domingo, 13 de abril de 2025

O roqueiro reaça ataca novamente: as polêmicas envolvendo a banda Ira!

 


Apesar da postura e posicionamento de algumas bandas, não se pode negar o caráter reacionário de boa parte dos fãs de rock

 

Na última semana uma produtora teve um post viralizado no qual comunicava o cancelamento de quatro shows da banda Ira! no Sul do Brasil. Era mais um episódio da polêmica recente envolvendo o grupo que surgiu nos anos de 1980 e faz parte de uma geração que marcou a história do rock nacional, junto com Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Capital Inicial, Barão Vermelho e tantas outras bandas.

 

Quem acompanha a trajetória do Ira! sabe que a banda tem um histórico de polêmicas e de posicionamentos firmes, em relação à política e à indústria musical. De acordo com os jornalistas e pesquisadores musicais Arthur Dapieve e Luiz Henrique Romanholli (2000), dentre os artistas do rock 80, o Ira!, juntamente com a Legião Urbana, foi a banda a segurar com mais firmeza a bandeira da ética.

 

Os shows foram cancelados nas cidades de Jaraguá do Sul (SC), Blumenau (SC), Caxias do Sul (RS) e Pelotas (RS). Os cancelamentos, segundo a produtora, foram resultados do abandono de patrocinadores e devolução de ingressos. Tudo porque em um show em Contagem (MG), dias antes, o vocalista Nasi gritou “sem anistia”, como forma de pedir punição aos golpistas do 8 de janeiro. Ele recebeu aplausos de parte do público, mas também algumas vaias, vindas de uma dúzia de Zé Golpinhos. Às vaias, o vocalista respondeu:

 

“Pra vocês que estão vaiando, eu vou falar uma coisa: tem gente que acompanha o Ira!, mas nunca entendeu o Ira! Nunca entendeu o Ira! Tem gente que acompanha a gente e é reacionário, tem gente que acompanha o Ira! e é bolsonarista, isso não tem nada a ver, gente! Por favor, vão embora! Vão embora da nossa vida! Vão embora e não apareçam mais em shows, não comprem nossos discos, não apareçam mais. É um pedido que eu faço”.

 

Talvez as palavras não tenham sido bem escolhidas. O problema desse discurso, feito no calor das emoções, é que ele lança luz em uma polarização entre esquerda e extrema direita, quando, nesse caso bem específico, a polarização é entre defensores da democracia e defensores do golpe. Nem todos os simpatizantes da direita ou que votaram em Bolsonaro necessariamente defendem golpe de estado.

 

Portanto, a ira de Nasi foi contra os golpistas. E golpe é crime! Quem defende golpe publicamente está defendendo crime publicamente. Golpe é crime previsto em nossa legislação assim como estupro e homicídio. E o fato de você simpatizar com um golpista não faz com que um golpe de estado deixe de ser crime. Do mesmo modo, simpatizar com um estuprador não faz o estupro deixar de ser crime.

 

Logo, não deveria ser razoável pedir aos artistas ou a quem quer que seja isenção e imparcialidade quando se está diante de uma polarização na qual há democracia de um lado e golpismo de outro. Golpe é crime e não se pode ser isento quanto a isso. Aqueles que vaiaram Nasi por causa de seu grito de “sem anistia” acham que o voto deles vale mais do que o dos outros. São pessoas que talvez, quando crianças, quando estavam perdendo o jogo de futebol ou de queimada, furavam a bola e acabavam com o jogo. Mas não é assim que nossa complexa sociedade e seu sistema político funcionam. Quem perde nas urnas deve esperar a próxima eleição.

 

O discurso de Nasi em Contagem levanta também uma questão: a dissonância entre a obra de um artista e a compreensão da obra por parte de seu público. Não é de hoje que o problema aparece. Em uma das vindas de Roger Waters ao Brasil, alguns fãs (bolsonaristas) ficaram indignados com os posicionamentos políticos do lendário vocalista do Pink Floyd em suas apresentações. Mas, convenhamos: para quem acompanha a carreira e as letras do artista isso não deveria ser surpresa nenhuma.

 

Da mesma forma, sobre o Ira!, a jornalista Mariliz Pereira Jorge chama a atenção para essa dissonância:

 

“Será que as pessoas que estavam no show em Contagem e vaiaram compraram ingresso e nunca prestaram atenção nas letras das músicas da banda? Nunca pensaram em que contexto histórico não só o Ira!, mas muitas bandas de rock nasceram? Para e pensa na letra de ‘Núcleo Base’, do Ira!, que é de 1985: ‘Eu tentei fugir / Não queria me alistar / Eu quero lutar / Mas não com essa farda’” [1].

 

A jornalista destaca que o Ira! é uma daquelas bandas surgidas no início dos anos 1980, nos últimos anos da ditadura empresarial civil-militar que cerceou direitos políticos e liberdades individuais, que censurou artistas e a imprensa. Foi nesse contexto e contra esse estado de coisas que o Ira!, os Titãs e tantas outras bandas influenciadas por um punk rock mais à esquerda eclodiram na cena musical do Brasil. 

 

Faz sentido gostar de uma artista, gostar de sua obra, mas discordar do conteúdo do ponto de vista político? Entendo que sim. A arte é livre e o público também. Mas isso é sempre uma pena, pois quando isso acontece deixa claro que algo está se perdendo na fruição da obra. Algo está se perdendo na comunicação entre artista e público. E também não dá para demonstrar muita surpresa quando o vocalista de uma banda como o Ira!, surgida no contexto em que surgiu, pede punição a gente que queria uma nova intervenção militar no país, influenciada pelo golpe de 64, e forçou uma barra para isso por meio de atos violentos. Sem contar que, no fundo, o texto da anistia visa proteger principalmente os idealizadores do golpe: políticos e militares de alto escalão que não tiveram coragem de dar as caras na Praça dos Três Poderes naquele 8 de janeiro.

 

A HISTÓRIA DA BANDA

Formada em São Paulo, em 1981, com forte influência do punk rock e também da estética mod e de bandas como o The Jam, a formação clássica do Ira! conta com Nasi (voz), André Jung (bateria), Ricardo Gaspa (baixo) e o lendário guitarrista Edgard Scandurra, considerado um dos melhores daquela geração anos 1980, com uma técnica peculiar de tocar: canhoto, ele toca com a guitarra invertida (feita para destro), mas sem alterar as cordas.

 

Desde o início de carreira a banda insurgiu contra gravadoras e as máfias de rádios FM, que exigiam grana (o famoso “jabá”) e a participação em shows gratuitos promocionais para tocar as músicas dos artistas. O mesmo acontecia no famoso Programa do Chacrinha, na Rede Globo. Foi nos bastidores do Chacrinha que ocorreu uma das tretas mais famosas do Ira! Em uma apresentação especial de Natal, a produção do programa exigiu que os diversos artistas entrassem no palco do estúdio com gorro de Papai Noel. O Ira!, que já não curtia fazer playback, não queria usar o gorro e não gostou da forma impositiva como a produção do programa agiu, ameaçando-os inclusive de nunca mais se apresentarem na Globo caso se negassem a usar o adereço. Resultado: na hora H os integrantes da banda largaram o gorro e saíram fora do estúdio. Apesar do boicote, ainda assim depois disso eles emplacaram a canção “Flores em você” na abertura da novela das oito “O outro” na emissora. Nada mal.

 

Mas nem tudo são flores na história do Ira! Um dos primeiros sucessos da banda, a canção “Pobre paulista” é considerada xenófoba e preconceituosa contra imigrantes nordestinos. Críticas que a banda sempre rebateu alegando que a letra era coisa de garotos que não sabiam bem o que estavam dizendo. Isso aliás é algo que deve ser destacado quando falamos sobre posicionamentos políticos de roqueiros. Normalmente os artistas de rock fazem sucesso muito jovens e por isso, por mais contraditório que isso possa soar em relação a este texto, é complicado esperar coesão plena desses músicos quando se trata de política. São artistas e não cientistas políticos (Tom Morello, ex-guitarrista do Rage Against the Machine e do Audioslave, é também cientista político formado por Harvard. Mas ele é exceção).

 

Nasi (cujo nome verdadeiro é Marcos Valadão) recebeu esse apelido no tempo da escola por ser muito encrenqueiro. A polêmica canção “Pobre paulista” e o apelido do vocalista (que ele faz questão de grafar com S e não com Z, para se dissociar da extrema direita) foram motivos para que, no início de carreira, o Ira! fosse associado por alguns críticos e produtores ao nazifascismo. Associação que não se sustentou ao longo da história da banda. Essas e outras confusões da banda são lembradas pelo crítico Júlio Ettori, para quem o Ira! é “a banda mais rebelde e maldita do rock nacional” [2].  

 

Claro que a postura do grupo gerou problemas para seus integrantes ao longo da carreira. Então esses cancelamentos de shows no Sul do Brasil não chegam a ser novidade na história do Ira!. No mesacast Inteligência Ltda, Nasi explica porque o Ira! não fez tanto sucesso comercial quanto outras bandas daquela geração, como Titãs e Legião Urbana:

 

"Eu vejo várias matérias: 'Ah, o Ira, banda injustiçada', realmente. Mas eu falo com muito orgulho, o Ira fez a sua escolha. Eu não lamento não ter vendido tantos discos como os Titãs, como Legião, mas entendo que foi uma escolha nossa. Algumas coisas, se eu voltasse no tempo eu repensaria, mas a touquinha não!" [3], disse o vocalista, ressaltando que rock, para ele, tem a ver com indisciplina, e relembrando o caso da imposição do gorro de Papai Noel no Programa do Chacrinha. "Imagina botar fogo numa touquinha?", complementa Nasi, para as risadas no estúdio do mesacast.

 

O ROQUEIRO REAÇA

O cancelamento dos shows da banda em cidades sulistas levantou mais uma vez a polêmica sobre a figura do roqueiro reaça. Esses fãs golpistas que supostamente devolveram os ingressos. Apesar da postura do Ira!, roqueiro reaça é uma figura comum que a essa altura não deveria causar muita surpresa. Falamos sobre isso ao comentarmos a posição negacionista do cantor Marcelo Nova (Camisa de Vênus) na ocasião da pandemia [4].

 

Vez ou outra, por conta de alguma declaração política feita por algum músico – ou como no caso do Ira! por conta da reação do público – surge no debate público falas a respeito do roqueiro reaça, sempre carregadas com um certo tom de indignação e surpresa, vindas de gente que se diz espantada com o fato de um roqueiro ser reacionário, de extrema direita ou conservador. Muita gente que se entende de esquerda ou progressista fala em decepção por causa de velhos roqueiros como Eric Clapton, Morrissey, Marcelo Nova, Lobão, Digão (da banda Raimundos) e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), que adotaram posições reacionárias e até negacionistas (principalmente no período pandêmico).

 

Mas a figura do roqueiro reaça não deveria impressionar tanto, não deveria ser vista como um exemplo de pessoa contraditória. Por várias razões. Primeiro, porque quem se espanta com o roqueiro reaça, achando-o contraditório, é porque (1) não conhece a história do rock e não sabe que desde sua popularização, na década de 1950, o gênero sempre esteve vinculado a uma classe média branca (apesar das raízes negras), ou (2) bota muita fé no “progressismo” das classes médias brancas no Brasil e no mundo.

 

A classe média branca tem um potencial para o reacionarismo mais do que comprovado. Movimentos como o fascismo e o nazismo foram disseminados e consolidados em grande medida com base na força da classe média branca europeia. Nos Estados Unidos, onde o rock surgiu, mesmo bebendo da fonte da música negra e de artistas negros, logo em seu nascedouro esse gênero musical foi rapidamente embranquecido, e a indústria musical elegeu Elvis Presley, um branco, como o “rei do rock”. Não cabe aqui nenhuma crítica a Elvis como artista, muito menos uma acusação de que ele próprio seria racista. Não é isso! Aliás, Elvis chegou a abrir espaço para artistas negros em sua carreira e, de seu modo, se contrapôs ao conservadorismo da época. A questão é o que a escolha de um artista branco como ídolo maior de um estilo musical de origem negra revela sobre a indústria e, principalmente, sobre a sociedade e aquela audiência da época.

 

Mas isso foi na década de 1950. De lá para cá muita coisa mudou, certo? Mais ou menos. Basta ver o hall da fama do rock ao longo de sua história. Quantos ídolos do gênero são negros, pardos ou mulheres? São poucos os exemplos. A grande maioria é homem branco mesmo.

 

Também não estou afirmando que a classe média branca é necessariamente reacionária, mas que é preciso cautela quanto às expectativas políticas progressistas depositadas sobre ela. Se rappers como Emicida, MV Bill ou Mano Brown se tornarem reacionários no futuro, eu até ficaria um pouco surpreso, já que há anos o rap/hip-hop possui forte identificação com as periferias, onde está a grande maioria da classe proletária. Mas esse já não é mais o caso do rock, tão assimilado pela classe média branca e aos poucos distanciado da periferia (de onde veio o Ira!).

 

O reacionarismo de roqueiros não deveria mais causar espanto em tanta gente. Sobre o modo como o rock foi sendo aos poucos assimilado pelo mainstream e perdendo sua aura contestadora, vale a pena conferir uma série de videoensaios do canal Normose [5].

 

Em resposta à produtora que cancelou os shows do Ira!, uma outra produtora dos shows da banda fez uma postagem em tom de deboche, usando a mesma letra e visual da mensagem da produtora anterior, confirmando que o show em Porto Alegre está de pé:

 

“Informamos que devido aos últimos acontecimentos envolvendo a banda Ira!, não temos outra alternativa a não ser comunicar que o show ‘Ira! Acústico 20 Anos’, que estava programado para o dia 8 de novembro, sábado, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, irá ocorrer normalmente (e a previsão é de casa cheia, viu?)”. [6]

 

Enfim, mais uma treta na história do Ira!, a banda mais maldita da geração roqueira oitentista. Nada que eles não estejam acostumados. Vida que segue. Viva o Ira! Golpistas na cadeia!

 

Referências:

DAPIEVE, Arthur; ROMANHOLLI, Luiz Henrique. Guia de Rock em CD: uma discoteca básica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

 

[1] A direita cancela o Ira! | De Tédio a Gente Não Morre

https://www.youtube.com/watch?v=PCnPXpwL1jU&list=PLoqCk3g6WofXq9WR-d3ydU1NMEhc00jM_

 

[2] O IRA! ERA UMA BANDA MALDITA - E ESTA É A HISTÓRIA PROIBIDA DE TRETAS, SEXO E DR*OGAS

https://www.youtube.com/watch?v=agPc3daJFi0

 

[3] POR QUE a BANDA IRA! NÃO VENDEU TANTOS DISCOS QUANTO TITÃS e LEGIÃO URBANA? - NASI e REGIS TADEU

https://www.youtube.com/watch?v=vAHPOvK4R-k

 

[4] Dia Mundial do Rock: roqueiros reaças, falácias e negacionismo

https://apatria.org/politica/dia-mundial-do-rock-roqueiros-reacas-falacias-e-negacionismo/

 

[5] Por que o ROCK virou coisa de reaça? (partes 1, 2 e 3)

https://www.youtube.com/watch?v=flo0_pi_z80

https://www.youtube.com/watch?v=woeM87KUUCw&t=3s

https://www.youtube.com/watch?v=tykiORw-POM

 

[6] A mensagem debochada de produtora de Porto Alegre, que manteve show do Ira!

https://igormiranda.com.br/2025/04/ira-mensagem-produtora-porto-alegre-mantem-show/

 

 

#ira #ira! #rock #roqueiroreaça #musica #semanistia #roqueiros #historia #golpe #golpismo

 

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Mickey 17 e o escapismo tecnológico

 


Modelo de desenvolvimento e colonização exploratória, que tanto fez estragos à própria Terra, é levado a outro planeta

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho com certeza sabia que não tinha uma tarefa fácil pela frente. Depois de vencer o Oscar de melhor filme com Parasita (2019), primeiro filme em língua não inglesa a faturar na categoria principal da maior premiação cinematográfica do mundo, era óbvio que as expectativas a respeito de suas próximas produções iriam aumentar e que o sarrafo seria elevado para avaliar o seu próximo filme. A “solução” encontrada por ele foi investir em uma obra divertida, que se vale de um humor caricatural, talvez para se distanciar dos parâmetros de Parasita. Assim surge Mickey 17 (2025), em cartaz nos cinemas, que deixa claro que se vale de tons e tintas distintos da premiada obra anterior.

Mas não é nada fácil escapar do peso da crítica. Com um sarrafo elevado, alguns críticos têm apontado falhas e afirmado que este se trata do filme mais fraco do diretor, ainda que ponderem que ser um filme fraco dentro da filmografia de Bong Joon-ho ainda assim é algo bem relevante. Fato é que o longa-metragem, estrelado por Robert Pattinson, teve seu lançamento aprisionado pelas expectativas elevadas. Passados alguns anos, certamente Mickey 17 será valorizado por suas características intrínsecas e o tempo lhe será generoso.

No filme, Pattinson interpreta Mickey, um jovem que, tendo pouca formação e muitas dívidas, aceita ser usado para todo tipo de trabalho perigoso e degradante como parte de um programa de exploração espacial. Esses trabalhos com frequência o levam à morte, mas ele é sempre recriado, com suas memórias e seu corpo mantidos. Ele é, portanto, o que se chama de “descartável”, e justamente por isso pode ser usado nos trabalhos mais perigosos e degradantes. Apesar dessa premissa, o filme é divertido.

Se por um lado a filmografia de Joon-ho aprisiona esse lançamento em expectativas elevadas, por outro, ela nos ajuda a nos ambientar no universo do diretor e entender de forma clara suas propostas. A precarização do trabalho e a descartabilidade do trabalhador são questões pertinentes e óbvias em Mickey 17, principalmente se levarmos em conta que a luta de classes é assunto recorrente na obra do diretor. Podemos citar como exemplo O expresso do amanhã (2013) e o próprio Parasita, que também tratam do assunto com clareza. Mickey 17 tem muito dos dois, mas mais do primeiro (por se tratar de ficção científica e de retratar uma microssociedade que reproduz questões da sociedade mais ampla), além de beber muito da fonte de Okja (2017), outra obra de Joon-ho, por causa de certo tom fantástico adotado.

O novo filme aponta para muitas direções em suas críticas sociais e filosóficas: clonagem e identidade (o que faz você ser você?), exploração predatória da natureza, pureza racial e eugenia, populismo autoritário, tecnopopulismo, segregação de classe (o indivíduo “descartável” vale menos que as “pessoas normais”), relação entre alma e corpo etc. Por ser tão inflado de ideias, Mickey 17 se aprofunda em pouca coisa. Mas talvez isso faça parte de sua proposta. As questões são levantadas e seguidamente descartadas, tal qual o personagem de Pattinson. Entretanto, uma ideia vai crescendo na segunda metade do filme e ganha protagonismo. Trata-se da colonização e da relação entre colonizadores e povos nativos, aqui representada na relação entre os terráqueos, que fazem parte da expedição espacial, e os “rastejantes”, habitantes do planeta nevado que é candidato a substituir a Terra como nosso novo lar. Isso pode decepcionar algumas pessoas, pois o tema principal e óbvio, que era a precarização do trabalho, aos poucos cede espaço para este outro. Alguns críticos, desapontados com essa surpresa, reclamaram dessa descartabilidade de ideias.

“Parece um croissant mergulhado na merda”. Assim a personagem de Tony Collete – que junto com Mark Rufallo forma o casal caricato de vilões da trama – se refere à aparência de um rastejante. A estética repugnante desses seres nativos não é posta na tela à toa. Trata-se de uma opção estética para nos levar ao asco em relação a esses nativos para, pouco depois, sermos pegos no contrapé, ao descobrirmos que esses seres feios e esquisitos possuem capacidade de empatia, senso de coletividade e nível de organização bastante avançados, até mesmo para nossos padrões.

 

ESCAPISMO TECNOLÓGICO

                Obviamente que, ao vermos o empreendimento de colonização predatória dos terráqueos pesar contra os rastejantes nativos, estabelecemos analogias com o que conhecemos dos processos de colonização exploratória que vimos em nosso planeta. Por exemplo, a colonização europeia promovida em detrimento de povos das Américas, África e Ásia. No filme, entretanto, a colonização interplanetária feita pelos terráqueos é resultante de algum tipo de cenário pós-apocalíptico no qual a vida na Terra se tornou degradante ou insustentável sem a exploração de mais e mais recursos e territórios, que seriam então obtidos com a dominação e o controle de outros planetas. Aliás, é justamente por conta dos riscos do empreendimento que um trabalhador descartável se torna necessário. Há muitos perigos no espaço e nos novos territórios, como vírus ou seres rastejantes famintos. Um descartável pode servir de bucha de canhão ou cobaia nas mais diversas ocasiões.

                Em meio a tantas questões lançadas superficialmente no filme, esta tangencia várias delas: a de que a solução para problemas gerados na Terra pelo nosso avanço exploratório se dá (advinha!) com mais e mais exploração. E o desenvolvimento tecnológico seria o caminho, sempre a tirar um coelho da cartola para nos possibilitar a exploração infinita. É o que aqui chamamos de escapismo tecnológico. A historiadora Tatiana Roque (2021) desenvolve essa ideia. Ela explica que a história da humanidade nos últimos 300 anos, baseada em uma linearidade rumo ao progresso, é uma história excepcional. Essa visão de mundo, de que o futuro será sempre tecnologicamente mais avançado e mais próspero que o presente, tem sua base no Iluminismo e em um modelo de colonização europeia. Entretanto essa visão só foi possível nos últimos séculos às custas do uso desenfreado dos recursos naturais e do consumo de combustíveis fósseis. Ela não foi predominante na maior parte do tempo da existência humana e não é mais sustentável diante dos desafios contemporâneos.   

                Mas perante a necessidade de repensarmos nossos valores, há os que preferem dobrar a aposta na exploração capitalista. E o escapismo tecnológico representa essa dobra de aposta, valendo-se do desenvolvimento da tecnologia em busca de saídas milagrosas. Para que ampliarmos nossos cuidados com o planeta se podemos desenvolver tecnologias diversas suficientes para explorar outros planetas (inclusive a clonagem, para a criação de trabalhadores precarizados descartáveis que nos ajudarão nesse empreendimento exploratório espacial realizando os serviços mais difíceis)?

                Roque nos lembra da fala de Sam Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT, quando perguntado a respeito de como seria solucionada a alta pegada energética da inteligência artificial [1]. Isso porque o desenvolvimento e uso da inteligência artificial aumenta a demanda por eletricidade no planeta, o que se choca com as políticas de sustentabilidade. A resposta dada por Altman é o uso da fusão nuclear como forma de alimentação da IA. O problema é que, como explicam alguns pesquisadores, a fusão nuclear está distante de ser uma realidade que possa suprir a grande pegada de carbono da IA [2]. Logo, o que temos de concreto, de realidade imediata, é o desenvolvimento de sistemas e produtos tecnológicos que ampliam a demanda por energia. E para resolver isso? Não temos muito, só um suposto otimismo de seus desenvolvedores de que uma nova tecnologia virá solucionar o problema.

                Há outros casos por aí que talvez possamos classificar como escapismos tecnológicos. Um deles vem da geoengenharia: a injeção de partículas (aerossóis) na atmosfera para tentar reduzir o aquecimento global. A ideia é aumentar o albedo da Terra, sobretudo na estratosfera, para que ela passe a refletir mais radiação de volta ao espaço e, assim, torne-se um pouco menos quente. O albedo é a fração da luz refletida em relação à absorvida por um corpo ou superfície. Em vez de investimentos em ações concretas para a redução de gases de efeito estufa, um tipo de gambiarra de geoengenharia surge no horizonte como pseudossolução.

Dentro da ciência, ao que me parece, estamos descobrindo a duras penas que essa aparente progressão técnico-científica leva a um ponto que não é sustentável. É um ponto irreal. E aí temos uma grande cisão. Há quem insista e dobre a aposta: ‘Se eu emiti carbono demais e mudei o clima do planeta, o que eu preciso agora é de uma tecnologia de captura de carbono. E com essa nova tecnologia a gente vai dar um passo além, tirar a consequência do carbono e seguir a vida como ela é, usando mais petróleo e fazendo de tudo’ (...). Essa vertente aposta ainda mais nesse conhecimento técnico-científico e diz que daí virá a próxima solução. E há uma outra vertente que diz: ‘olha, há essas outras formas de conhecimento, de manejo, que estão se mostrando muito mais sustentáveis a longo prazo’”, resume o divulgador científico e biólogo Átila Iamarino, sobre a necessidade de se buscar outros valores e cosmovisões para além da visão iluminista e capitalista de progresso [3].  

Mickey 17 está longe de ser o primeiro filme a tratar desse problema. Em Não olhe para cima (2021), outra comédia, a temática é desenvolvida de forma bastante interessante. Um asteroide – que funciona como metáfora do risco das mudanças climáticas – está vindo na direção da Terra e irá destruí-la. Entretanto, em vez de as nações se unirem para destruí-lo antes que atinja o planeta, um bilionário CEO tecnopopulista (desses, tipo Elon Musk e Jeff Bezos), opta por uma missão pouco confiável, que é aproveitar partes do asteroide para extrair recursos minerais e, com isso, obter uma suposta prosperidade que seria distribuída a todos (tipo fazer crescer o bolo para depois dividi-lo, ou coisa parecida).

                É a tecnologia como panaceia, que irá nos possibilitar exploração e desenvolvimento contínuos. Os robôs responsáveis pela extração de minérios no asteroide são o escapismo da vez. O plano dá errado. Mas o escapismo continua, pois a empresa responsável pelo plano absurdo possuía uma nave preparada para vagar pelo espaço por séculos até encontrar um novo planeta caso a extração dos minérios desse errado e a Terra fosse destruída. Claro que nessa nave havia poucas vagas, somente para alguns privilegiado$.

                Mickey 17 é mais um desses bons filmes que retratam o uso capitalista da tecnologia a criar diversionismos, ou seja, a desviar o foco de problemas concretos e imediatos em busca de alguma suposta salvação que está no porvir, a depender de novas tecnologias. O filme poderia ter se aprofundado mais no quanto a tecnologia, que já foi vista como uma forma de amenizar o peso do trabalho sobre o homem, foi instrumentalizada para aprisionar esse homem em mais e mais trabalho? Talvez. No filme, a tecnologia inclusive é usada para, em nome do trabalho, replicar várias e várias vezes a vida de um homem, condenando-o a um trabalho perpétuo. Mas, retratar a tecnologia como um caminho para a expansão a outros planetas de um modelo de colonização exploratória que tanto fez estragos à própria Terra, é um achado bastante interessante que Mickey 17 proporciona. 

               

Referências:

Roque, Tatiana. O dia em que voltamos de Marte: uma história da ciência e do poder com pistas para um novo presente. São Paulo, Planeta.

 

[1] Negacionismo e Crise de Confiança na Ciência

https://www.youtube.com/watch?v=s5-gUjbl49U

 

[2] Sam Altman diz que fusão nuclear é solução para demanda de energia de IA

https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/sam-altman-diz-que-fusao-nuclear-e-solucao-para-demanda-de-energia-de-ia/#goog_rewarded

 

[3] O que é Deus? - Podcast Não Ficção

https://www.youtube.com/watch?v=tcwAHNJkwfw

sábado, 21 de dezembro de 2024

Sérgio Sacani não entendeu (ou fingiu não entender) o que houve na UFSC

 


Divulgador científico faz reducionismo caricato de controvérsias científicas no campo da psicologia

 

Nesta semana o geofísico e divulgador científico Sérgio Sacani, responsável por projetos de grande alcance de público nas mídias digitais, como os canais Ciência sem Fim e Space Today, causou polêmica em uma participação que fez no podcast Redcast. Em uma conversa da qual também fazia parte o ex-deputado estadual Arthur do Val, mais conhecido como Mamãe Falei e ligado ao movimento direitista MBL, Sacani referiu-se a um evento do qual participou no mês de novembro, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), de uma forma bastante pejorativa.

 

Fomos eu, Eslen Delanogare e uma professora falar sobre mudanças climáticas. Os caras invadiram a mesa e falaram ‘essa mesa não representa ninguém’. Eles queriam um índio, uma trans, um viado e um negro. Aí eu falei brincando para o Eslen: se fantasia de índio aí. [1]

 

O evento ao qual Sacani se refere dessa forma preconceituosa e grosseira foi a palestra de abertura da 21ª Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (Sepex), no dia 6 de novembro. A mesa foi intitulada “Cosmos, Vida na Terra e Saúde Mental: Uma Viagem Científica”, realizada no campus de Florianópolis, que contou com a participação da professora Regina Rodrigues, coordenadora de Oceanografia da UFSC; de Eslen Delanogare, psicólogo, doutor em Neurociências pela UFSC e também divulgador científico; e do próprio Sérgio Sacani.

 

Após a fala polêmica, a jornalista da UFSC, Amanda Miranda, foi à rede social X para desmentir Sacani:

 

Sou jornalista da UFSC e cobri essa mesa. De fato, somos uma universidade inclusiva, aberta e plural, mas não trabalhamos com mentiras. Isso não aconteceu! Lamentável uma pessoa com visibilidade e influência lançar um factoide absurdo para achincalhar a universidade pública.

 

Amanda postou vídeo com a exibição na íntegra daquela mesa, comprovando que não houve nenhum tipo de invasão. [2] Outro que veio a público desmentir o divulgador científico foi o secretário de comunicação da UFSC, responsável pela organização da Sepex 2024, Marcus Paulo Pessôa, que reafirmou que não houve invasão. “O que aconteceu foi que, antes do evento, quando as portas do auditório foram abertas, alguns estudantes foram lá muito respeitosamente e levaram faixas, com alguns protestos”.

 

Somando-se a Amanda Miranda e Marcus Pessôa, a própria UFSC emitiu uma nota afirmando não ter havido nenhuma invasão no evento, lamentando a fala de Sacani e reforçando que ele não mais será chamado para participar de nenhum evento na instituição:

 

Lamentamos a forma desrespeitosa com que o Sr. Sérgio Sacani referiu-se à UFSC e seus estudantes em sua participação em podcast. Mesmo submetida a uma forte restrição orçamentária, a UFSC se empenhou em um enorme esforço institucional de valorização da Sepex, que teve na mesa de abertura seu evento de maior visibilidade, com cerca de 2.000 pessoas presentes, além de significativa audiência online e cobertura da imprensa local. No entanto, tal esforço parece não ter logrado êxito em demonstrar ao convidado toda a potência e diversidade da UFSC.

 

Reforçamos nosso compromisso com a diversidade, com o debate democrático de ideias, com a universidade pública e gratuita, e por isso anunciamos que o Sr. Sérgio Sacani não será mais convidado a participar de atividades organizadas pela Administração Central da UFSC na atual gestão. [3]

 

Contrariado publicamente, em vez de se retratar, Sacani preferiu fazer um malabarismo semântico a respeito do conceito de “invasão”, para continuar sustentando que sim, teria havido uma invasão à mesa da qual participou. Em outra participação no mesmo Redcast, Sacani explica que a tal “invasão” teria sido a colocação de faixas de protesto feitas por estudantes da própria UFSC no palco onde haveria o evento pouco antes do evento começar.

 

“Uma pessoa que não era convidada subiu no palco e esticou a faixa lá”. Uma ideia controversa de invasão, já que as faixas foram colocadas pelos próprios estudantes da UFSC, que não precisam de convite para estar em um evento aberto da universidade na qual estudam. A própria instituição, responsável pelo espaço, não considera tal atitude como invasão, conforme consta na nota oficial.

 

O que realmente ocorreu?

 

Não vou aqui me alongar sobre o que é ou não é uma invasão. Embora particularmente eu entenda que Sérgio Sacani mentiu ao relatar o ocorrido na UFSC, basta-me reforçar que o que ele fez foi, no mínimo, uma distorção grosseira (em vários sentidos) do que de fato ocorreu e do que de fato estava sendo reivindicado pelos estudantes. Houve, sim, manifestações críticas a respeito da composição da mesa na qual o divulgador científico participou. Entretanto, essas manifestações, feitas por graduandos de psicologia da UFSC, foram mais complexas e mais técnicas do que Sacani tentou fazer parecer ao dizer que queriam “um índio e um viado na mesa”.

 

Em uma postagem feita no dia do evento, em 6 de novembro, na página de Instagram do “Centro Acadêmico Livre de Psicologia” da UFSC ( @calpsi ), os graduandos de psicologia escreveram suas críticas à composição daquela mesa. É possível observar que as reinvindicações dos estudantes não se assemelham a caricaturização grosseira apresentada por Sérgio Sacani. Segue a nota dos graduandos:

 

Hoje, quarta-feira (06/11/2024), às 18h30, ocorrerá no auditório Garapuvu a mesa de abertura da 21ª SEPEX intitulada “Cosmos, vida na Terra e saúde mental”. Entretanto, nós, corpo discente do curso de Psicologia, nos questionamos: a abordagem que será feita acerca de saúde mental e ciência reflete a pluralidade de epistemologias, subjetividades e modos de vida? De quais lugares partem os palestrantes escolhidos? Cadê os trabalhadores da rede de atenção psicossocial nesta mesa? Por que não houve diálogo com o curso e com o departamento de Psicologia para a construção deste evento, em se tratando de uma temática que nos é tão particular? Quais foram os critérios adotados pela comissão científica do evento? Em um território onde está vigente a política de morte manicomial da internação compulsória, é a partir dessa perspectiva que escolhemos discutir?

 

Na apresentação do palestrante convidado para falar sobre saúde mental, a universidade exalta o seu “estilo de vida saudável” e o reconhecimento que possui baseado na quantidade de seguidores nas redes sociais. Além disso, apresenta uma visão predominantemente biologizante e individual sobre a saúde mental com um debate raso: ou você a tem, ou não, beirando a lógica da medicamentalização. Diante disso, nos questionamos: a correlação entre a produção de saúde mental e características/escolhas individuais reflete o conhecimento e as práticas que estamos produzindo e gostaríamos de produzir enquanto curso, ciência e profissão?

 

Baseado em todos esses questionamentos, manifestamos a nossa insatisfação com a maneira como este evento foi planejado, e comunicamos que realizaremos uma intervenção no auditório Guarapuvu, fixando os cartazes que estão sendo produzidos coletivamente pelos estudantes do curso no dia de hoje.

 

Há muitas considerações que podemos fazer a respeito dessa manifestação dos estudantes. Em primeiro lugar, as críticas são direcionadas à escolha de Eslen Delanogare para a mesa. Não tinha a ver com Sacani. Os questionamentos envolvem controvérsias científicas e técnicas da área de psicologia, como quem teria mais legitimidade para falar sobre saúde mental; a ausência de um profissional de psicologia com experiência em atendimento psicossocial; a falta de diálogo com o curso de psicologia para a elaboração de evento cujo tema tem a ver com a área; um embate entre abordagens diferentes no campo da psicologia, já que, aparentemente, os estudantes têm uma, e o convidado, outra.

 

No texto dos graduandos, percebe-se ainda uma crítica às formas de validação de quem seria ou não especialista para falar sobre temas em tempos de mídias digitais, já que o texto critica a exaltação do número de seguidores do convidado a palestrante. Esse é um questionamento bastante pertinente nos dias atuais para a divulgação científica e que diz respeito a toda a sociedade e esfera pública.

 

Há ainda uma crítica à figura do influenciador digital que “vende” qualidade de vida de forma individualista e descontextualizada das condições sociais predominantes para a maioria da população, pregando um estilo de vida ao qual poucos têm acesso.

 

Entretanto, nada disso significa que eu concorde plenamente com a posição dos graduandos de psicologia da UFSC ou ache que as críticas feitas pelos mesmos se apliquem perfeitamente à figura pública de Eslen Delanogare. A questão aqui é outra. A questão é que a manifestação crítica dos estudantes é muito mais técnica e complexa do que querer colocar “um índio e um viado” na mesa, como Sacani fez parecer. Ao reduzir a discussão a uma caricatura grosseira, Sacani passou por cima de controvérsias científicas complexas de uma área que ele não domina. E isso é um erro enorme para um divulgador científico.

 

Por que Sacani mentiu ou distorceu os fatos?

 

Por que Sacani fez isso? Ele mentiu? Embora eu esteja convencido que é possível classificar a fala de Sacani como mentira, basta-me enfatizar que houve, no mínimo, uma distorção grosseira dos fatos e da discussão ocorrida dentro da universidade a respeito de um evento acadêmico.

 

E por que essa distorção ocorreu? É possível que isso tenha a ver com a busca de Sérgio Sacani por uma modulação de seu discurso, para falar a língua da audiência que ele entende ter ou que busca ter. Não é possível analisar a fala do divulgador científico sem levar em conta seus interlocutores e o canal no qual ele estava falando. Como dito anteriormente, Mamãe Falei, ligado à direita, era um dos integrantes da conversa, realizada no Redcast, um canal de destaque dentro da comunidade red pill, que também possui inclinação à direita.

 

Os círculos de direita e extrema direita têm como parte do repertório político ataques às universidades, principalmente às públicas. A guerra cultural virou uma importante ferramenta retórica desses grupos. Dentro dessa guerra cultural está incluída uma visão estereotipada das universidades enquanto antros de militância marxista, de esquerda identitária ou coisas do tipo. Uma estereotipagem normalmente muito rasa.

 

Não significa que as universidades vez por outra não mereçam críticas nesse sentido. Basta lembrarmos da performance intitulada “Educando com o cu”, da pesquisadora que mostrou as nádegas em evento da Universidade Federal do Maranhão. Eventualmente, episódios lamentáveis como esse ocorrem nas universidades. Logo, não é necessário criar nenhuma fanfic ou factoide como fez Sérgio Sacani. É importante criticar, mas mantendo a pertinência aos fatos.

 

Sacani conhece o repertório da bolha para a qual se direciona. Ele sabe da visão estereotipada da direita e extrema direita sobre as universidades. Ao resumir o que houve na UFSC a quererem um viado, um índio, uma trans e um negro em uma mesa de abertura, o divulgador científico busca conexão com o repertório que essa bolha já possui e gosta de lançar mão sempre que pode (e sempre que não pode, também).

 

Não deixa de ser curioso que Sacani reclame de invasão em universidade em uma mesa com o Mamãe Falei, este sim, um recorrente invasor de evento acadêmico, que já invadiu um evento fantasiado de vagina, em uma clara atitude de provocação às mulheres participantes. Aí pode invadir, né?

 

Dizem que não se deve jogar xadrez com pombo, porque ele espalha as peças, suja o tabuleiro e fica impossível jogar. Neste caso, o pombo foi o Sacani. Com todo respeito que tenho por seu bom trabalho enquanto divulgador científico, ao criar uma caricaturização grosseira de um debate complexo, ele apagou a complexidade do debate, tornou a discussão séria algo impossível e prestou um enorme desserviço.     

 

Referências:

[1] https://www.instagram.com/pragmatismopolitico/reel/DDxUT0ch6lg/

 

[2] https://www.youtube.com/watch?v=ZlI409w6vV0

 

[3] https://noticias.ufsc.br/2024/12/nota-da-administracao-central-da-ufsc-sobre-a-mesa-de-abertura-da-sepex/

 

[4] https://www.instagram.com/p/DCCuZlKvcmn/?img_index=1 


sábado, 26 de outubro de 2024

Comunidade científica do Rio se mobiliza contra troca de presidente da Faperj

 


Cláudio Castro avança com indicações políticas sem respaldo técnico na Ciência e Tecnologia do Estado

 

Manifestantes fizeram nessa quinta-feira, dia 24, um abraço coletivo simbólico na sede da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), no Centro do Rio. A manifestação, que reuniu principalmente pesquisadores do estado e funcionários da entidade, teve como motivação evitar que a fundação de amparo a pesquisas científicas seja presidida pelo empresário e ex-deputado federal Alexandre Valle. Bolsonarista e membro do PL, Valle seria o nome do governador Cláudio Castro para a Faperj, o que contraria fortemente a posição da comunidade científica do Rio de Janeiro, que quer a permanência do professor e pesquisador Jerson Lima da Silva na instituição.

 

A manifestação conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), duas das maiores entidades científicas do país. Em carta para o governador do Rio de Janeiro, SBPC e ABC destacaram o impacto positivo da gestão de Jerson Lima na inovação e no desenvolvimento científico do estado. A carta chama a atenção para o risco de que a escolha da liderança da Faperj seja meramente uma indicação partidária, o que pode comprometer a excelência científica e tecnológica que tem sido marca da fundação.

 

Jerson Lima da Silva, o atual presidente da Faperj, é médico, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um pesquisador altamente reconhecido na área de biologia estrutural e doenças neurodegenerativas e câncer no Brasil e no exterior. Já o bolsonarista Alexandre Valle tem perfil estritamente político, sem nenhuma ligação com a área de pesquisa e atuação como pesquisador. Valle é empresário no ramo de seguros, já se candidatou algumas vezes à Prefeitura de Itaguaí e foi derrotado em todas as ocasiões, inclusive na eleição deste ano, mesmo com o apoio de Bolsonaro e de outras figuras da extrema direita, como Nikolas Ferreira.

 

Atualmente a Faperj coordena mais de 6 mil bolsistas (de pré-iniciação científica, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e mais de 9 mil pesquisadores. As lideranças envolvidas na manifestação em defesa da Fapesp entendem que a pessoa à frente da fundação precisa ter um currículo compatível com a responsabilidade do fomento à pesquisa.

 

Além da SBPC e da ABC, a manifestação em repúdio à interferência política (sem o mínimo de respaldo técnico) na Faperj inclui outras vozes importantes, como a Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), que em nota destacou que uma nomeação estritamente política para gerir a fundação “vulnerabiliza a Faperj, coloca em risco o planejamento da agência e enfraquece a pesquisa em tecnologia e inovação no Rio de Janeiro”. 

 

Deputadas do PCdoB em defesa da Faperj

Parlamentares do Rio de Janeiro que têm como bandeira a defesa da ciência já se manifestaram contra mais essa decisão do governador Cláudio Castro. A deputada estadual, professora universitária e vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj, Dani Balbi (PCdoB) destacou que a Faperj é um dos principais pilares de apoio à ciência, à tecnologia e à inovação no Estado do Rio de Janeiro e que o setor de CT&I deve ser tratado como uma questão de Estado, e não apenas de governo, pois demanda planejamento de longo prazo. A deputada acaba de protocolar o Projeto de Lei 4328/2024, que altera a Lei nº 3.783, de 18 de março de 2002, para que o cargo de presidente da Faperj passe a ser necessariamente indicado por lista tríplice, formulada pela comunidade científica. A parlamentar explica:

 

– A Lei 3.783, de 18 de março de 2002, garante ao diretor científico e ao diretor de tecnologia um mandato de três anos, com nomeação a partir de uma lista tríplice. No entanto, a presidência da instituição, que é responsável pela direção geral de todas as atividades voltadas à consecução dos objetivos da fundação, bem como por sua representação judicial e extrajudicial, permanece como um cargo de livre nomeação e exoneração. Por essa razão, propõe-se que a nomeação do presidente siga as mesmas regras aplicáveis aos diretores científico e de tecnologia – explica Dani Balbi. 

 

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ) também se manifestou em defesa da Faperj, de Jerson Lima da Silva e da ciência do Rio de Janeiro. A parlamentar destacou que a Faperj sempre teve gestores comprometidos com a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

 

– O professor Jerson tem visão estratégica de longo prazo, honra e amplia esta tradição para fazer da fundação um pilar do desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação do estado. A exoneração do professor contraria isso tudo e não é aceitável. A Faperj não pode servir a indicações políticas –resumiu Jandira.

 

Secretário de Ciência do Estado já propôs a extinção da Uerj

A decisão pela exoneração do professor Jerson teria sido comunicada a ele há poucos dias pelo secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Anderson Moraes, também do PL e homem de confiança da família Bolsonaro. Quando falamos em Anderson Moraes, o cenário de desrespeito às instituições científicas fluminenses fica ainda mais caracterizado. Em 2021, quando era deputado estadual, Anderson Moraes protocolou na Alerj nada mais nada menos que um projeto para a extinção e venda da Uerj. Seu Projeto de Lei também previa que bens e alunos da Uerj fossem remanejados para universidades particulares.

 

A alegação de Anderson Moraes seria o gasto de dinheiro público para custear a Uerj. Seu pedido também trazia traços claros de guerra cultural contra às universidades, como a afirmação de haver “nítido aparelhamento ideológico de viés socialista na universidade”. A depreciação da imagem das instituições de ensino superior, com o uso de guerra cultural, pânico moral, negacionismo científico e anti-intelectualismo/antiacademicismo, tem sido uma arma política nas mãos da extrema direita no Brasil e no mundo.

 

Era de se esperar que um político com uma agenda tão antagônica a uma instituição de ensino e pesquisa passasse longe de um cargo público na área de Ciência e Tecnologia. Entretanto, em junho deste ano, Cláudio Castro nomeou Moraes como secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, para a surpresa e indignação de grande parte da comunidade científica fluminense. O geógrafo, professor e pesquisador da Uenf, Marcos Pędłowski, destaca que, na ocasião da nomeação de Moraes, faltou mobilização da comunidade científica.

 

– Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação [semelhante a que ocorre agora por causa da Faperj], o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj – explica o geógrafo.

 

A fala de Pędłowski acende um sinal de que, sem mobilização incisiva da comunidade acadêmica e científica do Rio de Janeiro, a politização institucional do setor à extrema direita e sem o cumprimento de requisitos técnicos mínimos tende a piorar.

 

A comunidade científica e acadêmica da Uerj criou uma petição pública contrária a saída do professor Jerson Lima da presidência da Faperj, que até o momento tem mais de 22 mil assinaturas. O texto do abaixo-assinado destaca que “A Faperj é essencial para o financiamento da ciência no estado do RJ, apoiando não só as universidades estaduais e federais, como também diversas frentes que valorizam a sociedade fluminense”.

 

As assinaturas serão entregues ao governador Cláudio Castro. Quem quiser assinar deve acessar o endereço abaixo:

 

https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR143907

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Há 62 anos, livro inaugural do ambientalismo moderno era lançado

Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, apontava os efeitos nocivos dos pesticidas para o meio ambiente

 

“Era uma primavera sem vozes. Outrora, as manhãs pulsavam com o coro de tordos, pombos, gaios, curruíras e dezenas de outros pássaros. Agora não havia som algum, apenas o silêncio reinava sobre os campos, bosques e pântanos. Até mesmo os riachos estavam sem vida. Nenhuma bruxaria ou qualquer outra ação inimiga tinha silenciado o renascimento da vida neste mundo alquebrado. As próprias pessoas haviam se encarregado disso (…). Sobre áreas cada vez maiores dos Estados Unidos, a primavera agora não é anunciada pelo retorno dos pássaros, e as primeiras manhãs são estranhamente silenciosas, onde antes estavam cheias da beleza do canto dos pássaros.”

Em 27 de setembro de 1962, era publicado nos Estados Unidos o livro Primavera Silenciosa (Silent Spring), da bióloga e ecologista estadunidense Rachel Carson. A obra é considerada um marco fundador do movimento ambiental moderno, figura em listas de principais livros de divulgação científica e é um ponto de virada na história da ciência, por ter sido uma das primeiras a popularizar a ideia de que a ciência, além de resolver problemas e ser um motor de desenvolvimento, também apresenta riscos e efeitos colaterais que precisam ser identificados, calculados e refreados.

Em seu livro, Carson alertava sobre os perigos do diclorodifeniltricloroetano (DDT) e pesticidas em geral. Seu principal argumento era o de que os pesticidas têm efeitos prejudiciais ao meio ambiente, uma vez que esses efeitos raramente se limitam às pragas-alvo, se estendendo à fauna e flora e aos seres humanos. Carson se refere a esses pesticidas como “biocidas”, por conta de seus efeitos tão abrangentes. Os efeitos da bioacumulação gerada por conta do uso do DDT e outros pesticidas sintéticos são minuciosamente descritos pela bióloga em sua obra. Carson denunciava na década de 1960 problemas que até hoje são vistos na sociedade global em questões ambientais, como quando acusava a indústria química de espalhar intencionalmente a desinformação sobre os usos e efeitos dos pesticidas na agricultura e a cooptação do estado, já que seus agentes e funcionários aceitavam as alegações da indústria de forma acrítica.

Ainda na década de 1960, Primavera Silenciosa marcou a agenda política estadunidense, fomentando um debate nacional sobre a utilização excessiva de pesticidas como o DDT, possibilitando tomadas de decisão mais bem informadas por parte dos cidadãos. A obra contribuiu para a mobilização da sociedade civil e serviu de base para o chamado movimento ambientalista. O livro condicionaria mudanças históricas na esfera política e industrial. Em 1972, uma década após a obra ter sido lançada, o DDT seria banido nos Estados Unidos. Primavera Silenciosa também influenciou mudanças legislativas em prol da proteção ambiental nos Estados Unidos e no mundo.

A obra foi uma das primeiras – ou mesmo a primeira – a popularizar a ideia do efeito poderoso e, por vezes negativo, da ação humana no mundo natural. Ideia essa bastante difundida nos dias de hoje, ainda que os resultados práticos dessa ideia para mitigação dos danos ambientais sejam tímidos quando comparados ao tamanho dos riscos e desafios. O livro dava início a um modo de interpretar a questão ambiental que perdura até hoje, que pensa o planeta como um organismo relativamente frágil, cujos recursos são limitados. Uma nave-mãe que precisa de cuidados por parte de seus tripulantes.

Para Sverker Sörlin (2008), de forma simplificada, Primavera Silenciosa se junta a outros marcos para compor essa narrativa de consciência ambiental ao longo da segunda metade do século 20, como a popularização da imagem do planeta Terra visto do espaço, primeiramente na marcante transmissão da Apollo 8, no Natal de 1968, e depois popularizada na TV pelo trabalho do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, principalmente na década de 1980. Segundo Sörlin, essa narrativa solidificou importantes iniciativas de políticas públicas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Mais do que tudo isso, o livro Primavera Silenciosa se tornaria um ponto de virada na história da ciência. Para o historiador, professor da Unicamp e autor do livro Capitalismo e Colapso Ambiental (editora Unicamp), da revolução científica do século 17 até meados do século 20, a ciência teve posição de destaque, destronando discursos como o religioso e o artístico. Isso porque ela foi capaz de oferecer às sociedades ocidentais em expansão a energia, a mobilidade, os bens em geral, a capacidade de sobrevivência e a segurança que elas precisavam. Os benefícios da ciência eram claros e confirmavam uma promessa de crescimento ilimitado. 

Mas a partir de 1962, com Primavera Silenciosa, Rachel Carson pela primeira vez exporia ao mundo, de forma contundente, o lado sombrio das conquistas da ciência: agrotóxicos como o DDT aumentavam, de fato, a produtividade agrícola, mas ao preço de enormes danos à saúde e à biodiversidade. A partir daí, a ciência começa a mudar seu discurso. Ela passa a anunciar que havíamos saído da idade das promessas e entrado na idade das escolhas, para tentarmos evitar a idade das consequências, na qual os prejuízos para a humanidade podem ser irreversíveis. De condutora da humanidade à terra prometida do progresso ilimitado, a ciência se torna, aos poucos, sinal de alerta sobre o potencial destrutivo de uma expansão sem limites do modelo de sociedade capitalista.

Com a chegada do século 21, a ciência deixa claro algo que não estava posto no auge do Iluminismo, no século 18: a ideia de desenvolvimento econômico ilimitado esbarra na finitude dos recursos naturais. Portanto, não é possível a acumulação infinita de riquezas. Não é possível domesticar a natureza como o Iluminismo supôs. Essa nova racionalidade científica, preocupada com a sustentabilidade e com os riscos ambientais, obviamente desagradaria a uma elite econômica que sempre se beneficiou do processo predatório de acumulação de riquezas, assim como também desagradaria a todos aqueles que se enxergam como emergentes, logo, também candidatos a novos membros dessa elite econômica, sejam esses emergentes nações, grupos econômicos ou pessoas.

Marques destaca a convergência entre o negacionismo ambiental e a extrema direita emergente no mundo: diante do esgotamento dos recursos naturais e da evidente insustentabilidade do modelo econômico capitalista conforme conhecemos, a extrema direita parece dobrar a aposta no capitalismo predatório, e o negacionismo científico é uma de suas principais armas para isso.

Para Jason Hickel, em seu livro “Less is more” (2020), a atual controvérsia política e o negacionismo em torno da crise climática evidencia que a civilização não se organizou em torno da ciência como prega a narrativa iluminista, mas sim em torno do capital. A ciência é adotada quando está a serviço dos interesses do capital, sendo frequentemente ignorada quando não está. Primavera Silenciosa é o primeiro e um dos mais proeminentes exemplos desse modus operandi de uso conveniente da ciência. Com o sucesso da obra, empresas químicas responsáveis pelos pesticidas organizaram uma campanha contra Rachel Carson, rotulando o conteúdo do livro como um tipo de histeria sem rigor científico. Recomendamos o documentário American Experience: Rachel Carson (2017) para quem quiser saber mais sobre esse embate público e também sobre a vida da bióloga.

Mas o tempo mostraria quem tinha razão: Carson sairia vitoriosa, e Primavera Silenciosa deixaria um importante legado para o mundo e a ciência. Com o tempo, as verdades se acumulam e fica cada vez mais difícil negá-las. A questão é se desta vez teremos tempo suficiente para evitar consequências irreversíveis.       


Referências:

HICKEL, J. Less is more: how degrowth will save the world. Londres: William Heinemann, 2020.

MARQUES, Luiz. Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita. Folha de S. Paulo. 06 jan 2019. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/01/negacao-da-ciencia-ganha-forca-em-nacionalismo-que-une-esquerda-e-direita.shtml#:~:text=Contesta%C3%A7%C3%A3o%20do%20aquecimento%20global%20mostra,com%20avan%C3%A7o%20cient%C3%ADfico%2C%20diz%20pesquisador&text=%5BRESUMO%5D%20Nega%C3%A7%C3%A3o%20de%20consensos%20cient%C3%ADficos,direita%20se%20confundem%2C%20escreve%20pesquisador. >.

SÖRLIN, Sverker. Narratives and counter-narratives of climate change: North Atlantic glaciology and meteorology, c.1930–1955. Journal of Historical Geography 35, 2009. Disponível em < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305748808001072  > Acesso em 4 jul 2017.