sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Há pluralidade nas pesquisas sobre masculinismo?


A jornalista Tabitha Lasley, autora do livro Sea State, dá uma entrevista para a BBC sobre como foi sua pesquisa, apresentada no livro. Ela esteve em Aberdeen, na Escócia, para investigar a vida dos homens que trabalham nas plataformas de petróleo do Mar do Norte, especialmente o que acontece com eles quando passam semanas isolados no mar, longe de mulheres. Nesta entrevista, disponibilizada em áudio pela BBC Brasil em seu canal no Youtube [1], ela faz uma associação entre a falta de mulheres em um ambiente e o mau comportamento dos homens. O termo utilizado por ela chamou minha atenção.

 

Um ambiente de trabalho puramente masculino tem um efeito muito negativo sobre os homens. Há muita misoginia nas plataformas petrolíferas, porque muitos dos homens que lá trabalham são mais velhos, se divorciaram uma ou duas vezes e carregam uma espécie de ressentimento em relação às mulheres, que transmitem aos mais jovens. Observa-se o mesmo mau comportamento em outros locais onde há grande aglomeração de homens, como em torcidas de futebol ou presídios. As mulheres têm um efeito civilizador sobre os homens.

 

Sem querer tirar a legitimidade e mérito de sua análise, fiquei preocupado com a conclusão da pesquisadora de que “as mulheres têm um efeito civilizador sobre os homens”. É uma frase forte, e na antropologia e ciências sociais, o termo “civilizador” está embotado com uma carga problemática. A ideia de que um grupo imprime efeito civilizador a outro remete a um eurocentrismo no qual o branco europeu era o farol civilizatório a guiar os povos de outros continentes. Essa ideia influenciou os estudos antropológicos do século 19 e, ao longo do século 20, foi sendo aos poucos desconstruída e mesmo rechaçada, inclusive dentro da própria antropologia.

 

Usado em pesquisa, “efeito civilizador” é um termo para deixar qualquer pesquisador atual – principalmente aqueles com influências mais decoloniais - de cabelo em pé ou com a pulga atrás da orelha. Entretanto, quando usado em uma perspectiva de gênero, parece não ser algo tão preocupante e digno de desconfiança. Ao menos Tabitha Lasley se sentiu confortável em utilizá-lo. Pode ser por ela própria não ser antropóloga, mas sim jornalista (ainda que seu trabalho tenha caráter antropológico), e por conta disso talvez não ter conhecimento de toda a problematização sobre a ideia de ser um civilizador ao longo da história.

 

Ou pode ser porque a pesquisa acadêmica nas últimas décadas – principalmente nas ciências humanas e sociais – foi fortemente perpassada pelas chamadas pautas identitárias (incluindo o feminismo), ao ponto de por vezes serem diluídas as fronteiras entre pesquisa e militância política, o que gera um status quo que faz com que uma pesquisadora se sinta confortável em sintetizar que mulheres têm efeito civilizador para homens, como quem joga para a própria torcida.     

 

Implicância minha com detalhes pequenos? Talvez. Mas a coisa não para por aí. O livro Dicionário dos Negacionismos do Brasil, organizado por José Szwako e José Luiz Ratton, publicado em 2022 pela editora Cepe, tornou-se uma obra fundamental em meu trabalho de pesquisa, a qual sempre recorro. Mas me chamou a atenção que um de seus verbetes, sobre Masculinidade, tenha sido escrito por três pesquisadoras mulheres. O primeiro impulso é imaginar como seria se fosse o contrário: um verbete sobre feminismo ou feminilidade escrito por três homens. Certamente o verbete não seria publicado.

 

Mais do que tentar forçar uma falsa ou questionável equivalência entre masculinismo e feminismo, o que acho mais importante é entender que um verbete sobre Masculinidade escrito por três mulheres pode ser um indicativo de um monopólio de mulheres nas pesquisas sobre o tema e da falta de pluralidade nessas pesquisas. Outro indicativo foi um debate realizado em Brasília, neste mês de agosto, que marcou o lançamento de um livro sobre a chamada “machosfera”. A mesa contava com a autora do livro e mais quatro pesquisadoras. Todas mulheres. Dentre elas, um nome de peso, o de Rosana Pinheiro-Machado, uma das cientistas sociais brasileiras de maior destaque internacional, referência fundamental em pesquisas sobre extrema direita e plataformas digitais.  

 

O problema é que viés de gênero pesa (assim como viés de qualquer outro tipo) e pode prejudicar ou dificultar a compreensão dos fenômenos sociais. Ninguém é uma máquina de objetividade. Nem os pesquisadores. Os métodos científicos servem como uma forma de autocontrole, para reduzirmos os impactos dos nossos vieses. Toda pessoa traz seus vieses, vivência e bagagem cultural ao trabalho de pesquisa. Por isso um postulado importante da área científica é o da diversidade. Não se trata “apenas” de algum tipo de justiça social, mas de oxigenar a ciência com pluralidade de pontos de vistas, o que geralmente contribui, juntamente com os métodos científicos, para o controle de vieses e distorções.

 

A história da ciência guarda exemplos do quanto a falta de diversidade pode ser prejudicial. Voltando novamente ao século 19, naquela época a medicina, composta quase em sua totalidade por homens brancos, patologizava problemas que as mulheres sofriam em decorrência muitas vezes de questões sociais, como repressão, falta de formação e oportunidades e desigualdade de gênero. O termo “histeria” era usado clinicamente de maneira bastante ampla para explicar uma variedade de sintomas físicos, emocionais e comportamentais que os médicos identificavam em mulheres e não conseguiam enquadrar em outras doenças mais específicas [2]. Com o tempo, as mudanças nas condições sociais das mulheres e a transformação da própria medicina se reforçaram mutuamente, fazendo com que o diagnóstico de histeria caísse em desuso.

 

Há também exemplos de vieses raciais, como no caso dos estudos de crânios, por meio da frenologia e craniometria, com pressupostos científicos (para os padrões científicos da época) que “inferiorizaram raças” [3]. Por exemplo, numa hierarquia proposta pelo médico americano Samuel George Morton, no século 19, a estrutura do crânio caucasiano seria mais avançada do que, respectivamente, as das (como ele as classificava) raças mongol, malaia, americana (na qual estavam agrupadas populações nativas das Américas) e etíope (que abrangia pessoas de origem africana). Era o branco “civilizador” elaborando uma hierarquização e se colocando no topo.

 

Com todo o respeito a tantas pesquisadoras, entendo que mais homens devem se aprofundar nessas pesquisas sobre machosfera, masculinidades, masculinismo. Há, sim, homens tratando desses temas, mas eles ainda são muito poucos. Alguns com análises muito parecidas com as de algumas pesquisadoras; outros, apresentando pontos diferenciados.

 

Dentre esses últimos, temos Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, que acrescenta ao debate argumentos inusitados, como relacionar a redução do consumo de álcool a problemas na sociabilização dos jovens, quando diz que “o risco do álcool ao fígado de uma pessoa de 25 anos é minúsculo, em relação aos perigos da ansiedade e do isolamento social”; toca num vespeiro ao afirmar que “as mulheres são menos atraídas sexualmente por homens que perdem sua viabilidade econômica" e expõe como a instabilidade econômica de homens jovens que estão no início da vida profissional os empurra para a solidão [4].

 

Acredito ser possível fazer críticas e problematizações a respeito de comportamentos dos homens sem necessariamente eleger as mulheres como civilizadoras e criar hierarquias morais de gênero. Mas para isso é preciso que não haja um monopólio de mulheres nas pesquisas sobre masculinismo e afins na psicologia social, antropologia, ciências sociais e demais áreas. Para lidar com um fenômeno social é preciso antes de mais nada compreendê-lo, e a pluralidade tende a contribuir para isso. Por isso é bem-vindo o ponto de vista masculino em pesquisas sobre questões masculinas (um sentimento de obviedade me toma enquanto escrevo esta última frase).      

 

 

Referências:

[1] 'Quando alguém controla o dinheiro na relação, controla a relação profundamente'

https://www.youtube.com/watch?v=Z_V8briu5Ko

  

[2] Representação de gênero na divulgação científica: uma análise da série “Cosmos”

https://jcomal.sissa.it/article/pubid/JCOMAL_0201_2019_A02/

 

[3] Tyson, Obama e um novo Cosmos: uma breve análise sobre a representação do negro na ciência

https://revistaheranca.com/index.php/heranca/article/view/310/211

 

[4] 'Estamos diante de uma geração de homens jovens inviáveis econômica e emocionalmente'

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c201kepl0vro

Neymar e a polarização política

 

Neymar é um jogador que não deu muita sorte na seleção brasileira. Enquanto Ronaldo teve ao seu lado Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká; Romário teve Bebeto; Zico teve Sócrates, Júnior e Falcão; e Pelé teve tantos craques ao seu lado que nem precisamos citar para o texto não ficar pesado; o Neymar jogou quatro Copas (2014, 2018, 2022 e 2026) com nomes como Fred, Gabriel Jesus e Everton Cebolinha. Bons jogadores, mas que sempre estiveram em patamares bem abaixo do próprio Neymar, que é o maior artilheiro da história da seleção, o terceiro maior em Copas do Mundo.

 

Quem se propõe a fazer um retrospecto da trajetória de Neymar na seleção brasileira precisa ser mais abrangente e honesto, levando em conta toda a safra de jogadores que estiveram ao seu lado nas últimas copas. Se isso for feito, acredito que a constatação seja a de que Neymar não foi parte do problema, mas da solução. Quando falamos em Era Neymar, estamos nos referindo a quais craques além dele próprio? É até difícil elencar, de tão isolado que Neymar ficou em um patamar bem acima dos outros.

 

Por conta da frustração acumulada, batem no jogador errado pelos motivos errados. Claro que Neymar tem muitos defeitos. É um cai-cai, vive lesionado, apoia bets (não é o único) etc. Mas grande parte das críticas ao Neymar são por razões extracampo: por causa de política e por sua postura pessoal. E isso é um problema.  

 

Uma pesquisa da Genial em parceria com a Quaest [1] na ocasião da convocação apontou que entre eleitores que se identificam como direita não bolsonarista, 58% defenderam a convocação de Neymar, enquanto 34% eram contrários. O grupo apresenta o maior nível de apoio ao jogador. Já entre os que se dizem de esquerda não lulista, a maioria rejeitou a convocação do atacante na seleção. Nesse segmento, a taxa de oposição superava a de apoio, indicando cenário inverso ao observado na direita.

 

Entre eleitores lulistas, os números também indicavam rejeição. Segundo o levantamento, 50% eram contrários à convocação de Neymar, enquanto 45% apoiavam a presença do jogador. No grupo de bolsonaristas, o cenário era diferente. A pesquisa apontava 57% favoráveis à convocação, contra 36% contrários, indicando maioria pró-Neymar entre esses eleitores.

 

Os dados mostram que o debate sobre Neymar na seleção acompanha divisões políticas do país. Pesquisas de análise de conteúdo, perfis e palavras nas redes conseguem mensurar facilmente a influência política nessa e outras discussões. Outra pesquisa, esta durante a Copa, realizada pelo Instituto Democracia em Xeque, também mapeou que debates sobre a figura de Neymar nas redes sociais têm mais viés político do que esportivo [2].

 

Enquanto a direita associava Neymar ao bolsonarismo e criticava Lula "por falta de apoio ao ídolo do futebol brasileiro", perfis à esquerda criticaram o jogador "pelo individualismo excessivo em campo, pela atitude arrogante e antidesportiva contra os jogadores noruegueses, por ser mimado e receber tratamento diferenciado e por manter relações com bets".    

 

O problema é que quando a política embota demais o nosso juízo, perdemos a capacidade de avaliar as coisas pelo mérito. Seja no futebol, nas artes, na ciência ou o que quer que seja, se a política vira o principal agrupador de uma opinião (sobre algo que não tem tanto a ver com política), alguma coisa está errada. No Brasil, durante a pandemia, os defensores do “tratamento precoce”, que acreditavam na eficácia da cloroquina ou ivermectina, eram basicamente bolsonarista. Nem é preciso dizer que seus critérios não eram científicos.

 

Por outro lado, quando a bióloga Natalia Pasternak e o jornalista de ciência Carlos Orsi lançaram o livro “Que bobagem!: Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”, afirmando que a psicanálise seria uma pseudociência – e estavam longe de descobrirem a roda, pois esse é um debate bem antigo – de modo geral, aqueles que criticaram os autores e defenderam a psicanálise eram predominantemente de esquerda. O que talvez se explique pelo peso da psicanálise em uma tradição intelectual e política nesse campo. Novamente, não é preciso dizer que os critérios não eram científicos ou epistemológicos. Se o principal agrupador de uma opinião é o viés político, vale ligar um alerta vermelho e ficar atento.   

 

Não gosto da figura pessoal que o Neymar repercute na mídia, nem de seu alinhamento político, mas gosto menos ainda de críticas motivadas por política que tentam se disfarçar de críticas técnicas. Sejam essas críticas feitas a atletas, artistas, professores etc. Um exemplo é o tanto de críticas sem nenhum embasamento pedagógico feitas ao Paulo Freire por quem não entende cosa alguma de pedagogia e não é capaz de citar dois pedagogos que considere melhores e o porquê eles seriam melhores.

 

Endrick, eleito por parte da torcida como um anti-Neymar (parte da torcida principalmente à esquerda) perdeu um gol feito; Bruno Guimarães perdeu um pênalti; o meio-campo brasileiro deu muito espaço para o Odegaard; a zaga brasileira deu bobeira com o Haaland, que é um centroavante implacável e não perdoou. Há muitos problemas e erros para além de Neymar.

 

A polarização política digital estimula uma birra que ultrapassa a política, preenche todos os espaços da vida cotidiana – inclusive o futebol – e infantiliza as pessoas. É curioso ver, por exemplo, como Youri Djorkaeff, ex-jogador francês, falou sobre Neymar após a eliminação do Brasil para a Noruega [3]. Para ele, naquela partida, “foi o Neymar, aos 34 anos, que não joga há cinco anos, quem ainda criou alguma coisa no fim”. A visão de alguém de fora, distanciado da polarização política brasileira, destoa daqueles que viram no mesmo jogo um Neymar antidesportivo e arrumador de confusão contra os noruegueses. 

 

A Copa acabou para o Brasil. É hora de renovação. Que venha uma boa safra de jogadores e investimentos na formação de atletas, em vez de um salvador solitário (o que nunca dá certo).

 

Referências:

[1] Posição política afeta opiniões sobre Neymar na Copa

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/selecao-brasileira/posicao-politica-afeta-opinioes-sobre-neymar-na-copa-entenda/

 

[2] Política supera futebol no debate sobre Neymar durante a Copa

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/07/politica-supera-futebol-no-debate-sobre-neymar-durante-a-copa-aponta-estudo.shtml

 

[3] Djorkaeff fala sobre seleção brasileira e Neymar

https://www.instagram.com/p/DalbcvuGmbv?img_index=1