Neymar é um jogador que não deu
muita sorte na seleção brasileira. Enquanto Ronaldo teve ao seu lado Ronaldinho
Gaúcho, Rivaldo e Kaká; Romário teve Bebeto; Zico teve Sócrates, Júnior e Falcão;
e Pelé teve tantos craques ao seu lado que nem precisamos citar para o texto não
ficar pesado; o Neymar jogou quatro Copas (2014, 2018, 2022 e 2026) com nomes
como Fred, Gabriel Jesus e Everton Cebolinha. Bons jogadores, mas que sempre
estiveram em patamares bem abaixo do próprio Neymar, que é o maior artilheiro
da história da seleção, o terceiro maior em Copas do Mundo.
Quem se propõe a fazer um
retrospecto da trajetória de Neymar na seleção brasileira precisa ser mais
abrangente e honesto, levando em conta toda a safra de jogadores que estiveram
ao seu lado nas últimas copas. Se isso for feito, acredito que a constatação
seja a de que Neymar não foi parte do problema, mas da solução. Quando falamos
em Era Neymar, estamos nos referindo a quais craques além dele próprio? É até
difícil elencar, de tão isolado que Neymar ficou em um patamar bem acima dos
outros.
Por conta da frustração
acumulada, batem no jogador errado pelos motivos errados. Claro que Neymar tem
muitos defeitos. É um cai-cai, vive lesionado, apoia bets (não é o único) etc.
Mas grande parte das críticas ao Neymar são por razões extracampo: por causa de
política e por sua postura pessoal. E isso é um problema.
Uma pesquisa da Genial em
parceria com a Quaest [1] na ocasião da convocação apontou que entre eleitores
que se identificam como direita não bolsonarista, 58% defenderam a convocação
de Neymar, enquanto 34% eram contrários. O grupo apresenta o maior nível de
apoio ao jogador. Já entre os que se dizem de esquerda não lulista, a maioria
rejeitou a convocação do atacante na seleção. Nesse segmento, a taxa de oposição
superava a de apoio, indicando cenário inverso ao observado na direita.
Entre eleitores lulistas, os números
também indicavam rejeição. Segundo o levantamento, 50% eram contrários à
convocação de Neymar, enquanto 45% apoiavam a presença do jogador. No grupo de
bolsonaristas, o cenário era diferente. A pesquisa apontava 57% favoráveis à
convocação, contra 36% contrários, indicando maioria pró-Neymar entre esses
eleitores.
Os dados mostram que o debate
sobre Neymar na seleção acompanha divisões políticas do país. Pesquisas de
análise de conteúdo, perfis e palavras nas redes conseguem mensurar facilmente
a influência política nessa e outras discussões. Outra pesquisa, esta durante a
Copa, realizada pelo Instituto Democracia em Xeque, também mapeou que debates
sobre a figura de Neymar nas redes sociais têm mais viés político do que
esportivo [2].
Enquanto a direita associava Neymar
ao bolsonarismo e criticava Lula "por falta de apoio ao ídolo do futebol
brasileiro", perfis à esquerda criticaram o jogador "pelo
individualismo excessivo em campo, pela atitude arrogante e antidesportiva
contra os jogadores noruegueses, por ser mimado e receber tratamento
diferenciado e por manter relações com bets".
O problema é que quando a
política embota demais o nosso juízo, perdemos a capacidade de avaliar as
coisas pelo mérito. Seja no futebol, nas artes, na ciência ou o que quer que
seja, se a política vira o principal agrupador de uma opinião (sobre algo que
não tem tanto a ver com política), alguma coisa está errada. No Brasil, durante
a pandemia, os defensores do “tratamento precoce”, que acreditavam na eficácia
da cloroquina ou ivermectina, eram basicamente bolsonarista. Nem é preciso
dizer que seus critérios não eram científicos.
Por outro lado, quando a bióloga Natalia
Pasternak e o jornalista de ciência Carlos Orsi lançaram o livro “Que bobagem!:
Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”,
afirmando que a psicanálise seria uma pseudociência – e estavam longe de
descobrirem a roda, pois esse é um debate bem antigo – de modo geral, aqueles
que criticaram os autores e defenderam a psicanálise eram predominantemente de
esquerda. O que talvez se explique pelo peso da psicanálise em uma tradição
intelectual e política nesse campo. Novamente, não é preciso dizer que os
critérios não eram científicos ou epistemológicos. Se o principal agrupador de
uma opinião é o viés político, vale ligar um alerta vermelho e ficar atento.
Não gosto da figura pessoal que o
Neymar repercute na mídia, nem de seu alinhamento político, mas gosto menos
ainda de críticas motivadas por política que tentam se disfarçar de críticas técnicas.
Sejam essas críticas feitas a atletas, artistas, professores etc. Um exemplo é
o tanto de críticas sem nenhum embasamento pedagógico feitas ao Paulo Freire
por quem não entende cosa alguma de pedagogia e não é capaz de citar dois
pedagogos que considere melhores e o porquê eles seriam melhores.
Endrick, eleito por parte da
torcida como um anti-Neymar (parte da torcida principalmente à esquerda) perdeu
um gol feito; Bruno Guimarães perdeu um pênalti; o meio-campo brasileiro deu
muito espaço para o Odegaard; a zaga brasileira deu bobeira com o Haaland, que é
um centroavante implacável e não perdoou. Há muitos problemas e erros para além
de Neymar.
A polarização política digital
estimula uma birra que ultrapassa a política, preenche todos os espaços da vida
cotidiana – inclusive o futebol – e infantiliza as pessoas. É curioso ver, por
exemplo, como Youri Djorkaeff, ex-jogador francês, falou sobre Neymar após a
eliminação do Brasil para a Noruega [3]. Para ele, naquela partida, “foi o Neymar, aos 34 anos, que não joga há
cinco anos, quem ainda criou alguma coisa no fim”. A visão de alguém de
fora, distanciado da polarização política brasileira, destoa daqueles que viram
no mesmo jogo um Neymar antidesportivo e arrumador de confusão contra os
noruegueses.
A Copa acabou para o Brasil. É
hora de renovação. Que venha uma boa safra de jogadores e investimentos na
formação de atletas, em vez de um salvador solitário (o que nunca dá certo).
Referências:
[1] Posição política afeta
opiniões sobre Neymar na Copa
[2] Política supera futebol no
debate sobre Neymar durante a Copa
[3] Djorkaeff fala sobre seleção
brasileira e Neymar
https://www.instagram.com/p/DalbcvuGmbv?img_index=1

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