveis avanços na direção da igualdade de gênero, mas os comportamentos – de homens e mulheres – ainda não estão no mesmo compasso das mudanças, gerando certa confusão. “As mulheres eram socializadas de forma a serem dependentes e, por isso, podiam fazer certas exigências com relação ao nível social do homem em troca. Sair deste papel não é fácil e a mudança não ocorre em apenas duas ou três gerações depois de milênios de submissão”, explica o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr., do Instituto Paulista de Sexualidade. Ele afirma que “As mulheres tendem, sim, a estabelecer um relacionamento em que o homem seja financeiramente superior” [6].

 

Segundo a psicóloga Valéria Meirelles, a ala feminina ainda continua com posturas antigas, apesar dos avanços. “Elas acham feio quando o homem aceita dividir a conta. Querem as vantagens da modernidade com os benefícios da tradição" [6]. Obviamente, os movimentos masculinistas captam essas incongruências. E discutir esses movimentos deve incluir discutir essas incongruências com franqueza.

 

Mas o material aqui analisado, o episódio do Bluecast, trouxe o mesmo maniqueísmo de sempre que me deixa a sensação de ver um papo de camaradas pregando para convertidos. Se a intenção for engajamento em militância, aí o tom panfletário maniqueísta até que faz sentido. Mas se a intenção é convencer jovens que estão com um pé na Deep Web ou em quaisquer círculos masculinistas a pularem fora, acho que seria preciso menos maniqueísmo e mais honestidade e problematização.

 

Como nem tudo está perdido, em meio a tanto debate e conteúdo embotados de militância e polarização, ainda é possível achar material crítico que se safe. Destaco o artigo “Guerreiros Estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada”, de Aldo Dinucci, professor de filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Sem partir para fórmulas fáceis/engajadoras, como fazer condenações morais aos adeptos da red pill, Dinucci, assim com Sardá, também aponta o capitalismo como um potencial culpado pelo sofrimento de uma boa parcela dos homens jovens, mas não exclui expressamente a participação feminina nos processos de marginalização, como se pode perceber neste trecho:

 

Primeiro, entendo que a vida não é nada fácil para a juventude atual: falta de empregos formais (quantos não são os entregadores de comida, os motoristas de Uber), condições terríveis de vida para os pobres (sem saneamento básico, sem lazer, sem educação, sem saúde, sem perspectiva), condições de isolamento para os mais abastados.

 

Não é difícil imaginar por qual razão um jovem pobre de periferia se sentiria um beta: na TV e na tela do computador veem os corpos esculturais de mulheres consideradas superatraentes. Veem também os milionários, com seus supercarros e lanchas, acompanhados sempre de mulheres como aquelas. Os jovens dos condomínios de classe média, por outro lado, têm acesso à mesma realidade virtual. Ambos os grupos não se sentem à altura de se engajarem em uma relação amorosa correspondida, seja com as mulheres idealizadas pela mídia, seja com as que espelham essas idealizações da sociedade de consumo. Assim, saindo à rua e tendo na memória a lembrança das imagens do mundo virtual, não é difícil que um destes conclua que ‘Não sou nada, Jamais serei nada, Não posso sonhar em ser nada’. E efetivamente é esta a mensagem que veiculam em muitos de seus vídeos.

 

Quem lê o artigo de Dinucci percebe que o comportamento feminino, também atravessado pelo capital (e porque seria diferente?), acaba por se tornar uma caixa de ressonância da marginalização de muitos homens, ainda que não seja essa a intenção das mulheres: ressoa no campo sexual e afetivo a marginalização socioeconômica, dobrando essa marginalização.

 

O panfletismo das militâncias é pouco sensível a nuances. E isso gera dificuldades para se discutir o tema.


Referências:

[1] O que é ser homem?

https://www.youtube.com/watch?v=stFtLn4F-l0

 

[2] Energia masculina e feminina | Existe? Como surgiu essa ideia? A quem esse conceito serve?

https://www.youtube.com/watch?v=M4XjV2gBbxg

 

[3] Invisíveis no mercado: masculinidade negra e o problema da palmitagem

https://www.youtube.com/watch?v=0fpqBA2cSi8

 

[4] O parceiro ideal

https://www.instagram.com/p/CoSW9xFp9tS/?img_index=1

 

[5]

Blake, K. R., & Brooks, R. C. (2019). Status anxiety mediates the positive relationship between income inequality and sexualization. Proceedings of the National Academy of Sciences, 116(50), 25029-25033.

https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1909806116

 

Blake, K. R., et al. (2018). Income inequality not gender inequality positively covaries with female sexualization on social media. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(35), 8722-8727.

https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1717959115

 

[6] Mulheres preferem homens com dinheiro? História ajuda a responder

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2013/02/20/mulheres-preferem-homens-com-dinheiro-historia-ajuda-a-responder.htm?fbclid=IwAR1vaGDEu5dTrDHECCfifkuitS9uaJLXFHIczNxZjUu4LmhNTocZZfL18JI

 

[7] Guerreiros Estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada

https://anpof.org.br/comunicacoes-leitura.php/coluna-anpof/guerreiros-estoicos-red-pill-resiliencia-e-juventude-abandonada?cat=coluna-anpof&code=guerreiros-estoicos-red-pill-resiliencia-e-juventude-abandonada&fbclid=IwAR0Scden3TVGDJTWWxb1FHNep3dRfo5hoEfRTXmnmlA2iBnt7aJohmhywc0