quarta-feira, 10 de julho de 2024

Dia Mundial do Rock: roqueiros reaças, falácias e negacionismo

 


No dia 13 de julho é comemorado o Dia Mundial do Rock, que apesar do nome só é lembrado no Brasil. A data foi escolhida por conta do megaevento Live Aid, organizado em 1985 por Bob Geldof e que reuniu grandes nomes do pop/rock mundial. Um desses nomes foi o cantor Phill Collins, que sugeriu durante sua apresentação que aquele dia entrasse para a história como o “Dia Mundial do Rock” [1]. Funcionou. Pelo menos no Brasil.

 

O rock faz parte da minha vida e é meu estilo musical preferido há muitos anos. Mas não é exatamente sobre rock que pretendo falar e sim sobre roqueiros. Mais especificamente sobre roqueiros reacionários. E também sobre falácias e negacionismo. Para isso, vou usar o exemplo do cantor Marcelo Nova, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, relembrando sua entrevista em um Dia Mundial do Rock durante a pandemia de coronavírus que assustou o planeta e vitimou, em quatro anos, mais de 7 milhões de pessoas ao redor do Globo. Só no Brasil, no mesmo período, foram mortas mais de 700 mil pessoas [2].

 

Roqueiros reaças

Vez ou outra, por conta de alguma declaração política feita por algum músico, surge no debate público falas a respeito da figura do “roqueiro reaça”, sempre carregadas com um certo tom de indignação e surpresa, vindas de gente que se diz espantada com o fato de um roqueiro ser reacionário, de direita ou conservador. Muita gente que se entende de esquerda ou progressista fala em decepção por causa de velhos roqueiros como Eric Clapton, Morrissey, Marcelo Nova, Lobão, Digão (da banda Raimundos) e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), que adotaram posições reacionárias e até negacionistas (principalmente no período pandêmico).

 

Mas a figura do roqueiro reaça não deveria impressionar tanto, não deveria ser vista como um exemplo de pessoa contraditória. Por várias razões.  Primeiro, porque quem se espanta com  o roqueiro reaça, achando-o contraditório, ou não conhece a história do rock e não sabe que desde sua popularização, na década de 1950, o gênero sempre esteve vinculado a uma classe média branca, ou bota muita fé no "progressismo" das classes médias brancas no Brasil e no mundo.

 

A classe média branca tem um potencial para o reacionarismo mais do que comprovado. Movimentos como o fascismo e o nazismo foram disseminados e consolidados em grande medida com base na força da classe média branca europeia. Nos Estados Unidos, onde o rock surgiu, mesmo bebendo da fonte da música negra e de artistas negros, logo em seu nascedouro esse gênero musical foi rapidamente embranquecido, e a indústria musical elegeu Elvis Presley, um branco, como o “rei do rock”. Não cabe aqui nenhuma crítica a Elvis como artista, muito menos uma acusação de que ele próprio seria racista. Não é isso! Aliás, Elvis chegou a abrir espaço para artistas negros em sua carreira. A questão é o que a escolha de um artista branco como ídolo maior de um estilo musical de origem negra revela sobre a indústria e, principalmente, sobre a sociedade.

 

Mas isso foi na década de 1950. De lá para cá muita coisa mudou, certo? Mais ou menos. Basta ver o hall da fama do rock ao longo de sua história. Quantos ídolos do gênero são negros, pardos ou mulheres? São poucos os exemplos. A grande maioria é homem branco mesmo.

 

Também não estou afirmando que a classe média branca é necessariamente reacionária, mas que é preciso cautela quanto às expectativas políticas progressistas depositadas sobre ela. Se rappers como Emicida, MV Bill ou Mano Brown se tornarem reacionários e negacionistas no futuro, eu até ficaria um pouco surpreso, já que há anos o rap – principalmente esses artistas citados – possuem forte identificação com as periferias, onde está a grande maioria da classe proletária. Mas Marcelo Nova, Roger Moreira ou Digão “virarem” reacionários não me espanta em nada e não deveria causar espanto em ninguém.

 

Esperar progressismo de roqueiros de classe média branca é só uma derivação político-musical do imaginário do branco salvador. Pode acontecer? Claro! Mas quando acontece é lucro.

 

Outra razão pela qual não deveria haver grandes expectativas políticas em relação aos roqueiros e nem grande espanto com roqueiros reacionários é porque ícones do rock brilham muito jovens. Em geral, não dá para esperar que jovens roqueiros, sem militância e/ou formação política, sejam seres iluminados. Tom Morello, ex-guitarrista do Rage Against the Machine/Audioslave e cientista político formado por Harvard, é exceção. Não por ser algum tipo de ser iluminado, mas por ter militância e formação. Em geral, sendo jovens, sem formação política e sem militância, normalmente as abordagens políticas das obras de jovens roqueiros são feitas com base em senso comum e com uma abordagem um tanto superficial.

 

Por exemplo, quando Cazuza cantava "Ideologia, eu quero uma pra viver", usava o termo "ideologia" partindo do senso comum. Se formos um pouco mais criteriosos com o uso do termo “ideologia” a partir das ciências sociais e da filosofia, o verso de Cazuza é bem questionável. Ele não poderia dizer que quer uma ideologia, porque, na verdade, todo mundo tem ideologia. Não se escapa da ideologia. Então não faz sentido ele querer uma coisa que já possui (embora não a perceba).

 

Outro exemplo de senso comum é "Geração Coca-Cola", canção da Legião Urbana e uma colcha de retalhos de rebeldia inconsistente. Ou vai me dizer que "crianças derrubando reis" e "filhos da revolução" quer dizer algo muito além de um conflito geracional? Não há nenhuma crítica à exploração de classes ou a algo estrutural com mais profundidade. E, sinceramente, não precisa haver. Roqueiros são músicos da cultura pop. Fazem parte de nossa história e compuseram a trilha sonora de nossas vidas. E isso basta, porque isso já é muito. 

 

Falácias

Vamos relembrar um caso concreto vindo de alguém conhecido por ser um roqueiro reaça: Marcelo Nova. No ápice da pandemia, o músico foi entrevistado em um programa jornalístico regional da Rede Globo e sua declaração chamou a atenção pela autenticidade e sinceridade [3] (o que nada tem a ver com estar correto, como veremos). A pauta era justamente o Dia Mundial do Rock, e a pergunta do apresentador foi a seguinte: “Marcelo, nessa pandemia, o que você produziu durante esses meses de isolamento e de quarentena?”

 

A resposta do roqueiro foi um verdadeiro desabafo de um artista que quer e precisa subir aos palcos para trabalhar. O que é justo. Porém, sem querer bancar o chato, mas já sendo, é necessário apontar e analisar alguns equívocos em sua fala. Isso porque houve muita gente que aplaudiu o que ele disse como se ele fosse um exemplo louvável de rebeldia, liberdade e pensamento independente.

 

Disse Marcelo Nova, em resposta ao apresentador: “Veja bem, isolamento parcial, porque eu não me submeto a esses ditames do ‘fica em casa, fica em casa’. Eu vejo quem eu quero, eu abraço quem eu quero. E eu vou morrer. Se não morrer de covid, vou morrer de câncer, atropelado, assassinado (...). Eu não trabalho graças a medidas governamentais. Eu não trabalho há um ano e meio”.  

 

O músico prossegue e começa a disparar críticas ao então governador de São Paulo, João Dória: “No Natal passado, o governador João Dória decretou um estado de vermelho, roxo, preto, sei lá, e a população de São Paulo ficou trancada em casa, enquanto ele foi pra Miami, fazer compras nas boutiques de luxo. Qual é a mensagem que um governador passa para a população ao agir dessa maneira? É simples: ‘fique em casa, seu babaca. Fique aí com seu álcool em gel, sua máscara e seu distanciamento, porque eu vou pra Miami. Eu vou curtir sem máscara, sem medo, sem nada. Eu vou curtir a vida, porque eu tenho o poder. E você, babaca, você obedece”.

 

Marcelo Nova finaliza sua fala fazendo comparações entre as medidas de distanciamento social e regimes totalitários e um suposto modo como a mídia estaria disseminando um pânico que seria importante para um tipo de controle governamental. Entretanto, o mais importante aqui são as críticas ao ex-governador de São Paulo. Quando o músico, motivado por uma insatisfação em relação às medidas restritivas, faz ataques a Dória como sendo um governante hipócrita que propõe uma coisa e faz outra bem diferente, o que Marcelo Nova está fazendo é adotando um tipo de falácia lógico-argumentativa. As falácias podem ser de vários tipos, e há diversas listas de tipos de falácias disponíveis na internet [4].

 

Uma falácia é um raciocínio incorreto que nos desvia daquilo que realmente importa ser discutido. É algo que nos tira o foco, nos distanciando da lógica e da possibilidade de analisar um problema de forma racional. O debate público está tomado de falácias. Por serem psicologicamente persuasivas, as falácias tendem a deformar o debate público, a opinião pública e a nossa própria cognição. Aos poucos, nossas ideias e opiniões sobre os mais diversos temas passam a ser construídas com base em raciocínios falaciosos, o que é extremamente nocivo e nos impede de resolver os problemas.

 

Quanto à entrevista do cantor e suas críticas a Dória, direi algo que pode parecer absurdo para alguns: é perfeitamente possível alguém ser hipócrita e ainda assim ter razão. Vejamos:

 

Imagine a seguinte situação: eu vou à empresa onde você trabalha para dar uma palestra sobre direção defensiva e os riscos da combinação de álcool e direção. Eu mostro para você e seus colegas de trabalho estatísticas que apontam para o aumento dos riscos de acidente conforme a quantidade de bebida alcoólica que o condutor ingeriu. Mostro também os efeitos do álcool no cérebro e termino com frases de efeito: “Álcool e direção não combinam”. “Se beber, não dirija”.

 

Após a palestra, ao final do expediente, todos da empresa vão para um bar ao lado, e eu vou junto. Eu aviso, mais uma vez: “Quem vai dirigir deve ficar só no refrigerante, ok?!” Entretanto, eu mesmo começo a beber uma cerveja após a outra. Os funcionários da empresa observam esse meu comportamento. “Provavelmente é porque ele não está dirigindo”, pensam. Só que após eu pagar a conta, tiro do bolso uma chave que parece ser de um carro, saio cambaleando de bêbado do bar, abro a porta de um carro e vou embora, dirigindo todo torto.

 

Imediatamente você pensa: “esse palestrante é um hipócrita!”. E, de fato, neste caso eu sou mesmo. Propus aos funcionários de uma empresa algo que eu mesmo não faço. Palestrei sobre regras que eu não cumpro. Entretanto, eu ser hipócrita não muda o fato de que álcool e direção são realmente uma combinação perigosa. O uso de bebida alcoólica prejudica, sim, os reflexos e aumenta os riscos de acidente. Há evidências abundantes sobre isso, fato que não vai mudar por causa do meu mau comportamento. Ou seja, é perfeitamente possível alguém ser hipócrita e ainda assim ter razão.

 

Voltando à fala de Marcelo Nova, apontar uma suposta hipocrisia de João Dória não muda em absolutamente nada a eficácia comprovada das medidas restritivas de distanciamento social. Apenas serve para nos desviar do foco. Em vez de discutirmos e compreendermos uma medida eficaz de combate à pandemia e defesa da saúde pública, passamos a tratar da suposta hipocrisia de um governante. Aqui não cabe saber se Dória foi mesmo ou não a Miami, quais as razões da viagem ou se ele tomou os cuidados necessários durante essa viagem (caso ela tenha de fato ocorrido). A existência ou não da viagem, assim como as circunstâncias em que ela foi feita caso tenha existido, não muda a necessidade do distanciamento social. O raciocínio proposto pelo cantor é falacioso, pois desvia o debate do verdadeiro problema: a contenção da pandemia.

 

Se uma pessoa, motivada pela indignação diante da hipocrisia de um governante, decidir que por conta disso vai sair na rua e se expor como se não houvesse um vírus mortal pela cidade, além de pôr a sua vida e a dos outros em risco, estará incorrendo em um erro lógico. Da mesma forma, no exemplo que propus da palestra sobre álcool e direção, se você pensar: “Esse palestrante é um hipócrita! Eu vou beber e dirigir igual a ele. Que se dane!”, estará você também incorrendo em um erro lógico e pondo a sua vida e a dos outros em risco. Minha hipocrisia não muda certos fatos. Álcool e direção são uma combinação perigosa! As falácias também são! Não significa que criticar a hipocrisia de alguém não seja uma discussão válida. Só que é uma outra discussão.

 

A falácia usada pelo cantor na entrevista é conhecida pelo nome de “tu quoque”, cuja tradução do latim é literalmente “você também”. Outro nome dado a ela é falácia “de apelo à hipocrisia”, justamente porque o debatedor foge do foco e opta por apontar uma suposta hipocrisia de outra pessoa. Ela faz parte da lista de falácias que apresentamos acima. Apesar do raciocínio falacioso, por conta de sua entrevista Marcelo Nova foi exaltado como algum tipo de rebelde de espírito livre, que não se submete aos “ditames” da mídia, das instituições, do estado, da ciência ou seja lá o que for. O problema é que da mesma forma que é possível ser hipócrita e ainda assim estar certo, também é possível ser rebelde e estar errado.

 

Um dos vídeos que mostra essa entrevista enaltecendo o cantor afirma na legenda que “A Globo esqueceu de combinar o roteiro com o convidado e paga mico ao vivo com uma aula contra lockdown”. A proposta do vídeo é mostrar que Marcelo Nova deu “uma aula”, contestando com sua suposta rebeldia uma imposição de lockdown. Acontece que não havia lockdown nenhum no Brasil. O que houve por aqui foram algumas medidas restritivas que eram reforçadas ou flexibilizadas a cada mês na medida em que o número de casos confirmados de covid aumentava ou diminuía, assim como o número de leitos ocupados na rede de saúde dos estados e municípios aumentava ou diminuía. Medidas restritivas sempre reforçadas e flexibilizadas conforme o cenário ia mudando. Isso não é lockdown. Em países como Itália e Reino Unido, sim, houve lockdown. Aqui temos um outro exemplo de falácia, conhecida como “espantalho” (também consta na lista que apresentamos), que consiste em exagerar as ideias, situações e argumentos que se quer combater, para ficar mais fácil de ataca-los. Ao exagerar chamando as medidas restritivas de lockdown, ficaria mais fácil atacar essas medidas.

 

Negacionismo

Marcelo Nova é, portanto, um negacionista. E um negacionista orgulhoso. Mas o que é negacionismo? O conceito é comumente entendido como “o ato de negar-se a acreditar em uma informação estabelecida em áreas como a ciência e a história” [5] ou mesmo “a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável” [6]. José Luiz Ratton, em seu “Dicionário dos negacionismos no Brasil”, explica que ao tratarmos do negacionismo

 

Estamos falando de realizações coletivas em que práticas de negação transformam-se em formas completamente diferentes de ver o mundo, indo além da recusa da verdade e produzindo outra verdade, que se pretende superior, busca evitar a publicização de desejos secretos, suposta e provavelmente inconfessos para a coletividade, pois incapazes de acomodar diferenças, alteridade, respeito ao outro (RATTON, 2022, p. 198).

 

Há uma variação de negacionismos, que nos últimos anos vêm sendo estudados e categorizados por pesquisadores de diversas áreas em todo o mundo: negacionismo climático, negacionismo científico, negacionismo histórico etc. Todos bem explicados no livro “Dicionário dos negacionismos no Brasil”. A explicação de Ratton traz elementos interessantes para analisarmos a fala do cantor Marcelo Nova. Ratton destaca, por exemplo, que o negacionismo evita a publicização de certos desejos.

 

Sabemos que a indústria do tabaco, que fomentou e deu forma ao negacionismo na segunda metade do século 20, quer vender mais cigarros. Sabemos também que a cadeia industrial ligada aos combustíveis fósseis quer manter suas atividades produtivas e continuar lucrando. Mas diante de evidências sobre os malefícios do cigarro à saúde e sobre as mudanças climáticas antropogênicas (fruto da ação humana), não basta assumir claramente, em alto e bom tom, o desejo de continuar lucrando independentemente dos problemas ocasionados. Representantes da indústria tabagista não podem abertamente dizer: “Veja bem, sabemos que cigarro faz mal e te mata lentamente, mas continue comprando cigarro e fumando, pois precisamos do seu dinheiro. Obrigado por fumar”. Isso não basta. É preciso patrocinar iniciativas que gerem dúvidas e controvérsias junto à opinião pública sobre evidencias científicas que a indústria considera inconvenientes para seus negócios.

 

No caso individual de Marcelo Nova, a coisa é mais justificável e menos inconfessável. Trata-se de um músico que quer trabalhar. Isso é absolutamente legítimo. Mas é preciso separar as coisas. É justificável uma pessoa tornar pública a sua necessidade de trabalhar. O que não dá é para ela despejar raciocínios falaciosos e negacionismo científico para defender o próprio direito ao trabalho. O fato é que vivíamos uma situação extraordinária diante de um vírus mortal contra o qual não havia vacina. Isso obviamente requeria sacrifícios, e os principais afetados por esses sacrifícios – dentre eles trabalhadores dos setores de turismo e cultura, por exemplo – precisavam do amparo de políticas públicas. O problema é que o Brasil vivia um governo em nível federal que pouco se importava com políticas públicas e preferia incentivar negacionismos do que assumir sua responsabilidade na administração do prejuízo e no amparo às vítimas e a milhões de trabalhadores. O negacionismo do governo federal era uma forma de ele se esquivar do problema. E o cantor Marcelo Nova aderiu a esse negacionismo, talvez por julgar insuficiente apenas dizer que queria trabalhar.

 

Mais do que aderir ao negacionismo, o roqueiro demonstrou orgulho dessa sua atitude. E aqui vem a cereja do bolo. Em uma outra entrevista, ele reivindica a figura de Jesus Cristo como forma de enaltecer suas próprias atitudes e opiniões negacionistas [7]: “Eu sou negacionista como Jesus Cristo era negacionista. Ele negava o poder do Império Romano. Era um sujeito que negava, rapaz. Governo com ele? Ele mandava tomar no cu! Jesus era um negacionista e eu também sou. Me nego a aceitar ordens de quem quer que seja”.

 

Além de falacioso e negacionista, Marcelo Nova mostra aqui que também é anacrônico. Em história, anacronismo é quando alguém pega um conceito de uma época, elaborado dentro do contexto dessa época, e tenta aplica-lo a uma outra época em que aquele contexto que possibilitou o surgimento do conceito sequer existia. É o que muitos fazem, por exemplo, ao tentar aplicar os conceitos de esquerda e direita, surgidos na Revolução Francesa, a questões medievais ou da Antiguidade. O negacionismo é um fenômeno de nosso tempo que está relacionado à produção de negação de ditames da ciência moderna. No tempo de Cristo não existia ciência moderna. Não dá para simplesmente chamar de negacionista todo mundo que ao longo da história negou alguma coisa. Mas o anacronismo é assunto para outra ocasião. 

 

Confesso que por essa eu não esperava. Nunca imaginei que alguém fosse reivindicar Jesus Cristo para legitimar o próprio negacionismo. Mas aí está um dos grandes desafios daqueles que se propõem a combater o negacionismo: nunca sabemos qual será o próximo devaneio. A imaginação humana é extraordinariamente potente. É por isso que teorias conspiratórias costumam ser tão criativas. A mente humana voa longe. Isso é maravilhoso, mas também desastroso. Pode dar muito certo na literatura e nas artes, mas pode também dar muito errado na política e na ciência. Nunca sabemos onde brotará a próxima flor de lótus do negacionismo na imensidão pantanosa da inventividade humana. 

 

Referências:

SZWAKO, José; RATTON, José. Dicionário dos negacionismos no Brasil. Recife: Cepe, 2022.

 

[1] Entenda por que o “Dia Mundial do Rock” só é celebrado no Brasil

https://www.radiorock.com.br/2023/07/13/entenda-por-que-o-dia-mundial-rock-e-celebrado-no-brasil/

 

[2] Pandemia da covid-19 completa 4 anos...

https://www.poder360.com.br/coronavirus/pandemia-da-covid-19-completa-4-anos/

 

[3] A Globo esqueceu de combinar o roteiro com o convidado

https://www.youtube.com/watch?v=PZPGYvOpwzE

 

[4] "Não cometerás nenhuma dessas 24 falácias lógicas"

https://papodehomem.com.br/falacias-logicas/?fbclid=IwAR0MD_398R7Vy8M_UsxHPCC8EeWh8eDXPMl7U5usiohLA-uLDsuAF2SNTDA

 

[5] Negacionismo

https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm

 

[6] Negacionismo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negacionismo#cite_note-1

 

[7] Marcelo Nova é negacionista de uma forma diferente

https://www.youtube.com/watch?v=XrCP7GRjKrI&t=20s

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Brasil Paralelo mira licenciatura para formar novos professores

 

Fundadores da Brasil Paralelo: estudantes de administração da ESPM

A empresa de entretenimento Brasil Paralelo, conhecida por suas produções de narrativas históricas frequentemente contestadas por historiadores profissionais, virou notícia na última semana por conta de duas situações diversas. Uma delas foi a repercussão de uma postagem no Instagram feita pela CEO e cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, na qual a empresária agradecia pelo convite que receberá para o evento "We Who Wrestle With God", palestra do psicólogo canadense Jordan Peterson, autor conhecido por suas posições conservadoras. No post, Junqueira agradece o convite e marca o perfil de Peterson, além dos perfis da Brasil Paralelo e da Fronteiras do Pensamento, respectivamente apoiadora e organizadora do evento.

 

A empresária postou o convite como story no Instagram. A publicação ficou disponível tempo suficiente para gerar diversas mensagens críticas de correntistas do Nubank que ameaçaram cancelar suas contas, alegando relação entre o banco e a empresa. Uma dessas mensagens dizia: "Olha, se você tá no @nubank pensa se deve realmente usufruir deste serviço... CEO da Nubank divulgando evento do Brasil Paralelo é bizarro e nojento". Outras mensagens explicavam o procedimento para o cancelamento da conta. A repercussão negativa foi grande o suficiente para que o Nubank emitisse nota afirmando ter um comportamento “apartidário” e não se associar a “movimentos políticos, religiosos ou ideológicos”.

 

A outra situação envolvendo a Brasil Paralelo foi a publicação de uma reportagem da Agência Pública mostrando como a empresa de entretenimento ligada à extrema direita vem agora investindo no ensino superior EAD, na formação de professores. O curso a distância (EAD) de licenciatura em história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, aprovado pelo MEC durante o governo Bolsonaro, funciona em parceria com a Brasil Paralelo e é coordenado pelo bolsonarista e monarquista Rafael Nogueira, que foi presidente da Biblioteca Nacional em 2019 e 2020.

 

Amanda Audi, jornalista da Agência Pública, matriculou-se no curso para fazer a reportagem. Ela explica que a ligação da universidade com a produtora de conteúdo conservador/reacionário chegou a ser anunciada na página que divulgava o vestibular (sendo posteriormente retirada por conta da repercussão da reportagem): “Somando-se ao cenário da educação brasileira e a real necessidade de educadores competentes e comprometidos em prol da qualidade da educação, a Brasil Paralelo, em parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro, oferece o vestibular especial de licenciatura em História”, dizia o texto, juntamente à logo da Brasil Paralelo.  

 

Ainda de acordo com a reportagem, a visão reacionária da produtora de conteúdo faz parte da base curricular do curso, que se propõe a “não omitir a versão cristã da História”, e alguns dos professores são diretamente ligados à Brasil Paralelo. O conteúdo das aulas é muito parecido com as produções da empresa. Por ter uma “visão cristã”, o curso defende, por exemplo, a atuação dos jesuítas contra indígenas, que os reis eram enviados divinos e as Cruzadas promovidas pela Igreja Católica foram algo necessário. Quem conclui o curso está apto a dar aulas de história para estudantes da educação infantil e ensinos fundamental e médio.

 

Para se matricular no curso do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, Amanda Audi conta que só precisou escrever dois parágrafos sobre um tema proposto – “consequências da pandemia” –, coisa que ela fez usando o ChatGPT. Já o coordenador do curso, Rafael Nogueira, além de monarquista e bolsonarista, é também professor em cursos da Brasil Paralelo e discípulo do falecido ideólogo Olavo de Carvalho, de quem decorre o termo “olavismo”, um arremedo de teorias anticomunistas e reacionárias que inclui grande aversão às universidades, à mídia, à classe artística e à esquerda de um modo geral. O olavismo e a Brasil Paralelo possuem clara interseção de conteúdos e ideias e dão lastro ideológico ao bolsonarismo.

 

Seguindo os padrões dos docentes do curso, Lucas Ribeiro Fernandes, professor da disciplina Brasil Colonial 1, se diz um fã da monarquia brasileira, especialmente da princesa Isabel. O conteúdo de sua matéria, em vez de mencionar o genocídio e a escravidão de povos indígenas, elogia os jesuítas, que tentavam “garantir que aqueles povos, que até então viveram encobertos do resto do mundo, pudessem acessar as verdades eternas como qualquer europeu”.

 

A polêmica parceria entre a Brasil Paralelo e a instituição de ensino superior vem à tona em um momento delicado para o setor. No início deste mês, o MEC suspendeu a criação de cursos EAD até março de 2025. Segundo o ministério, a decisão é parte do processo de revisão do marco regulatório da educação a distância (EAD), cujo objetivo é garantir a sustentabilidade e a qualidade dos cursos de graduação oferecidos. No mês passado, o MEC já havia definido que cursos EAD para formação de professores – caso do curso de história do Centro Universitário Ítalo Brasileiro – devem ter metade de carga horária presencial.

 

O empreendimento empresarial e sua relação com a educação e governos

A Brasil Paralelo foi criada em 2016 por estudantes de Porto Alegre ligados à área de administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing, uma das universidades privadas mais caras do Brasil (a mensalidade do curso de administração na unidade de Porto Alegre está em R$ 6.057,00). Sua criação se deu no contexto da ascensão da onda conservadora e reacionária no país. A empresa teve enorme crescimento durante o governo Bolsonaro. Em 2020, com apenas quatro anos de existência, a Brasil Paralelo já faturava R$ 30 milhões anuais, um crescimento de 355% em relação ao ano anterior.

 

Ao longo de sua trajetória, o empreendimento ampliou sua produção, como com a criação da plataforma de streaming BP Select, além de iniciativas no setor educacional, como a parceria com o Centro Universitário Ítalo Brasileiro na curadoria do curso responsável por formar professores. A produtora anunciou que pretende financiar cursos de história, geografia e ciências sociais para estudantes de baixa renda e assim “formar a próxima geração de professores” do país.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo vai ampliando suas investidas no setor educacional, como forma de inserir entre alunos e futuros docentes seus conteúdos revisionistas ideológicos, negacionistas e conspiracionistas. Por ser um lastro ideológico da extrema direita, suas produções por vezes são adotadas como parte do conteúdo educativo oficial ligados a governos identificados com tal campo do espectro político. No mês passado, a Procuradoria-Geral de Justiça foi acionada por conta da Secretaria de Educação de São Paulo, do governo Tarcísio de Freitas, estar usando conteúdo do canal da Brasil Paralelo como fonte para o material didático digital enviado às escolas estaduais. Em 2019, durante o governo Bolsonaro, a TV Escola, ligada ao MEC, exibiu documentários da Brasil Paralelo. Um episódio inclusive trazia entrevista de Olavo de Carvalho.

 

Marketing, teoria conspiratória e negacionismos

A Brasil Paralelo dissemina um conteúdo com narrativas históricas amplamente criticado por historiadores devido a vários problemas. Além de a empresa investir muito mais em divulgação do que em pesquisa histórica propriamente dita, geralmente imitando o formato de produções de divulgação científica, com falas de especialistas (e não caberia aqui a discussão sobre em que medida as personalidades entrevistadas são ou não especialistas nos assuntos em que se propõem a falar), fazendo jus ao seu próprio nome, seu conteúdo frequentemente é vendido como uma alternativa à produção acadêmica convencional na área de história, como um tipo de “verdade paralela”. Algo que “o seu professor está escondendo de você”. Algo que “eles não querem que você saiba”.

 

Desse modo, a Brasil Paralelo inclui em seu conteúdo um apelo de marketing muito semelhante ao de teorias conspiratórias: uma verdade que está sendo revelada e que fará daquele que a receber uma pessoa mais esperta que a média, livre das amarras de algum tipo de dominação e manipulação cultural. É um apelo de marketing que encontra ampla adesão não somente naqueles que possuem alguma identificação com ideias conservadoras e reacionárias, mas em um contingente enorme de pessoas que se sentem excluídas de oportunidades na sociedade, inclusive na área da educação, e por isso convenientemente acreditam que ao assistirem alguns poucos vídeos da produtora já “sabem mais que o professor”.

 

O mesmo modus operandi vale também para a filosofia e ciências humanas e sociais em geral. Mas não somente. A produtora chamou a atenção por conta de conteúdos negacionistas na ocasião da pandemia de coronavírus e também em relação às mudanças climáticas. Esse ponto veio à tona com as enchentes do Rio Grande do Sul, já que Ricardo Gomes, do PL, partido de Jair Bolsonaro, é vice-prefeito de Porto Alegre e também professor e apresentador da Brasil Paralelo. Gomes chegou a usar um boné da Brasil Paralelo em uma transmissão ao vivo durante o trabalho de resgate de vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Os conteúdos da empresa questionam que as emergências climáticas estejam diretamente relacionadas às atividades humanas, sobretudo ao aquecimento global impulsionado pela queima de combustíveis fósseis.

 

Guerras culturais, marxismo cultural e historiografia ultrapassada

É preciso entender a Brasil Paralelo e seu apelo de marketing conspiracionista dentro do contexto das guerras culturais. É no meio delas, alimentando-as e sendo alimentada por elas, que a empresa opera e produz seu conteúdo. O termo “guerras culturais” refere-se aos conflitos sociopolíticos e culturais de uma sociedade profundamente segregada, fragmentada. A expressão começou a ser usada nos Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial e ganhou força principalmente a partir dos anos de 1980. No Brasil, as guerras culturais tiveram seus contornos melhor definidos com a popularização da internet e das redes sociais. Após a irrupção da onda conservadora a partir de 2013, a engrenagem que move e é movida pela Brasil Paralelo estava preparada. 

 

Dentro do contexto das guerras culturais, a Brasil Paralelo opera principalmente com a ideia de “marxismo cultural”, um tipo de teoria conspiratória fruto de leituras distorcidas de teóricos como Antonio Gramsci e Herbert Marcuse. Cada um desses pensadores, a sua maneira, falou sobre a necessidade e importância da conquista de corações e mentes no cenário político-cultural. O problema é que aqueles que acreditam na ideia de marxismo cultural acham que há uma ação orquestrada da esquerda junto à mídia, às universidades, às artes, à educação e à ciência em geral para dominar essas áreas e instrumentalizá-las para algum tipo de plano de manipulação das massas. Daí o marketing apelativo da Brasil Paralelo sobre seu conteúdo ser uma forma de libertação e de saber mais do que o professor.

 

Para abordarmos outros problemas do conteúdo da Brasil Paralelo precisamos entrar em aspectos mais técnicos de historiografia. Primeiramente, cabe fazer uma ressalva sobre o revisionismo. Ele costuma ser importante para o desenvolvimento da ciência histórica. Em ciência, de uma forma mais abrangente, na medida em que fontes e fatos novos surgem e refutam ou contestam antigas teorias, essas antigas teorias vão sendo deixadas de lado e novas teorias começam a ser elaboradas. A verdade da ciência é circunscrita ao tempo. Ela é uma verdade em seu tempo. Ou seja, um apontamento científico atual pode contrariar algo que já se entendeu como verdade há décadas atrás, mas esse mesmo apontamento científico atual pode ser refutado daqui a algumas décadas, na medida em que fatos novos surgem (costumo dizer que a ciência é a verdade que se tem pra hoje. Dito assim pode parecer pouco, mas isso é muita coisa!).

 

Na ciência histórica, o revisionismo faz esse trabalho de comparação entre antigas e novas teorias. Trabalho amparado por novos fatos e fontes. Só que isso é diferente do revisionismo político-ideológico da Brasil Paralelo, que não se baseia em novos fatos e fontes. Pelo contrário, trata-se de um arremedo requentado com base em uma historiografia antiga e ultrapassada. Chega a ser irônico, pois o revisionismo traz em si uma ideia de novidade, mas o que a produtora faz tem muita cara de século retrasado.

 

A historiografia do século 19 estava preocupada em consolidar a história como ciência e assim distingui-la da literatura. Eram tempos de escolas como o historicismo, o positivismo e a escola metódica. Aliás, o positivismo influenciou muito da ciência e filosofia daquele século. Para aqueles historiadores, a fonte primordial de pesquisa eram os documentos oficiais (e isso fazia sentido, naquele contexto cultural, para firmar a história enquanto ciência). Se por um lado historiadores e escolas historiográficas do século 19 foram fundamentais para criar um status de cientificidade à história, por outro, a grande valorização de documentos e acervos oficiais levou à escrita de uma história oficialesca, feita de cima para baixo. Afinal, quando ouvimos que “a história é escrita pelos vencedores”, em boa medida trata-se desse tipo de historiografia: se a prioridade são os documentos oficiais, esses documentos, por sua vez, quase que em sua totalidade são produzidos pelas instituições oficiais, que, do mesmo modo, quase que em sua totalidade são comandadas pelas elites dirigentes.

 

Portanto, por conta do tipo de fonte e da forma de pesquisa, essa história será principalmente uma história das elites. Dela decorre a construção das figuras de grandes heróis nacionais e seus grandes feitos. Essa história foi fundamental também para a formação das memórias oficiais dos estados nacionais. Entretanto, ao longo do século 20, outras escolas historiográficas e novas formas de pesquisa foram ganhando força, juntamente com a valorização de uma diversidade maior de fontes. Isso possibilitou o crescimento de uma historiografia mais plural e menos oficialesca. Mas apesar de um século de desenvolvimento da historiografia, as narrativas históricas da Brasil Paralelo refletem um jeito ultrapassado de se fazer história, por vezes defendendo teorias já refutadas.

 

Um bom exemplo é o que a produtora divulga a respeito da ditadura militar, tratando o golpe como um tipo de mal necessário para impedir que um regime comunista se instaurasse no Brasil. Só que essa era a narrativa dos golpistas e dos ditadores, como forma de legitimarem seu poder. Era a narrativa oficial do poder. Não cabe mais defende-la hoje em dia, após tantos arquivos que já foram abertos sobre a ditadura desde o fim do regime militar. Até arqueologia histórica em antigas sedes de órgãos de repressão foi e continua sendo feita. São muitas provas que se avolumam. Enfim, novos fatos e fontes que refutam teorias antigas. Mas a Brasil Paralelo, que investe pouco em pesquisa e muito em marketing e divulgação, ignora tudo isso. 

 

“Eles [a Brasil Paralelo] reabilitam uma historiografia hegemônica no século 19, que já foi superada por novas perspectivas – que por sua vez são deixadas de lado ou reduzidas a caricaturas,” diz o professor e historiador Murilo Cleto, que fez a sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre o revisionismo histórico da Brasil Paralelo [1]. “Muitos fãs da empresa Brasil Paralelo devem ter uma gravura do Varnhagen junto com outra do Olavo de Carvalho na parede da casa”, diz o professor e historiador Fernando Nicolazzi, ao se referir ao historiador do século 19 e sua história bastante conservadora [2]. Francisco Adolfo de Varnhagen foi uma espécie de historiador oficial do império, anti-indigenista e de pouco apreço pelos africanos.

 

Outro exemplo interessante diz respeito à escravidão. Pessoas com um pouco mais de idade aprenderam sobre escravidão nos tempos da escola com um certo protagonismo da princesa Isabel, reflexo de uma história oficialesca, centrada na figura de grandes heróis (geralmente representantes da elite) e que foi valorizada pela ditadura militar. A partir de uma nova historiografia e novas fontes, que chegaram aos livros didáticos nos últimos anos (vale destacar que novas correntes historiográficas levam um certo tempo até chegarem aos livros didáticos do ensino básico), outros protagonistas ganharam força, como Zumbi e o Quilombo dos Palmares. Protagonistas de baixo para cima. Mas a Brasil Paralelo não se interessa muito por eles, porque, no fundo, quer uma narrativa histórica elitista, para dar lastro ideológico a um projeto político elitista.

 

Não à toa, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares na gestão bolsonarista, quis mudar o nome da instituição para “Fundação Princesa Isabel”. A intenção, mais do que revalorizar uma figura aristocrática da história do Brasil (e aqui não estamos negando o valor desta ou de outra figura) é também resgatar uma história aristocrática, de cima para baixo, dos vencedores, apagando ou reduzindo bastante as lutas e os personagens populares. A assinatura de um documento oficial como a Lei Áurea não dá conta de protagonizar uma luta de tantos anos como a da abolição. Apenas na cabeça daqueles inspirados por uma história oficialesca.

 

A Brasil Paralelo difunde uma visão decadentista de mundo, típica do reacionarismo, que idealiza e romantiza o passado. Essa visão pode ser percebida até em obras que se distanciam da história do Brasil como tema principal e falam sobre cultura, cinema etc. Um exemplo é o documentário “O fim da beleza”. Uma ideia central dessa e outras obras pode se resumir na manjada frase “antigamente é que era bom”, que sempre ouvimos por aí. Essa visão decadentista vai encontrar em uma historiografia ultrapassada e em um conjunto limitado de fontes algum refúgio e alguma viabilidade para fortalecer narrativas históricas dos vencedores e das elites. Se fosse uma unidade hospitalar, a Brasil Paralelo talvez estivesse promovendo sangrias nos pacientes para reequilibrar os quatro humores (bile negra, catarro, bile amarela e sangue), prática com origens na Antiguidade e que foi usada até o século 19. A medicina já deixou isso para trás, mas a Brasil Paralelo talvez repaginasse o procedimento, disfarçando-o de novidade rebelde, insurgente, esperta e fora da caixa.    

 

Referências:

[1] Coordenado por monarquista, curso ligado à Brasil Paralelo forma professores de história

https://apublica.org/2024/06/coordenado-por-monarquista-curso-ligado-a-brasil-paralelo-forma-professores-de-historia/

 

[2] Historiografia brasileira: a escrita da História no Brasil

https://www.youtube.com/watch?v=HhYGfT5SKfc&t=597s

domingo, 28 de abril de 2024

Filme Guerra Civil enaltece o jornalismo e alerta sobre o perigo do extremismo de direita


Estreou neste mês de abril o filme Guerra Civil, do diretor Alex Garland, uma superprodução americana estrelada pelo ator brasileiro Wagner Moura. O filme é antes de mais nada uma exaltação do papel do jornalismo, e, mais especificamente, do fotojornalismo, na defesa e manutenção da democracia e no registro de grandes guerras e conflitos. Moura é um repórter viciado em adrenalina que, ao lado de Kirsten Dunst, que é uma veterana fotógrafa de guerra, e mais dois profissionais de imprensa (Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson), viaja os EUA para uma entrevista com um presidente que está prestes a ser derrubado por rebeldes numa guerra civil.

 

O filme retrata o jornalismo em sua essência, como ele deve ser – isento e imparcial –, e não como ele é na prática, com seus vieses e interesses.  “Nós gravamos para que outras pessoas possam fazer as perguntas”, diz a fotógrafa interpretada por Dunst em certo momento [1]. Ainda que essa escolha narrativa soe ingênua, ela é compreensível dentro do contexto político atual, de ataques nem sempre justos à imprensa, em parte suplantada por máquinas de desinformação que são muito piores que ela.

 

Sobre o contexto político, o filme tem recebido críticas por não se aprofundar em questões ideológicas e nas razões que levaram ao caos retratado na trama. Discordo parcialmente. Ainda que o filme propositadamente seja superficial nas questões políticas, ele está longe de ser “isentão”, como alguns críticos e espectadores apontam [2]. Fico com as palavras do diretor: “O filme oferece respostas, mas de forma sutil” [3].

 

Ainda que tente colocar uma névoa em sua posição política, como mostrando uma aliança rebelde entre Califórnia e Texas (estados tradicionalmente de alinhamentos políticos opostos: o primeiro, mais democrata; o segundo, mais republicano), a obra dá algumas pistas sobre o que propõe. Temos um presidente americano que está em seu terceiro mandato - o que é inconstitucional –, que dissolveu as instituições (o FBI, por exemplo), que em seu discurso fala em Deus, pátria e “americanos de bem”, cujos apoiadores atiram na imprensa. Na cena mais tensa e perturbadora da trama, um soldado governista ameaça a equipe de imprensa e pergunta que tipo de americanos eles são. O purismo racial e a xenofobia (principalmente contra chineses) ficam claros. Tiago Gayet, pós-graduado em Sociologia pela USP e professor de História, fala sobre esses aspectos:

 

‘Make America Great Again‘ era a máxima da campanha de Trump, assim como os meios para devolver aos EUA seu louvor: construir uma muralha anti-imigrantes. Lembra bastante o modus operandi do nazi-fascismo do entreguerras (1919-1939), de enaltecer uma construção idílica de pátria, colocá-la ‘acima de tudo’ e apontar supostos culpados indesejáveis nesse paraíso a ser construído: comunistas, judeus, populações racializadas etc. [1]

 

Do outro lado, o das Forças Ocidentais que querem depor o presidente, há soldados negros, asiáticos e mulheres. Suas bases têm pichações multicoloridas, o que possivelmente é usado como recurso narrativo para apontar para uma multidiversidade. Essas cores diversas também estão em detalhes como cabelos e unhas de alguns soldados (o que apontaria para o movimento LGBT+) [4]. Além disso, essas bases militares rebeldes são mais receptivas à equipe de imprensa (o que nem é difícil, já que o lado oposto está matando jornalistas).

 

Em entrevista, Wagner Moura disse que o filme alerta para o risco da polarização [5]. Mas isso não é tudo, pois polarização é um fenômeno antigo, seja nos EUA (entre republicanos e democratas), seja no Brasil (basta lembrar da polarização pós-redemocratização, entre PT e PSDB) [6]. Já Alex Garland disse que o filme é um alerta sobre o extremismo [3]. Também não é tudo, já que o extremismo de esquerda é muito pequeno na maior parte do mundo. Por isso proponho que o filme é um alerta sobre o extremismo de direita. Esse sim, significativo e que tem tomado algumas das principais potências econômicas. É a partir deste contexto atual que a distopia de Guerra Civil é construída. Como explica Gayet:

 

Na França, a extrema-direita cresce e ameaça ganhar eleições; na Alemanha, núcleos neonazistas também somam recorde histórico desde o fim da Segunda Guerra. Nos EUA, Trump ressurge com forças renovadas. Não existe polarização, mas sim uma verdadeira campanha de radicalização das pessoas para que encontrem um culpado entre as minorias (pessoas racializadas, LGBTQIA+, minorias religiosas, imigrantes), e elejam políticos da extrema direita. [1]

 

Sobre a polarização, para Gayet, essa suposta polarização acontece quando pessoas contrárias a esses valores extremistas resolvem fazer oposição. De certo modo, as palavras do historiador são parecidas com as do próprio diretor do filme, quando disse em entrevista que “a crise mundial hoje não é entre esquerda e direita, mas entre extremistas e o centro” [3]

 

Para além dessa discussão, vale ressaltar um aspecto técnico do filme: seu design de som é excelente, com sequências de tiros e bombas sendo intercalados com flashes de câmeras fotográficas, além de muitas hélices de helicópteros. Sem contar uma trilha sonora também bastante interessante. A sequência do confronto em Washington, lá pelo final do filme, é uma longa pancada na orelha. No bom sentido! Podem escrever: Guerra Civil certamente será indicado para alguns dos principais prêmios ligados a som.

 

Referências:

[1] “Guerra Civil”: o que o filme com Wagner Moura ensina sobre História e política

https://guiadoestudante.abril.com.br/dica-cultural/guerra-civil-o-que-o-filme-com-wagner-moura-ensina-sobre-historia-e-politica/

 

[2] Civil War (Guerra Civil) - Crítica: reverência ao fotojornalismo

https://www.youtube.com/watch?v=HfbhlG

 

[3] “O extremismo mata”, diz Alex Garland, diretor do sucesso ‘Guerra Civil’

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/o-extremismo-mata-diz-alex-garland-diretor-do-sucesso-guerra-civil

 

[4] GUERRA CIVIL: É isso que nos aguarda?

https://www.youtube.com/watch?v=flHlSwbU21M

 

[5] Guerra Civil é um filme sobre os perigos da polarização, diz Wagner Moura

https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/282119-guerra-civil-filme-perigos-polarizacao-diz-wagner-moura.htm

 

[6] POLARIZAÇÃO? ANTAGONISMOS POLÍTICOS NO BRASIL

https://leituraobrigahistoria.com/podcast/polarizacao-antagonismos-politicos-no-brasil/

 

 


sexta-feira, 12 de abril de 2024

“Brizola”: documentário estreia em festival e conta a história do líder trabalhista

 


Estreou no Rio de Janeiro, no último domingo, dia 7, no festival de documentários É Tudo Verdade, o filme “Brizola”, sobre a vida deste que foi uma das maiores lideranças políticas do Brasil no século 20. Ainda dentro da programação do festival, o filme foi novamente exibido na terça-feira, dia 9, também no Rio, e em São Paulo, nos dias 12 e 13 de abril. Depois disso, a previsão é de que “Brizola” seja lançado no Canal Curta!.

 

A sessão de estreia ficou lotada. As cadeiras da sala do Estação NET, em Botafogo, não foram suficientes. As cadeiras extras também não foram, e teve gente que precisou assistir ao filme no chão mesmo. Dentre os presentes, algumas lideranças do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado por Brizola em 1980, como a deputada estadual Martha Rocha, presidente do PDT-Rio. Na tela, muitos nomes clássicos da legenda, que com seus depoimentos ajudam a recontar a história de Leonel Brizola, como Darcy Ribeiro, Miro Teixeira, Nilo Batista, dentre outros.

 

Ao dar as boas-vindas ao público, Amir Labaki, organizador do festival, disse que “Brizola foi uma daquelas pessoas que só não fez mais pelo Brasil porque não pôde. Se pudesse ter feito mais, nosso país seria muito melhor”. Dirigido por Marco Abujamra e produzido por Mariana Marinho (Dona Rosa Filmes), o filme emocionou do início ao fim em sua exibição de estreia, provocando diversos momentos de aplausos, levando o público às lágrimas, mas também às risadas, com algumas das tiradas espirituosas de seu protagonista, notoriamente conhecido por ter sido um líder político carismático e personalista.

 

Os realizadores contaram com o apoio do acervo reunido pelo PDT ao longo de suas quatro décadas de existência e com o trabalho de pesquisa do Centro de Memória Trabalhista (CMT), da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP). Falar sobre Brizola é também contar uma parte significativa da história do trabalhismo brasileiro. Juntamente com Getúlio Vargas e João Goulart (Jango), o fundador do PDT forma o trio emblemático dessa corrente política que, como conceitua o professor Reinaldo Lohn (HISTÓRIA FM 134, 2023), se caracteriza como um conjunto de práticas de reformismo social voltadas para a extensão e ampliação de direitos sociais, com foco nas classes trabalhadoras.

 

O trabalhismo não pressupõe uma perspectiva de superação do capitalismo, mas a convivência entre o capitalismo e o mundo dos direitos sociais. Isso vai se configurar com muita densidade em países europeus. O caso clássico é o da Inglaterra, que se estendeu para todo o Reino Unido por meio do Partido Trabalhista Britânico. No Brasil, o termo foi apropriado nos anos 30 e 40. A noção internacional de trabalhismo, no caso brasileiro, serve como uma roupagem. Aqui, nossa invenção do trabalhismo tem uma trajetória toda própria, relacionada ao getulhismo ou varguismo. O reformismo social aqui está presente, mas o encaminhamento dessas reformas é distinto, numa trajetória latino-americana (HISTÓRIA FM 134, 2023).

 

A narrativa do filme começa com o retorno de Brizola ao Brasil, em 1979, após um longo exílio de 15 anos no qual ele passou por países como Uruguai, Estados Unidos e Portugal. Naquela ocasião, Brizola retornara a solo brasileiro sendo considerado o inimigo número um da ditadura militar que o expulsara do país, permanecendo no posto de inimigo número um até o fim do regime. O filme então recapitula a trajetória do líder político alinhado ao então vigente processo de redemocratização, começando por seu nascimento e infância pobre, em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul.

 

Sua formação – graduando-se em engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e seu ingresso na carreira política são retratados brevemente. Nessa época, em que Getúlio Vargas era a mais notória personalidade política do país, o jovem Brizola entra para o recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que não deve ser confundido de forma alguma com o PTB mais recente, do período de redemocratização, que abrigou figuras como Roberto Jefferson e que no fim do ano passado se fundiu ao Patriotas. Mas essa história é contada mais à frente pelo filme.

 

Após se eleger deputado estadual e federal e prefeito de Porto Alegre, em 1958 o caudilho é eleito governador do Rio Grande do Sul. É nesse cargo que Brizola se notabiliza como defensor do processo democrático, ao coordenar o que ficou conhecido como “campanha da legalidade”. Com a renúncia de Jânio Quadros, o sucessor legal e direto na presidência do país era Jango. Diante da iminência de um golpe, mobilizado por setores das elites conservadoras do país desfavoráveis a Jango, Brizola, aliado ao comando do III Exército, lidera em 1961 civis e militares em uma grande mobilização para que a sucessão presidencial se desse conforme a Constituição vigente à época. Por isso o nome “campanha da legalidade”. Tratava-se de um movimento para que a lei fosse cumprida.

 

Naquele momento, o golpismo fora derrotado e Jango assume a presidência. Mas três anos depois, em 1964, os golpistas teriam sua revanche. Jango é deposto. Brizola se propõe a resistir ao golpe, mas Jango, temendo um derramamento de sangue e não vendo alternativa, se resigna com o exílio. O filme pontua bem as diferenças entre as duas grandes figuras trabalhistas daquela época: de um lado, um Jango moderado que parecia acreditar demais na conciliação e na possibilidade de governar com o apoio da direita; de outro, um Brizola mais inflamado, mais à esquerda e disposto ao risco de uma possível luta armada. Golpe posto, ambos têm de sair do país.

 

O filme enfatiza, deixa claro, inclusive pelas palavras do próprio Brizola, que os golpistas de 64 eram os mesmos que tentaram o golpe em 1961, que por sua vez eram os mesmos que, anos antes, tentaram também golpear Getúlio Vargas. Essa tradição golpista fica bem caracterizada no documentário de Marco Abujamra. Em entrevista, o diretor destacou que Brizola usou seu poder de comunicação para “promover ideias consideradas extremistas e comunistas” pelos setores conservadores.  De acordo com Abujamra, “é surpreendente que, em 2024, as mesmas ideias continuem a ser consideradas extremistas por grande parte da população”, disse o diretor [1].

 

O filme parece sugerir um certo caráter cíclico da história, mostrar as continuidades, um passado que ainda se faz presente. Mesmo após o golpe, durante e depois do exílio, os ditadores não deixaram de dificultar as coisas para o velho caudilho. Em 1980, já de volta ao Brasil, Brizola tenta refundar o PTB para protagonizar à frente do histórico partido a retomada do processo democrático. Mas a ditadura militar, mesmo desgastada àquela altura, consegue dar mais uma cartada e, numa manobra jurídica por meio do Tribunal Superior Eleitoral, é concedido o direito ao uso da legenda a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas e alinhada aos conservadores. João Trajano de Lima Sento-Sé, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), fala sobre a disputa entre Ivete e Brizola:

 

O processo de redemocratização foi controlado pelas elites vinculadas aos militares de forma que o poder não escapasse destas mãos. O trabalhismo era o grande fantasma e tinha um nome singular que assustava especialmente: o de Brizola. Os setores conservadores influenciaram decisivamente na vitória judicial de Ivete Vargas. É historiograficamente aceito que a decisão judicial teve clara influência dos militares (SENTO-SÉ, 2018).

 

Derrotado na disputa pela legenda PTB, Brizola funda o PDT. O novo partido, herdeiro do trabalhismo histórico, é bastante influente no processo de redemocratização, agitando as massas por democracia, ou, nas palavras do próprio Brizola, “com essas três letras vamos eletrizar o Brasil”. Aqui temos mais um ponto de destaque na narrativa de Abujamra: os dois mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro: de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994.

 

O primeiro mandato é marcado pela criação dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), projeto elaborado por Darcy Ribeiro. As unidades, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, foram popularmente batizadas de “Brizolões”. A iniciativa era bastante avançada para os padrões do ensino público da época (e até para os dias de hoje), com ensino em tempo integral, muitas atividades esportivas, recreativas e culturais, atendimento médico e odontológico para as crianças, dentre outros serviços. Mas uma parcela da sociedade considerava o projeto dos Cieps caro demais. Brizola respondia que “cara é a ignorância”.

 

Nesse ponto o filme mostra com clareza um embate político que marcaria os mandatos de Brizola no Rio de Janeiro e a esfera pública fluminense: de um lado, os apoiadores de Brizola, aqueles que apostavam na educação e na extensão de um estado de direitos sociais para as camadas mais pobres da sociedade; de outro, adversários de Brizola apostavam na segurança pública e aumento da repressão contra uma criminalidade que, segundo eles, havia se ampliado no Rio de Janeiro comandado por Brizola.

 

Venceu o segundo grupo e, aos poucos, o projeto dos Cieps foi descontinuado. Por outro lado, a situação da segurança pública no estado também piorou. O filme retrata o quanto a má fama com a qual Brizola teve que conviver até o fim de sua vida, de ser um político que contribuiu para o aumento da violência e criminalidade, foi inflada por seus adversários conservadores e pela mídia – principalmente pela Rede Globo. Aliás, o célebre direito de resposta que o caudilho conseguiu na justiça contra a emissora, lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, é um dos momentos mais marcantes do documentário e que mais despertou reações da plateia na sessão de estreia.

 

Cabe acrescentar que, ao ser alvo de uma campanha de desconstrução da imagem enquanto suposto responsável por uma crise de segurança pública, Brizola seria só o primeiro de uma sequência de políticos do Rio de Janeiro desgastados por um tipo de marketing eleitoral folclórico da política fluminense que é a criação da figura do político “defensor de bandido”. Geralmente, essa acusação de “defensor de bandido” recai em políticos de esquerda e centro-esquerda. Brizola foi o primeiro (no Rio, chegaram a apelidar cocaína de “Brizola”), seguido por Benedita da Silva, Fernando Gabeira (“quem fuma e cheira vota no Gabeira”, diziam), Marcelo Freixo e até Marielle Franco, ainda que esta não tenha tido tempo para disputar um mandato no Executivo. Setores à direita tiram proveito desse discurso. Curiosamente, governadores que foram efetivamente parar na cadeia, como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, não sofreram com essa pecha.

 

A acusação a Brizola não é amparada em dados concretos sobre criminalidade. Passados 30 anos do fim de seu segundo mandato como governador, a violência no estado do Rio de Janeiro segue alarmante, inclusive com o aprofundamento do problema das milícias e o aumento de sua infiltração no estado. O sociólogo José Cláudio Alves, com pesquisa sobre a violência no Grande Rio, ressalta essa falta de fundamentação na desconstrução da imagem do velho caudilho.

 

Ao meu ver isso é uma espécie de criação de um bode expiatório político. O Brizola tinha uma política de não abuso, não violência contra membros de favelas e comunidades pobres, por conta da própria lógica do populismo, da qual o Brizola vem - herança de Getúlio Vargas, de um poder calcado no popular (ALVES, 2010).

 

Mesmo sucateado com o passar dos anos, o projeto dos Cieps ainda influenciaria outras iniciativas de ensino público no Brasil, como os Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics), do governo Collor, e as Escolas do Amanhã, do governo Eduardo Paes no município do Rio. O filme nos mostra a inspiração brizolista sobre os Caics. Nesse ponto, o diretor Abujamra parece superdimensionar o peso da influência de Brizola em Collor como uma das possíveis razões que culminariam no processo de impeachment deste último, ao levantar a hipótese de um Roberto Marinho bastante insatisfeito com Collor por causa do projeto das escolas federais, brizolistas demais para o gosto do barão da comunicação. A insatisfação do megaempresário, adversário político de Brizola, teria sido, na perspectiva do filme, crucial para que a Globo retirasse o apoio político dado a Collor e que anos antes ajudara a elegê-lo.    

 

Outros feitos de Leonel Brizola recebem destaque no filme, como a criação do Sambódromo, em 1984, que foi cercada de polêmicas e críticas – para variar – das Organizações Globo. “Contrária às novas regras, inclusive o desfile em dois dias, a TV Globo e O Globo boicotaram a obra e praticamente torciam para ela não ficar pronta a tempo. Diariamente, um ‘especialista’ era chamado a opinar para criticar o projeto” [2].

 

Lançado no ano em que se completam 40 anos de Sambódromo e 20 da morte de Leonel Brizola, o documentário nos ajuda a entender o cenário político brasileiro do século 20 e suas continuidades no século 21. E deixa no espectador uma sensação de que o Brasil seria melhor se Brizola tivesse podido fazer mais, como bem disse o organizador do festival antes do início da exibição. Para quem quiser saber mais sobre Brizola e o trabalhismo, recomendamos o artigo de Ângela de Castro Gomes, cujo nome é justamente “Brizola e o Trabalhismo” (GOMES, 2004). Escrito na ocasião da morte de Brizola, a autora fez indagações sobre o futuro do trabalhismo após a morte do velho caudilho. Tais indefinições persistem 20 anos depois.

 

Ainda que seja muito difícil saber se ele vai conseguir se transformar e renovar-se para sobreviver, não há dúvida de que o trabalhismo pode ser reconhecido como uma das ideologias  e  tradições  mais  importantes  da  cultura política do Brasil republicano (GOMES, 2004, p. 19).

 

 

Referências

ALVES, José Cláudio. 'Os dois segmentos que organizam o crime no Rio - o Estado e as facções - saíram vitoriosos'. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. 10 dez 2010. Disponível em: < https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/os-dois-segmentos-que-organizam-o-crime-no-rio-o-estado-e-faccoes-sairam >. Acesso 11 abr 2024.

 

GOMES, Ângela de Castro. Brizola e o trabalhismo. In: Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p.11-20, jan./dez. 2004.

 

HISTÓRIA FM 134: Trabalhismo: das origens ao seu desenvolvimento no Brasil. Entrevistador: Icles Rodrigues. Entrevistado: Reinaldo Lohn . [s.l.] Leitura ObrigaHISTÓRIA, 01 mai. 2023. Podcast. Disponível em < https://leituraobrigahistoria.com/podcast/trabalhismo-das-origens-ao-seu-desenvolvimento-no-brasil/ >. Acesso em: 11 abr 2024

 

SENTO-SÉ, João Trajano de Lima. De Getúlio Vargas a Cristiane Brasil, como o PTB passou do trabalhismo histórico aos ataques à Justiça do Trabalho. BBC Brasil. 31 jan 2018. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42881692 >. Acesso em 11 abr 2024.

 

Notas

[1] Fundador do PDT, Brizola ganha documentário sobre sua história

https://www.boletimdaliberdade.com.br/2024/03/20/fundador-do-pdt-brizola-ganha-documentario-sobre-sua-historia/

 

[2] O dia que a TV Manchete destronou a TV Globo na transmissão do Carnaval do Rio

https://bafafa.com.br/arte-e-cultura/carnaval/o-dia-que-a-tv-manchete-destronou-a-tv-globo-na-transmissao-do-carnaval-do-rio