sábado, 26 de outubro de 2024

Comunidade científica do Rio se mobiliza contra troca de presidente da Faperj

 


Cláudio Castro avança com indicações políticas sem respaldo técnico na Ciência e Tecnologia do Estado

 

Manifestantes fizeram nessa quinta-feira, dia 24, um abraço coletivo simbólico na sede da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), no Centro do Rio. A manifestação, que reuniu principalmente pesquisadores do estado e funcionários da entidade, teve como motivação evitar que a fundação de amparo a pesquisas científicas seja presidida pelo empresário e ex-deputado federal Alexandre Valle. Bolsonarista e membro do PL, Valle seria o nome do governador Cláudio Castro para a Faperj, o que contraria fortemente a posição da comunidade científica do Rio de Janeiro, que quer a permanência do professor e pesquisador Jerson Lima da Silva na instituição.

 

A manifestação conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), duas das maiores entidades científicas do país. Em carta para o governador do Rio de Janeiro, SBPC e ABC destacaram o impacto positivo da gestão de Jerson Lima na inovação e no desenvolvimento científico do estado. A carta chama a atenção para o risco de que a escolha da liderança da Faperj seja meramente uma indicação partidária, o que pode comprometer a excelência científica e tecnológica que tem sido marca da fundação.

 

Jerson Lima da Silva, o atual presidente da Faperj, é médico, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um pesquisador altamente reconhecido na área de biologia estrutural e doenças neurodegenerativas e câncer no Brasil e no exterior. Já o bolsonarista Alexandre Valle tem perfil estritamente político, sem nenhuma ligação com a área de pesquisa e atuação como pesquisador. Valle é empresário no ramo de seguros, já se candidatou algumas vezes à Prefeitura de Itaguaí e foi derrotado em todas as ocasiões, inclusive na eleição deste ano, mesmo com o apoio de Bolsonaro e de outras figuras da extrema direita, como Nikolas Ferreira.

 

Atualmente a Faperj coordena mais de 6 mil bolsistas (de pré-iniciação científica, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e mais de 9 mil pesquisadores. As lideranças envolvidas na manifestação em defesa da Fapesp entendem que a pessoa à frente da fundação precisa ter um currículo compatível com a responsabilidade do fomento à pesquisa.

 

Além da SBPC e da ABC, a manifestação em repúdio à interferência política (sem o mínimo de respaldo técnico) na Faperj inclui outras vozes importantes, como a Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), que em nota destacou que uma nomeação estritamente política para gerir a fundação “vulnerabiliza a Faperj, coloca em risco o planejamento da agência e enfraquece a pesquisa em tecnologia e inovação no Rio de Janeiro”. 

 

Deputadas do PCdoB em defesa da Faperj

Parlamentares do Rio de Janeiro que têm como bandeira a defesa da ciência já se manifestaram contra mais essa decisão do governador Cláudio Castro. A deputada estadual, professora universitária e vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj, Dani Balbi (PCdoB) destacou que a Faperj é um dos principais pilares de apoio à ciência, à tecnologia e à inovação no Estado do Rio de Janeiro e que o setor de CT&I deve ser tratado como uma questão de Estado, e não apenas de governo, pois demanda planejamento de longo prazo. A deputada acaba de protocolar o Projeto de Lei 4328/2024, que altera a Lei nº 3.783, de 18 de março de 2002, para que o cargo de presidente da Faperj passe a ser necessariamente indicado por lista tríplice, formulada pela comunidade científica. A parlamentar explica:

 

– A Lei 3.783, de 18 de março de 2002, garante ao diretor científico e ao diretor de tecnologia um mandato de três anos, com nomeação a partir de uma lista tríplice. No entanto, a presidência da instituição, que é responsável pela direção geral de todas as atividades voltadas à consecução dos objetivos da fundação, bem como por sua representação judicial e extrajudicial, permanece como um cargo de livre nomeação e exoneração. Por essa razão, propõe-se que a nomeação do presidente siga as mesmas regras aplicáveis aos diretores científico e de tecnologia – explica Dani Balbi. 

 

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ) também se manifestou em defesa da Faperj, de Jerson Lima da Silva e da ciência do Rio de Janeiro. A parlamentar destacou que a Faperj sempre teve gestores comprometidos com a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

 

– O professor Jerson tem visão estratégica de longo prazo, honra e amplia esta tradição para fazer da fundação um pilar do desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação do estado. A exoneração do professor contraria isso tudo e não é aceitável. A Faperj não pode servir a indicações políticas –resumiu Jandira.

 

Secretário de Ciência do Estado já propôs a extinção da Uerj

A decisão pela exoneração do professor Jerson teria sido comunicada a ele há poucos dias pelo secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Anderson Moraes, também do PL e homem de confiança da família Bolsonaro. Quando falamos em Anderson Moraes, o cenário de desrespeito às instituições científicas fluminenses fica ainda mais caracterizado. Em 2021, quando era deputado estadual, Anderson Moraes protocolou na Alerj nada mais nada menos que um projeto para a extinção e venda da Uerj. Seu Projeto de Lei também previa que bens e alunos da Uerj fossem remanejados para universidades particulares.

 

A alegação de Anderson Moraes seria o gasto de dinheiro público para custear a Uerj. Seu pedido também trazia traços claros de guerra cultural contra às universidades, como a afirmação de haver “nítido aparelhamento ideológico de viés socialista na universidade”. A depreciação da imagem das instituições de ensino superior, com o uso de guerra cultural, pânico moral, negacionismo científico e anti-intelectualismo/antiacademicismo, tem sido uma arma política nas mãos da extrema direita no Brasil e no mundo.

 

Era de se esperar que um político com uma agenda tão antagônica a uma instituição de ensino e pesquisa passasse longe de um cargo público na área de Ciência e Tecnologia. Entretanto, em junho deste ano, Cláudio Castro nomeou Moraes como secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, para a surpresa e indignação de grande parte da comunidade científica fluminense. O geógrafo, professor e pesquisador da Uenf, Marcos Pędłowski, destaca que, na ocasião da nomeação de Moraes, faltou mobilização da comunidade científica.

 

– Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação [semelhante a que ocorre agora por causa da Faperj], o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj – explica o geógrafo.

 

A fala de Pędłowski acende um sinal de que, sem mobilização incisiva da comunidade acadêmica e científica do Rio de Janeiro, a politização institucional do setor à extrema direita e sem o cumprimento de requisitos técnicos mínimos tende a piorar.

 

A comunidade científica e acadêmica da Uerj criou uma petição pública contrária a saída do professor Jerson Lima da presidência da Faperj, que até o momento tem mais de 22 mil assinaturas. O texto do abaixo-assinado destaca que “A Faperj é essencial para o financiamento da ciência no estado do RJ, apoiando não só as universidades estaduais e federais, como também diversas frentes que valorizam a sociedade fluminense”.

 

As assinaturas serão entregues ao governador Cláudio Castro. Quem quiser assinar deve acessar o endereço abaixo:

 

https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR143907

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Há 62 anos, livro inaugural do ambientalismo moderno era lançado

Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, apontava os efeitos nocivos dos pesticidas para o meio ambiente

 

“Era uma primavera sem vozes. Outrora, as manhãs pulsavam com o coro de tordos, pombos, gaios, curruíras e dezenas de outros pássaros. Agora não havia som algum, apenas o silêncio reinava sobre os campos, bosques e pântanos. Até mesmo os riachos estavam sem vida. Nenhuma bruxaria ou qualquer outra ação inimiga tinha silenciado o renascimento da vida neste mundo alquebrado. As próprias pessoas haviam se encarregado disso (…). Sobre áreas cada vez maiores dos Estados Unidos, a primavera agora não é anunciada pelo retorno dos pássaros, e as primeiras manhãs são estranhamente silenciosas, onde antes estavam cheias da beleza do canto dos pássaros.”

Em 27 de setembro de 1962, era publicado nos Estados Unidos o livro Primavera Silenciosa (Silent Spring), da bióloga e ecologista estadunidense Rachel Carson. A obra é considerada um marco fundador do movimento ambiental moderno, figura em listas de principais livros de divulgação científica e é um ponto de virada na história da ciência, por ter sido uma das primeiras a popularizar a ideia de que a ciência, além de resolver problemas e ser um motor de desenvolvimento, também apresenta riscos e efeitos colaterais que precisam ser identificados, calculados e refreados.

Em seu livro, Carson alertava sobre os perigos do diclorodifeniltricloroetano (DDT) e pesticidas em geral. Seu principal argumento era o de que os pesticidas têm efeitos prejudiciais ao meio ambiente, uma vez que esses efeitos raramente se limitam às pragas-alvo, se estendendo à fauna e flora e aos seres humanos. Carson se refere a esses pesticidas como “biocidas”, por conta de seus efeitos tão abrangentes. Os efeitos da bioacumulação gerada por conta do uso do DDT e outros pesticidas sintéticos são minuciosamente descritos pela bióloga em sua obra. Carson denunciava na década de 1960 problemas que até hoje são vistos na sociedade global em questões ambientais, como quando acusava a indústria química de espalhar intencionalmente a desinformação sobre os usos e efeitos dos pesticidas na agricultura e a cooptação do estado, já que seus agentes e funcionários aceitavam as alegações da indústria de forma acrítica.

Ainda na década de 1960, Primavera Silenciosa marcou a agenda política estadunidense, fomentando um debate nacional sobre a utilização excessiva de pesticidas como o DDT, possibilitando tomadas de decisão mais bem informadas por parte dos cidadãos. A obra contribuiu para a mobilização da sociedade civil e serviu de base para o chamado movimento ambientalista. O livro condicionaria mudanças históricas na esfera política e industrial. Em 1972, uma década após a obra ter sido lançada, o DDT seria banido nos Estados Unidos. Primavera Silenciosa também influenciou mudanças legislativas em prol da proteção ambiental nos Estados Unidos e no mundo.

A obra foi uma das primeiras – ou mesmo a primeira – a popularizar a ideia do efeito poderoso e, por vezes negativo, da ação humana no mundo natural. Ideia essa bastante difundida nos dias de hoje, ainda que os resultados práticos dessa ideia para mitigação dos danos ambientais sejam tímidos quando comparados ao tamanho dos riscos e desafios. O livro dava início a um modo de interpretar a questão ambiental que perdura até hoje, que pensa o planeta como um organismo relativamente frágil, cujos recursos são limitados. Uma nave-mãe que precisa de cuidados por parte de seus tripulantes.

Para Sverker Sörlin (2008), de forma simplificada, Primavera Silenciosa se junta a outros marcos para compor essa narrativa de consciência ambiental ao longo da segunda metade do século 20, como a popularização da imagem do planeta Terra visto do espaço, primeiramente na marcante transmissão da Apollo 8, no Natal de 1968, e depois popularizada na TV pelo trabalho do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, principalmente na década de 1980. Segundo Sörlin, essa narrativa solidificou importantes iniciativas de políticas públicas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Mais do que tudo isso, o livro Primavera Silenciosa se tornaria um ponto de virada na história da ciência. Para o historiador, professor da Unicamp e autor do livro Capitalismo e Colapso Ambiental (editora Unicamp), da revolução científica do século 17 até meados do século 20, a ciência teve posição de destaque, destronando discursos como o religioso e o artístico. Isso porque ela foi capaz de oferecer às sociedades ocidentais em expansão a energia, a mobilidade, os bens em geral, a capacidade de sobrevivência e a segurança que elas precisavam. Os benefícios da ciência eram claros e confirmavam uma promessa de crescimento ilimitado. 

Mas a partir de 1962, com Primavera Silenciosa, Rachel Carson pela primeira vez exporia ao mundo, de forma contundente, o lado sombrio das conquistas da ciência: agrotóxicos como o DDT aumentavam, de fato, a produtividade agrícola, mas ao preço de enormes danos à saúde e à biodiversidade. A partir daí, a ciência começa a mudar seu discurso. Ela passa a anunciar que havíamos saído da idade das promessas e entrado na idade das escolhas, para tentarmos evitar a idade das consequências, na qual os prejuízos para a humanidade podem ser irreversíveis. De condutora da humanidade à terra prometida do progresso ilimitado, a ciência se torna, aos poucos, sinal de alerta sobre o potencial destrutivo de uma expansão sem limites do modelo de sociedade capitalista.

Com a chegada do século 21, a ciência deixa claro algo que não estava posto no auge do Iluminismo, no século 18: a ideia de desenvolvimento econômico ilimitado esbarra na finitude dos recursos naturais. Portanto, não é possível a acumulação infinita de riquezas. Não é possível domesticar a natureza como o Iluminismo supôs. Essa nova racionalidade científica, preocupada com a sustentabilidade e com os riscos ambientais, obviamente desagradaria a uma elite econômica que sempre se beneficiou do processo predatório de acumulação de riquezas, assim como também desagradaria a todos aqueles que se enxergam como emergentes, logo, também candidatos a novos membros dessa elite econômica, sejam esses emergentes nações, grupos econômicos ou pessoas.

Marques destaca a convergência entre o negacionismo ambiental e a extrema direita emergente no mundo: diante do esgotamento dos recursos naturais e da evidente insustentabilidade do modelo econômico capitalista conforme conhecemos, a extrema direita parece dobrar a aposta no capitalismo predatório, e o negacionismo científico é uma de suas principais armas para isso.

Para Jason Hickel, em seu livro “Less is more” (2020), a atual controvérsia política e o negacionismo em torno da crise climática evidencia que a civilização não se organizou em torno da ciência como prega a narrativa iluminista, mas sim em torno do capital. A ciência é adotada quando está a serviço dos interesses do capital, sendo frequentemente ignorada quando não está. Primavera Silenciosa é o primeiro e um dos mais proeminentes exemplos desse modus operandi de uso conveniente da ciência. Com o sucesso da obra, empresas químicas responsáveis pelos pesticidas organizaram uma campanha contra Rachel Carson, rotulando o conteúdo do livro como um tipo de histeria sem rigor científico. Recomendamos o documentário American Experience: Rachel Carson (2017) para quem quiser saber mais sobre esse embate público e também sobre a vida da bióloga.

Mas o tempo mostraria quem tinha razão: Carson sairia vitoriosa, e Primavera Silenciosa deixaria um importante legado para o mundo e a ciência. Com o tempo, as verdades se acumulam e fica cada vez mais difícil negá-las. A questão é se desta vez teremos tempo suficiente para evitar consequências irreversíveis.       


Referências:

HICKEL, J. Less is more: how degrowth will save the world. Londres: William Heinemann, 2020.

MARQUES, Luiz. Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita. Folha de S. Paulo. 06 jan 2019. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/01/negacao-da-ciencia-ganha-forca-em-nacionalismo-que-une-esquerda-e-direita.shtml#:~:text=Contesta%C3%A7%C3%A3o%20do%20aquecimento%20global%20mostra,com%20avan%C3%A7o%20cient%C3%ADfico%2C%20diz%20pesquisador&text=%5BRESUMO%5D%20Nega%C3%A7%C3%A3o%20de%20consensos%20cient%C3%ADficos,direita%20se%20confundem%2C%20escreve%20pesquisador. >.

SÖRLIN, Sverker. Narratives and counter-narratives of climate change: North Atlantic glaciology and meteorology, c.1930–1955. Journal of Historical Geography 35, 2009. Disponível em < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305748808001072  > Acesso em 4 jul 2017.

sábado, 24 de agosto de 2024

Tudólogos: quem são? Onde vivem? Do que se alimentam?

 


Há muitos bons influenciadores digitais, mas cuidado com aqueles que opinam sobre tudo! Eu seguia uma influenciadora que falava sobre filosofia, sexualidade e relacionamentos. Segundo ela, sua página é um “espaço dedicado à filosofia e curiosidades”.

 

E não para por aí. A pessoa aborda psicanálise, religião etc... Daí me apareceu com um vídeo sobre mudanças climáticas. O que isso tem a ver com relacionamentos e sexualidade? Fiquei curioso e fui assistir.

 

Basicamente, tratava-se de um conteúdo que flerta fortíssimo com o negacionismo. No vídeo ela defendia que as mudanças climáticas não são nada de novo, pois o clima da Terra já mudou várias vezes na longa história do planeta devido a catástrofes ambientais.

 

De fato, mudanças no eixo da Terra, queda de meteoro e outras catástrofes já alteraram o clima da Terra. Entretanto, não dá para misturar as coisas. As mudanças climáticas atuais têm um diferencial: são antropogênicas, ou seja, provocadas pela ação direta do homem. São resultado de uma emissão massiva de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano, vapor d’água...) que coincide com o período da Revolução Industrial. Há provas suficientes disso e um consenso de mais de 95% dos artigos na comunidade científica atestando o caráter antropogênico do aquecimento planetário [1].

 

Sendo assim, deixei de segui-la.

 

Dicas importantes

Há muitos formatos de produção de conteúdo, e é preciso ter cuidado com alguns deles. Há influenciadores que possuem uma formação ou competência em uma área restrita e se limitam a falar sobre assuntos dentro dessa área restrita. Tudo ok. Se eles se propõem a ultrapassar suas áreas de competência/formação e abraçar uma gama mais ampla de assuntos, mas para isso convidam especialistas de acordo com o tema a ser abordado, tudo ok também.

 

Mas cuidado com aqueles que extrapolam suas próprias formações/competências e se metem a falar sobre tudo, qualquer coisa, por conta própria, sem convidados especialistas. Ligue o desconfiômetro nesses casos.

 

E por falar em formação/competência, outra dica de cuidados com o que consumimos nas redes é buscar informação sobre o currículo dos influenciadores e o que eles têm de portfólio para além de suas atuações como influenciadores digitais. Porque falar bonito na internet é fácil para aqueles que possuem talento para a comunicação.

 

Tenho como um dos meus filtros de internet pesquisar o currículo de uma personalidade quando ela se destaca como formadora de opinião. Vale Lattes, Linkedin, Vitae. Vejo a formação, a experiência profissional, o que eu puder. Já fui criticado por isso, mas no terreno arenoso da internet, onde cada um diz qualquer coisa, acho válido. Na sociedade de espetacularização midiática em que vivemos, as estratégias de propaganda, marketing e relações públicas estão a todo momento atropelando e se sobrepondo ao conhecimento. É a forma frequentemente esmagando o conteúdo.

 

Procure pela formação da pessoa, suas realizações, onde trabalha ou trabalhou.

 

Uma terceira dica é avaliar esse tipo de página “de tudo um pouco” a partir de algum conteúdo cujo assunto você detenha um mínimo de conhecimento e formação, para ver se o conteúdo faz ou não sentido. Como precisei ler muito sobre mudanças climáticas para a minha dissertação, no meu caso, dentre o tanto de conteúdo diversificado que essa influenciadora produz, esse vídeo dela sobre mudanças climáticas foi um balizador para mim. E foi a gota d’água.

 

Significa que o restante do conteúdo que ela produz não presta? Não posso afirmar isso, mas como já sou bastante crítico a esse formato em que uma só pessoa se mete a falar sobre tudo, achei melhor não mais acompanha-la.

 

A quarta dica é estar atento(a) à transparência que o(a) influenciador(a) dá a suas próprias referências. Esse produtor de conteúdo disponibiliza as fontes que usou? Ele facilita o acesso a elas (por meio de links)? Essas fontes lhe parecem confiáveis? É bem verdade que fontes podem ser falseadas ou o influenciador pode usar fontes muito ruins, apenas de modo a legitimar a própria opinião. Mas há muito conteúdo por aí que nem fonte tem. Não custa cobrarmos transparência com as fontes.   

 

Ninguém consegue falar sobre tudo. Fuja de tudólogos!

 

Referências:

[1] Considerações sobre o aquecimento global

https://socientifica.com.br/consideracoes-sobre-o-aquecimento-global/

Silvio Santos, entre críticas e vínculos afetivos

 


No dia 17 de agosto morreu o maior nome da história da TV brasileira. O empresário e apresentador Silvio Santos foi uma daquelas pessoas representativas de uma era. Por isso sua morte tem cara de fim de era. Talvez o fim dos tempos de comunicação de massa por meio da TV aberta.

Para mim e para muitos da minha geração, significa a perda de uma referência cultural importante e bastante presente durante muitos anos. Na medida em que essas referências ficam para trás, nós ficamos um pouco mais isolados e desterrados no mundo. Bate uma certa tristeza, não só por quem partiu, mas também por nós.

Entretanto, não quero falar do Silvio Santos, mas sobre o que vem sendo falado a respeito dele. Meu interesse é o discurso sobre a pessoa e não a pessoa.

A maioria das menções que vi a respeito de Silvio Santos tem sido elogiosa, em tom de homenagem, ressaltando suas qualidades e sua importância. Algumas poucas, no entanto, em tom crítico e negativo, ressaltam seus defeitos: misoginia, racismo, alinhamento à ditadura militar, exploração dos pobres. Porque não há nada hoje em dia que não seja polarizado de forma acirrada [1].

Pessoalmente, normalmente evito tecer críticas negativas a quem acabou de morrer. Mais do que isso, acho que agir assim é uma decorrência de um tipo de associação mental que as pessoas fazem entre falar mal de algo/alguém e parecer mais inteligente e esperto que a média, como se ao criticar negativamente alguma coisa a pessoa demonstrasse enxergar mais longe que as outras.

Chamo isso de “cacoete da crítica” e tenho alguma experiência a esse respeito, por transitar nas áreas de humanidades e ciências sociais. Há muito desse modus operandi nessas áreas.

Algumas personalidades orgulhosamente manifestaram suas críticas a Silvio Santos no calor de seu falecimento. Uma delas foi o ator Pedro Cardoso. Já a jornalista Rachel Sheherazade, que durante alguns anos foi apresentadora do telejornal da emissora de Silvio, optou por jogar indireta. A jornalista postou em seu perfil a imagem de uma ovelha e a legenda: “É um privilégio não se encaixar. E vc? Segue a manada ou faz seu próprio caminho?” [2].  Esse é um bom exemplo de como é forte essa associação entre falar mal de algo e parecer mais esperto que a “manada”.


Política e afetos

Penso sobre tudo isso enquanto assisto, por exemplo, a dois dos principais influenciadores digitais webcomunistas que não perderam tempo para produzirem conteúdo chamando Silvio Santos de “canalha, que agora morreu e virou santo” e que foi para a “terra do pé junto”. Coisas do tipo.

Não significa que as críticas ao apresentador/empresário estejam erradas. Pelo contrário. Ele merece muitas críticas. A questão é a eficácia desse tipo de postura e discurso junto às audiências, inclusive tendo em vista o timing. Afinal, a pessoa acabara de morrer.

A política se constrói principalmente à base dos afetos (hoje em dia, exageradamente à base dos afetos). Um dos erros políticos de muitas pessoas, principalmente à esquerda (caso desses webcomunistas), é achar que vão esfregar alguns fatos na cara dos outros e que isso vai mudar alguma coisa sobre como os outros pensam. Ainda que críticas a Silvio Santos sejam objetivamente pertinentes, é preciso considerar e lidar com o fato de que boa parte da vinculação do povo com Silvio se dá pelo campo dos afetos. Então é muito provável que as pessoas antipatizem com conteúdos negativos sobre ele no calor de sua morte e também antipatizem com os autores desse tipo de conteúdo negativo.

Talvez se as críticas fossem feitas em um outro momento…

A repercussão da morte do Silvio Santos me fez lembrar o caso da propaganda da Volkswagen, que juntou por inteligência artificial as cantoras Elis Regina e Maria Rita, mãe e filha privadas pelo destino do convívio uma com a outra, ao som de uma canção de Belchior [2]. Havia na peça publicitária uma subversão do sentido da letra da canção? Sim. A Volkswagen apoiou a ditadura militar e perseguiu dissidentes? Sim. Os críticos ressaltaram esses pontos. Mas naquela peça publicitária havia outras camadas de significado que apelavam para a emoção e engajavam pelo afeto, levando em conta os vínculos familiares e as relações pais e filhos, tão importantes na vida de tantas pessoas.

Quem vem com a locomotiva da objetividade passando com tudo por cima dos vínculos afetivos engajadores corre sério risco de sair dos trilhos. Considero essa uma leitura importante para se pensar nas disputas políticas atuais.   Por isso acho que é preciso cuidado com certos discursos críticos que se reivindicam objetivos. O que se pretende? Se for para parecer mais inteligente, pregar para convertidos ou desopilar o fígado, ok. Mas se for para engajar, trazer simpatizantes para sua causa, formar opinião, aí é preciso um pouco de cuidado com a forma e, em se tratando especificamente de falecimentos, com o timing.


Referências:

[1] Em rede social, nem rei pode descansar em paz

https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/rosana-hermann/2024/08/em-redes-sociais-nem-rei-pode-descansar-em-paz.shtml

[2] Pedro Cardoso e Rachel Sheherazade

https://www.youtube.com/watch?v=uEuP-OPnGHs

[3] “Como Nossos Pais”? Comercial que reúne Maria Rita e Elis Regina provoca debate sobre canção:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2023/07/como-nossos-pais-comercial-que-reune-maria-rita-e-elis-regina-provoca-debate-sobre-cancao-cljr2vbfb001o0150ax5jzbeg.html

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Dia Mundial do Rock: roqueiros reaças, falácias e negacionismo

 


No dia 13 de julho é comemorado o Dia Mundial do Rock, que apesar do nome só é lembrado no Brasil. A data foi escolhida por conta do megaevento Live Aid, organizado em 1985 por Bob Geldof e que reuniu grandes nomes do pop/rock mundial. Um desses nomes foi o cantor Phill Collins, que sugeriu durante sua apresentação que aquele dia entrasse para a história como o “Dia Mundial do Rock” [1]. Funcionou. Pelo menos no Brasil.

 

O rock faz parte da minha vida e é meu estilo musical preferido há muitos anos. Mas não é exatamente sobre rock que pretendo falar e sim sobre roqueiros. Mais especificamente sobre roqueiros reacionários. E também sobre falácias e negacionismo. Para isso, vou usar o exemplo do cantor Marcelo Nova, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, relembrando sua entrevista em um Dia Mundial do Rock durante a pandemia de coronavírus que assustou o planeta e vitimou, em quatro anos, mais de 7 milhões de pessoas ao redor do Globo. Só no Brasil, no mesmo período, foram mortas mais de 700 mil pessoas [2].

 

Roqueiros reaças

Vez ou outra, por conta de alguma declaração política feita por algum músico, surge no debate público falas a respeito da figura do “roqueiro reaça”, sempre carregadas com um certo tom de indignação e surpresa, vindas de gente que se diz espantada com o fato de um roqueiro ser reacionário, de direita ou conservador. Muita gente que se entende de esquerda ou progressista fala em decepção por causa de velhos roqueiros como Eric Clapton, Morrissey, Marcelo Nova, Lobão, Digão (da banda Raimundos) e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), que adotaram posições reacionárias e até negacionistas (principalmente no período pandêmico).

 

Mas a figura do roqueiro reaça não deveria impressionar tanto, não deveria ser vista como um exemplo de pessoa contraditória. Por várias razões.  Primeiro, porque quem se espanta com  o roqueiro reaça, achando-o contraditório, ou não conhece a história do rock e não sabe que desde sua popularização, na década de 1950, o gênero sempre esteve vinculado a uma classe média branca, ou bota muita fé no "progressismo" das classes médias brancas no Brasil e no mundo.

 

A classe média branca tem um potencial para o reacionarismo mais do que comprovado. Movimentos como o fascismo e o nazismo foram disseminados e consolidados em grande medida com base na força da classe média branca europeia. Nos Estados Unidos, onde o rock surgiu, mesmo bebendo da fonte da música negra e de artistas negros, logo em seu nascedouro esse gênero musical foi rapidamente embranquecido, e a indústria musical elegeu Elvis Presley, um branco, como o “rei do rock”. Não cabe aqui nenhuma crítica a Elvis como artista, muito menos uma acusação de que ele próprio seria racista. Não é isso! Aliás, Elvis chegou a abrir espaço para artistas negros em sua carreira. A questão é o que a escolha de um artista branco como ídolo maior de um estilo musical de origem negra revela sobre a indústria e, principalmente, sobre a sociedade.

 

Mas isso foi na década de 1950. De lá para cá muita coisa mudou, certo? Mais ou menos. Basta ver o hall da fama do rock ao longo de sua história. Quantos ídolos do gênero são negros, pardos ou mulheres? São poucos os exemplos. A grande maioria é homem branco mesmo.

 

Também não estou afirmando que a classe média branca é necessariamente reacionária, mas que é preciso cautela quanto às expectativas políticas progressistas depositadas sobre ela. Se rappers como Emicida, MV Bill ou Mano Brown se tornarem reacionários e negacionistas no futuro, eu até ficaria um pouco surpreso, já que há anos o rap – principalmente esses artistas citados – possuem forte identificação com as periferias, onde está a grande maioria da classe proletária. Mas Marcelo Nova, Roger Moreira ou Digão “virarem” reacionários não me espanta em nada e não deveria causar espanto em ninguém.

 

Esperar progressismo de roqueiros de classe média branca é só uma derivação político-musical do imaginário do branco salvador. Pode acontecer? Claro! Mas quando acontece é lucro.

 

Outra razão pela qual não deveria haver grandes expectativas políticas em relação aos roqueiros e nem grande espanto com roqueiros reacionários é porque ícones do rock brilham muito jovens. Em geral, não dá para esperar que jovens roqueiros, sem militância e/ou formação política, sejam seres iluminados. Tom Morello, ex-guitarrista do Rage Against the Machine/Audioslave e cientista político formado por Harvard, é exceção. Não por ser algum tipo de ser iluminado, mas por ter militância e formação. Em geral, sendo jovens, sem formação política e sem militância, normalmente as abordagens políticas das obras de jovens roqueiros são feitas com base em senso comum e com uma abordagem um tanto superficial.

 

Por exemplo, quando Cazuza cantava "Ideologia, eu quero uma pra viver", usava o termo "ideologia" partindo do senso comum. Se formos um pouco mais criteriosos com o uso do termo “ideologia” a partir das ciências sociais e da filosofia, o verso de Cazuza é bem questionável. Ele não poderia dizer que quer uma ideologia, porque, na verdade, todo mundo tem ideologia. Não se escapa da ideologia. Então não faz sentido ele querer uma coisa que já possui (embora não a perceba).

 

Outro exemplo de senso comum é "Geração Coca-Cola", canção da Legião Urbana e uma colcha de retalhos de rebeldia inconsistente. Ou vai me dizer que "crianças derrubando reis" e "filhos da revolução" quer dizer algo muito além de um conflito geracional? Não há nenhuma crítica à exploração de classes ou a algo estrutural com mais profundidade. E, sinceramente, não precisa haver. Roqueiros são músicos da cultura pop. Fazem parte de nossa história e compuseram a trilha sonora de nossas vidas. E isso basta, porque isso já é muito. 

 

Falácias

Vamos relembrar um caso concreto vindo de alguém conhecido por ser um roqueiro reaça: Marcelo Nova. No ápice da pandemia, o músico foi entrevistado em um programa jornalístico regional da Rede Globo e sua declaração chamou a atenção pela autenticidade e sinceridade [3] (o que nada tem a ver com estar correto, como veremos). A pauta era justamente o Dia Mundial do Rock, e a pergunta do apresentador foi a seguinte: “Marcelo, nessa pandemia, o que você produziu durante esses meses de isolamento e de quarentena?”

 

A resposta do roqueiro foi um verdadeiro desabafo de um artista que quer e precisa subir aos palcos para trabalhar. O que é justo. Porém, sem querer bancar o chato, mas já sendo, é necessário apontar e analisar alguns equívocos em sua fala. Isso porque houve muita gente que aplaudiu o que ele disse como se ele fosse um exemplo louvável de rebeldia, liberdade e pensamento independente.

 

Disse Marcelo Nova, em resposta ao apresentador: “Veja bem, isolamento parcial, porque eu não me submeto a esses ditames do ‘fica em casa, fica em casa’. Eu vejo quem eu quero, eu abraço quem eu quero. E eu vou morrer. Se não morrer de covid, vou morrer de câncer, atropelado, assassinado (...). Eu não trabalho graças a medidas governamentais. Eu não trabalho há um ano e meio”.  

 

O músico prossegue e começa a disparar críticas ao então governador de São Paulo, João Dória: “No Natal passado, o governador João Dória decretou um estado de vermelho, roxo, preto, sei lá, e a população de São Paulo ficou trancada em casa, enquanto ele foi pra Miami, fazer compras nas boutiques de luxo. Qual é a mensagem que um governador passa para a população ao agir dessa maneira? É simples: ‘fique em casa, seu babaca. Fique aí com seu álcool em gel, sua máscara e seu distanciamento, porque eu vou pra Miami. Eu vou curtir sem máscara, sem medo, sem nada. Eu vou curtir a vida, porque eu tenho o poder. E você, babaca, você obedece”.

 

Marcelo Nova finaliza sua fala fazendo comparações entre as medidas de distanciamento social e regimes totalitários e um suposto modo como a mídia estaria disseminando um pânico que seria importante para um tipo de controle governamental. Entretanto, o mais importante aqui são as críticas ao ex-governador de São Paulo. Quando o músico, motivado por uma insatisfação em relação às medidas restritivas, faz ataques a Dória como sendo um governante hipócrita que propõe uma coisa e faz outra bem diferente, o que Marcelo Nova está fazendo é adotando um tipo de falácia lógico-argumentativa. As falácias podem ser de vários tipos, e há diversas listas de tipos de falácias disponíveis na internet [4].

 

Uma falácia é um raciocínio incorreto que nos desvia daquilo que realmente importa ser discutido. É algo que nos tira o foco, nos distanciando da lógica e da possibilidade de analisar um problema de forma racional. O debate público está tomado de falácias. Por serem psicologicamente persuasivas, as falácias tendem a deformar o debate público, a opinião pública e a nossa própria cognição. Aos poucos, nossas ideias e opiniões sobre os mais diversos temas passam a ser construídas com base em raciocínios falaciosos, o que é extremamente nocivo e nos impede de resolver os problemas.

 

Quanto à entrevista do cantor e suas críticas a Dória, direi algo que pode parecer absurdo para alguns: é perfeitamente possível alguém ser hipócrita e ainda assim ter razão. Vejamos:

 

Imagine a seguinte situação: eu vou à empresa onde você trabalha para dar uma palestra sobre direção defensiva e os riscos da combinação de álcool e direção. Eu mostro para você e seus colegas de trabalho estatísticas que apontam para o aumento dos riscos de acidente conforme a quantidade de bebida alcoólica que o condutor ingeriu. Mostro também os efeitos do álcool no cérebro e termino com frases de efeito: “Álcool e direção não combinam”. “Se beber, não dirija”.

 

Após a palestra, ao final do expediente, todos da empresa vão para um bar ao lado, e eu vou junto. Eu aviso, mais uma vez: “Quem vai dirigir deve ficar só no refrigerante, ok?!” Entretanto, eu mesmo começo a beber uma cerveja após a outra. Os funcionários da empresa observam esse meu comportamento. “Provavelmente é porque ele não está dirigindo”, pensam. Só que após eu pagar a conta, tiro do bolso uma chave que parece ser de um carro, saio cambaleando de bêbado do bar, abro a porta de um carro e vou embora, dirigindo todo torto.

 

Imediatamente você pensa: “esse palestrante é um hipócrita!”. E, de fato, neste caso eu sou mesmo. Propus aos funcionários de uma empresa algo que eu mesmo não faço. Palestrei sobre regras que eu não cumpro. Entretanto, eu ser hipócrita não muda o fato de que álcool e direção são realmente uma combinação perigosa. O uso de bebida alcoólica prejudica, sim, os reflexos e aumenta os riscos de acidente. Há evidências abundantes sobre isso, fato que não vai mudar por causa do meu mau comportamento. Ou seja, é perfeitamente possível alguém ser hipócrita e ainda assim ter razão.

 

Voltando à fala de Marcelo Nova, apontar uma suposta hipocrisia de João Dória não muda em absolutamente nada a eficácia comprovada das medidas restritivas de distanciamento social. Apenas serve para nos desviar do foco. Em vez de discutirmos e compreendermos uma medida eficaz de combate à pandemia e defesa da saúde pública, passamos a tratar da suposta hipocrisia de um governante. Aqui não cabe saber se Dória foi mesmo ou não a Miami, quais as razões da viagem ou se ele tomou os cuidados necessários durante essa viagem (caso ela tenha de fato ocorrido). A existência ou não da viagem, assim como as circunstâncias em que ela foi feita caso tenha existido, não muda a necessidade do distanciamento social. O raciocínio proposto pelo cantor é falacioso, pois desvia o debate do verdadeiro problema: a contenção da pandemia.

 

Se uma pessoa, motivada pela indignação diante da hipocrisia de um governante, decidir que por conta disso vai sair na rua e se expor como se não houvesse um vírus mortal pela cidade, além de pôr a sua vida e a dos outros em risco, estará incorrendo em um erro lógico. Da mesma forma, no exemplo que propus da palestra sobre álcool e direção, se você pensar: “Esse palestrante é um hipócrita! Eu vou beber e dirigir igual a ele. Que se dane!”, estará você também incorrendo em um erro lógico e pondo a sua vida e a dos outros em risco. Minha hipocrisia não muda certos fatos. Álcool e direção são uma combinação perigosa! As falácias também são! Não significa que criticar a hipocrisia de alguém não seja uma discussão válida. Só que é uma outra discussão.

 

A falácia usada pelo cantor na entrevista é conhecida pelo nome de “tu quoque”, cuja tradução do latim é literalmente “você também”. Outro nome dado a ela é falácia “de apelo à hipocrisia”, justamente porque o debatedor foge do foco e opta por apontar uma suposta hipocrisia de outra pessoa. Ela faz parte da lista de falácias que apresentamos acima. Apesar do raciocínio falacioso, por conta de sua entrevista Marcelo Nova foi exaltado como algum tipo de rebelde de espírito livre, que não se submete aos “ditames” da mídia, das instituições, do estado, da ciência ou seja lá o que for. O problema é que da mesma forma que é possível ser hipócrita e ainda assim estar certo, também é possível ser rebelde e estar errado.

 

Um dos vídeos que mostra essa entrevista enaltecendo o cantor afirma na legenda que “A Globo esqueceu de combinar o roteiro com o convidado e paga mico ao vivo com uma aula contra lockdown”. A proposta do vídeo é mostrar que Marcelo Nova deu “uma aula”, contestando com sua suposta rebeldia uma imposição de lockdown. Acontece que não havia lockdown nenhum no Brasil. O que houve por aqui foram algumas medidas restritivas que eram reforçadas ou flexibilizadas a cada mês na medida em que o número de casos confirmados de covid aumentava ou diminuía, assim como o número de leitos ocupados na rede de saúde dos estados e municípios aumentava ou diminuía. Medidas restritivas sempre reforçadas e flexibilizadas conforme o cenário ia mudando. Isso não é lockdown. Em países como Itália e Reino Unido, sim, houve lockdown. Aqui temos um outro exemplo de falácia, conhecida como “espantalho” (também consta na lista que apresentamos), que consiste em exagerar as ideias, situações e argumentos que se quer combater, para ficar mais fácil de ataca-los. Ao exagerar chamando as medidas restritivas de lockdown, ficaria mais fácil atacar essas medidas.

 

Negacionismo

Marcelo Nova é, portanto, um negacionista. E um negacionista orgulhoso. Mas o que é negacionismo? O conceito é comumente entendido como “o ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história” [5] ou mesmo “a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável” [6]. José Luiz Ratton, em seu “Dicionário dos negacionismos no Brasil”, explica que ao tratarmos do negacionismo

 

Estamos falando de realizações coletivas em que práticas de negação transformam-se em formas completamente diferentes de ver o mundo, indo além da recusa da verdade e produzindo outra verdade, que se pretende superior, busca evitar a publicização de desejos secretos, suposta e provavelmente inconfessos para a coletividade, pois incapazes de acomodar diferenças, alteridade, respeito ao outro (RATTON, 2022, p. 198).

 

Há uma variação de negacionismos, que nos últimos anos vêm sendo estudados e categorizados por pesquisadores de diversas áreas em todo o mundo: negacionismo climático, negacionismo científico, negacionismo histórico etc. Todos bem explicados no livro “Dicionário dos negacionismos no Brasil”. A explicação de Ratton traz elementos interessantes para analisarmos a fala do cantor Marcelo Nova. Ratton destaca, por exemplo, que o negacionismo evita a publicização de certos desejos.

 

Sabemos que a indústria do tabaco, que fomentou e deu forma ao negacionismo na segunda metade do século 20, quer vender mais cigarros. Sabemos também que a cadeia industrial ligada aos combustíveis fósseis quer manter suas atividades produtivas e continuar lucrando. Mas diante de evidências sobre os malefícios do cigarro à saúde e sobre as mudanças climáticas antropogênicas (fruto da ação humana), não basta assumir claramente, em alto e bom tom, o desejo de continuar lucrando independentemente dos problemas ocasionados. Representantes da indústria tabagista não podem abertamente dizer: “Veja bem, sabemos que cigarro faz mal e te mata lentamente, mas continue comprando cigarro e fumando, pois precisamos do seu dinheiro. Obrigado por fumar”. Isso não basta. É preciso patrocinar iniciativas que gerem dúvidas e controvérsias junto à opinião pública sobre evidencias científicas que a indústria considera inconvenientes para seus negócios.

 

No caso individual de Marcelo Nova, a coisa é mais justificável e menos inconfessável. Trata-se de um músico que quer trabalhar. Isso é absolutamente legítimo. Mas é preciso separar as coisas. É justificável uma pessoa tornar pública a sua necessidade de trabalhar. O que não dá é para ela despejar raciocínios falaciosos e negacionismo científico para defender o próprio direito ao trabalho. O fato é que vivíamos uma situação extraordinária diante de um vírus mortal contra o qual não havia vacina. Isso obviamente requeria sacrifícios, e os principais afetados por esses sacrifícios – dentre eles trabalhadores dos setores de turismo e cultura, por exemplo – precisavam do amparo de políticas públicas. O problema é que o Brasil vivia um governo em nível federal que pouco se importava com políticas públicas e preferia incentivar negacionismos do que assumir sua responsabilidade na administração do prejuízo e no amparo às vítimas e a milhões de trabalhadores. O negacionismo do governo federal era uma forma de ele se esquivar do problema. E o cantor Marcelo Nova aderiu a esse negacionismo, talvez por julgar insuficiente apenas dizer que queria trabalhar.

 

Mais do que aderir ao negacionismo, o roqueiro demonstrou orgulho dessa sua atitude. E aqui vem a cereja do bolo. Em uma outra entrevista, ele reivindica a figura de Jesus Cristo como forma de enaltecer suas próprias atitudes e opiniões negacionistas [7]: “Eu sou negacionista como Jesus Cristo era negacionista. Ele negava o poder do Império Romano. Era um sujeito que negava, rapaz. Governo com ele? Ele mandava tomar no cu! Jesus era um negacionista e eu também sou. Me nego a aceitar ordens de quem quer que seja”.

 

Além de falacioso e negacionista, Marcelo Nova mostra aqui que também é anacrônico. Em história, anacronismo é quando alguém pega um conceito de uma época, elaborado dentro do contexto dessa época, e tenta aplica-lo a uma outra época em que aquele contexto que possibilitou o surgimento do conceito sequer existia. É o que muitos fazem, por exemplo, ao tentar aplicar os conceitos de esquerda e direita, surgidos na Revolução Francesa, a questões medievais ou da Antiguidade. O negacionismo é um fenômeno de nosso tempo que está relacionado à produção de negação de ditames da ciência moderna. No tempo de Cristo não existia ciência moderna. Não dá para simplesmente chamar de negacionista todo mundo que ao longo da história negou alguma coisa. Mas o anacronismo é assunto para outra ocasião. 

 

Confesso que por essa eu não esperava. Nunca imaginei que alguém fosse reivindicar Jesus Cristo para legitimar o próprio negacionismo. Mas aí está um dos grandes desafios daqueles que se propõem a combater o negacionismo: nunca sabemos qual será o próximo devaneio. A imaginação humana é extraordinariamente potente. É por isso que teorias conspiratórias costumam ser tão criativas. A mente humana voa longe. Isso é maravilhoso, mas também desastroso. Pode dar muito certo na literatura e nas artes, mas pode também dar muito errado na política e na ciência. Nunca sabemos onde brotará a próxima flor de lótus do negacionismo na imensidão pantanosa da inventividade humana. 

 

Referências:

SZWAKO, José; RATTON, José. Dicionário dos negacionismos no Brasil. Recife: Cepe, 2022.

 

[1] Entenda por que o “Dia Mundial do Rock” só é celebrado no Brasil

https://www.radiorock.com.br/2023/07/13/entenda-por-que-o-dia-mundial-rock-e-celebrado-no-brasil/

 

[2] Pandemia da covid-19 completa 4 anos...

https://www.poder360.com.br/coronavirus/pandemia-da-covid-19-completa-4-anos/

 

[3] A Globo esqueceu de combinar o roteiro com o convidado

https://www.youtube.com/watch?v=PZPGYvOpwzE

 

[4] "Não cometerás nenhuma dessas 24 falácias lógicas"

https://papodehomem.com.br/falacias-logicas/?fbclid=IwAR0MD_398R7Vy8M_UsxHPCC8EeWh8eDXPMl7U5usiohLA-uLDsuAF2SNTDA

 

[5] Negacionismo

https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm

 

[6] Negacionismo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo#cite_note-1

 

[7] Marcelo Nova é negacionista de uma forma diferente

https://www.youtube.com/watch?v=XrCP7GRjKrI&t=20s

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Brasil Paralelo mira licenciatura para formar novos professores

 

Fundadores da Brasil Paralelo: estudantes de administração da ESPM

A empresa de entretenimento Brasil Paralelo, conhecida por suas produções de narrativas históricas frequentemente contestadas por historiadores profissionais, virou notícia na última semana por conta de duas situações diversas. Uma delas foi a repercussão de uma postagem no Instagram feita pela CEO e cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, na qual a empresária agradecia pelo convite que receberá para o evento "We Who Wrestle With God", palestra do psicólogo canadense Jordan Peterson, autor conhecido por suas posições conservadoras. No post, Junqueira agradece o convite e marca o perfil de Peterson, além dos perfis da Brasil Paralelo e da Fronteiras do Pensamento, respectivamente apoiadora e organizadora do evento.

 

A empresária postou o convite como story no Instagram. A publicação ficou disponível tempo suficiente para gerar diversas mensagens críticas de correntistas do Nubank que ameaçaram cancelar suas contas, alegando relação entre o banco e a empresa. Uma dessas mensagens dizia: "Olha, se você tá no @nubank pensa se deve realmente usufruir deste serviço... CEO da Nubank divulgando evento do Brasil Paralelo é bizarro e nojento". Outras mensagens explicavam o procedimento para o cancelamento da conta. A repercussão negativa foi grande o suficiente para que o Nubank emitisse nota afirmando ter um comportamento “apartidário” e não se associar a “movimentos políticos, religiosos ou ideológicos”.

 

A outra situação envolvendo a Brasil Paralelo foi a publicação de uma reportagem da Agência Pública mostrando como a empresa de entretenimento ligada à extrema direita vem agora investindo no ensino superior EAD, na formação de professores. O curso a distância (EAD) de licenciatura em história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, aprovado pelo MEC durante o governo Bolsonaro, funciona em parceria com a Brasil Paralelo e é coordenado pelo bolsonarista e monarquista Rafael Nogueira, que foi presidente da Biblioteca Nacional em 2019 e 2020.

 

Amanda Audi, jornalista da Agência Pública, matriculou-se no curso para fazer a reportagem. Ela explica que a ligação da universidade com a produtora de conteúdo conservador/reacionário chegou a ser anunciada na página que divulgava o vestibular (sendo posteriormente retirada por conta da repercussão da reportagem): “Somando-se ao cenário da educação brasileira e a real necessidade de educadores competentes e comprometidos em prol da qualidade da educação, a Brasil Paralelo, em parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro, oferece o vestibular especial de licenciatura em História”, dizia o texto, juntamente à logo da Brasil Paralelo.  

 

Ainda de acordo com a reportagem, a visão reacionária da produtora de conteúdo faz parte da base curricular do curso, que se propõe a “não omitir a versão cristã da História”, e alguns dos professores são diretamente ligados à Brasil Paralelo. O conteúdo das aulas é muito parecido com as produções da empresa. Por ter uma “visão cristã”, o curso defende, por exemplo, a atuação dos jesuítas contra indígenas, que os reis eram enviados divinos e as Cruzadas promovidas pela Igreja Católica foram algo necessário. Quem conclui o curso está apto a dar aulas de história para estudantes da educação infantil e ensinos fundamental e médio.

 

Para se matricular no curso do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, Amanda Audi conta que só precisou escrever dois parágrafos sobre um tema proposto – “consequências da pandemia” –, coisa que ela fez usando o ChatGPT. Já o coordenador do curso, Rafael Nogueira, além de monarquista e bolsonarista, é também professor em cursos da Brasil Paralelo e discípulo do falecido ideólogo Olavo de Carvalho, de quem decorre o termo “olavismo”, um arremedo de teorias anticomunistas e reacionárias que inclui grande aversão às universidades, à mídia, à classe artística e à esquerda de um modo geral. O olavismo e a Brasil Paralelo possuem clara interseção de conteúdos e ideias e dão lastro ideológico ao bolsonarismo.

 

Seguindo os padrões dos docentes do curso, Lucas Ribeiro Fernandes, professor da disciplina Brasil Colonial 1, se diz um fã da monarquia brasileira, especialmente da princesa Isabel. O conteúdo de sua matéria, em vez de mencionar o genocídio e a escravidão de povos indígenas, elogia os jesuítas, que tentavam “garantir que aqueles povos, que até então viveram encobertos do resto do mundo, pudessem acessar as verdades eternas como qualquer europeu”.

 

A polêmica parceria entre a Brasil Paralelo e a instituição de ensino superior vem à tona em um momento delicado para o setor. No início deste mês, o MEC suspendeu a criação de cursos EAD até março de 2025. Segundo o ministério, a decisão é parte do processo de revisão do marco regulatório da educação a distância (EAD), cujo objetivo é garantir a sustentabilidade e a qualidade dos cursos de graduação oferecidos. No mês passado, o MEC já havia definido que cursos EAD para formação de professores – caso do curso de história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro – devem ter metade de carga horária presencial.

 

O empreendimento empresarial e sua relação com a educação e governos

A Brasil Paralelo foi criada em 2016 por estudantes de Porto Alegre ligados à área de administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing, uma das universidades privadas mais caras do Brasil (a mensalidade do curso de administração na unidade de Porto Alegre está em R$ 6.057,00). Sua criação se deu no contexto da ascensão da onda conservadora e reacionária no país. A empresa teve enorme crescimento durante o governo Bolsonaro. Em 2020, com apenas quatro anos de existência, a Brasil Paralelo já faturava R$ 30 milhões anuais, um crescimento de 355% em relação ao ano anterior.

 

Ao longo de sua trajetória, o empreendimento ampliou sua produção, como com a criação da plataforma de streaming BP Select, além de iniciativas no setor educacional, como a parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro na curadoria do curso responsável por formar professores. A produtora anunciou que pretende financiar cursos de história, geografia e ciências sociais para estudantes de baixa renda e assim “formar a próxima geração de professores” do país.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo vai ampliando suas investidas no setor educacional, como forma de inserir entre alunos e futuros docentes seus conteúdos revisionistas ideológicos, negacionistas e conspiracionistas. Por ser um lastro ideológico da extrema direita, suas produções por vezes são adotadas como parte do conteúdo educativo oficial ligados a governos identificados com tal campo do espectro político. No mês passado, a Procuradoria-Geral de Justiça foi acionada por conta da Secretaria de Educação de São Paulo, do governo Tarcísio de Freitas, estar usando conteúdo do canal da Brasil Paralelo como fonte para o material didático digital enviado às escolas estaduais. Em 2019, durante o governo Bolsonaro, a TV Escola, ligada ao MEC, exibiu documentários da Brasil Paralelo. Um episódio inclusive trazia entrevista de Olavo de Carvalho.

 

Marketing, teoria conspiratória e negacionismos

A Brasil Paralelo dissemina um conteúdo com narrativas históricas amplamente criticado por historiadores devido a vários problemas. Além de a empresa investir muito mais em divulgação do que em pesquisa histórica propriamente dita, geralmente imitando o formato de produções de divulgação científica, com falas de especialistas (e não caberia aqui a discussão sobre em que medida as personalidades entrevistadas são ou não especialistas nos assuntos em que se propõem a falar), fazendo jus ao seu próprio nome, seu conteúdo frequentemente é vendido como uma alternativa à produção acadêmica convencional na área de história, como um tipo de “verdade paralela”. Algo que “o seu professor está escondendo de você”. Algo que “eles não querem que você saiba”.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo inclui em seu conteúdo um apelo de marketing muito semelhante ao de teorias conspiratórias: uma verdade que está sendo revelada e que fará daquele que a receber uma pessoa mais esperta que a média, livre das amarras de algum tipo de dominação e manipulação cultural. É um apelo de marketing que encontra ampla adesão não somente naqueles que possuem alguma identificação com ideias conservadoras e reacionárias, mas em um contingente enorme de pessoas que se sentem excluídas de oportunidades na sociedade, inclusive na área da educação, e por isso convenientemente acreditam que ao assistirem alguns poucos vídeos da produtora já “sabem mais que o professor”.

 

O mesmo modus operandi vale também para a filosofia e ciências humanas e sociais em geral. Mas não somente. A produtora chamou a atenção por conta de conteúdos negacionistas na ocasião da pandemia de coronavírus e também em relação às mudanças climáticas. Esse ponto veio à tona com as enchentes do Rio Grande do Sul, já que Ricardo Gomes, do PL, partido de Jair Bolsonaro, é vice-prefeito de Porto Alegre e também professor e apresentador da Brasil Paralelo. Gomes chegou a usar um boné da Brasil Paralelo em uma transmissão ao vivo durante o trabalho de resgate de vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Os conteúdos da empresa questionam que as emergências climáticas estejam diretamente relacionadas às atividades humanas, sobretudo ao aquecimento global impulsionado pela queima de combustíveis fósseis.

 

Guerras culturais, marxismo cultural e historiografia ultrapassada

É preciso entender a Brasil Paralelo e seu apelo de marketing conspiracionista dentro do contexto das guerras culturais. É no meio delas, alimentando-as e sendo alimentada por elas, que a empresa opera e produz seu conteúdo. O termo “guerras culturais” refere-se aos conflitos sociopolíticos e culturais de uma sociedade profundamente segregada, fragmentada. A expressão começou a ser usada nos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial e ganhou força principalmente a partir dos anos de 1980. No Brasil, as guerras culturais tiveram seus contornos melhor definidos com a popularização da internet e das redes sociais. Após a irrupção da onda conservadora a partir de 2013, a engrenagem que move e é movida pela Brasil Paralelo estava preparada. 

 

Dentro do contexto das guerras culturais, a Brasil Paralelo opera principalmente com a ideia de “marxismo cultural”, um tipo de teoria conspiratória fruto de leituras distorcidas de teóricos como Antonio Gramsci e Herbert Marcuse. Cada um desses pensadores, a sua maneira, falou sobre a necessidade e importância da conquista de corações e mentes no cenário político-cultural. O problema é que aqueles que acreditam na ideia de marxismo cultural acham que há uma ação orquestrada da esquerda junto à mídia, às universidades, às artes, à educação e à ciência em geral para dominar essas áreas e instrumentalizá-las para algum tipo de plano de manipulação das massas. Daí o marketing apelativo da Brasil Paralelo sobre seu conteúdo ser uma forma de libertação e de saber mais do que o professor.

 

Para abordarmos outros problemas do conteúdo da Brasil Paralelo precisamos entrar em aspectos mais técnicos de historiografia. Primeiramente, cabe fazer uma ressalva sobre o revisionismo. Ele costuma ser importante para o desenvolvimento da ciência histórica. Em ciência, de uma forma mais abrangente, na medida em que fontes e fatos novos surgem e refutam ou contestam antigas teorias, essas antigas teorias vão sendo deixadas de lado e novas teorias começam a ser elaboradas. A verdade da ciência é circunscrita ao tempo. Ela é uma verdade em seu tempo. Ou seja, um apontamento científico atual pode contrariar algo que já se entendeu como verdade há décadas atrás, mas esse mesmo apontamento científico atual pode ser refutado daqui a algumas décadas, na medida em que fatos novos surgem (costumo dizer que a ciência é a verdade que se tem pra hoje. Dito assim pode parecer pouco, mas isso é muita coisa!).

 

Na ciência histórica, o revisionismo faz esse trabalho de comparação entre antigas e novas teorias. Trabalho amparado por novos fatos e fontes. Só que isso é diferente do revisionismo político-ideológico da Brasil Paralelo, que não se baseia em novos fatos e fontes. Pelo contrário, trata-se de um arremedo requentado com base em uma historiografia antiga e ultrapassada. Chega a ser irônico, pois o revisionismo traz em si uma ideia de novidade, mas o que a produtora faz tem muita cara de século retrasado.

 

A historiografia do século 19 estava preocupada em consolidar a história como ciência e assim distingui-la da literatura. Eram tempos de escolas como o historicismo, o positivismo e a escola metódica. Aliás, o positivismo influenciou muito da ciência e filosofia daquele século. Para aqueles historiadores, a fonte primordial de pesquisa eram os documentos oficiais (e isso fazia sentido, naquele contexto cultural, para firmar a história enquanto ciência). Se por um lado historiadores e escolas historiográficas do século 19 foram fundamentais para criar um status de cientificidade à história, por outro, a grande valorização de documentos e acervos oficiais levou à escrita de uma história oficialesca, feita de cima para baixo. Afinal, quando ouvimos que “a história é escrita pelos vencedores”, em boa medida trata-se desse tipo de historiografia: se a prioridade são os documentos oficiais, esses documentos, por sua vez, quase que em sua totalidade são produzidos pelas instituições oficiais, que, do mesmo modo, quase que em sua totalidade são comandadas pelas elites dirigentes.

 

Portanto, por conta do tipo de fonte e da forma de pesquisa, essa história será principalmente uma história das elites. Dela decorre a construção das figuras de grandes heróis nacionais e seus grandes feitos. Essa história foi fundamental também para a formação das memórias oficiais dos estados nacionais. Entretanto, ao longo do século 20, outras escolas historiográficas e novas formas de pesquisa foram ganhando força, juntamente com a valorização de uma diversidade maior de fontes. Isso possibilitou o crescimento de uma historiografia mais plural e menos oficialesca. Mas apesar de um século de desenvolvimento da historiografia, as narrativas históricas da Brasil Paralelo refletem um jeito ultrapassado de se fazer história, por vezes defendendo teorias já refutadas.

 

Um bom exemplo é o que a produtora divulga a respeito da ditadura militar, tratando o golpe como um tipo de mal necessário para impedir que um regime comunista se instaurasse no Brasil. Só que essa era a narrativa dos golpistas e dos ditadores, como forma de legitimarem seu poder. Era a narrativa oficial do poder. Não cabe mais defende-la hoje em dia, após tantos arquivos que já foram abertos sobre a ditadura desde o fim do regime militar. Até arqueologia histórica em antigas sedes de órgãos de repressão foi e continua sendo feita. São muitas provas que se avolumam. Enfim, novos fatos e fontes que refutam teorias antigas. Mas a Brasil Paralelo, que investe pouco em pesquisa e muito em marketing e divulgação, ignora tudo isso. 

 

“Eles [a Brasil Paralelo] reabilitam uma historiografia hegemônica no século 19, que já foi superada por novas perspectivas – que por sua vez são deixadas de lado ou reduzidas a caricaturas,” diz o professor e historiador Murilo Cleto, que fez a sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre o revisionismo histórico da Brasil Paralelo [1]. “Muitos fãs da empresa Brasil Paralelo devem ter uma gravura do Varnhagen junto com outra do Olavo de Carvalho na parede da casa”, diz o professor e historiador Fernando Nicolazzi, ao se referir ao historiador do século 19 e sua história bastante conservadora [2]. Francisco Adolfo de Varnhagen foi uma espécie de historiador oficial do império, anti-indigenista e de pouco apreço pelos africanos.

 

Outro exemplo interessante diz respeito à escravidão. Pessoas com um pouco mais de idade aprenderam sobre escravidão nos tempos da escola com um certo protagonismo da princesa Isabel, reflexo de uma história oficialesca, centrada na figura de grandes heróis (geralmente representantes da elite) e que foi valorizada pela ditadura militar. A partir de uma nova historiografia e novas fontes, que chegaram aos livros didáticos nos últimos anos (vale destacar que novas correntes historiográficas levam um certo tempo até chegarem aos livros didáticos do ensino básico), outros protagonistas ganharam força, como Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Protagonistas de baixo para cima. Mas a Brasil Paralelo não se interessa muito por eles, porque, no fundo, quer uma narrativa histórica elitista, para dar lastro ideológico a um projeto político elitista.

 

Não à toa, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares na gestão bolsonarista, quis mudar o nome da instituição para “Fundação Princesa Isabel”. A intenção, mais do que revalorizar uma figura aristocrática da história do Brasil (e aqui não estamos negando o valor desta ou de outra figura) é também resgatar uma história aristocrática, de cima para baixo, dos vencedores, apagando ou reduzindo bastante as lutas e os personagens populares. A assinatura de um documento oficial como a Lei Áurea não dá conta de protagonizar uma luta de tantos anos como a da abolição. Apenas na cabeça daqueles inspirados por uma história oficialesca.

 

A Brasil Paralelo difunde uma visão decadentista de mundo, típica do reacionarismo, que idealiza e romantiza o passado. Essa visão pode ser percebida até em obras que se distanciam da história do Brasil como tema principal e falam sobre cultura, cinema etc. Um exemplo é o documentário “O fim da beleza”. Uma ideia central dessa e outras obras pode se resumir na manjada frase “antigamente é que era bom”, que sempre ouvimos por aí. Essa visão decadentista vai encontrar em uma historiografia ultrapassada e em um conjunto limitado de fontes algum refúgio e alguma viabilidade para fortalecer narrativas históricas dos vencedores e das elites. Se fosse uma unidade hospitalar, a Brasil Paralelo talvez estivesse promovendo sangrias nos pacientes para reequilibrar os quatro humores (bile negra, catarro, bile amarela e sangue), prática com origens na Antiguidade e que foi usada até o século 19. A medicina já deixou isso para trás, mas a Brasil Paralelo talvez repaginasse o procedimento, disfarçando-o de novidade rebelde, insurgente, esperta e fora da caixa.    

 

Referências:

[1] Coordenado por monarquista, curso ligado à Brasil Paralelo forma professores de história

https://apublica.org/2024/06/coordenado-por-monarquista-curso-ligado-a-brasil-paralelo-forma-professores-de-historia/

 

[2] Historiografia brasileira: a escrita da História no Brasil

https://www.youtube.com/watch?v=HhYGfT5SKfc&t=597s