sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Série Cosmos completa 45 anos

 


Apresentada pelo astrônomo Carl Sagan, a obra manifesta uma visão poética e espiritualista da ciência e influenciou gerações de cientistas de várias áreas

 

Em abril de 2023, a astrônoma e astrofísica Makenzie Lystrup tornou-se a primeira mulher a dirigir o Centro de Voos Espaciais Goddard, um dos núcleos da Nasa. Este fato, por si só, poderia ser o bastante para que a astrofísica fosse vista como alguém a fazer história em sua área de atuação. Entretanto, um detalhe chamou a atenção: em sua cerimônia de posse, ao fazer o tradicional juramento, Lystrup usou, em vez da Bíblia, o livro “Pálido ponto azul”, do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan [1]. Nos Estados Unidos, é comum que as pessoas façam um juramento com as mãos sobre obras simbólicas, tal qual a Bíblia (mais usual), o Corão ou a Constituição. Mas aquela era a primeira vez, ao menos a ser noticiada, que um livro de Sagan estava sendo usado.

 

Lystrup explicou que a homenagem a Sagan se devia à série televisiva Cosmos, que serviu para despertar sua paixão pela astronomia, e à importância de Sagan como alguém que se esforçou para tornar a ciência acessível ao público. O detalhe da citação a Cosmos possivelmente é o que explica certa conotação religiosa da cerimônia envolvendo o livro de Sagan como substituto da Bíblia. No dia 28 de setembro de 1980, há 45 anos, ia ao ar pela primeira vez a série “Cosmos: uma viagem pessoal”. A primeira frase pronunciada por Sagan, no início do primeiro episódio é: “O cosmos é tudo que existe, que já existiu e que sempre existirá”. A ideia de eternidade, de algo que transcende ao tempo, é semelhante à noção de Deus cunhada por algumas das principais religiões do mundo, como o próprio cristianismo.

 

Da mesma forma, quando Sagan dizia que “o cosmos também está dentro de nós, somos feitos de material estelar e somos um caminho para o cosmo conhecer a si mesmo”, era como dizer que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, que o homem é parte de Deus e que Deus está dentro de nós. Por meio de uma linguagem poética e emotiva, Sagan, através dos 13 episódios da série, deslocava a transcendência e espiritualidade características das religiões e as reposicionava no empreendimento científico [2]. Uma tática discursiva engenhosa, que se propõe a explicar como a ciência funciona, mais do que apenas mostrar suas descobertas, e que, paradoxalmente, exalta a razão por meio da emoção, de uma narrativa poética. Um reencantamento do mundo por meio da ciência

 

Essa tática discursiva funcionou. Estima-se que Cosmos tenha sido exibida em 60 países e assistida por mais de 500 milhões de pessoas [3], sendo apontada como um marco da divulgação científica mundial pela grande popularidade alcançada, por traduzir conceitos complexos de forma compreensível para o público e por ter influenciado gerações de cientistas [4], dentre eles, a própria Makenzie Lystrup. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais bem-sucedidas experiências de divulgação científica para o público amplo de TV no século 20.

 

Como bom divulgador científico, Carl Sagan recorria a elementos do cotidiano, familiares do grande público, para, a partir deles, introduzir conceitos e apresentar realizações da ciência. As religiões e crenças em geral foram parte significativa desses elementos. Na série, ora ele confrontava explicações religiosas e místicas com explicações científicas, valendo-se principalmente do conflito narrativo para dar movimento às sequências; ora, conforme já citamos, ele emulava o discurso religioso criando um certo deslocamento de sentido. A série é icônica da visão espiritualista que Sagan possuía da ciência. Essa visão pode ser melhor compreendida quando estudamos outras de suas obras, como o livro “O mundo assombrado pelos demônios” [5], no qual ele afirma:

 

Espírito vem da palavra latina que significa ‘respirar’. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra ‘espiritual’ nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. (...) A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de jubilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas” (SAGAN, 2006, p. 48). 

 

O nome completo do livro – “O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro” – demonstra uma outra característica de Sagan que marca a série Cosmos: uma certa perspectiva iluminista sobre ciência e história. Há em vários dos episódios da série uma polarização entre a Idade Média e a Idade Moderna. Sagan identifica o surgimento da ciência na Grécia Antiga, a destruição da Biblioteca de Alexandria como ponto de virada para o início de um declínio e o período medieval como sendo esse declínio, um longo hiato do pensamento e desenvolvimento científicos, provocado pelo autoritarismo da religião e pelo misticismo. Assim, Sagan reproduz a narrativa iluminista, que se propôs como a luz em contraposição à Idade das Trevas (o medievo). No entanto, essa narrativa a respeito da Idade Média enquanto um período sombrio, começou a ser significativamente contestada na segunda metade do século 20, por conta do trabalho de historiadores como Jacques Le Goff, para quem o período teve muitos avanços culturais, religiosos, sociais e intelectuais [6].

 

O seguinte trecho marca o encerramento da série original e é uma das últimas falas de Sagan no último episódio: “Nós, humanos, desejamos estar conectados com nossas origens. Então, criamos rituais. A ciência é um outro modo de expressar esse desejo. Ela também nos conecta com nossas origens. E ela também tem seus rituais e seus mandamentos. Sua única verdade sagrada é que não há verdades sagradas. Todas as suposições devem ser examinadas criticamente. Os argumentos de autoridades são inúteis. O que for inconsistente com os fatos, não importe o quanto gostemos, deve ser revisado ou descartado”.

 

Continuações

Cosmos ganharia uma nova versão em 2014. Desta vez, a série seria apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, que chegou a ser aluno de Sagan. Essa segunda versão – “Cosmos: uma odisseia no espaço e tempo” –, assim como a primeira, é composta por 13 episódios. Por conta da mítica da série original, que só fez crescer ao longo de 34 anos, a nova versão/temporada foi exibida, logo em sua estreia no NatGeo, para 170 países e precedida por um vídeo do então presidente americano Barack Obama. Nele, Obama falou sobre o espírito de “sonhar alto”, “de descoberta”, que Sagan sintetizara na versão original. A Cosmos de Tyson bateu recorde de maior lançamento global da história da TV [7]. Essa segunda versão foi escrita novamente pela pesquisadora e divulgadora Ann Druyan, viúva da Sagan, e pelo físico Steven Soter, ambos coautores da versão original, juntamente com Sagan.

 

O próprio presidente americano apresentando o lançamento da série não foi à toa e revela o peso da obra para a cultura daquele país. Vale lembrar que o livro “Cosmos”, escrito por Sagan e que inspirou a série de TV, foi incluído pela Biblioteca do Congresso americano na lista dos 88 livros que deram forma aos Estados Unidos (“88 Books That Shaped America”, 2012) [8]. A curadoria feita pelo Library of Congress foi parte de uma exposição. Na mesma lista estão obras como “O caminho da riqueza”, de Benjamin Franklin; “Pragmatismo”, de William James; e “O mágico de Oz”, de L. Frank Baum.

 

Neil deGrasse Tyson apresentaria ainda a terceira versão/temporada da série, chamada “Cosmos: mundos possíveis”, lançada em 2020 novamente pela NatGeo, transmitida para 172 países, em 43 idiomas [9]. Escrita, dirigida e produzida por Ann Druyan e Brannon Braga, “Cosmos: mundos possíveis” contou ainda com os produtores executivos Seth MacFarlane (criador de Family Guy, mais conhecida no Brasil como “Uma família da pesada”) e Jason Clark. Assim como as versões anteriores, essa terceira também conta com 13 episódios e manteve formato narrativo bem semelhante às versões de 2014 e 1980, ressalvados os avanços tecnológicos do audiovisual ao longo de quatro décadas. Aparentemente, as dualidades [10] envolvendo ciência e religião se tornaram menos constantes na versão de 2020, se comparada às anteriores. Permanece, entretanto, nas três versões da série, uma narrativa com muita história e filosofia que preza pela popularização do pensamento científico e faz um apelo humanista ao uso da razão na preservação do planeta e de nós mesmos. 

 

Referências:

[1]

https://revistagalileu.globo.com/sociedade/noticia/2023/04/nova-diretora-da-nasa-faz-juramento-com-livro-carl-sagan-em-vez-da-biblia.ghtml

 

[2]

https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=7655503

 

[3]

https://olhardigital.com.br/2025/01/26/cinema-e-streaming/cosmos-conheca-a-serie-sobre-astronomia-apresentada-por-carl-sagan/

 

[4]

https://www.nationalgeographic.com/science/article/140316-carl-sagan-science-galaxies-space/?utm_source=chatgpt.com

 

[5]

https://nerdking.net.br/wp-content/uploads/2018/07/O-Mundo-Assombrado-pelos-Demonios-Carl-Sagan.pdf

 

[6]

https://www.estadao.com.br/cultura/jacques-le-goff-foi-decisivo-para-o-estudo-da-idade-media/?srsltid=AfmBOooL9Geshka8zR6yVWCYCbPbvhqgxJafEQfYBhzvpk3sQnRHTmRh

 

[7]

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/noticia/2014/04/ann-druyan-revela-que-negou-serie-cosmos-a-tres-emissoras-para-proteger-legado-de-carl-sagan-4463694.html

 

[8]

https://www.loc.gov/item/prn-13-005?utm_source=chatgpt.com

 

[9]

https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Series/noticia/2020/06/cosmos-mundos-possiveis-traz-olhar-otimista-sobre-futuro-da-humanidade.html

 

[10]

https://sistemas.intercom.org.br/pdf/link_aceite/nacional/11/0816202309133064dcbd6a5d805.pdf

 

SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

 


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

“Mussolini, o filho do século" expõe origens do fascismo

 




Série constrói uma genealogia política, um fio condutor que nos leva da Itália fascista à extrema direita atual

 

Lançada neste mês na plataforma Mubi, a série “Mussolini, o filho do século” expõe as raízes do fascismo na Itália do pós-Primeira Guerra Mundial, com a ascensão de Benito Mussolini ao poder, em uma trajetória de jornalista a ditador. Dirigida por Joe Wright (vencedor do Bafta por “Orgulho e Preconceito), com o ator Luca Marinelli dando vida ao personagem principal, a série não faz nenhuma questão de ser sutil ao explorar semelhanças entre aquelas ideias disseminadas por Mussolini no início do século 20 e a de grupos políticos atuais. Pelo contrário, ela é explícita, jogando na cara do espectador o quanto a extrema direita atual é sobrevida do fascismo italiano.

 

Jogar na cara aqui não é só força de expressão. Desde a primeira sequência do primeiro episódio, Mussolini deixa claro que irá falar com o espectador de 2025, cara a cara. Ele começa a série afirmando que sua morte e exposição de seu cadáver em praça pública foram em vão, pois, suas ideias (um tanto confusas, a propósito) estão por aí até hoje. Mussolini quebra a quarta parede a todo momento para dizer coisas na nossa cara, de forma explícita. Como, por exemplo, quando para de falar italiano do nada, olha para a câmera e diz, em inglês: “Make Italy great again”. Uma clara referência ao MAGA, de Donald Trump nos EUA.

 

Na estreia da série no Festival de Veneza de 2024, o diretor Joe Wright afirmou que a concebeu por estar "muito preocupado com a ascensão da extrema direita populista". Então a proposta desde o começo era clara! E ficou clara mesmo ao longo dos episódios.

 

Assim, pouco a pouco, a obra vai construindo uma genealogia política, um fio que liga Trump, Bolsonaro e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni aos camisas negras fascistas da década de 1920. Não espere sutileza de “Mussolini, o filho do século”. Também não espere um tom sóbrio. Apesar da seriedade do tema, a narrativa tem boas doses de humor e muita extravagância. A começar pela fotografia e cenografia de cores vibrantes. Mussolini é retratado como um bufão astuto. Oportunista e covarde, prestes a dar no pé caso a épica marcha sobre Roma desse errado, porém eloquente, com grande capacidade retórica.

 

O antissocialismo, a violência como estratégia fascista (e as cenas de violência são boas e impactantes), o supremacismo de gênero, tudo é esfregado na cara do espectador. Inclusive as costuras políticas entre fascistas, católicos e liberais, todos preocupados com a ascensão dos socialistas e com a defesa da elite burguesa e aristocrata. Em conversa com um clérigo da Igreja Católica, Mussolini fala com todas as letras sobre “Deus, pátria e família”. Isso lembra algo?

 

Os Camisas Negras fascistas, movidos por impetuosidade, ódio e maletas de dinheiro entregues pela elite, prestavam-se a cães de guarda do capital (alegoria que explica muito do que o fascismo é, em essência) [1] contra o socialismo e o proletariado e eram difíceis de se controlar, até para o próprio Mussolini.  

 

Com essa narrativa, a série contraria uma recorrente tentativa, que encontra solo fértil na desordem informacional das redes sociais, de classificar o nazifascismo como de esquerda, associando-o ao socialismo e a ideias marxistas. Ainda que Mussolini tenha sido socialista na juventude antes de se tornar fascista, a série desautoriza essa distorção [2]. Essa ideia de que nazifascismo e socialismo seriam “lados de uma mesma moeda”, que fique claro, não tem amparo acadêmico, não tem amparo na série e nem nas mais destacadas obras audiovisuais que tratam do nazifascismo [3].  

 

“Mussolini, o filho do século” é baseada no livro best-seller de Antônio Scurati, que fez uma ampla pesquisa histórica para reconstruir a trajetória política do ditador que serviu de inspiração para Hitler, desde a formação da milícia irregular Fasci di Combattimento até a imposição da ditadura mais feroz que a Itália já viveu.

 

Apesar de a série ser explícita em muitos aspectos, fascismo é um tema complicado, um conceito que gera ampla discussão e uma palavra que tem sido banalizada nos últimos anos. Por isso, a dica é não ficar somente na série (para não se tornar refém de seus excessos), mas intercalar seus episódios com alguns bons materiais de divulgação do conhecimento histórico que explicam o que é o fascismo [4], o contexto da Itália de Mussolini [5] e suas influências no Brasil [6]. Aqui temos algumas dicas.

 

“A democracia é linda. Ela nos dá liberdade até para destruí-la. Afinal, vai ser abolida”, diz Mussolini, olhando para a câmera, falando comigo e com você, dando um spoiler para nós sobre o que viria a ocorrer na Itália na década de 1920. Ou seria sobre o que está para acontecer na década atual?

 

Referências:

[1] Mas afinal, o que é fascismo?

https://camerapolis.blogspot.com/2020/04/mas-afinal-o-que-e-fascismo.html

 

[2] Nazismo e Socialismo: as comparações e os erros de uma equivalência

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/nazismo-e-socialismo-as-comparacoes-e-os-erros-de-uma-equivalencia/

 

[3] “Nazismo de esquerda” e Fake History: do Facebook a Netflix, uma análise do streaming para a educação em tempos de pós-verdade

https://historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/428

 

[4] O que é Fascismo? História, definição e sobrevivência no presente

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/o-que-e-fascismo-historia-definicao-e-sobrevivencia-no-presente/

 

[5] Itália Fascista: das origens do Fascismo ao fim da Segunda Guerra

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/italia-fascista-das-origens-do-fascismo-ao-fim-da-segunda-guerra/

 

[6] Integralismo: das origens ao neofascismo do século XXI

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/integralismo-das-origens-ao-neofascismo-do-seculo-xxi/


domingo, 3 de agosto de 2025

De Toffoli a Barroso: os presidentes do STF frente à História da ditadura


 

Fala dos ministros na sessão de abertura contrasta com a de Toffoli em 2018, quando chamou o golpe de 64 de “movimento”

 

Vamos pasquinar, recordar

Sorrir sem censura

Botar a boca no mundo, buscar bem fundo

Sem a tal da ditadura

 

Soltavam as bruxas, o pau comia

De golpe em golpe, quanta covardia!

(G.R.E.S. Acadêmicos de Santa Cruz - Samba-Enredo 1990 - Os Heróis da Resistência)

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu na sexta-feira, 1º de agosto, seus trabalhos do segundo semestre de 2025 com uma sessão cheia de fortes declarações no Plenário. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, e os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes adotaram um tom de defesa da democracia, da soberania nacional e da independência da Suprema Corte, mas também de combatividade aos golpistas e repúdio aos autoritarismos [1]. Coube a Barroso dar uma boa e breve aula de história em seu discurso, na abertura da sessão. O presidente do STF citou os tantos golpes, intervenções militares, rupturas ou tentativas de ruptura institucional e ditaduras que fragilizam de longuíssima data a democracia do país. Ele se referiu à tomada do poder pelos militares em 1964 como “golpe” e ao período de 1964 a 1985 como “ditadura” e “anos de chumbo”, lembrando feridas como tortura, exílio, censura, mortes e desaparecimentos. Barroso se referiu ao caso de Rubens Paiva, ao citar o premiado filme “Ainda estou aqui” como um retrato daquela época.

 

Para muitos pode parecer óbvio o uso do termo “ditadura” na denominação daquele período, mas é preciso ressaltar dois pontos. O primeiro é que, lamentavelmente, ainda há muitas pessoas, em sua maioria simpatizantes dos atuais golpistas, que negam ter existido uma ditadura no Brasil (há ainda uma vertente numerosa que não a nega, mas a justifica com argumentos infundados e já desmontados). Um exemplo notório é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. No início do mês de junho, em entrevista para a Folha de S. Paulo, Zema disse que a existência ou não de uma ditadura seria “uma questão de interpretação” [2]. Como Zema é um dos principais políticos atuais a disputar o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro, ele precisa abraçar o negacionismo histórico da ditadura como parte do repertório que pode legitimá-lo junto ao bolsonarismo na corrida presidencial. O alinhamento político é elemento crucial da negação da ditadura civil-militar. Outro elemento é o desconhecimento da História.

 

O segundo ponto pelo qual devemos enaltecer a fala de Barroso é que outro ministro do STF, Dias Toffoli, quando presidente da Corte, disse preferir se referir ao nosso passado ditatorial como um “movimento”, evitando a palavra “golpe” [3]. “Eu não me refiro nem mais a golpe, nem a revolução de 1964. Eu me refiro a movimento de 1964”, afirmou, em palestra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em 2018, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil. Por uma triste ironia, aquele evento marcava os 30 anos da Constituição Federal.  

 

TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS

A fala de Toffoli ressoava uma linha de raciocínio superada na historiografia latino-americana conhecida como “teoria dos dois demônios”. Esse pensamento atribuía às esquerdas e às direitas as mesmas responsabilidades. Então seriam dois demônios que a sociedade deveria exorcizar. Essa ideia traz consigo uma relativização ou mesmo isenção dos culpados pelas ditaduras, além de tentar estabelecer um meio termo. Mas História não é matemática (ainda que exista a história da matemática): não dá para somar dois valores e depois dividir por dois para se chegar a uma média. Ao menos não neste caso.

 

Quem critica a teoria dos dois demônios é o historiador Daniel Aarão Reis. Para ele, “parece utópico igualar camponeses que lutam pela terra a latifundiários. É impróprio igualar aqueles que lutam por justiça social com os que querem eternizar a injustiça social” [4]. Ao se referir à conjuntura de antes de 1964, Aarão Reis cita como exemplo marinheiros que lutavam pelo direito ao voto e oligarquias que não queriam democratizar o voto. “Havia um movimento muito grande no Brasil antes de 64 por justiça social e democracia, e comparar isso aos que recusavam a democracia me parece um procedimento vesgo.

 

Outro historiador, Rodrigo Bonciani, nos propôs a lembrança de um episódio que serve como metáfora para desconstruir a teoria dos dois demônios, ao ressaltar que Toffoli não mencionou, por exemplo, que em 1968, na rua Maria Antônia (São Paulo), houve um conflito entre os alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, contrários à ditadura, e os do Mackenzie, que a defendiam e que disparavam com armas de fogo contra uspianos armados de pedras e paus. Uma bala matou um estudante secundarista que tinha se unido aos uspianos. O episódio inclusive é retratado no filme “A batalha da rua Maria Antônia”, lançado neste ano [5], que tem o mérito de adotar uma linguagem audiovisual ousada, filmado todo em planos-sequência.

 

Para piorar, Toffoli, além de maquiar a memória da ditadura com o uso da palavra “movimento”, tentou respaldar sua fala afirmando se basear no próprio Daniel Aarão Reis. O historiador tratou de deixar claro que não tinha nada a ver com isso, que essa culpa ele não carregava, e criticou publicamente a fala de Toffoli. “Foi muito infeliz da parte dele dizer que abandona a terminologia ditadura, que expressa perfeitamente o estado de exceção que se passou no país, para assumir um outro conceito”, afirmou Aarão Reis na época, destacando o agravante de isso vir justamente do então presidente do STF. 

 

AMACIAR A EXTREMA DIREITA É COMO ALIMENTAR CROCODILOS

Na ocasião, o historiador classificou o discurso de Toffoli como um “aceno conciliador” para um extremismo autoritário que crescia à direita e tomava o país como uma onda. Aarão Reis apontava essa tentativa de “amaciar” os extremistas como um equívoco. “A extrema direita, historicamente, avança sobre concessões inconsistentes e se fortalece com isto" [6]. Essa afirmação nos faz lembrar de uma das mais importantes personalidades políticas do século 20, que dizia algo parecido. Longe de ser algum tipo de esquerdista, pelo contrário, era um conservador: Winston Churchill.

 

Primeiro-ministro britânico na ocasião da Segunda Guerra Mundial, Churchill dizia que “um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado”. Tratava-se de uma crítica a Neville Chamberlain, seu antecessor no cargo. Às vésperas do início da guerra, diante da ascensão do nazismo, Chamberlain apostava na negociação com Hitler, na esperança de que isso pudesse apaziguar a sanha nazista. Ao comentar o que chamava de “ingenuidade das democracias liberais”, a filósofa Agnes Heller, autora da obra “O cotidiano e a história”, citava o caso: “Chamberlain veio para Munique, em 1938, com um pedaço de papel no qual pedia que Hitler renunciasse ao uso da força. Foi entregue e assinado. E Chamberlain vendeu como uma vitória” [7]. Um dos maiores enganos da história. No ano seguinte a guerra se iniciaria.

 

Na ocasião da fala de Toffoli, em 2018, Aarão Reis já nos alertava para o que chamava de indulgência dos democratas de direita e liberais conservadores em relação ao então crescente fenômeno do bolsonarismo. Naquele ano, diante da fala do então presidente da Corte e da possibilidade de vitória de Bolsonaro, ele já recorria à História para nos dar o alerta:

 

Às vésperas de 1964, muitos liberais imaginaram usar ou se servir dos militares para alcançar suas finalidades, afastando líderes populares que os assustavam. Os resultados foram desastrosos para esta gente —todos foram eliminados pelos militares ou tiveram que se conformar com posições secundárias de poder.

 

Sobre malogrados acenos conciliadores e apaziguadores feitos por liberais/conservadores à extrema direita, há exemplos concretos muito mais específicos em relação à Justiça e à democracia brasileiras do que o de Neville Chamberlain. O historiador lembrara que na ocasião do golpe de 1964, o presidente do STF de então, Ribeiro da Costa, disfarçou o golpe com um ar de legitimidade, sem nem consultar seus colegas, que também se calaram. Havia uma expectativa de boa relação com os golpistas. Mas o próprio Ribeiro da Costa entraria em repetidos conflitos com a ditadura, quando já era tarde. Churchill diria que ele alimentou um crocodilo.

 

MUITA ÁGUA ROLOU. E A ÁGUA BATEU NO NARIZ DO STF

De Toffoli, em 2018, a Barroso, na sessão de abertura deste segundo semestre, muita água rolou. Bolsonaro assumiu a presidência e o bolsonarismo se impregnou na máquina pública. Seus líderes e seus adeptos testaram os limites da democracia e das instituições reiteradas vezes. Foram incontáveis faixas e cartazes pedindo fechamento do Congresso e do STF, além de intervenção militar (ou seja, golpe!). Na medida em que, em nome da governabilidade, Bolsonaro fez acordos com o chamado “Centrão”, a artilharia bolsonarista foi se voltando cada vez mais contra o Supremo, em especial contra o ministro Alexandre de Moraes. A distinção e independência entre poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – não são bem-vistas pelos autoritarismos. Eles não gostam muito de Montesquieu. Para fechar o STF bastaria um soldado e um cabo, disse Eduardo Bolsonaro, como quem faz uma sugestão.

 

Por tudo isso, a fala de abertura de Luís Roberto Barroso na última sessão reflete um STF mais ciente dos riscos e que sentiu o perigo dos ataques que vem sofrendo. É uma fala que dá nome aos bois. Que chama ditadura de ditadura e os golpes de golpes. Focando em nosso período republicano, sobre golpes e tentativas de golpes, o presidente da Corte citou o primeiro presidente da República, Deodoro da Fonseca, que renunciou após tentativa fracassada de golpe, sendo substituído pelo vice, Floriano Peixoto, que se manteve ilegitimamente no cargo até 1894, deixando de convocar eleições.

 

Citou também tentativas de golpe do movimento Tenentista em 1922 e 1924; a Revolução de 30; a Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932; a Intentona Comunista de 1935; o golpe do Estado Novo de 1937; a destituição de Getúlio Vargas em 1945; o contragolpe preventivo do Marechal Lott para assegurar a posse de Juscelino Kubitschek em 1955; duas rebeliões contra Juscelino: a de Jacareacanga (1956) e a de Aragarças (1959).

 

E ainda: o veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart na ocasião da renúncia de Jânio Quadros em 1961; o já citado golpe militar de 1964; a prorrogação do mandato de Castelo Branco com a não realização das eleições de 1965; o Ato Institucional nº 5 de 1968; o impedimento à posse do vice-presidente Pedro Aleixo em 1969; a outorga pelos ministros militares da emenda constitucional nº 1 à Constituição de 1967, com o Congresso fechado; os anos de chumbo do governo Médici, período mais cruel e asfixiante da ditadura; e o fechamento do Congresso Nacional por Geisel, no Pacote de Abril de 1977.

 

“Do início da República até a Constituição de 1988, o sistema de justiça não conseguiu se opor de forma eficaz às ameaças autoritárias e às quebras da legalidade constitucional”, disse Barroso, que resumiu o que chamou de “três facetas da história constitucional e republicana brasileira: presidentes autoritários, militares envolvidos em política e ameaças ao Supremo Tribunal Federal.

 

Sobre a longa tradição de participação dos militares na política e nos golpes, vale acrescentar, em primeiro lugar, que esta é a primeira vez que militares serão julgados pela Justiça civil – no STF – pela tentativa de golpe de estado no país, o que faz do julgamento em curso (que envolve o 8 de janeiro) um episódio importante de nossa história; e, em segundo, que está disponível no mercado editorial o mais recente livro do professor e historiador Carlos Fico chamado “Utopia autoritária brasileira”. Na obra, Fico mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889 e examina as principais intervenções militares que moldaram a história republicana brasileira [8] [9]. A maioria delas citada por Barroso.

 

A HISTÓRIA NÃO PERDOA

A História não é uma disciplina utilitarista, mas ainda assim ela tem suas utilidades. Na esfera individual, serve, por exemplo, na formação para a cidadania; na institucional, serve, dentre outras coisas, para que as instituições se posicionem diante de certas ameaças, como no caso do STF frente aos avanços antidemocráticos. Nas duas esferas – individual e institucional – a História nos ajuda a nos conduzir. Assim que Toffoli chamou um golpe de “movimento”, lá em 2018, o historiador e professor Rodrigo Bonciani quase que vaticinou: “a história não perdoa” [10].

 

O passado falseado permite a repetição da história como nova tragédia. Quando esse falseamento parte do presidente da mais alta corte do país, numa palestra sobre os 30 anos da Constituição, todo edifício da nossa frágil democracia pode desmoronar”, dizia Bonciani. E não deu outra! Ou quase. Os extremistas, de fato, miraram e ainda miram no STF, mas a Corte, considerando os discursos desta sessão de abertura, parece disposta a agir com firmeza e punir os golpistas, em vez de ficar alimentando crocodilos. A sociedade aguarda atenta. 

 

Referências:

[1] Na abertura do semestre, ministros reafirmam independência do STF e defesa da democracia e da soberania nacional

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/na-abertura-do-semestre-ministros-reafirmam-a-independencia-do-stf-e-a-defesa-da-democracia-e-da-soberania-nacional/

 

[2] Fala de Zema questionando ditadura gera reação na Assembleia e pressão por política de memória

https://www.otempo.com.br/politica/2025/6/5/fala-de-zema-questionando-ditadura-gera-reacao-na-assembleia-e-pressao-por-politica-de-memoria

  

[3] Toffoli diz que militares fizeram “movimento”, e não golpe em 1964

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/toffoli-diz-que-militares-fizeram-movimento-e-nao-golpe-em-1964

 

[4] Historiador citado por Toffoli rejeita chamar ditadura de ‘movimento’

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/historiador-citado-por-toffoli-diz-que-e-errado-chamar-ditadura-de-movimento-de-64/

 

[5] “O Brasil ainda é a Rua Maria Antônia”. A histórica batalha entre estudantes da USP e do Mackenzie é retratada nos cinemas e tema da última edição do programa Cultura na USP

https://jornal.usp.br/cadernodecultura/o-brasil-ainda-e-a-rua-maria-antonia-a-historica-batalha-entre-estudantes-da-usp-e-do-mackenzie-e-retratada-nos-cinemas-e-tema-da-ultima-edicao-do-programa-cultura-na-usp/

 

[6] “Toffoli imagina amaciar a extrema direita com acenos conciliadores”, diz historiador citado por ministro

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/02/politica/1538497133_463693.html

 

[7] Agnes Heller: “A maldade mata, mas a razão leva a coisas mais terríveis”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/eps/1504379180_260851.html

 

[8] Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889

https://www.cafehistoria.com.br/novo-livro-militares-carlos-fico/

 

[9] PROVOCAÇÃO HISTÓRICA - 04/06/25 - ''OS MILITARES DO BRASIL E A UTOPIA AUTORITÁRIA''

https://www.youtube.com/watch?v=eqgiEF2a7kU&t=2672s

 

[10] O ‘movimento’ de Dias Toffoli: a história não perdoa

https://www.nexojornal.com.br/o-movimento-de-dias-toffoli-a-historia-nao-perdoa

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Uerj revoga título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Médici

 


A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) decidiu, na última sexta-feira, dia 9, revogar o título de Doutor Honoris Causa concedido em 1974 pela instituição ao general Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil entre 1969 e 1974, durante a ditadura militar. A decisão se deu por unanimidade, em sessão do Conselho Universitário (Consun) [1]. O parecer que embasou a decisão foi elaborado pela Comissão da Verdade e Memória Luiz Paulo da Cruz Nunes, da Uerj, instituída pela universidade em 2024 para averiguar os fatos ocorridos na instituição durante o período ditatorial (1964-1985). 

 

De acordo com o parecer [2], Médici não atendia aos critérios estabelecidos no regimento para outorga da honraria: “personalidade eminente, nacional ou estrangeira, que tenha se destacado singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à humanidade”.

 

Alinhado às forças reacionárias de extrema-direita responsáveis pelo golpe de 1964, Médici cumpriu papeis de protagonismo no regime militar ditatorial. Ele foi comandante da Academia Militar de Agulhas Negras na época do golpe de 1964 e um de seus principais conspiradores. Serviu dois anos como adido militar na Embaixada do Brasil em Washington, quando estreitou laços militares e políticos com os EUA, país que contribuiu com o golpe no Brasil contra João Goulart e as forças trabalhistas. De volta ao Brasil, em 1967, Médici assumiu a chefia do Serviço Nacional de Informações (SNI).

 

Antes mesmo de assumir a presidência do país, Médici colaborou para a edição, em 1968, do AI-5, ato institucional que representou o endurecimento de um regime que aplicava práticas de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas críticas ao golpe. Na presidência, Médici atuou como ditador, com ameaças aos opositores e silenciamento contínuo. Seu mandato pôs em prática as arbitrariedades previstas no AI-5, “com o objetivo de sufocar toda e qualquer oposição à ditadura, liquidar a resistência das organizações revolucionárias e impor a aceitação do regime”, conforme explica o parecer da Comissão da Verdade da Uerj. “Suas armas foram a violência, a tortura, os assassinatos de presos políticos, a censura e a propaganda”, diz o documento.

 

O golpe perpetrado pela direita brasileira usurpou a República e roubou, naquele momento, o sonho de um Brasil independente, democrático e popular. O governo Médici representou os anos mais duros daquele regime ditatorial. Enquanto o general esteve no comando, 98 pessoas foram assassinadas por motivação política, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, entregue à presidente Dilma Rousseff.

 

As universidades brasileiras, entre elas a Uerj, também foram alvo da repressão. Havia também um certo “colaboracionismo” das autoridades universitárias com o regime ditatorial e a concessão do título poderia trazer maiores benefícios para a instituição. É o que explica o relator da proposta de revogação, o conselheiro André Furtado. A concessão do título de Doutor Honoris Causa a Médici foi feita quando ele ainda era presidente.

 

Em um momento em que no Brasil há um inédito processo em curso para punir a tentativa de golpe feita pela extrema direita, incluindo a participação de militares, o ato da Uerj é mais um exemplo de como a pesquisa histórica dialoga com o presente. Ele é um recado sobre a importância da valorização e do fortalecimento das instituições democráticas. Nesse ponto, a fala da reitora da Uerj, Gulnar Azevedo e Silva, que comemorou a decisão, é significativa: “Fico muito feliz. Estamos cumprindo nosso papel de reparação, num momento em que o mundo precisa entender que a defesa incondicional da democracia deve estar presente em todos os espaços” [3], afirmou em seu pronunciamento na sessão do Consun.

 

Com a decisão, a Uerj se junta a outras universidades que nesta década já revogaram títulos a presidentes ditadores, como a UFRGS, a UFRN, a Ufes, a UFPel etc. No caso desta última, a decisão de revogação foi tomada alinhada a recomendações da Comissão Nacional da Verdade e do Ministério Público Federal (MPF).

 

As revogações de títulos a ditadores contam com o apoio de grande parte da comunidade acadêmica e da sociedade em geral. Mas, em uma sociedade muito polarizada, é claro que tem quem discorde: aqueles que se alinham aos setores reacionários e golpistas, saudosistas da ditadura, reagem mal às revogações. Em abril do ano passado, por exemplo, quando a Universidade Federal do Paraná (UFPR) revogou os títulos de três presidentes da República militares (Castelo Branco, Costa e Silva e Ernesto Geisel), um dos críticos foi o deputado federal Hélio Lopes, do Rio de Janeiro, que escreveu em suas redes: “É impressionante como o brasileiro tem a mania de reescrever a própria história, concordam?”

 

Talvez Hélio Lopes não saiba, mas a reescrita da história faz parte da historiografia, no Brasil e no mundo. A ciência, em geral, muda seus postulados na medida em que fatos e indícios novos contrariam fatos e indícios anteriores. Portanto, a ciência não é estanque, não é estática. Logo, a história, enquanto ciência que lida com as transformações do homem no tempo, também não é.

 

Os títulos revogados foram concedidos em um período de forte repressão. No caso da UFPR, o de Castelo Branco foi entregue em 1964; o de Costa e Silva, em 1968; e o de Geisel foi concedido em 1976 e entregue em 1981. Pensemos no tanto de mudanças sociais que ocorreram no Brasil de lá para cá. Mais especificamente, pensemos no tanto de material de pesquisa, que constitui novos fatos e provas que foram se acumulando por todos esses anos. Estamos falando, por exemplo, da abertura de arquivos a partir da redemocratização; do tanto de relatos orais de vítimas da ditadura que foram registrados; de ciência forense aplicada em ossadas e desovas clandestinas que foram encontradas (como no cemitério de Perus, em São Paulo)  [4]; do uso da arqueologia histórica em locais que foram centros de tortura, como o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Belo Horizonte e o Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo [5].

 

Tudo isso é material de pesquisa histórica e, na medida em que surge e é analisado, justifica as tais reescritas da história, sobre a ditadura e sobre outros demais fenômenos do passado. O que não se justifica é defender sempre as mesmas coisas mesmo diante de fatos e indícios contrários que se acumulam com os anos.

 

Nesse ponto, cabe ressaltar um trecho do parecer da Uerj pela revogação que é muito significativo: “Durante muito tempo, alguns fatos ficaram desconhecidos, até que se conseguiu revelar os terrores dos tempos ditatoriais.” É exatamente isso! A história muda. A ciência muda. Mas os dogmáticos não mudam nunca.

 

Como foi escrito em um muro do cemitério de Perus: “Os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos”.

 

Referências:

[1] 09/05/2025 - 4ª Sessão Ordinária do CONSUN:

https://www.youtube.com/watch?v=Nu9y_755BAg

 

[2] Parecer da Comissão da Verdade da Uerj:

https://www.uerj.br/wp-content/uploads/2025/05/PARECER-Comissao_da_Verdade_e_Memoria__CVM_UERJ_cancelamento_do_titulo_Medici_2.pdf

 

[3] Conselho Universitário da Uerj revoga título de Doutor Honoris Causa do ex-presidente Emílio Médici:

https://www.uerj.br/noticia/conselho-universitario-da-uerj-revoga-titulo-de-doutor-honoris-causa-do-ex-presidente-emilio-medici/

 

[4]

Ciência forense ajuda a identificar mortos da ditadura militar brasileira:

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/03/ciencia-forense-ajuda-identificar-mortos-da-ditadura-militar-brasileira.html

 

Uma luta contra o desaparecimento

https://revistapesquisa.fapesp.br/uma-luta-contra-o-desaparecimento/

 

[5] Arqueologia histórica investiga da colonização à ditadura

https://revistapesquisa.fapesp.br/arqueologia-historica-investiga-da-colonizacao-a-ditadura/

 


domingo, 13 de abril de 2025

O roqueiro reaça ataca novamente: as polêmicas envolvendo a banda Ira!

 


Apesar da postura e posicionamento de algumas bandas, não se pode negar o caráter reacionário de boa parte dos fãs de rock

 

Na última semana uma produtora teve um post viralizado no qual comunicava o cancelamento de quatro shows da banda Ira! no Sul do Brasil. Era mais um episódio da polêmica recente envolvendo o grupo que surgiu nos anos de 1980 e faz parte de uma geração que marcou a história do rock nacional, junto com Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Capital Inicial, Barão Vermelho e tantas outras bandas.

 

Quem acompanha a trajetória do Ira! sabe que a banda tem um histórico de polêmicas e de posicionamentos firmes, em relação à política e à indústria musical. De acordo com os jornalistas e pesquisadores musicais Arthur Dapieve e Luiz Henrique Romanholli (2000), dentre os artistas do rock 80, o Ira!, juntamente com a Legião Urbana, foi a banda a segurar com mais firmeza a bandeira da ética.

 

Os shows foram cancelados nas cidades de Jaraguá do Sul (SC), Blumenau (SC), Caxias do Sul (RS) e Pelotas (RS). Os cancelamentos, segundo a produtora, foram resultados do abandono de patrocinadores e devolução de ingressos. Tudo porque em um show em Contagem (MG), dias antes, o vocalista Nasi gritou “sem anistia”, como forma de pedir punição aos golpistas do 8 de janeiro. Ele recebeu aplausos de parte do público, mas também algumas vaias, vindas de uma dúzia de Zé Golpinhos. Às vaias, o vocalista respondeu:

 

“Pra vocês que estão vaiando, eu vou falar uma coisa: tem gente que acompanha o Ira!, mas nunca entendeu o Ira! Nunca entendeu o Ira! Tem gente que acompanha a gente e é reacionário, tem gente que acompanha o Ira! e é bolsonarista, isso não tem nada a ver, gente! Por favor, vão embora! Vão embora da nossa vida! Vão embora e não apareçam mais em shows, não comprem nossos discos, não apareçam mais. É um pedido que eu faço”.

 

Talvez as palavras não tenham sido bem escolhidas. O problema desse discurso, feito no calor das emoções, é que ele lança luz em uma polarização entre esquerda e extrema direita, quando, nesse caso bem específico, a polarização é entre defensores da democracia e defensores do golpe. Nem todos os simpatizantes da direita ou que votaram em Bolsonaro necessariamente defendem golpe de estado.

 

Portanto, a ira de Nasi foi contra os golpistas. E golpe é crime! Quem defende golpe publicamente está defendendo crime publicamente. Golpe é crime previsto em nossa legislação assim como estupro e homicídio. E o fato de você simpatizar com um golpista não faz com que um golpe de estado deixe de ser crime. Do mesmo modo, simpatizar com um estuprador não faz o estupro deixar de ser crime.

 

Logo, não deveria ser razoável pedir aos artistas ou a quem quer que seja isenção e imparcialidade quando se está diante de uma polarização na qual há democracia de um lado e golpismo de outro. Golpe é crime e não se pode ser isento quanto a isso. Aqueles que vaiaram Nasi por causa de seu grito de “sem anistia” acham que o voto deles vale mais do que o dos outros. São pessoas que talvez, quando crianças, quando estavam perdendo o jogo de futebol ou de queimada, furavam a bola e acabavam com o jogo. Mas não é assim que nossa complexa sociedade e seu sistema político funcionam. Quem perde nas urnas deve esperar a próxima eleição.

 

O discurso de Nasi em Contagem levanta também uma questão: a dissonância entre a obra de um artista e a compreensão da obra por parte de seu público. Não é de hoje que o problema aparece. Em uma das vindas de Roger Waters ao Brasil, alguns fãs (bolsonaristas) ficaram indignados com os posicionamentos políticos do lendário vocalista do Pink Floyd em suas apresentações. Mas, convenhamos: para quem acompanha a carreira e as letras do artista isso não deveria ser surpresa nenhuma.

 

Da mesma forma, sobre o Ira!, a jornalista Mariliz Pereira Jorge chama a atenção para essa dissonância:

 

“Será que as pessoas que estavam no show em Contagem e vaiaram compraram ingresso e nunca prestaram atenção nas letras das músicas da banda? Nunca pensaram em que contexto histórico não só o Ira!, mas muitas bandas de rock nasceram? Para e pensa na letra de ‘Núcleo Base’, do Ira!, que é de 1985: ‘Eu tentei fugir / Não queria me alistar / Eu quero lutar / Mas não com essa farda’” [1].

 

A jornalista destaca que o Ira! é uma daquelas bandas surgidas no início dos anos 1980, nos últimos anos da ditadura empresarial civil-militar que cerceou direitos políticos e liberdades individuais, que censurou artistas e a imprensa. Foi nesse contexto e contra esse estado de coisas que o Ira!, os Titãs e tantas outras bandas influenciadas por um punk rock mais à esquerda eclodiram na cena musical do Brasil. 

 

Faz sentido gostar de uma artista, gostar de sua obra, mas discordar do conteúdo do ponto de vista político? Entendo que sim. A arte é livre e o público também. Mas isso é sempre uma pena, pois quando isso acontece deixa claro que algo está se perdendo na fruição da obra. Algo está se perdendo na comunicação entre artista e público. E também não dá para demonstrar muita surpresa quando o vocalista de uma banda como o Ira!, surgida no contexto em que surgiu, pede punição a gente que queria uma nova intervenção militar no país, influenciada pelo golpe de 64, e forçou uma barra para isso por meio de atos violentos. Sem contar que, no fundo, o texto da anistia visa proteger principalmente os idealizadores do golpe: políticos e militares de alto escalão que não tiveram coragem de dar as caras na Praça dos Três Poderes naquele 8 de janeiro.

 

A HISTÓRIA DA BANDA

Formada em São Paulo, em 1981, com forte influência do punk rock e também da estética mod e de bandas como o The Jam, a formação clássica do Ira! conta com Nasi (voz), André Jung (bateria), Ricardo Gaspa (baixo) e o lendário guitarrista Edgard Scandurra, considerado um dos melhores daquela geração anos 1980, com uma técnica peculiar de tocar: canhoto, ele toca com a guitarra invertida (feita para destro), mas sem alterar as cordas.

 

Desde o início de carreira a banda insurgiu contra gravadoras e as máfias de rádios FM, que exigiam grana (o famoso “jabá”) e a participação em shows gratuitos promocionais para tocar as músicas dos artistas. O mesmo acontecia no famoso Programa do Chacrinha, na Rede Globo. Foi nos bastidores do Chacrinha que ocorreu uma das tretas mais famosas do Ira! Em uma apresentação especial de Natal, a produção do programa exigiu que os diversos artistas entrassem no palco do estúdio com gorro de Papai Noel. O Ira!, que já não curtia fazer playback, não queria usar o gorro e não gostou da forma impositiva como a produção do programa agiu, ameaçando-os inclusive de nunca mais se apresentarem na Globo caso se negassem a usar o adereço. Resultado: na hora H os integrantes da banda largaram o gorro e saíram fora do estúdio. Apesar do boicote, ainda assim depois disso eles emplacaram a canção “Flores em você” na abertura da novela das oito “O outro” na emissora. Nada mal.

 

Mas nem tudo são flores na história do Ira! Um dos primeiros sucessos da banda, a canção “Pobre paulista” é considerada xenófoba e preconceituosa contra imigrantes nordestinos. Críticas que a banda sempre rebateu alegando que a letra era coisa de garotos que não sabiam bem o que estavam dizendo. Isso aliás é algo que deve ser destacado quando falamos sobre posicionamentos políticos de roqueiros. Normalmente os artistas de rock fazem sucesso muito jovens e por isso, por mais contraditório que isso possa soar em relação a este texto, é complicado esperar coesão plena desses músicos quando se trata de política. São artistas e não cientistas políticos (Tom Morello, ex-guitarrista do Rage Against the Machine e do Audioslave, é também cientista político formado por Harvard. Mas ele é exceção).

 

Nasi (cujo nome verdadeiro é Marcos Valadão) recebeu esse apelido no tempo da escola por ser muito encrenqueiro. A polêmica canção “Pobre paulista” e o apelido do vocalista (que ele faz questão de grafar com S e não com Z, para se dissociar da extrema direita) foram motivos para que, no início de carreira, o Ira! fosse associado por alguns críticos e produtores ao nazifascismo. Associação que não se sustentou ao longo da história da banda. Essas e outras confusões da banda são lembradas pelo crítico Júlio Ettori, para quem o Ira! é “a banda mais rebelde e maldita do rock nacional” [2].  

 

Claro que a postura do grupo gerou problemas para seus integrantes ao longo da carreira. Então esses cancelamentos de shows no Sul do Brasil não chegam a ser novidade na história do Ira!. No mesacast Inteligência Ltda, Nasi explica porque o Ira! não fez tanto sucesso comercial quanto outras bandas daquela geração, como Titãs e Legião Urbana:

 

"Eu vejo várias matérias: 'Ah, o Ira, banda injustiçada', realmente. Mas eu falo com muito orgulho, o Ira fez a sua escolha. Eu não lamento não ter vendido tantos discos como os Titãs, como Legião, mas entendo que foi uma escolha nossa. Algumas coisas, se eu voltasse no tempo eu repensaria, mas a touquinha não!" [3], disse o vocalista, ressaltando que rock, para ele, tem a ver com indisciplina, e relembrando o caso da imposição do gorro de Papai Noel no Programa do Chacrinha. "Imagina botar fogo numa touquinha?", complementa Nasi, para as risadas no estúdio do mesacast.

 

O ROQUEIRO REAÇA

O cancelamento dos shows da banda em cidades sulistas levantou mais uma vez a polêmica sobre a figura do roqueiro reaça. Esses fãs golpistas que supostamente devolveram os ingressos. Apesar da postura do Ira!, roqueiro reaça é uma figura comum que a essa altura não deveria causar muita surpresa. Falamos sobre isso ao comentarmos a posição negacionista do cantor Marcelo Nova (Camisa de Vênus) na ocasião da pandemia [4].

 

Vez ou outra, por conta de alguma declaração política feita por algum músico – ou como no caso do Ira! por conta da reação do público – surge no debate público falas a respeito do roqueiro reaça, sempre carregadas com um certo tom de indignação e surpresa, vindas de gente que se diz espantada com o fato de um roqueiro ser reacionário, de extrema direita ou conservador. Muita gente que se entende de esquerda ou progressista fala em decepção por causa de velhos roqueiros como Eric Clapton, Morrissey, Marcelo Nova, Lobão, Digão (da banda Raimundos) e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), que adotaram posições reacionárias e até negacionistas (principalmente no período pandêmico).

 

Mas a figura do roqueiro reaça não deveria impressionar tanto, não deveria ser vista como um exemplo de pessoa contraditória. Por várias razões. Primeiro, porque quem se espanta com o roqueiro reaça, achando-o contraditório, é porque (1) não conhece a história do rock e não sabe que desde sua popularização, na década de 1950, o gênero sempre esteve vinculado a uma classe média branca (apesar das raízes negras), ou (2) bota muita fé no “progressismo” das classes médias brancas no Brasil e no mundo.

 

A classe média branca tem um potencial para o reacionarismo mais do que comprovado. Movimentos como o fascismo e o nazismo foram disseminados e consolidados em grande medida com base na força da classe média branca europeia. Nos Estados Unidos, onde o rock surgiu, mesmo bebendo da fonte da música negra e de artistas negros, logo em seu nascedouro esse gênero musical foi rapidamente embranquecido, e a indústria musical elegeu Elvis Presley, um branco, como o “rei do rock”. Não cabe aqui nenhuma crítica a Elvis como artista, muito menos uma acusação de que ele próprio seria racista. Não é isso! Aliás, Elvis chegou a abrir espaço para artistas negros em sua carreira e, de seu modo, se contrapôs ao conservadorismo da época. A questão é o que a escolha de um artista branco como ídolo maior de um estilo musical de origem negra revela sobre a indústria e, principalmente, sobre a sociedade e aquela audiência da época.

 

Mas isso foi na década de 1950. De lá para cá muita coisa mudou, certo? Mais ou menos. Basta ver o hall da fama do rock ao longo de sua história. Quantos ídolos do gênero são negros, pardos ou mulheres? São poucos os exemplos. A grande maioria é homem branco mesmo.

 

Também não estou afirmando que a classe média branca é necessariamente reacionária, mas que é preciso cautela quanto às expectativas políticas progressistas depositadas sobre ela. Se rappers como Emicida, MV Bill ou Mano Brown se tornarem reacionários no futuro, eu até ficaria um pouco surpreso, já que há anos o rap/hip-hop possui forte identificação com as periferias, onde está a grande maioria da classe proletária. Mas esse já não é mais o caso do rock, tão assimilado pela classe média branca e aos poucos distanciado da periferia (de onde veio o Ira!).

 

O reacionarismo de roqueiros não deveria mais causar espanto em tanta gente. Sobre o modo como o rock foi sendo aos poucos assimilado pelo mainstream e perdendo sua aura contestadora, vale a pena conferir uma série de videoensaios do canal Normose [5].

 

Em resposta à produtora que cancelou os shows do Ira!, uma outra produtora dos shows da banda fez uma postagem em tom de deboche, usando a mesma letra e visual da mensagem da produtora anterior, confirmando que o show em Porto Alegre está de pé:

 

“Informamos que devido aos últimos acontecimentos envolvendo a banda Ira!, não temos outra alternativa a não ser comunicar que o show ‘Ira! Acústico 20 Anos’, que estava programado para o dia 8 de novembro, sábado, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, irá ocorrer normalmente (e a previsão é de casa cheia, viu?)”. [6]

 

Enfim, mais uma treta na história do Ira!, a banda mais maldita da geração roqueira oitentista. Nada que eles não estejam acostumados. Vida que segue. Viva o Ira! Golpistas na cadeia!

 

Referências:

DAPIEVE, Arthur; ROMANHOLLI, Luiz Henrique. Guia de Rock em CD: uma discoteca básica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

 

[1] A direita cancela o Ira! | De Tédio a Gente Não Morre

https://www.youtube.com/watch?v=PCnPXpwL1jU&list=PLoqCk3g6WofXq9WR-d3ydU1NMEhc00jM_

 

[2] O IRA! ERA UMA BANDA MALDITA - E ESTA É A HISTÓRIA PROIBIDA DE TRETAS, SEXO E DR*OGAS

https://www.youtube.com/watch?v=agPc3daJFi0

 

[3] POR QUE a BANDA IRA! NÃO VENDEU TANTOS DISCOS QUANTO TITÃS e LEGIÃO URBANA? - NASI e REGIS TADEU

https://www.youtube.com/watch?v=vAHPOvK4R-k

 

[4] Dia Mundial do Rock: roqueiros reaças, falácias e negacionismo

https://apatria.org/politica/dia-mundial-do-rock-roqueiros-reacas-falacias-e-negacionismo/

 

[5] Por que o ROCK virou coisa de reaça? (partes 1, 2 e 3)

https://www.youtube.com/watch?v=flo0_pi_z80

https://www.youtube.com/watch?v=woeM87KUUCw&t=3s

https://www.youtube.com/watch?v=tykiORw-POM

 

[6] A mensagem debochada de produtora de Porto Alegre, que manteve show do Ira!

https://igormiranda.com.br/2025/04/ira-mensagem-produtora-porto-alegre-mantem-show/

 

 

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