sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Série Cosmos completa 45 anos

 


Apresentada pelo astrônomo Carl Sagan, a obra manifesta uma visão poética e espiritualista da ciência e influenciou gerações de cientistas de várias áreas

 

Em abril de 2023, a astrônoma e astrofísica Makenzie Lystrup tornou-se a primeira mulher a dirigir o Centro de Voos Espaciais Goddard, um dos núcleos da Nasa. Este fato, por si só, poderia ser o bastante para que a astrofísica fosse vista como alguém a fazer história em sua área de atuação. Entretanto, um detalhe chamou a atenção: em sua cerimônia de posse, ao fazer o tradicional juramento, Lystrup usou, em vez da Bíblia, o livro “Pálido ponto azul”, do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan [1]. Nos Estados Unidos, é comum que as pessoas façam um juramento com as mãos sobre obras simbólicas, tal qual a Bíblia (mais usual), o Corão ou a Constituição. Mas aquela era a primeira vez, ao menos a ser noticiada, que um livro de Sagan estava sendo usado.

 

Lystrup explicou que a homenagem a Sagan se devia à série televisiva Cosmos, que serviu para despertar sua paixão pela astronomia, e à importância de Sagan como alguém que se esforçou para tornar a ciência acessível ao público. O detalhe da citação a Cosmos possivelmente é o que explica certa conotação religiosa da cerimônia envolvendo o livro de Sagan como substituto da Bíblia. No dia 28 de setembro de 1980, há 45 anos, ia ao ar pela primeira vez a série “Cosmos: uma viagem pessoal”. A primeira frase pronunciada por Sagan, no início do primeiro episódio é: “O cosmos é tudo que existe, que já existiu e que sempre existirá”. A ideia de eternidade, de algo que transcende ao tempo, é semelhante à noção de Deus cunhada por algumas das principais religiões do mundo, como o próprio cristianismo.

 

Da mesma forma, quando Sagan dizia que “o cosmos também está dentro de nós, somos feitos de material estelar e somos um caminho para o cosmo conhecer a si mesmo”, era como dizer que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, que o homem é parte de Deus e que Deus está dentro de nós. Por meio de uma linguagem poética e emotiva, Sagan, através dos 13 episódios da série, deslocava a transcendência e espiritualidade características das religiões e as reposicionava no empreendimento científico [2]. Uma tática discursiva engenhosa, que se propõe a explicar como a ciência funciona, mais do que apenas mostrar suas descobertas, e que, paradoxalmente, exalta a razão por meio da emoção, de uma narrativa poética. Um reencantamento do mundo por meio da ciência

 

Essa tática discursiva funcionou. Estima-se que Cosmos tenha sido exibida em 60 países e assistida por mais de 500 milhões de pessoas [3], sendo apontada como um marco da divulgação científica mundial pela grande popularidade alcançada, por traduzir conceitos complexos de forma compreensível para o público e por ter influenciado gerações de cientistas [4], dentre eles, a própria Makenzie Lystrup. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais bem-sucedidas experiências de divulgação científica para o público amplo de TV no século 20.

 

Como bom divulgador científico, Carl Sagan recorria a elementos do cotidiano, familiares do grande público, para, a partir deles, introduzir conceitos e apresentar realizações da ciência. As religiões e crenças em geral foram parte significativa desses elementos. Na série, ora ele confrontava explicações religiosas e místicas com explicações científicas, valendo-se principalmente do conflito narrativo para dar movimento às sequências; ora, conforme já citamos, ele emulava o discurso religioso criando um certo deslocamento de sentido. A série é icônica da visão espiritualista que Sagan possuía da ciência. Essa visão pode ser melhor compreendida quando estudamos outras de suas obras, como o livro “O mundo assombrado pelos demônios” [5], no qual ele afirma:

 

Espírito vem da palavra latina que significa ‘respirar’. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra ‘espiritual’ nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. (...) A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de jubilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas” (SAGAN, 2006, p. 48). 

 

O nome completo do livro – “O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro” – demonstra uma outra característica de Sagan que marca a série Cosmos: uma certa perspectiva iluminista sobre ciência e história. Há em vários dos episódios da série uma polarização entre a Idade Média e a Idade Moderna. Sagan identifica o surgimento da ciência na Grécia Antiga, a destruição da Biblioteca de Alexandria como ponto de virada para o início de um declínio e o período medieval como sendo esse declínio, um longo hiato do pensamento e desenvolvimento científicos, provocado pelo autoritarismo da religião e pelo misticismo. Assim, Sagan reproduz a narrativa iluminista, que se propôs como a luz em contraposição à Idade das Trevas (o medievo). No entanto, essa narrativa a respeito da Idade Média enquanto um período sombrio, começou a ser significativamente contestada na segunda metade do século 20, por conta do trabalho de historiadores como Jacques Le Goff, para quem o período teve muitos avanços culturais, religiosos, sociais e intelectuais [6].

 

O seguinte trecho marca o encerramento da série original e é uma das últimas falas de Sagan no último episódio: “Nós, humanos, desejamos estar conectados com nossas origens. Então, criamos rituais. A ciência é um outro modo de expressar esse desejo. Ela também nos conecta com nossas origens. E ela também tem seus rituais e seus mandamentos. Sua única verdade sagrada é que não há verdades sagradas. Todas as suposições devem ser examinadas criticamente. Os argumentos de autoridades são inúteis. O que for inconsistente com os fatos, não importe o quanto gostemos, deve ser revisado ou descartado”.

 

Continuações

Cosmos ganharia uma nova versão em 2014. Desta vez, a série seria apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, que chegou a ser aluno de Sagan. Essa segunda versão – “Cosmos: uma odisseia no espaço e tempo” –, assim como a primeira, é composta por 13 episódios. Por conta da mítica da série original, que só fez crescer ao longo de 34 anos, a nova versão/temporada foi exibida, logo em sua estreia no NatGeo, para 170 países e precedida por um vídeo do então presidente americano Barack Obama. Nele, Obama falou sobre o espírito de “sonhar alto”, “de descoberta”, que Sagan sintetizara na versão original. A Cosmos de Tyson bateu recorde de maior lançamento global da história da TV [7]. Essa segunda versão foi escrita novamente pela pesquisadora e divulgadora Ann Druyan, viúva da Sagan, e pelo físico Steven Soter, ambos coautores da versão original, juntamente com Sagan.

 

O próprio presidente americano apresentando o lançamento da série não foi à toa e revela o peso da obra para a cultura daquele país. Vale lembrar que o livro “Cosmos”, escrito por Sagan e que inspirou a série de TV, foi incluído pela Biblioteca do Congresso americano na lista dos 88 livros que deram forma aos Estados Unidos (“88 Books That Shaped America”, 2012) [8]. A curadoria feita pelo Library of Congress foi parte de uma exposição. Na mesma lista estão obras como “O caminho da riqueza”, de Benjamin Franklin; “Pragmatismo”, de William James; e “O mágico de Oz”, de L. Frank Baum.

 

Neil deGrasse Tyson apresentaria ainda a terceira versão/temporada da série, chamada “Cosmos: mundos possíveis”, lançada em 2020 novamente pela NatGeo, transmitida para 172 países, em 43 idiomas [9]. Escrita, dirigida e produzida por Ann Druyan e Brannon Braga, “Cosmos: mundos possíveis” contou ainda com os produtores executivos Seth MacFarlane (criador de Family Guy, mais conhecida no Brasil como “Uma família da pesada”) e Jason Clark. Assim como as versões anteriores, essa terceira também conta com 13 episódios e manteve formato narrativo bem semelhante às versões de 2014 e 1980, ressalvados os avanços tecnológicos do audiovisual ao longo de quatro décadas. Aparentemente, as dualidades [10] envolvendo ciência e religião se tornaram menos constantes na versão de 2020, se comparada às anteriores. Permanece, entretanto, nas três versões da série, uma narrativa com muita história e filosofia que preza pela popularização do pensamento científico e faz um apelo humanista ao uso da razão na preservação do planeta e de nós mesmos. 

 

Referências:

[1]

https://revistagalileu.globo.com/sociedade/noticia/2023/04/nova-diretora-da-nasa-faz-juramento-com-livro-carl-sagan-em-vez-da-biblia.ghtml

 

[2]

https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=7655503

 

[3]

https://olhardigital.com.br/2025/01/26/cinema-e-streaming/cosmos-conheca-a-serie-sobre-astronomia-apresentada-por-carl-sagan/

 

[4]

https://www.nationalgeographic.com/science/article/140316-carl-sagan-science-galaxies-space/?utm_source=chatgpt.com

 

[5]

https://nerdking.net.br/wp-content/uploads/2018/07/O-Mundo-Assombrado-pelos-Demonios-Carl-Sagan.pdf

 

[6]

https://www.estadao.com.br/cultura/jacques-le-goff-foi-decisivo-para-o-estudo-da-idade-media/?srsltid=AfmBOooL9Geshka8zR6yVWCYCbPbvhqgxJafEQfYBhzvpk3sQnRHTmRh

 

[7]

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/noticia/2014/04/ann-druyan-revela-que-negou-serie-cosmos-a-tres-emissoras-para-proteger-legado-de-carl-sagan-4463694.html

 

[8]

https://www.loc.gov/item/prn-13-005?utm_source=chatgpt.com

 

[9]

https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Series/noticia/2020/06/cosmos-mundos-possiveis-traz-olhar-otimista-sobre-futuro-da-humanidade.html

 

[10]

https://sistemas.intercom.org.br/pdf/link_aceite/nacional/11/0816202309133064dcbd6a5d805.pdf

 

SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

 


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

“Mussolini, o filho do século" expõe origens do fascismo

 




Série constrói uma genealogia política, um fio condutor que nos leva da Itália fascista à extrema direita atual

 

Lançada neste mês na plataforma Mubi, a série “Mussolini, o filho do século” expõe as raízes do fascismo na Itália do pós-Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador. Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por “Orgulho e Preconceito), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.

 

Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: “Make Italy great again”. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.

 

Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar "muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista". Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios.

 

Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de “Mussolini, o filho do século”. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.

 

O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre “Deus, pátria e família”. Isso lembra algo?

 

Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) [1] contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.  

 

Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção [2]. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam “lados de uma mesma moeda”, que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo [3].  

 

“Mussolini, o filho do século” é baseada no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.

 

Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo [4], o contexto da Itália de Mussolini [5] e suas influências no Brasil [6]. Aqui temos algumas dicas.

 

“A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida”, diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?

 

Referências:

[1] Mas afinal, o que é fascismo?

https://camerapolis.blogspot.com/2020/04/mas-afinal-o-que-e-fascismo.html

 

[2] Nazismo e Socialismo: as comparações e os erros de uma equivalência

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/nazismo-e-socialismo-as-comparacoes-e-os-erros-de-uma-equivalencia/

 

[3] “Nazismo de esquerda” e Fake History: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade

https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428

 

[4] O que é Fascismo? História, definição e sobrevivência no presente

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/o-que-e-fascismo-historia-definicao-e-sobrevivencia-no-presente/

 

[5] Itália Fascista: das origens do Fascismo ao fim da Segunda Guerra

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/italia-fascista-das-origens-do-fascismo-ao-fim-da-segunda-guerra/

 

[6] Integralismo: das origens ao neofascismo do século XXI

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/integralismo-das-origens-ao-neofascismo-do-seculo-xxi/