sábado, 22 de julho de 2023

Isso não é muito Black Mirror? As tecnologias e a sexta temporada da série

 

Black Mirror (Netflix) é uma das séries de streaming mais criativas e icônicas dos últimos anos. Lançada em 2011, de lá para cá, poucas obras conseguiram sintetizar realidades distópicas de forma tão bem conectadas com nossa atual sociedade da informação. E a palavra “conectada” vem bem a calhar. Sucesso de público e crítica, Black Mirror chegou em 2023 a sua sexta temporada, porém, mais do que nunca dividindo opiniões. Muita gente torceu o nariz. Black Mirror não só estaria diferente, mas diferente para pior! Estaria a série, escrita por Charlie Brooker, passando por uma crise de identidade?

 

Contrariando a maioria das críticas sobre a nova temporada de Black Mirror às quais eu tive acesso, gostei do que vi. Achei esta nova temporada muito boa. Uma das melhores, aliás. E, analisando as reações em boa parte negativas, achei necessário fazer algumas considerações.

 

Antes de mais nada, é preciso ressaltar que ao longo de suas cinco temporadas anteriores, a série demonstrou muita personalidade. Suas características foram tão marcantes que no Brasil o bordão “isso é muito Black Mirror” se popularizou, normalmente para se referir a alguma situação inusitada envolvendo algum dispositivo tecnológico.

 

Pois em grande medida, as críticas negativas em relação à nova temporada partem justamente da percepção de que a série mudou e, agora, “não é muito Black Mirror". Principalmente porque, segundo os críticos, esses novos episódios não teriam muito a ver com tecnologia.

 

Anitta não curtiu

Talvez a crítica mais famosa no Brasil nesse sentido tenha sido a da cantora Anitta, que por meio de sua rede social questionou os rumos da série: “Alguém mais assistiu Black Mirror e não entendeu nada do porquê a série não é mais o que era? Parece até outra série. Não é mais sobre tecnologia, agora é 'thriller' aleatório, os diálogos mal feitos, as histórias bobas sem propósito... Que doideira. O único episódio que segue o estilo da série é o primeiro... O resto vai só ladeira abaixo”, escreveu a cantora [1].

 

O questionamento da cantora sintetiza o de muita gente. Para entender se a crítica realmente procede, em vez de tentar analisar apenas a série em si, achei preciso analisar também a recepção à série, ou seja, a sua audiência. Para isso, lanço a seguinte pergunta: qual o seu conceito de tecnologia?

 

Nem tanto tecnologia, nem tanto comportamento humano. O foco de Black Mirror está na mediação entre ambos

Antes de tentar respondê-la, vale ressaltar que é controverso definir Black Mirror como uma série que fala sobre tecnologia. Obviamente, quem conhece a série sabe que as tecnologias têm amplo destaque, protagonizando as tramas juntamente com seus personagens. Mas a coisa é mais complexa, como explica Fernanda Talarico:

 

Black Mirror (...) se consagrou como uma série que utiliza das inovações tecnológicas e da mídia como ponte para comentar questões sociais contemporâneas. (...) Não é - e nunca foi - exclusivamente sobre tecnologia. (...) Também é sobre tecnologia, mas é ainda mais sobre mídia e sociedade [1].

 

É uma boa análise, mas para tentar ser mais preciso, afirmo que Black Mirror é mais do que sobre mídia. É sobre mediação. O foco da série está na mediação entre o comportamento humano e as tecnologias, com um acento nas tecnologias da informação e comunicação, as chamadas “TICs”. E a mediação é uma via de mão dupla. Funciona da seguinte maneira: o comportamento humano, com seus vieses, sentimentos, falhas, obscuridades, se apropria das tecnologias; por outro lado, essas tecnologias também influenciam o comportamento humano, gerando mudanças, às vezes ampliando problemas. Black Mirror é, portanto, uma série sobre a mediação entre o comportamento humano e os dispositivos tecnológicos.

 

A nova temporada tem cinco episódios: o primeiro, “A Joan é péssima”, é sobre uma mulher comum que descobre que um serviço de streaming transformou sua vida e intimidade em uma série vista pelo grande público; o segundo, “Loch Henry”, sobre a produção de um documentário em uma pacata cidade escocesa; o terceiro, “Beyond the Sea”, traz dois astronautas em uma arriscada missão espacial no ano de 1969; “Mazey Day”, quarto episódio, tem uma atriz famosa fazendo de tudo para escapar de paparazzi que disparam flashes como metralhadoras; e o quinto e último, “Demônio 79”, é sobre uma assistente de vendas que, em 1979, descobre que precisa cometer atos terríveis para impedir um apocalipse. 

 

Diferentemente do que afirma a cantora Anitta, as tecnologias estão nos episódios o tempo inteiro, inclusive em primeiro plano. E isso não ocorre apenas no primeiro episódio, como ela afirma (já o quinto episódio é uma exceção, pois de fato não há um protagonismo de dispositivos tecnológicos. Vamos analisa-lo mais adiante). O problema é o que é considerado tecnologia. Por isso, retomamos a pergunta: qual o seu conceito de tecnologia?

 

Tecnologia não é necessariamente inovação

Aqueles que acharam que esta última temporada de Black Mirror "não é muito Black Mirror" na verdade possuem uma visão de tecnologia muito associada a inovação, a futurismo e coisas high-techs. Mas tecnologia não é necessariamente inovação e não precisa ter cara de futuro. O videotape, protagonista do segundo episódio, e a fotografia, protagonista do quarto episódio, são tecnologias, inclusive com o uso de telas (o tal "espelho negro" que inspira o nome da série).

 

A tecnologia é um produto da ciência e da engenharia que envolve um conjunto de instrumentos, métodos e técnicas que visam a resolução de problemas. Ela é uma aplicação prática do conhecimento científico, nas mais variadas áreas do saber, para resolver coisas específicas.

 

Como explica o sociólogo Alan Mocellin, a tecnologia envolve um conjunto de práticas visando a execução de um determinado fim. “A tecnologia tem como seu horizonte totalizante o discurso científico, sendo derivação prática desse discurso” (2015, p. 83). Ou seja, ela é a face prática da ciência, quando você pega um conjunto de saberes e aplica para criar coisas ou procedimentos que possibilitem a resolução de algo concreto.

 

A palavra “tecnologia” vem do grego “tekhne“, que significa “técnica, arte, ofício”, juntamente com o sufixo “logia“, que significa “estudo” [2]. Quando pensamos em tecnologia, costumamos imaginar coisas “modernosas”, como satélites e computadores, mas as tecnologias são desenvolvidas pelos homens desde tempos primórdios. As tecnologias primitivas ou clássicas, por exemplo, envolvem a descoberta do fogo, a invenção da roda, a escrita, dentre outras.

 

Videotape

Anitta não deixa clara a sua percepção pessoal de tecnologia, mas temos bons indícios dessa percepção de tecnologia necessariamente associada a inovação nos comentários de alguns críticos youtubers que abordaram a sexta temporada da série. São os casos de Peter Jordan, do canal “Ei Nerd” [3], e de Michel Arouca, do canal “Série Maníacos” [4]. Peter Jordan, ao comentar sobre o segundo episódio, “Loch Henry”, diz que ele “não trata de tecnologia. Não tem nada de futurista ali”. Repare como a palavra tecnologia está associada a algo do futuro. O comentário está parcialmente certo (ou seja, também parcialmente errado): de fato não há futurismo no episódio. Porém, a tecnologia está ali o tempo inteiro.

 

Estou falando do videotape e das antigas câmeras de vídeo, incluindo seus visores e a tela da TV, conectada ao vídeo, reproduzindo as imagens gravadas nas fitas magnéticas VHS. Hoje tudo isso soa antigo, mas o videotape teve seu papel na história das mídias e, por consequência, na história das sociedades. Para ser mais preciso, na história da mediação entre o comportamento humano e os dispositivos tecnológicos de comunicação. Interessante a maneira como Black Mirror mostra como os diversos meios de comunicação influenciam no comportamento humano.

 

Uma das melhores obras para apresentar o peso do videotape é o documentário romeno “Chuck Norris vs Communism” (2015) [5], um retrato dos últimos anos de Guerra Fria a partir da Romênia socialista, quando fitas VHS de filmes internacionais e aparelhos de vídeo domésticos não eram permitidos. Apesar disso, o país é inundado de fitas piratas com grandes produções cinematográficas estadunidenses. Forma-se uma cultura de videoclubes improvisados em residências e uma rede de tráfico de fitas piratas que envolveria até agentes do estado e incluiria uma dublagem pirata rudimentar. O videotape contribuiria para mudanças culturais que, por sua vez, acelerariam a abertura do regime. Tudo soa surreal visto a partir do mundo de hoje, mas foi real. Isso é muito Black Mirror e de fato ocorreu.

 

Fernanda Talarico, ao também analisar “Loch Henry”, afirma que “no caso deste capítulo, não há intervenções tecnológicas e a crítica presente é sobre como lidamos e consumimos produções de crimes reais. Novamente, o uso da mídia e comportamento da sociedade é o explorado” [1]. De fato, o uso da mídia e o comportamento da sociedade são tratados, mas não dá para dizer que as intervenções tecnológicas não estejam no episódio, fazendo a mediação com o comportamento dos personagens e protagonizando a trama. Ou seja, assim como Peter Jordan, ela não viu tecnologia ali. Mas há. E muita!

 

Fotografia

Peter Jordan prossegue em sua crítica à temporada como um todo e afirma que “A sexta temporada é menos futurista. Menos high-tech de todas”. Tem razão. E essa fala é mais um indício da concepção de tecnologia associada a inovação. E lamenta: “era muito comum, desde o início da série, os episódios serem construídos a partir de um argumento que era o de que a tecnologia vai te desumanizar”. Ele acerta em identificar a proposta da série – e essa desumanização por meio da tecnologia está incluída no que falamos sobre mediação –, mas não consegue vê-la no quarto episódio, “Mazey Day”, considerado por ele o pior de todas as temporadas da série. O youtuber diz que se trata de um episódio “totalmente aleatório”. Mas não é. A desumanização mediada pela tecnologia – no caso, pelas câmeras fotográficas – está posta.

 

Na história, os paparazzi, incapazes de alguma empatia com o sofrimento da atriz, disparam flashes sobre ela ininterruptamente, em busca da recompensa que é o valor em dinheiro do registro fotográfico de seu sofrimento. A atriz, por sua vez, se transforma em algum tipo de criatura sobrenatural sob a luz da Lua cheia. Embora ela esteja literalmente desumanizada, aqueles fotógrafos, na caçada contra ela, mediados por suas lentes, já não possuem senso de humanidade nem mesmo entre eles.

 

Em muitas culturas já se acreditou que a fotografia roubava a alma da pessoa fotografada. Essa crença persiste, por exemplo, em diversas culturas indígenas do Brasil. É o caso dos yanomami, que, em meio a uma enorme crise sanitária pela qual passaram em 2022, sentiram-se perturbados por conta de um choque cultural decorrente da exposição e compartilhamento de fotos de seus integrantes. Como explica o escritor, professor e ativista indígena Daniel Munduruku:

 

Existe um ensinamento que vem de muito tempo: os indígenas não permitem tirar fotos porque a foto roubaria a alma da pessoa que teve sua imagem fotografada. Isso tem muito a ver com a compreensão que muitos povos indígenas têm de que, ao morrer, a gente precisa esquecer a pessoa que morreu. A fotografia, de uma certa maneira, traz a pessoa [morta] de novo para o cenário dos vivos. E isso causa um conflito espiritual e um sentimento de que houve quebra na espiritualidade [6].

 

A ideia pode soar estranha para nossa cultura ocidental de base eurocêntrica, mas, mal comparando, podemos pensar nos dilemas éticos dos quais tratamos hoje em dia nos casos envolvendo a inteligência artificial e seus usos para “ressuscitar” atores e cantores já falecidos. Um exemplo é a polêmica em torno do recente comercial da montadora Volkswagen que junta a cantora Maria Rita e uma recriação de Elis Regina feita em IA [7]. O uso da tecnologia para “ressureições” desse tipo ainda nos gera estranheza, desconforto. 

 

Entre a fotografia e a IA, um videogame já se envolveu em um dilema ético parecido. Há mais de uma década, o jogo “Guitar Hero 5” provocou controvérsias e desconforto por possibilitar que um tipo de avatar de Kurt Cobain, falecido vocalista da banda Nirvana, pudesse ser usado para interpretar canções de outros artistas, inclusive daqueles que o próprio Kurt Cobain possivelmente não interpretaria [8]. Dilemas relativamente parecidos, em dispositivos tecnológicos diferentes, cada qual com suas particularidades. 

 

Ainda em se tratando da cultura ocidental de base eurocêntrica, por outro lado, as primeiras fotografias eram vistas como uma passagem para a imortalidade. Havia algo de poético e bizarro na aura da então nova tecnologia. Eram comuns as fotos pós-morte: fotografavam-se pessoas recém-falecidas como se elas ainda estivessem vivas. Isso porque a fotografia era usada como uma forma de preservar a vida para gerações futuras [9]. Era o contrário dos yanomami.

 

Por tudo isso, por que não trazer a fotografia para Black Mirror? Muitos dilemas podem ser explorados a partir dela. Do mesmo modo que a ficção científica em geral se vale de signos do futuro para, no fundo, falar sobre questões do presente, é possível fazer parecido, no sentido inverso: usar signos do passado para tratar de dilemas do presente. Nesse sentido, a fotografia poderia render um bom enredo sobre o uso da tecnologia para vencer a morte e de algum modo voltar à vida. Algo semelhante ao que fez o episódio “Be Right Back”, da segunda temporada, eleito o melhor da série pelo jornal El País [9]. Ou quem sabe algo que explore a estranheza decorrente dessa “ressurreição”, semelhante a que a IA nos provoca quando usada para recriar imagens em movimento de artistas falecidos. A fotografia é muito Black Mirror!

 

“Eu confesso que senti falta de um episódio futurista. Essa série está prevendo tecnologia bizarra há muito tempo”, diz Michel Arouca, iniciando sua crítica à sexta temporada e, de certo modo, reverberando a concepção de tecnologia necessariamente associada a inovação. Em seguida, ao falar especificamente sobre “Mazey Day”, pergunta “por que isso seria um episódio de Black Mirror? Cadê o espelho preto que dá título à série? ” Respondo: na lente da câmera fotográfica!

 

Espelhos pretos do passado e do presente

O que a sexta temporada de Black Mirror faz é um passeio no passado e pela história das mídias para mostrar antigos espelhos pretos e nos lembrar que, ao menos em parte, o que vivemos hoje em nossas mediações com o espelho preto da tela do celular e com o mundo digital em geral já nos rondava por meio de outras tecnologias da informação e comunicação. E é uma pena que a visão de tecnologia restrita a inovação impeça alguns de aproveitar melhor esse passeio. Black Mirror, ao explorar mais o seu lado retrô, nos ajuda a desconstruir essa visão. E explorar o passado é uma forma de a série contextualizar questões, nos mostrar como chegamos onde chegamos.  

 

Cabe lembrar que desde as primeiras temporadas a série sempre se valeu de alguns signos e estéticas do passado para dar uma embaralhada no tempo. Algo que me chamou a atenção logo na primeira temporada, no episódio “The Entire History of You”, do microchip que grava tudo que os olhos veem, é como uma tecnologia tão avançada podia conviver na mesma história com painéis de carros tão vintage. Mas é porque o foco de Black Mirror não é bem o futuro, mas a distopia.  

 

A tecnologia em “2001, uma odisseia no espaço”

Há um clássico cinematográfico que pode nos ajudar a apreciar a sexta temporada da série com menos apego ao futurismo, pois traz uma abordagem de tecnologia semelhante a que aqui apresentamos. É “2001, uma odisseia no espaço” (1968), do diretor Stanley Kubrick. Um filme que nos faz pensar sobre os usos da tecnologia desde os primórdios hominídeos até as naves espaciais desenvolvidas por nós, Homo sapiens.

 

Em uma sequência espetacular [11] – que mesmo aqueles que nunca assistiram ao filme conhecem –, vemos um macaco segurando um grande osso. Ele para, pensa, olha para o osso, olha para o chão, bate o osso no chão, bate com o osso em outros pedaços de ossos que estavam espalhados pelo chão e que se quebram com a pancada. O macaco parece ter uma espécie de revelação!

 

Extasiado, o animal estava naquele momento descobrindo que aquele pedaço grande de osso que estava em sua mão poderia ser usado para quebrar coisas, ou seja, como um tipo de ferramenta, e também como arma, para ferir e abater outros animais. Era o início do uso da tecnologia, um passo a mais no estágio evolutivo da espécie. Vemos na cena o macaco pensando, usando o seu saber, testando o osso como ferramenta. Cada pequena pancada era um teste. A verificação por meio de testes seria uma forma rudimentar de fazer ciência, para finalmente chegar ao domínio de uma nova tecnologia.

 

Na sequência seguinte, em um conflito entre dois grupos de macacos, aquele cujos membros estavam com ossos nas mãos usando-os como armas levou a melhor. Eles bateram em seus adversários e dominaram o território. A sequência termina com um dos vencedores jogando o osso/arma para o alto. Esse osso se transforma em uma nave espacial, em uma das mais famosas e importantes elipses [12] da história do cinema, simbolizando todo o desenvolvimento tecnológico dos primórdios até o que havia de mais moderno naquela década. A história da humanidade em dois planos. O comparativo entre o osso e a nave deixa clara a intencionalidade do filme de ressaltar o osso como um artefato tecnológico.

 

Quinto e último episódio

Até aqui defendi a sexta temporada, por entender que a crítica feita a ela, em grande medida, parte de pressupostos equivocados quanto à proposta da série e quanto ao conceito de tecnologia. Mas essa defesa não funciona tão bem para o quinto episódio, “Demônio 79”. Esse episódio parece ser algum tipo de transição de Black Mirror para alguma outra coisa, alguma outra série. Charlie Brooker chegou a comentar que pretendia dar início a um outro projeto que se chamaria “Red Mirror” [13]. Inclusive o episódio começa sendo anunciado como uma produção “Red Mirror”.

 

Por isso, este quinto e último episódio me lembrou algum tipo de piloto para alguma nova produção que possa estar por vir. Diferentemente dos quatro episódios anteriores da temporada, aqui não dá para dizer que dispositivos tecnológicos dividem o protagonismo com personagens da trama. As críticas feitas à temporada, se feitas somente ao episódio, seriam cabíveis.

 

Ainda assim, se tentarmos interpretar o episódio sob a luz do que já conhecemos de Black Mirror – e isso significa, também, forçarmos um pouco a barra – podemos enxergar algo de interessante que conecta “Demônio 79” ao restante da série. E convenhamos que interpretar um episódio influenciado pela antologia a qual ele pertence não chega a ser nenhum delírio ou absurdo.

 

É bem verdade que a tecnologia não está em primeiro plano, mas o tal demônio, acidentalmente invocado por uma imigrante vendedora de sapatos, toma a forma de um artista que ela havia visto pela TV e achado atraente. Como ressalta o crítico PH Santos, para quem busca uma interpretação mais literal, o espelho negro está aí [14]. É a televisão! A propósito, é na tela da TV que o demônio confere seu novo visual, tal qual alguém que se retoca em frente ao espelho.

 

Um demônio que se vale de um visual atraente de um artista da TV para corromper uma pessoa normal que, apesar de ser uma pessoa boa, tem os seus impulsos de fúria e devaneios de vingança e, portanto, também é capaz de fazer o mal, pode ser uma metáfora a respeito de muito do que a televisão e em maior extensão os mass media foram e ainda são capazes. Aliás, a mídia de massa – jornais, TV, livros – aparecem com frequência sendo consumida pelos personagens. E também os cartazes. Disseminando o perigo da Guerra Fria, incentivando ou anunciando a xenofobia da qual a protagonista é vítima.    

 

Você pode estar questionando: “mas é claro que os veículos de massa vão aparecer. Estamos falando de uma história passada em 1979!” De fato, aqui neste episódio precisamos fazer algum esforço interpretativo à luz de toda a série. Mas, independentemente do protagonismo ou não das tecnologias da informação e comunicação, o episódio até que funciona bem como um episódio final de Black Mirror. Também porque há nele um político em ascensão que representa um futuro alternativo de paranoia, capitalismo de vigilância, sociedade de controle, punitivismo, preconceito e autoritarismo. Tudo isso são questões já tratadas nos episódios de Black Mirror em suas seis temporadas. Inclusive, no vislumbre que a protagonista tem desse futuro alternativo, há referência aos cachorros-robôs de "Metalhead", episódio da quarta temporada.

 

Um detalhe interessante: “Demônio 79” se passa num 1º de maio do ano de 1979. Naquele mesmo ano e na vida real, dias depois, Margaret Thatcher seria alçada ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido, onde se passa a trama. Junto com Ronald Reagan nos EUA, ela foi o principal nome para a consolidação do que se convencionou chamar de neoliberalismo [15], hoje praticamente onipresente em nossa sociedade global e imperando fortemente no modo como as tecnologias são apropriadas. Seria esse alvorecer neoliberal o verdadeiro apocalipse que gera Black Mirror? “Demônio 79”, além de nos ajudar a entender como chegamos ao ponto em que chegamos, pareceu-me um tipo de mito fundacional da série.  

 

Referências:

MOCELLIM, Alan. Comunicação e Reencantamento: retórica ou possibilidade?. Esferas, v. 6, p. 79-87, 2015

 

[1] 'Histórias bobas': Anitta está certa e 'Black Mirror' realmente piorou:

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/06/26/anitta-esta-errada-black-mirror-nao-e-apenas-sobre-tecnologia.htm

 

[2] Significado de tecnologia

https://www.significados.com.br/tecnologia-2/

 

[3] PIROU DE VEZ! BLACK MIRROR TEMPORADA 6: O QUE EU ACHEI:

https://www.youtube.com/watch?v=FqKcEoAEnF0&t=19s

 

[4] BLACK MIRROR TEMPORADA 6 - Análise completa de todos os episódios!:

https://www.youtube.com/watch?v=or92MH5hTyA

 

[5] Chuck Norris contra o Comunismo:

https://www.youtube.com/watch?v=pKhVDYRA-OY

 

[6] Por que os yanomami não querem ter fotos suas compartilhadas

https://www.dw.com/pt-br/por-que-os-yanomami-n%C3%A3o-querem-ter-fotos-suas-compartilhadas/a-64536528

 

[7] "Como Nossos Pais"? Comercial que reúne Maria Rita e Elis Regina provoca debate sobre canção:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2023/07/como-nossos-pais-comercial-que-reune-maria-rita-e-elis-regina-provoca-debate-sobre-cancao-cljr2vbfb001o0150ax5jzbeg.html

 

[8] Bon Jovi apoia críticas a videogame com Kurt Cobain:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/09/090917_bonjovinirvanaebc

 

[9] Por que tão sério: já notou que a galera nunca sorria em fotos antigas?:

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2023/06/18/por-que-pessoas-nunca-sorriam-em-fotos-antigas.htm

 

[10] Black Mirror’: todos os episódios, organizados do pior para o melhor:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/11/cultura/1515697182_485240.html

 

[11] O pensamento e a descoberta da ferramenta “2001: Uma Odisseia no Espaço”:

https://www.youtube.com/watch?v=9etefsYMm5o

 

[12] Elipse (narrativa)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Elipse_(narrativa)

 

[13] Por Que Black Mirror Está Com CRISE DE IDENTIDADE?

https://www.youtube.com/watch?v=AtSzHGgM3Lk&t=19s

 

[14] Black Mirror 6x05 - Red Mirror | Demon 79 - Análise

https://www.youtube.com/watch?v=oeX8D7awdXg

 

[15] O que é neoliberalismo?

https://www.politize.com.br/neoliberalismo-o-que-e/

quarta-feira, 12 de julho de 2023

O que é um “professor doutrinador” para o bolsonarismo? Guerra cultural e pânico moral como estratégia política


Em um evento pró-armas realizado no Distrito Federal, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, vulgo “Bananinha”, compara professores que ele próprio considera “doutrinadores” a traficantes.  

 

“Não tem diferença de um professor doutrinador para um traficante que tenta sequestrar e levar os nossos filhos para o mundo do crime. Talvez até o professor doutrinador seja ainda pior”, disse o deputado [1].

 

A figura retórica do “professor doutrinador” a desvirtuar seus alunos, corromper “nossos filhos”, aplicando algum tipo de lavagem cerebral não é rara na pauta bolsonarista e do campo político reacionário em geral. Ela foi acionada, com frequência, no projeto do Movimento Escola sem Partido [2], que visava reduzir sensivelmente a liberdade de cátedra e perseguir professores. Ainda hoje há projetos similares e sendo incentivados por meio desse discurso.

 

Muito mais falas do que ações

Mas antes de entrarmos naquilo que o campo reacionário, do qual Eduardo Bolsonaro faz parte, julga ser um “doutrinador”, é preciso ressaltar que frases de impacto e falas agressivas sempre fizeram parte do repertório político da família Bolsonaro. Tanto o pai Jair quanto os filhos nunca foram exatamente gestores/administradores públicos. Ou seja, nunca se importaram com políticas públicas de fato.

 

Cabe exemplificar que em três décadas como deputado, Bolsonaro teve apenas dois de seus projetos aprovados e que viraram lei [3]. Um deles liberando a fosfoetanolamina para o combate ao câncer. Chamada de “pílula do câncer” à época, mais tarde o STF julgaria a lei sem efeito por falta de testes e falta de comprovação de eficácia da substância [4]. Era uma prévia do charlatanismo que Bolsonaro viria a popularizar durante a pandemia, encorajando o uso de medicações ineficazes contra a covid, como a cloroquina e a ivermectina.

 

A projeção política da família, principalmente do pai, se deve quase que exclusivamente à contundência das falas. Algo que alguns poderiam chamar de “lacração” ou coisa pior. Declarações que se valem do ódio, da violência política, e que frequentemente fomentam um clima de conflito. Esse clima de conflito é necessário para manter os adeptos do bolsonarismo constantemente engajados, já que projetos e políticas públicas nunca foram o forte.

 

Guerra cultural e pânico moral:

Essa lacração faz uso e abuso de artifícios retóricos manjados como a guerra cultural e o pânico moral. Quanto ao primeiro, Cristina Teixeira de Melo e Paulo Vaz (2021) destacam que o conceito de guerra cultural surgiu com o livro Culture Wars: The Strugle To Define America, de James Hunter, publicado em 1991, e que seu sentido imediato seria a existência de conflitos morais. Hunter, segundo Melo e Vaz, cita exemplos que estariam dentro da gama desses conflitos morais, sendo possível perceber que, assim que o conceito de guerras culturais é proposto ou, pelo menos, adensado, logo de cara estão alguns embates da área educacional, o que é o caso em questão, no qual Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes.

 

Hunter destaca as disputas em torno ao aborto, à posição da mulher na família e na sociedade, à sexualidade, aos direitos do que hoje chamamos população LGBTQI+, ao financiamento público de projetos culturais e exposições artísticas, à separação entre Igreja e Estado, ao multiculturalismo, às cotas para minorias nas universidades, ao cânone dos autores ocidentais no ensino universitário, ao politicamente correto e ao currículo das escolas primárias (MELO e VAZ, 2021, p. 6).

 

Apesar da multiplicidade de temas, há aspectos em comum que viabilizam uma conceituação sobre o que seriam as guerras culturais. Melo e Vaz citam dois. O primeiro é referente ao modo como o processo de disputa social ocorre: inicialmente, um determinado grupo obtém avanços, por exemplo, no campo dos direitos civis, e, com esses avanços ocorrem mudanças de valores morais. Entretanto, de forma quase que simultânea, há uma reação conservadora organizada. A segunda característica seria, em linhas gerais, um processo amplo de secularização, visto que a noção de guerras culturais fora cunhada dentro do contexto da história política e cultural estadunidense.

 

Dados o poder de mobilização política e a força da religião na constituição da moralidade nos Estados Unidos, Hunter caracteriza a mudança como um processo de secularização. Por essa razão, ele supõe que o conflito em torno do direito ao aborto seria o protótipo das guerras culturais (MELO e VAZ, 2021, p. 7).

 

Já o pânico moral ou cultura do medo é quando, por exemplo, apela-se para o medo, atentando para supostos "riscos que rondam as nossas crianças", “os nossos filhos”, exatamente como fez o deputado. Antônio de Oliveira Bitencourt (2013) destaca que o conceito de pânico moral abarca circunstâncias em que, influenciados por notícias alarmantes diárias, somos postos em uma situação em que não estamos devidamente inclinados com o que realmente deveríamos nos preocupar, como, por exemplo, a pobreza e a fome, que ele cita como problemas sociais graves. “Os pânicos morais estão associados a alguma espécie de perigo iminente e emanam do social” (BITENCOURT, 2013, p. 40).

 

O conceito não é um termo de alçada popular e comumente é utilizado por políticos, sociólogos, jornalistas, entre outros profissionais, para explicar situações sociais nas quais existe uma percepção, por alguém, que uma determinada situação representa um risco potencial (real ou imaginário) para uma população. (Ibid)

 

Disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro:

Também é preciso compreender o momento em que Eduardo Bolsonaro dispara sua frase comparando profissionais da educação a traficantes. Jair Bolsonaro foi derrotado nas urnas, mas muitos de seus apoiadores se elegeram. O Bolsonarismo segue vivo, ainda que não demonstre a mesma força que tinha há cinco anos. Por isso, há certa indecisão nos rumos do movimento. Como ainda não se sabe qual nome da extrema direita irá herdar o espólio político de Jair Bolsonaro, muitos nomes começam a se insinuar. Eduardo Bolsonaro sabe que é preciso manter-se em evidência para não perder o posto de herdeiro político. E como a estratégia política dos Bolsonaro sempre foi a contundência das falas, o deputado federal mantém o jogo que, em linhas gerais, sempre funcionou para sua família.

 

Mas a disputa não é fácil. Sempre há um Nikolas Ferreira disposto a lacrar mais alto. O deputado mineiro chegou a vestir no plenário da Câmara uma peruca loura e se rebatizar como Nicole [5], tudo para disseminar o mesmo discurso transfóbico que alavancou sua carreira política e tentar aparecer. Conseguiu. A briga pelo espólio político do ex-presidente Bolsonaro fica ainda mais difícil porque, segundo analistas, a direita agora busca um nome mais moderado (comparativamente aos Bolsonaro) para quem sabe tentar uma eleição presidencial em 2026. Nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema, governadores de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente, são alguns dos cotados. Se for esse o caminho, a agressividade retórica de Eduardo Bolsonaro pode não ajudá-lo. O tempo dirá e ainda há muita água para rolar.

 

O que seria um “professor doutrinador” pela ótica reacionária? Uma análise a partir do ensino de história

Os defensores de Eduardo Bolsonaro alegam que ele não comparou professores a traficantes (de armas ou drogas, vai saber), mas somente aqueles professores específicos, que agem como doutrinadores. O problema é a abrangência do termo “doutrinador” para o campo extremista e reacionário do qual o deputado faz parte. O que seria exatamente um “professor doutrinador”?

 

Basicamente é todo professor que ensina um conteúdo em sentido contrário às confabulações políticas infundadas disseminadas de forma manipulatória pelo bolsonarismo. E aqui cabe-nos explicar do ponto de vista do ensino de história, área que nos é mais afeita e uma das mais atacadas por esse tipo de discurso que se vale da guerra cultural e do pânico moral.

 

Doutrinador pode ser, por exemplo, o professor que explica os problemas sociais, políticos e econômicos da ditadura militar no Brasil, uma vez que a ditadura é glorificada pelos bolsonaristas e demais reacionários. Doutrinador pode ser aquele que aponta para as sequelas até hoje sentidas na sociedade brasileira por conta do etnocídio sofrido pelos povos indígenas ou pela escravidão imposta aos negros no Brasil. Também pode ser entendido como doutrinador aquele profissional que analisa, em perspectiva histórica, o problema do latifúndio, da enorme concentração de terras no país, algo que remete aos tempos das capitanias hereditárias, e que explica a importância histórica da luta por reforma agrária. Tudo isso, pela ótica bolsonarista, vira “doutrinação”. Não é pouco!      

 

No artigo do Café História escrito por Bruno Carvalho e Nilton Mullet (2021), ao abordarem o assunto no campo do ensino de história, os autores explicam que, por trás da acusação de doutrinação, o que existe é um ataque à pluralidade de um ensino que dá voz e vez a grupos até então subjugados:

 

O tom acusatório com que apontam professores de História de doutrinadores apenas tem o objetivo de continuar, contraditoriamente, a mostrar um mundo baseado em apenas uma doutrina, uma mesma visão de mundo, àquela legada, através do genocídio e da escravização, pelo colonizador (CARVALHO e MULLET, 2021, on-line).

 

Os autores contextualizam, esclarecendo as mudanças pelas quais o ensino de história passou nas últimas décadas, absorvendo novas vozes, novos atores sociais. Com frequência ouvimos a frase que diz que “a história é escrita pelos vencedores”. Pois as últimas mudanças na pesquisa e ensino de história são direcionadas justamente no sentido contrário a essa frase, desconstruindo a noção de que somente vencedores devem explicar como tudo aconteceu e como chegamos onde chegamos. Restringir a história à versão dos vitoriosos e grupos dominantes (de ontem e hoje) não é bom para a historiografia. Não é bom para a ciência!

 

Por muito tempo, o Ensino de História privilegiou doutrinas e visões de mundo marcadamente europeias, silenciando sobre doutrinas de outros povos e culturas. Vale dizer, por exemplo, que durante muito tempo as aulas de história não discutiam a cultura e as doutrinas religiosas de matriz africana, dedicando-se, quase exclusivamente, às religiões e doutrinas grega, romana e cristã.

 

Isso porque a aula de História era afetada por uma visão de mundo específica: a do agente colonizador europeu. Durante séculos, o Brasil foi colonizado por uma nação europeia, e isso deixou marcas profundas em nossa sociedade, a começar pela forma como entendemos a história. Acostumamo-nos a ver os povos africanos e indígenas como atrasados, passivos e sem protagonismo, enquanto que os povos europeus seriam aqueles que fizeram a humanidade realmente avançar, produzindo uma cultura “universal”.

 

Há algumas décadas, essa forma de escrever a história mudou. Historiadores em todo o mundo passaram a estudar, pesquisar e escrever muito mais sobre outros povos e culturas, e recentemente, essa “nova história”, muito mais plural e representativa, chegou aos livros didáticos. Acontece que, como toda mudança, essa gerou desconforto. Algumas pessoas entenderam que falar, por exemplo, de religiões de matriz africana, era o mesmo que diminuir a importância das religiões cristãs, ou ainda, que explorar a história dos povos da Ásia e os seus feitos ao longo do tempo, era o mesmo que ignorar a cultura europeia. O professor, ao fazer isso, estaria “doutrinando” suas turmas (...).

 

Uma aula de História é um espaço público onde se aprende sim doutrinas e teorias diversas, mas é, sobretudo, o lugar onde se aprende a conviver, a difícil arte da convivência, do respeito e do diálogo. Um jovem que não vai à escola e não frequenta uma aula de História onde pode debater e discutir com seus colegas e professores, não aprende a entender a pluralidade do mundo. Uma criança ou um jovem não são “tábulas rasas”, incapazes de dialogar, de contestar ou de resistir (Ibid).

 

Referências:

BITENCOURT, Antonio Belamar Oliveira de. Risco e pânico moral: um estudo sociológico do "Medo do Crime" na revista Superinteressante 2008-2012. Santa Maria: UFSM, 2013.

 

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de; MULLET, Nilton. Professores e professoras de história são mesmo doutrinadores? (Artigo) In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/professores-e-professoras-de-historia-sao-mesmo-doutrinadores/. Publicado em: 27 jul. 2021. ISSN: 2674-5917.

 

MELO, Cristina Teixeira de; VAZ, Paulo. Guerras Culturais: conceito e trajetória. In: Revista Eco-Pós, v. 24, n. 2, 2021.

 

[1] Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes; PF deve analisar fala

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/eduardo-bolsonaro-compara-professores-a-traficantes-pf-deve-analisar-fala/

 

[2] Escola sem Partido | Fernando Penna

https://www.youtube.com/watch?v=pVS7lYGaUQo

 

[3] Em 27 anos como deputado, Bolsonaro tem dois projetos aprovados

https://www.redebrasilatual.com.br/politica/em-27-anos-como-deputado-bolsonaro-tem-dois-projetos-aprovados/

 

[4] STF JULGA INCONSTITUCIONAL LEI DE BOLSONARO QUE AUTORIZA PÍLULA DO CÂNCER

https://congressoemfoco.uol.com.br/area/justica/stf-julga-inconstitucional-lei-de-bolsonaro-que-autoriza-pilula-do-cancer/

 

[5] Nikolas Ferreira veste peruca na Câmara e ironiza mulheres trans

https://www.youtube.com/watch?v=sB2YUgzfHvM

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Somos todos macacos? Racismo no futebol e os 9 anos de uma campanha polêmica

 


O execrável caso de racismo envolvendo o jogador Vinícius Jr. no jogo entre Valencia e Real Madrid pelo campeonato espanhol, lamentavelmente, tem seus antecedentes. Um dos casos de maior repercussão ocorreu há nove anos, em 2014, com o jogador Daniel Alves. No dia 30 de março daquele ano, aos 30 minutos do segundo tempo de uma partida entre Barcelona e Villarreal, um torcedor atirou uma banana em campo, em uma clara provocação racista contra Daniel Alves, que teve uma reação inesperada: pegou a fruta do gramado e a comeu.

 

O caso teve muita repercussão, não só pelo ataque racista, mas pela reação do jogador. A revista Veja estampou Daniel Alves em uma capa com uma legenda bastante controversa: “Daniel Alves, da Seleção Brasileira e do Barcelona, comeu a banana, os racistas dos estádios escorregaram na casca e o preconceito quebrou a cara – talvez para sempre.”

 


O tom triunfalista da revista ao acreditar que o racismo havia sofrido um derradeiro golpe, derrotado “talvez para sempre”, era de quem aparentemente não havia se dado conta do quanto o problema está enraizado na sociedade – na Espanha, no Brasil e em outros países do mundo. Vinícius Jr. que o diga. O jornalismo, também ele, havia escorregado numa casca de banana.

 

Mas a polêmica (ou a escorregada?) não ficou no jornalismo. A repercussão da reação de Daniel Alves foi aproveitada para o lançamento da campanha publicitária “Somos todos macacos”, em que pessoas postavam selfies segurando bananas. Xuxa, Ivete Sangalo, Angélica e Luciano Huck foram algumas das personalidades a aderirem à campanha. Este último foi acusado de estar lucrando com o caso, já que sua empresa lançou produtos com a estampa, como camisas e canecas [1].

 


Outro que achou que a campanha “Somos todos macacos” era uma boa ideia foi ´Reinaldo Azevedo, colunista da própria revista Veja. Em sua coluna “A aula de Daniel Alves e Neymar de combate ao racismo. Ou: Também sou macaco!” [2], Azevedo elogiava a atitude dos jogadores. O primeiro, por ter comido a banana em campo; o segundo, por ter dado início à campanha, postando uma foto em rede social segurando uma banana, com a hashtag “#somostodosmacacos”.

 

“Por falar em Neymar, ele também fez a coisa certa. Publicou uma foto no Instagram, comendo uma banana, ao lado do filho. (...) Fez circular ainda a seguinte mensagem: ‘SOMOS TODOS IGUAIS, SOMOS TODOS MACACOS. RACISMO NÃO!!!!!’”, destacou Azevedo, em seu texto, sem explicar, no entanto, que a campanha “Somos todos macacos” era uma criação da agência Loducca e que a imagem postada por Neymar fazia parte da campanha. 

 


O colunista continua. Demonstrando entusiasmo com a suposta habilidade dos jogadores no combate ao racismo, Azevedo acredita que as atitudes dos futebolistas brasileiros são mais acertadas contra o problema do que a produção intelectual da época. Para ele, Daniel Alves e Neymar, “que não se querem pensadores profundos — são mesmo é bons de bola, graças a Deus —, são mais sábios do que alguns intelectuais do miolo mole. É claro que acho que manifestações racistas, quando flagradas, têm de ser punidas. Mas a histeria politicamente correta só alimenta os idiotas.”

 

Azevedo não deixa claro quem seriam os “intelectuais de miolo mole” e nem o que exatamente seria a “histeria politicamente correta”, embora possamos deduzir quem e o que são ambos. É provável que os tais intelectuais criticados sejam aqueles que recorrentemente têm produzido sobre racismo estrutural e demais pautas genericamente denominadas como “identitárias”, cujas produções são, com frequência, rotuladas como “politicamente corretas”, em certo tom pejorativo.

 

Embora não seja a pretensão deste artigo abarcar o assunto, vale ressaltar que há discussões interessantes sobre o uso desse termo, como no caso de Alex Castro, que levanta a bola ao tratar do humorismo [3], defendendo haver uma certa contradição no uso do termo “politicamente correto” para se referir às causas de minorias desfavorecidas, haja vista que elas são contra-hegemônicas se comparadas à política vigente, há séculos dominada por homens, heterossexuais e brancos. Esta política vigente e tradicional, sim, por ser predominante há tantos anos, seria verdadeiramente a merecedora do rótulo de “politicamente correta”.

 

Também é interessante a posição de Moira Weigel, pesquisadora de Harvard sobre o tema, que defende que o “politicamente correto” é um “inimigo imaginário”.

 

Realmente não acredito que o politicamente correto exista. Você pode perguntar: mas então a que as pessoas se referem quando usam esse termo? É à linguagem que usamos e aos cuidados que temos quando falamos para não ofender ninguém. O que existe são formas diferentes de diálogo, de discurso, à medida que a sociedade se desenvolve e diversifica. Se você olhar para as universidades, como a da Califórnia, por exemplo, vai ver que, em meados dos anos 80, a maioria dos estudantes era branca. Isso mudou. A diversidade aumentou. Quando isso acontece, a maneira como você fala também muda e você passa a se preocupar em não ofender os outros. Não existe nenhuma organização política secreta forçando as pessoas a falar de certa maneira. [4]

 

Fato é que, apesar da empolgação de alguns, a campanha “Somos todos macacos” desagradou parte do movimento negro, que a considerou superficial, além de esconder a negritude e disfarçar a desigualdade racial [5]. Outro fato é que, passados nove anos do incidente com Daniel Alves e da campanha, mais casos de racismo envolvendo jogadores negros no futebol continuaram a acontecer na Espanha, no Brasil e em diversos países. A aposta da revista Veja de que o racismo poderia quebrar a cara para sempre confirmou-se como ingênua, lamentavelmente; e a campanha “Somos todos macacos”, que pareceu uma boa ideia para muita gente há nove anos, hoje soa ainda mais questionável e controversa.

 

Tanto a capa da revista quanto a campanha, cada uma a sua maneira, minimizaram o racismo, sua persistência, seu enraizamento. Rotular a militância e a produção intelectual antirracista como “politicamente corretas”, em tom pejorativo, também pode abrir caminho para a minimização do verdadeiro problema a ser enfrentado.

 

Relembrar a atitude de Daniel Alves e a polêmica da campanha leva a um questionamento: quais as melhores estratégias de combate ao racismo? Certamente as reações e campanhas antirracistas não podem ser ideias e atitudes que desagradem a própria comunidade negra. O que dá esperança é que, ainda que haja muitos casos de racismo, a reprovação aos racistas agressores tem sido intensa. O caso recente ocorrido com Vinícius Jr. e a reação indignada do jogador têm obtido apoio e estimulado cobranças por providências da parte da liga espanhola. A luta é grande e continua!


Referências:

[1] Huck se defende por camisa e diz: "não vou ganhar um tostão":

https://www.terra.com.br/esportes/futebol/internacional/espanha/campeonato-espanhol/huck-se-defende-por-camisa-e-diz-nao-vou-ganhar-um-tostao,becdbd420c4b5410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

 

[2] A aula de Daniel Alves e Neymar de combate ao racismo. Ou: Também sou macaco!:

https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/a-aula-de-daniel-alves-e-neymar-de-combate-ao-racismo-ou-tambem-sou-macaco

 

[3] Carta aberta aos humoristas do Brasil:

https://papodehomem.com.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil/?fbclid=IwAR2Hedzvzn9mUxljkStFnb8H9a1lZ5hYTUw5S2bc5hJb4YKxzYnf2CY7YE0

 

[4] Estudiosa do politicamente correto afirma que ele não existe. É um “inimigo imaginário”:

https://oglobo.globo.com/epoca/estudiosa-do-politicamente-correto-afirma-que-ele-nao-existe-um-inimigo-imaginario-23374222

 

[5] Para movimento negro, campanha “Somos todos macacos” reproduz racismo:

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-04/para-movimento-negro-campanha-somostodosmacacos-reproduz-racismo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Desconstruindo o velho sábio

 

É preciso desconstruir já o estereótipo do velho sábio. Esta é uma percepção que fazia sentido na Antiguidade e Idade Média, mas não se encaixa na contemporaneidade, embora ela ainda circule pelo nosso imaginário. Basta pensar em personagens como o Mestre dos Magos, de “Caverna do Dragão”, ou Gandalf, de “Senhor dos Anéis”, universo fictício claramente inspirado no período medieval. A desconstrução não significa, de forma alguma, um ataque à terceira idade. Não! Com os anos é possível acumular muita sabedoria, mas, lamentavelmente, em alguns casos (espero que minoritários) também se pode acumular muita burrice.


Na Antiguidade e Idade Média, envelhecer era uma tarefa difícil. Tanto que a expectativa de vida era mais baixa (pelo menos na Europa). Era preciso ser bom em alguma coisa para envelhecer: bom em lutar ou, quem sabe, bom em correr da luta; bom em manter certa diplomacia para preservar a própria vida. Havia pestes, doenças e poucas respostas da medicina. Então era preciso também ser bom em manter a própria saúde de alguma forma. Viver era bem difícil. Envelhecer era privilégio. De fato era preciso ser sábio (ou rico).


Aí vêm a Idade Moderna, o iluminismo, a ciência moderna, o estado moderno… Figuras como Galileu e Copérnico possibilitaram o avanço de métodos científicos, que se refletiriam em ganhos para a medicina, entendimento do mundo microscópico de vírus e bactérias, desenvolvimento de vacinas, popularização de noções básicas de higiene, como a ocorrida por meio das pesquisas da enfermeira Florence Nightingale, pioneira da enfermagem moderna, etc.


O Direito também se desenvolveu, com novas percepções de mundo e sociedade, a fim de se evitar a barbárie. Os chamados “autores contratualistas” foram fundamentais nesse processo. Um deles era Thomas Hobbes. Se “o homem é lobo do homem”, como ele defendia, então seria necessária a consolidação de um estado, com um regramento que possibilitaria um convívio minimamente harmônico em sociedade. Mais tarde, Montesquieu, um dos principais pensadores do iluminismo, em sua obra “Espírito das leis” (1748), propôs a tripartição do poder em Legislativo, Judiciário, e Executivo, como forma de evitar abusos por parte das autoridades. Duzentos anos depois, em 1948, um outro avanço jurídico e civilizatório seria a Declaração dos Direitos Humanos. Também no século 20, surge o estado de bem-estar social e a ideia de um estado provedor de recursos básicos, como saúde e educação.


Assim chegamos ao século 21 em um cenário que, apesar das consideráveis variáveis quanto à localidade e classe social, é mais fácil envelhecer do que era em séculos anteriores. Até idiotas conseguem, bastando para isso usufruírem das benesses que nem sabem que obtiveram. Afinal, são idiotas! E, como tais, para piorar mais ainda iniciam uma cruzada contra tudo aquilo que os possibilitou chegar à terceira idade. Porque idiota que é idiota tem que dar tiro no pé. Lutam contra o estado moderno, suas instituições democráticas, sua interdependência e tripartição de poderes, seu processo eleitoral. Lutam também contra a ciência, contra a vacina. Enfim, lutam contra a modernidade e o iluminismo, embora pensem que estão lutando contra outras coisas.


Mas esses guerreiros de Whatsapp não aguentam 15 segundos de spray de pimenta, um tapa na cara dado por um PM ou duas refeições de macarrão com nuggets ou com salsicha. Imagina se estivessem no meio de um ataque viking em pleno medievo!


Vida longa aos velhos sábios! Temos muito o que aprender com eles. Quanto aos outros, o lance é romper o ciclo, estudar história, investir em educação midiática e pedir a um neto ou neta que não tenha sido contaminado(a) pelo vovô e vovó para monitorá-los no tempo de uso de celular.  


Referências:

 

Iluminismo: o que foi e qual a sua importância?

https://www.politize.com.br/iluminismo/#:~:text=O%20Iluminismo%20se%20iniciou%20como,em%20detrimento%20do%20pensamento%20religioso.

 

Galileu e a ciência moderna

https://estadodaarte.estadao.com.br/galileu-nova-fisica-tossato/?fbclid=IwAR0Ye07NWxNVYy9xYuIQ8LOwN9db9_8MuibaJMvHZprwZa9qpLzhurD2zEs

 

Dia Internacional dos Enfermeiros: A história de Florence Nightingale

https://www.youtube.com/watch?v=L0m94DdJvwM

 

Contratualistas - Hobbes, Locke e Rousseau

https://trilhante.com.br/curso/filosofia-do-direito/aula/contratualistas-hobbes-locke-e-rousseau-1

 

Declaração Universal dos Direitos Humanos

https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos

 

Estado do bem-estar social - História e crise do welfare state

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/estado-do-bem-estar-social-historia-e-crise-do-welfare-state.htm

 

Educação Midiática: entenda o conceito em 5 minutos!

https://www.politize.com.br/educacao-midiatica/